QUOD NIHIL SCITUR

O triunfo do Capitão Hook



            This talk with you arises out of a sort of challenge from the Provost. I was here this year on June 4, and in a speech at luncheon the Provost challenged me to disprove this terrible indictment, “James Hook, the pirate captain, was a great Etonian but not a good one.” Now in my opinion Hook was a good Etonian though not a great one, and it is my more or less passionate desire to persuade you of this—to have Hook, so to speak, set up for good—that brings me here this afternoon in spite of my better judgment. ‘Captain Hook at Eton: A Strange Story’, J. M. Barrie

É poderosa a imagem e mais elucidativa a dicotomia que estabelece J. M. Barrie na sua famosa e celebrada palestra* em Eton sobre o ainda mais famoso e perverso pirata da sua invenção.

Em julho de 1927, o sucedido autor e milionário foi dar uma leitura no salão do elitista College, a convite do Provost, para explicar a caracterização do capitão como membro da prestigiosa comunidade etoniana.

A palestra, concebida como um repórter de pesquisa académica é uma obra mestra da paródia de géneros, e também uma dissecção dos costumes da elite académica (e social) britânica. Nesse sentido prolonga e explica boa parte da descrição e do característico estilo oratório que exibe o capitão, cujo poder e imagem estão não pouco sustentes na sua oratória, discurso, modais e presença.

Poucas personagens mais interessantes que a do capitão, personagem que ganha com os anos e conforme aprofundamos na sua complexa história e pessoalidade para além da “máscara”.

Contramestre do Barba Negra, o único homem a quem Barbacue alguma vez temeu, Hook, oculta um nome e algum segredo de família “que, se viesse a descobrir-se, faria arder os alicerces da boa sociedade britânica”.

Pálido, cadavérico e sombrio, de pretos caracóis longos, com olhos azuis melancólicos capazes passar a vermelhos na ira, Hook é um homem elegante, atormentado pelo gancho na sua mão decepada pelo Peter Pan e preocupado com sua imagem, que completa com um casacão à moda do tempo de Charles II, insinuando talvez  alguma vinculação com os malfadados Stuarts.

Sugere-se na obra que o destemido e retorto capitão da “Jolly Roger” foi aluno do Eton College, o que se confirma plenamente no discurso de Barrie. E não ao acaso. Os modos e maneiras do pirata sugestionam poderosamente na procura desse efeito: o seu background de gentleman aparece não apenas na sua indumentária quanto na sua obsessão pelas “boas maneiras”, mesmo quando faz o mal.

Ainda que não fique claro completamente (como no resto da obra de Barrie) até onde chega a ironia amável e interna e até onde a profundidade de uma crítica mais subversiva. Pois, se podemos deduzir que perfeitamente um gentleman pode devir pirata, ou que um pirata pode ser um gentleman, ou que ao mesmo tempo pode-se ser um gentleman e um pirata talvez seja que de uma cousa talvez possa-se passar a outra até com naturalidade. Sempre, isso sim, manifestando a “natural” presença de “leader” e as “boas formas” cultivadas em Eton.

Hook representa o tipo insensível, sang-froid, flegmático, maquiavélico, falto de escrúpulos (mesmo afetivos e sentimentais) e sanguinário que apenas teme a visão do seu próprio – e estranho – sangue, qualidades que a dizer de Barrie fazem dele um magnífico pirata e uma personagem “não totalmente não-heróica”.

Excepcionalmente distante, complexo de carácter, ao mesmo tempo vilão e cavaleiro, nunca resulta mais sinistro que quando mais cortês se dirige ao auditório. A um auditório para o que sempre – por riba dos outros personagens a quem replica ou fala – está a falar.

Meticuloso em extremo, os discursos do capitão, parecem ensaiados uma e outra vez, nomeadamente aquele de despedida “sempre presente e por se acaso não havia tempo quando chegar o dia” que tanto impressionara o mesmíssimo Robert Baden-Powell.

 

Pensei imediatamente no Hook de Barrie quando entrada já a noite do dia 25 vi a Núñez Feijóo comparecer ante as mais que expetantes e um pouco desconcertadas câmaras das TVs para dar o seu discurso como flamante vencedor das eleições.

O discurso de Feijóo é um encerramento perfeito a uma campanha meticulosamente orquestrada, mas revela também certa evolução da personagem. Evolução da imagem e evolução da narrativa da sua liderança e da do Partido na Galiza, nestes últimos 10 anos.

Como um bom ator, o candidato soube fazer esperar as câmaras, numa medida encenação que lhe permitiu incrementar a expetativa e ao mesmo tempo liberar os objetivos de todos os discursos que na Galiza, Madrid e Euzkadi ocupavam no salto e sobressalto do direito os ecrãs após se conhecerem os resultados.

