Tiago Alves Costa na EOI da Corunha – Crónica de João Guisan



mecanismo-de-emergencia-3Em 4 de abril, o Tiago Alves Costa começou uma turné de conversas sobre o Mecanismo de Emergência polas escolas de idiomas da Galiza.

A primeira paragem foi a EOI da Corunha e pedimos ao João Guisan, professor na EOI, uma pequena crónica do acontecido. Vai junto com vários fotos do ato.

Eis as datas e os lugares da turné:

– 4 de abril na EOI da Corunha
– 24 de abril na EOI de Vila Garcia
– 26 de abril na EOI de Vigo
– 9 de maio na EOI de Ponte Vedra.

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Na Escola de Idiomas da Corunha teve lugar, o dia 4 de Abril, o lançamento do livro “Mecanismo de Emergência” do escritor português, residente na Corunha, Tiago Alves Costa. Dizemos “escritor” em vez de “poeta” porque ele próprio declarou no acto que “vestia mal as roupas de poeta”. E dizemos “residente na Corunha” porque ele assegurou, na sua intervenção, levar 8 anos a viver nesta cidade, apesar de não apresentar certidão alguma, informe policial ou registo do cadastro, mas é privilégio do escritor ser-se acreditado apenas por ele o ter dito. tiago-alves-e-publico

No correr do acto Tiago Alves leu um poema que dedicou ao café Delícias (o último dos cafés cafés da Corunha Corunha)  e podem crer que foi a primeira vez que reparei que o nome desse café calhava ser o mesmo que o do Jardim que pintou Hieronymus Bosch? Era como se tivesse ouvido esse nome pela primeira vez. E compreendi que a Corunha pronunciada em português podia ter ainda mais vento. Sobretudo pelo bairro das sibilantes. Como recém baptizado (com esse baptismo herético, escuro e quente do café derramado nos cafés) nunca o nome do Delícias soou mais a delícias. Nem sequer mais a café. Porque os velhos cafés, como os garrafões verdes, as casas de azulejo e as cores deslavadas, são todos um pouco portugueses, e deveriam ter a imunidade diplomática própria das embaixadas, incluído direito de asilo às almas fugidias.

img_20170404_193623Também recitou um poema em que comparava o lançamento de um livro com o  lançamento de peso, pretendendo atribuir-se o recorde mundial com 2,90 metros. Na verdade ele conseguiu atingir pessoas do público que se encontravam bem além dessa distância. E outras que se encontravam bem mais perto. Por isso a atribuição do recorde continua dúbia.  Mas há outros feitos desportivos do Tiago Alves que ninguém pode negar. Apresentou um vídeo do poema que dá título ao livro, da autoria do realizador corunhês Roi Fernández, em que ele bate, aparentemente sem esforço, um incrível “recorde inverso”: o do corredor que demora mais tempo a passar a correr a ponte internacional de Tui, a velha ponte de ferro que algum dia, no tempo das alfândegas, os mais velhos demorávamos tanto a atravessar. Mas nós demorávamos a atravessar em carros mormente parados em longas filas. O Tiago Alves, no vídeo, demora muito mais do que nós costumávamos, mas sem nunca deixar de correr. Vemo-lo a correr de dia e vemo-lo a correr à noite, sem nunca conseguir atingir a outra margem. É assim que se atravessam as pontes internacionais quando viram entranhacionais: sem nunca conseguir sair da própria terra, sem nunca conseguir chegar a terra alheia. Foi esse o périplo de um escritor português que há oito anos viajou dos Estados Unidos para uma longínqua cidade espanhola e acabou por encontrar as raízes da sua própria língua. Foi de tudo isto que se falou ao longo de  uma hora e meia de poesia, conversa e risos. Do Tiago não se pode dizer o que dizia Fernando Pessoa da Coca-Cola: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. O Tiago primeiro entranha-se e depois entranha-se, e depois entranha-se mais uma vez… e só depois de entranhar-se muito tempo, a gente começa a estranhar-se de entranhá-lo tanto assim. tiago-alves-02

O mais curioso da circunstância pessoal de Tiago Alves Costa (um poeta português a viver na Corunha) é precisamente que essa circunstância pessoal resulte curiosa. Tiago Alves fala com amor da Corunha, coisa rara na maior parte dos galegos, e mesmo nos mais dos corunheses. Tiago Alves ama a Corunha com olhos novos e língua antiga. A mesma língua que já se falava na Corunha muito antes de ser-se ouvida em Lisboa.

tiago-alves-publicoA destacar, entre o público, a presença do poeta corunhês Mário Herrero Valero, prémio de poesia Glória de Sant’Anna há dois anos em Portugal. Um poeta corunhês em língua portuguesa e um poeta português em língua corunhesa. Os dois lados de uma ponte por que não queremos nunca deixar de transitar. Para do dos patriotas, o mais fascinante dos países são as fronteiras, igual resulta mais fascinante a pele das pessoas do que o fígado.

O  Tiago Alves tinha um nome perfeito para vir a ser algum dia um jogador de futebol mais do que razoável, mas – estão a ver?- preferiu renunciar aos louros do relvado de Riazor aos domingos, pela glória quotidiana de ser um corunhês apenas a circular de bicicleta pelas ruas e ventos (que são sinónimos perfeitos no caso da Corunha, cujas ruas são perpendiculares, em vez de todas paralelas, apenas para que todos os ventos, sem importar  o rumo, possam atravessá-la de lés a lés sem perder força) da cidade. Um simples português corunhês, mal vestido de poeta.


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  • http://pgl.gal Valentim R. Fagim

    Uma linda crónica do Guisan de um grande escritor como Tiago.

    • Galego da área mindoniense

      Concordo. Nom há mais que adir. Já está todo dito.

  • abanhos

    Que bom
    E que lindo é termos ao João Guisan por aqui.
    Abraço caro, que nunca nos falte a tua companhia e os teus textos maraaaavilhaaaaaáaa