ALDEIAS DE ORDES

Tabernas que nom faltem!



“Todo homem passou noites com amigos fascinantes

em torno a umha boa mesa, quando as

personalidades se abrem como flores tropicais. Cada

um era mais do que nunca um próprio, cada um era

umha deliciosa caricatura de si próprio. Quem tenha

conhecido tais noites entenderá Pickwick; os demais

nom se divertirám com ele nem, segundo creio,

tampouco com o céu”.

G.K. Chesterton

Mapa de Baiucas na comarca

Para além da Taberna de Abelhá, temos na comarca de Ordes a Baiuca de Senra, a de Papucim, e a Tieira da Baiuca de Cabrui. Segundo o professor J. L. Pensado, que encontrou 24 lugares com este topónimo de Baiuca, a geografia galega ocidental teria-se enchido desde meados do século XVI de Bayucas ou Baiucas polo retorno de emigrantes galegos das grandes urbes ibéricas. Igual que hoje as ruas galegas estám cheias de letreiros de bares com nomes das cidades de acolhida (“O Zúrich”, “O Lausanne”, “O Múnich”, etc.), negócios montados polos retornados com o ganhado na dura emigraçom.

A etimologia de Baiúca nom é menos interessante, pois fai evocar aquelas fundas alegres de cerveja desbordante e porcos bravos fumegantes em que descansavam Astérix e Obélix das suas aventuras: “baiúca” procede do germánico badu- ‘luita, peleja’, mais o sufixo –uc(c)a, e anhade Almeida Fernandes que “não só por fonética, mas por se tratar de locais em via romana ou cerca dela, com esse estabelecimento (taberna, estalagem) para gente de toda a casta e, daí, propício a desordens, lutas”.

A história social das tabernas revela-as, por umha parte, como lugares molestos para o poder, onde a gente podia sociabilizar longe da fiscalizaçom do crego ou do polícia; e por outra, como fontes da praga do alcoolismo que debilitava às classes trabalhadoras e que anarquistas, socialistas e comunistas combateram sem descanso até 1936.

As tabernas, que nesse tempo às vezes nom eram mais do que um carro colocado à saída da missa com uns pipos e umhas cuncas para beber no sítio, também foram umha expressom do comunal galego, pois em algumhas paróquias como Xavestre o dinheiro que se obtinha durante o século XVIII com ela usava-se comunalmente para fazer fronte às contribuiçons ao rei:

“que entre Alcabalas, Sisas, Servizo de Millóns, Utensilios e Servizos Ordinarios erguía 1.886 Rs. E 4 Mrs. dos que 348 sacába-os a Parroquia do disfrute común de 4 tabernsa poñendo o resto cada veciño según lle tocase”. (p. 48).

O historiador Pegerto Saavedra data o início dessa estratégia igualitarista no decorrer do século XVII[1], e dá umha viva descriçom daquela sociabilidade paroquial cujo eixo gravitava muito mais por volta da taberna do que da mesma igreja:

“Al lado de la iglesia se hallaba la taberna concejil en la que, finalizada la misa, los mozos y otros que no lo eran tanto cumplían gustosos con el precepto del descanso dominical y, cuando anochecía, las voces desacompasadas y los juramentos, palos y quimeras daban a entender que se habían puesto sicut equus et mulas quibus non est intellectus. El atrio parroquial servía también de lugar de juntas para tratar los más variados asuntos, religiosos y profanos, en concejos abiertos que se celebraban a la salida de la misa mayor; “co gallo da misa –escribe Otero Pedrayo- encóntranse os veciños sen ouxeto de algún de particular, mais co sentimento de se confiaren e fortaleceren como membros activos da parroquia, pousar na ruda e illada vida para [] de que son, que existen no mundo e na historia […]”[2].

Este deslocamento de igreja como lugar privilegiado de reuniom da paróquia ocasionou nom poucas fricçons. Para o caso inglês o historiador Colin Campbell fala da “rivalidade entre o pub e a igreja” (“pub” nom é outra cousa que a abreviatura de public house ‘casa pública’), e na Galiza nom faltam exemplos dessa luita, como a ordem do arcebispo de Santiago Francisco Blanco, quem já em 1576 ameaçava com que “los legos que estuvieren en las […] tabernas, entretanto se dixera la Misa mayor, o Sermón los Domingos, y dias de guardar: por cada vez, pague un medio real para la Yglesia”.

Valle-Inclán, em La cabeza del bautista, dava conta de cómo a taberna se fora configurando como um contra-poder à igreja e ao crego, capaz de abrir passo a novos usos sociais contrários à moral integrista. Nessa obra, o café-taberna de um inidiano, situada a carom de umha horta com limoeiros que dava ao eijido comunitário da aldeia, estava na realidade a desputar-lhe ao crego o monopólio do juízo moral da comunidade[3]. A mui aristocrata Emilia Pardo Bazán, por sua parte, refelictia em Los Pazos de Ulloa com indissimulado desdém classista sobre a configuraçom da taberna como umha sorte de espaço público popular: “En las tabernas de Cebre, el día de la feria, se oía hablar de libertad de cultos, de derechos individuales, de abolición de quintas, de federación, de plebiscito –pronunciación no garantizada, por supuesto-“[4].

