MAR DE FORA

E tudo está no cântico primeiro

Notas sobre as VI jornadas galaico-portuguesas de Pitões das Júnias (13-14 de maio de 2017)



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Há dous motivos de conversa que me avisam de que estou entre galegos: os marcos e as genealogias. Se faço memória pessoal, reconheço que uma das aprendizagens mais difíceis da minha vida, já longe da Galiza, foi habituar-me a que dizer “sou neta de Carme a cotovia” ou “criei-me na Agra do Orçám” não tivesse qualquer significado para as pessoas à minha volta. A aprendizagem deu-me consciência de até que ponto cresci com o conceito natural de que aquilo que modernamente se chama identidade não era só cousa minha, que sou um nó tenso de memórias que vêm de longe, que família e território fazem parte de quem eu venho sendo. Nas jornadas galaico-portuguesas de Pitões das Júnias, em terras do Barrroso transmontano, que organizam o blogue Desperta do teu sono, a Academia Galega da Língua Portuguesa e a Junta de freguesia de Pitões das Júnias, dedicadas aos estudos célticos a norte e sul da raia, aprendi a fundura da palavra continuidade, palavra que me é dada como conceito central de um paradigma historiográfico e que eu recebo como imagem da própria memória nas cousas e nas pessoas a refazer-se em séculos e em eras, variação desse vir sendo que nos cria, bem longe dos paradigmas historicistas das mudanças de era marcadas pela transmissão do poder de um império para o outro, o que na literatura medieval é o tópico da translatio imperii. Formada como fui na universidade galega dos 90, aprendi o preconceito academicista contra o celtismo na Galiza. Acontece é que os fenómenos são teimosos na recriação do que é porque vem sendo. O fenómeno que me alertou para o sentido da via celta da cultura galega foi a leitura do conto “The dead” de James Joyce. O conto falou-me por dentro, falou-me do trânsito contínuo entre o aquém e o além, da profunda comunidade nos destinos de vivos e mortos, motivos que eu tenho por veias profundas da cultura galega. Mas para explicar tal afinidade eu não tinha se não vias académicas heterodoxas.

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A leitura que eu faço do paradigma celtista para a narração ou recriação da história cultural e social dos galegos é a de um modelo radicalmente anti-imperialista. Podemos dizer que falamos de origens. Estamos é falando da imagem que temos de nós como mulheres e homens nas relações que nos fazem e fazemos, outro ângulo para contar a comunidade cultural que não passa pela mediação de um império. Estamos fazendo o exercício de questionar a lógica da invasão, que precisa não só de técnica, mas de argumentos legitimadores, como os axiomas do progresso e do homem novo, do marco emocional da carência e a necessidade do tributo que justifica a predação, o domínio e a máquina, quando a vida é, de facto, de graça. É o moral da história o que me interessa no celtismo na Galiza, o princípio de não haver mundos novos e velhos, nem homens primitivos e civilizados, apenas homens em diferente relação com o poder, a natureza e a memória. É iluminar a minha genealogia verdadeira, seguir a lanterna dos devanceiros nas margens do grande oceano. O resto é memória de papel.

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Mais um ano as jornadas convidaram-nos a vivenciar e refletir sobre a vida em comum, sobre paradigmas, narrativas, linguagens, realidade e necessidade, sobre moral, sentidos e destinos, sobre a beleza e a comunicação. A palestra da historiadora da arte Íria Friné-Rivera, “Celtismo: o amanhecer da estética galega moderna”, surpreendeu-nos pela consistência na demonstração da sua argumentação do celtismo como estruturante da nascente tradição artística galega. Íria ilustrou-nos, por um lado, sobre o pensamento estético de Vicente Risco e o seu foco no celtismo, e, por outro, sobre a consolidação da linguagem simbólica construída com motivos celtas de Camilo Díaz Balinho, que teve continuidade nos escultores Uxio Souto e Francisco Asorei, no pintor Urbano Lugris e, mais recentemente, no conjunto escultórico criado por Isaac Díaz Pardo à volta da Torre de Hércules e mesmo no filme De profundis de Miguelanxo Prado. A palestra de Joám Evans Pim, “Ogham: apontamentos sobre uma escrita galega”, desafiou o nosso conceito de escrita como transliteração e abriu-o a outra conceitualização, a marca da memória que permite reconstruir uma narrativa. Esse conceito abrange outros registos, como as placas de xisto do sudoeste ibérico, memória de linhagens, as marcas dos marinheiros da Guarda, as informações genealógicas do Ogham, as marcas dos torques ou as marcas em capelas e casas. O mais interessante é, por um lado, que são escritas feitas no território, e, por outro, que relativizam o paradigma da rutura histórica trazida pela emergência da escrita, paradigma criado no contexto da ideologia do evolucionismo social que suporta o colonialismo, que nega a consciência histórica dos povos indígenas. Todas estas escritas são manifestação da consciência de historicidade dos povos que as criaram. A palestra de Joaquim Pinto, “Ética espiritual céltica: valores intemporais para tempos atuais”, deixou-nos a reflexão sobre o sentido da história, sobre os princípios que não são nossos, sobre a noção de reciprocidade e os valores insubornáveis, e, sobretudo, a imagem da tradição comunitária da lareira à volta da que se contam histórias e se criam cumplicidades, hoje substituída pela centralidade da televisão, também contadora de histórias, nas salas das nossas casas. Tudo é feito para não precisarmos do outro. E é assim, nesse isolamento na relação pessoal, que o indivíduo é fragmentado e vencido.

