Tore Janson : “Aqueles que exercem o poder numa sociedade geralmente tendem a favorecer a sua forma de uso da língua e a olhar para outras formas como secundárias ou indesejáveis”.



O último livro da Através, da coleção Através da Língua, já está disponível na rede de livrarias galega e portuguesa. O PGL conversou com o autor, o professor sueco Tore Janson, sobre A História das Línguas.

Tore Janson

Janson foi professor de latim na Universidade de Gotemburgo, mais tarde tornou-se professor de línguas africanas. É afiliado ao Departamento de Linguística da Universidade de Estocolmo. Um dos seus grandes focos de investigação é a maneira como as línguas mudam e as relações entre a língua e a sociedade. De facto, é autor dos super-vendas Speak: A Short History of Languages e A Natural History of Latin.

 

A História das Línguas, apesar da sua abrangência, ou talvez por isso, não é um livro para eruditos mas para pessoas com curiosidade. Como foi o processo de criação?

A primeira versão deste livro foi escrita em sueco e publicada há mais de 20 anos. A ideia era justamente fornecer às pessoas em geral nutrientes para pensarem sobre as línguas, sobre a sua natureza, o seu desenvolvimento e a sua relação com as sociedades e o poder político. O livro foi bem recebido na Suécia e editores doutros países interessaram-se. Eu escrevi uma versão em inglês muito revisada em 2003, e revisei essa completamente alguns anos atrás. Existem agora versões em 9 ou 10 idiomas; duas edições recentes são a turca e a coreana.

O foco do seu livro é o papel das línguas na história e as relações entre as línguas e as sociedades humanas. A língua, como a nação, está muito ligada às identidades e à emotividade. É possível falarmos de línguas com emoção e, ao mesmo tempo, com equidade?

Na minha opinião, não é apenas possível, como necessário. Questões relativas ao uso da língua são profundamente emocionais; os laços com a família e os amigos estão envolvidos. Ao mesmo tempo, muitas questões de uso da língua são inevitavelmente políticas e precisam ser resolvidas por meio de decisões políticas, que devem ser baseadas na equidade.

Uma das ideias-força do livro é que não há critérios estritamente linguísticos para delimitar se duas variedades próximas são línguas diferentes ou fazem parte da mesma língua. Tore Janson coloca sobre os falantes a responsabilidade da identidade. Ora, nem sempre existem unanimidades entre os falantes e, ao mesmo tempo, as elites sempre têm mais poder na hora de marcar identidades que o cidadão comum, não é?

“Nenhum critério linguístico” não é bem verdade. O que afirmo é que o único crítico linguístico importante é a inteligibilidade mútua, se as pessoas se entendem e que, em muitos casos, as opiniões dos falantes sobre se duas variantes são línguas ou dialetos não se baseiam nesse critério. Grupos diferentes de falantes também podem ter visões divergentes. Aqueles que exercem o poder numa sociedade geralmente tendem a favorecer a sua forma de uso da língua e a olhar para outras formas como secundárias ou indesejáveis.

Existem línguas com vários centros padronizadores, ditas policêntricas, caso do português, o inglês ou o castelhano. Por vezes, uma destas variedades pode constituir uma nova língua, caso do africâner no primeiro quartel do século XX. Os tempos da globalização estão a ajudar a manter esta coesão pluricêntrica? Ou facilitarão novas cisões?

A globalização tende a diminuir as diferenças entre padrões escritos que são próximos uns dos outros. Em inglês, há tendências claras em direção a uma norma “atlântica” comum em certas áreas de uso. Uma das forças que o impulsionam é o grande número de usuários não nativos do inglês escrito: não estamos muito ligados emocionalmente a nenhum dos padrões. Mas a globalização não é a única tendência importante para o que vai acontecer.

A história do inglês mostra uma grande reviravolta. Quando se estava a construir um formatoliterário, advém a invasão normanda (1066) e passa a ser apenas língua oral e das classes baixas, até que, ao calor da Guerra das Cem Anos, acaba por deslocar o francês dos espaços que ocupava. Ora, tais reviravoltas são ainda possíveis no século XXI?

Claro que são; a história não é previsível. O que aconteceu na Inglaterra foi causado por uma interação complexa entre mudanças políticas e sociais. O francês deixou de ser a língua ou a classe dominante. Algo similar poderia ser imaginado em vários estados modernos. A ascensão do hindi na Índia pode ser o começo de tal desenvolvimento.

O norueguês apresenta uma singularidade, é uma língua com dois padrões oficiais, ambos presentes no sistema educativo ou no Parlamento. Dois padrões e uma única língua, como pode ser isto possível?

A situação surgiu de dois esforços paralelos no século XIX para criar um padrão escrito para as formas de fala na Noruega, onde o padrão escrito do dinamarquês tinha sido usado durante séculos. A razão pela qual ambos sobrevivem é que a unidade nacional tem sido uma preocupação mais importante do que o desejo de criar um padrão escrito unificado.

No século XX podíamos intuir que, no mínimo na Europa, uma língua sem estado iria a ser substituída, com maior ou menos celeridade, por uma língua estatal. No s. XXI, que espaço existe para as línguas sem estado? É o estado mesmo uma garantia de que as línguas que gozam da sua “áurea” poderão transmitir-se entre as sucessivas gerações?

Na Europa e em muitas outras partes do mundo, os estados com uma língua dominante tornaram-se cada vez mais frequentes nos últimos dois séculos. Mas isso pode acontecer de várias maneiras. As línguas minoritárias podem ser suprimidas e / ou eliminadas, como na França e em muitos outros países. Mas os estados também podem ser divididos em entidades linguisticamente mais homogéneas, como quando a Checoslováquia se dividiu em dois entes. Os estados nunca oferecem garantias de transmissão para as sucessivas gerações.

No último capítulo do livro, o autor especula sobre as fotografias linguísticas no futuro. A maioria das pessoas, se tivessem de especular ao respeito, apostariam no inglês como uma língua conhecida por todas as pessoas, quer como língua materna, quer como segunda língua. Parece que é o senso comum… ora, o futuro transpareces assim tão nítido?

De uma perspetiva europeia, isso pode parecer muito provável. No entanto, o mundo continua a mudar. Atualmente, a China e a língua chinesa estão-se a tornar muito importantes internacionalmente. Num futuro não tão distante, chineses e ingleses podem competir a sério. Enquanto o mundo continuar a ter muita comunicação internacional, haverá necessidade de uma ou algumas línguas utilizáveis internacionalmente. Mas se o Inglês se vai tornar a segunda língua de todos é bastante incerto.

 

O Livro:

A História das Línguas. Uma introdução

18,00 IVA incluído

ID do produto: 5400 REF: 978-84-16545-21-6 Categoria:

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim

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