Ao longo do século XIX as tabernas da comarca aparecem constantemente nos casos relacionados com o fenómeno do bandolerismo, quer com olugares de reuniom dos agabelados, quer como locais que sofriam os roubos dos mesmos[5]. José Peitado, taberneiro da Baiuca (nom está claro qual delas), colaborava com a gabela de Coelho, que realizou alguns roubos na primeira década do século XIX pola jurisdiçom de Messia. Quando em 1804 estes ladrons intentárom roubar em Xanceda sairam escaldados, pois o povo levantou-se contra eles e mesmo lhe deram morte a um deles[6].

María Martínez, a taberneira de Soutelo (Olas), filha de Tomás, foi colaboradora habitual da gabela de Messia dirigida por Pedro Lagares, encarregando-se de vender os materiais roubados em Betanços[7]. A gabela de Messia que dirigia Alonso Vilariño, que assaltara a casa de Pedro Pallas de Cerzeda em 1819, usaba habitualmente como lugar de reuniom a taberna de Barbeiros, na qual o 20 de março de 1816 foram arrestados quase todos os seus membros[8]. Sublinha López Morán o caráter anfíbio do taberneiro, com um pé no mundo campesino e outro fora dele, que lhe proporcionava umha posiçom social especial.

Com a chegada da II República e a espetacular vaga politizadora das classes populares que supujo, as tabernas tornaram-se o lugar predileto para a discussom política e a realizaçom de todo tipo de atos. Na taberna do Campeleiro de Messia, por exemplo, lembram os vizinhos que deram mitins pessoas como Antonio Gómez Carneiro[9].

Depois de 1936 a repressom franquista cebou-se novamente com algumhas tabernas, que consideravam lugares subversivos e de crítica ao novo poder estabelecido. Se ademais se suspeitava que nelas se abastecia a guerrilha, a Guarda Civil reagia com a máxima violência. Foi o que figêrom com Consuelo García Meijide, ‘Consuelo de Lata’, que nascera em Galegos e na altura regentava junto com o seu marido, Pedro García Barreiro, a taberna da Grabanja, em Calvente, quando em janeiro de 1948 os da “benemérita” a levárom, a torturárom selvagemente (sobretudo golpeando-a nos pés), e a deixárom morta junto a Ponte Arderis que atravessa o rio Samo, na cuneta da estrada que vai de Sigueiro a Calvente e Frades. O seu homem Pedro, como outros taberneiros da comarca, também foi preso acussado de colaborar com a resistência[10]. De aquelas relaçons da Guarda Civil com as tabernas fica essa sorte de “direito de pernada” simbólico, ainda praticado hoje, pola qual miutos cafés de balde tenhem tomado alguns membros dessa organizaçom armada.

[1] Pegerto Saavedra, La vida cotidiana en la Galicia del Antiguo Régimen, Barcelona, Crítica, 1994, p. 73. Veja-se também: Olga Gallego Domínguez, “Las tabernas ourensanas como monopolios y bienes del común en el antiguo régimen”, Boletin Auriense, tomo XXVI, Ourense, 1996, pp. 125-127.

[2] Pegerto Saavedra, op. cit., p. 343.

[3] Ramón María del Valle-Inclán, La cabeza del bautista, Madrid, Espasa Calpe 1999.

[4] Emilia Pardo Bazán, Los pazos de Ulloa, Madrid, Castalia, 1986 [1886], p. 344.

[5] Beatriz López Morán, El bandolerismo gallego en la primera mitad del siglo XIX, Sada, Ediciós do Castro, 1995.

[6] Arquivo do Reino da Galiza, Causas, 35/10.

[7] Arquivo do Reino da Galiza, Causas, 538/2. López Morán (op. cit., p. 77) pom literalmente “la tabernera de Soutelo (Vilamaior, Ordes)”, mas debe ser esse Soutelo que hoje fica dentro da paróquia de Olas.

[8] Arquivo do Reino da Galiza, Causas, 128/2.

[9] Manuel Pazos Gómez, A República da Berxa. Antonio Gómez Carneiro e o seu tempo (1899-1979), Ordes, A.C. Obradoiro da História, 2014, p. 135.

[10] Manuel Pazos Gómez, A guerra silenciada. Mortes violentas na comarca de Ordes, 1936-1952, Ordes, A.C. Obradoiro da História, 2011, pp. 78-79.

Taberna da Casa Louro a mediados dos anos 60 em Ordes. Fotografia incluida no livro "Ordes. Crónica fotográfica do século XX", de Manuel Pazos Gómez e Daniel Pereiro López, editado por Espiral Maior no 2002

Taberna da Casa Louro a mediados dos anos 60 em Ordes. Fotografia incluida no livro “Ordes. Crónica fotográfica do século XX”, de Manuel Pazos Gómez e Daniel Pereiro López, editado por Espiral Maior no 2002

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Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
Carlos C. Varela

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