Finalmente, dono do tempo, mestre da imagem compareceu. Dubitativo, humilde, humano, em vez de gancho toqueteando expressivamente os óculos, pronunciou um longo discurso que na parte inicial ou de “graças, graças e mais graças” (sic, que o PP é lusista) gizou um completo esquema (os estudiosos do poder político e os inimigos do PP deviam arquivar) da estrutura piramidal do partido: das bases do poder local até as cabeças provinciais, em último termo e destaque o grande chieftain Baltar, passando pela administração, a sua equipa e o aparato do partido.

Esta parte terminou com um interessante ato de submissão céltica ao líder: o presidente  Rajoy, mais um outro galego e que serviu como introdução a um discurso sobre a galeguidade do PP, da fundação providencial de Manuel Fraga e da importância dos galegos no PP, e na Espanha. E também como não da importância passada, presente e futura dos próprios galegos no PP ou na Espanha .

Esta parte do discurso não carece também de interesse, por muito que aí os mais dos média espanhóis desligaram entre rostos de estuporamento dos tertulianos. Pois aí nesse fragmento reapareceu, pleno o discurso do feito diferencial galego dos tempos do PP mais regionalista com referências à narrativa épica da Galiza, terra única e leal, salvadora e baluarte da Espanha sempre aí para os maus momentos. Até chorou o público militante presente.

Após a épica, houve uma re-humanização, que em lembrando ao pai defunto, fez quase virem as bágoas aos olhos, mas superado este momento, de qualquer jeito e aproveitando a análise e o seu papel como servidor de imagem humildíssima reafirmou a identificação entre o Partido e a estrutura da sociedade galega, correlato da identificação entre ele e a Galiza e da Espanha com a Galiza.

Logo disso, como num aparte “improvissado”, houve um chamado “em Castelhano” às tvs e média espanhóis, que aí estavam atentas e ele descobriu entre o público, para que mirassem mais para essa Galiza, essa “terrinha” e gente que mais uma vez humilde, dava exemplo de lealdade, seriedade, estabilidade… enfim exemplar no seu “sentidinho”.

E finalizar, finalizou como não podia ser doutro jeito num humilde servidor da Galiza, que a cousa estava difícil e soube fazer, rodeado de fãs e de fotos.

 

Enfim, eu também não estou certo de que Feijó seja um grande galego mas não um dos bons, ou se, ao contrário, é um dos bons sem ser dos grandes; ora, posso imaginá-lo perfeitamente de casaca vermelha e com todas as qualidades que são necessárias na ponte de um grande navio pirata a dar um discurso.

 

 

* NOTA:

O texto de Barrie foi publicado pela primeira vez nas páginas de The Times (July 8, 1927), aparece recolhido em M’CONNACHIE AND J.M.B. Speeches. With a Preface by Hugh Walpole .- London: Peter Davies, 1938. O texto completo, muito referenciado e comentado, pode-se ler, por exemplo,  aqui.

 

 

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza (Corunha, 1970). Formado como filólogo, especializou-se e publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. Colabora também no Novas da Galiza, é sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa. Trabalha, como bibliotecário na Universidade de Valhadolid (Espanha).

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  • abanhos

    Excelente, adorei o magnífico texto, que nos ajuda a entender o como é que somos na Galiza e como é que o PP ganha.

    Feijó é um oportunista do poder, servidor dos amos e do seu projeto de castela/espanha (que como bom neocompostelanista age para que isso seja algo que “temos” que governar os galegos), é trabalhador e inteligente, pode tanto vender e desfazer o país polo seu pessoal e adocicado mingau, como ser o primeiro a defender a independência se ela se produzir, mas ele em qualquer caso vai querer estar na pomada.
    Para o bom e para o mau é filho desta nossa Terra, e da sua particular história clínica.

    • Manuel Meixide Fernandes

      Adorei o texto. Um texto magnífico num estilo brilhante. Porém, não sou pessimista apesar da vitória do PP. Na minha opinião, a derrota não é votar no PP, a derrota é o fato de votar em alguém. Acho que os Galegos, afeitos à dura autossuficiência, não nascemos pra votar, nascemos para ser livres. Seguimos a votar por causa da nossa falta de autoestima. Quando a autoestima medrar e com ela a identidade própria, a dependência das urnas e da Espanha há-de desaparecer e então seremos apenas Galegos, prontos para o autogoverno. Obviamente, o apelo a sermos Galegos é para todos, para o senhor Feijoó e para todo o PP da Galiza, politicalhos, militantes e votantes.

      Grande aperta

  • Manuel Meixide Fernandes

    Só queria aclarar que o meu comentário não é uma resposta ao comentário do Alexandre Banhos, é só mais um comentário. Sem me dar conta cliquei na palavra responder.

    Aperta

  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Ainda bem que não assisti ao evento. É melhor que cho contem. 😉