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Da mesa redonda sobre a utilidade do celtismo com que acabou o primeiro dia da jornada, tiramos a ideia de Joám Evans de que o celtismo fez parte na ideologia do galeguismo dos anos 20 do esforço de situar a sociedade galega no mundo, conectando-a com dous universos, o mundo de língua portuguesa e o mundo atlântico, espaços dos que foi excluída nos séculos anteriores numa rutura com a continuidade das relações entre a Galiza e os povos do Atlântico desde os alvores das nossas comunidades. Por outro lado, Joám ligou a reflexão sobre o celtismo ao problema da atual desertificação nos nossos territórios, no contexto da batalha entre o modelo da urbs e o modelo da civilização rural tradicional. Continuamos no estigma da civilização rural ou na continuação da resistência como indígenas da Europa. Joaquim Pinto ligou o celtismo ao problema das identidades impostas aos povos do espaço europeu e alertou-nos para o facto de a noção de herança não se praticar em Portugal. A sobrevivência económica das comunidades aflorou na conversa, e o recorrente debate sobre o turismo. E aqui a preocupação manifestada pela presidente da junta de freguesia de Pitões, Lúcia Jorge, de que o que dificulta passar a continuidade é nos vermos como algo que pode acabar no museu. Ou a preocupação do Joaquim Pinto, de que este cenário da turistificação da cultura nos faça entrar numa dinâmica de anacronismo.

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Já à noitinha, o concerto de harpa céltica e harpa bárdica de Francesco Benozzo trouxe-nos a paisagem lírica das culturas atlânticas e do norte da Península Itálica. Os motivos das cantigas são-nos familiares ainda tendo nascido em distantes terras. Os ciclos das estações e as colheitas, os ofícios, as moças e os cavaleiros, ilustram a imagem da poligénese da lírica chamada primitiva, o universalismo da tradição oral, a lírica como língua materna da humanidade como alguém já a definiu. No segundo dia das jornadas, o passeio pela terra, a visita à aldeia desabitada de Juris e ao carvalhal de Porto da Laja, com o monte em flor dos maios, as gestas, as carqueijas, as queiroas, a fartura de água, o musgo na pedra, os carvalhos com folhinhas frescas, o cuco a cucar, as marcas do carro na pedra… E, já de volta para o jantar, o pão de centeio na mesa, a conversa entre todos nós, os assíduos das jornadas e os que vieram pela primeira vez.

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Há tempos li num ensaio sobre as utopias do Renascimento a afirmação de que a cosmovisão moderna emerge com a divisão primordial do mundo num aquém e num além da ordem no espaço planetário. Nessas dualidades andamos no discurso público que nos pensa como cidadãos, abstratos, desterritorializados. Imagino o aquém e o além da margem oceânica e o espaço dos santuários da beira-mar. Acode-me ao pensamento o brasão da sereia de Daniel Castelao. Sereias são origens de linhagens e homens marinhos como os que, segundo contava a tradição oral oculta desde os alvores da Ilustração, renovaram durante séculos a fio a ligação genética, e a lealdade, dos corunheses ao oceano. A genealogia que sonho tem o marco da avenida atlântica, espaço de caminhos, narrativas e trânsitos, espaço para aprender a linguagem e os sentidos das metáforas, e também o moral de um mundo ligado pelo mar num continente estruturado pela lógica continentalista ao que o centralismo do governo assente em Lisboa não foge. Acabo esta crónica no Barlavento do Algarve, não muito longe de Sagres. Daqui vê-se o Atlântico como uma rede de cais. Há narrativas nos museus com as marcas do império e a escravatura, há a grande rosa dos ventos no jardim de pedra da fortaleza de Sagres, há os corvos, a lenda de São Vicente, o nascimento das cordilheiras do sul da Europa na praia do Telheiro, há o vento e o sol. E tudo acontece ao mesmo tempo com todos os seus sentidos como espalhados pelo vento. Caminho pela praia contando as ondas. Em qualquer margem em que apanho conchas sei que estou a seguir os passos da minha avó e a natureza marinha dos meus ossos. O aquém e o além são uma realidade física e narrativa e um desafio moral sobre as nossas relações. Imaginemos o moral da história como um nó da rede. E é daqui de Sagres, na lembrança das jornadas de Pitões, que desejo como sentido desta história que vimos sendo a bela profecia que Castelao pôs em palavras no seu Sempre em Galiza: “que os povos não voltarão a ser escravos dos povos nem propriedade particular dos príncipes”.

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Maria Dovigo

Maria Dovigo

Nasci na Crunha em 1972 e vivo desde 2000 em Portugal. A minha formação é a Filologia, exerço a docência e sou poeta por vocação. No labor criativo ligo a minha vontade de intervenção cívica com a convicção de que a criação é a verdadeira natureza do ser humano. Colaboro com diferentes associações do espaço lusófono, tecendo redes de afetos e projetos à volta da vivência da língua portuguesa. Sou académica de número da Academia Galega da Língua Portuguesa.
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  • abanhos

    Que delícia, como se apreende e se faz correr vida pelas nossas veias quando lemos esta nossa apreijadora das essências verdadeiras, com que gosto, gosto