AS AULAS NO CINEMA

SPENCER, POR UMA EDUCAÇÃO NATURAL E AUTÓNOMA

Documentários vários



Dentro da série dedicada aos grandes vultos da humanidade, que todos os escolares devem conhecer, dedico desta vez o meu depoimento ao britânico Herbert Spencer, que faz o número 32 da série iniciada com Sócrates. Os seus postulados educativos foram no seu momento realmente inovadores, e alguns o são ainda para o momento atual. O seu livro intitulado Educação teve uma influência enorme e foi publicado em muitos idiomas e em numerosas edições. Mesmo Robindronath Tagore gostava muito desta obra pedagógica, e eu tive na mão o exemplar em inglês lido por Robindronath, com anotações a lápis realizadas à margem pelo educador de Bengala.

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Herbert Spencer (1820-1903) foi um filósofo e educador inglês, um dos maiores representantes do positivismo na Inglaterra. É considerado o fundador da teoria do darwinismo social, onde as classes diferenciadas formariam a seleção natural na sociedade. Teve grande influência em estudiosos como Durkheim. Nasceu em Derby (Reino Unido) no dia 27 de abril de 1820. Era filho de um professor, mas mesmo assim, não frequentou a escola de forma regular. Por isso, desenvolveu aversão ao ensino tradicional, preferindo ser um observador dos fatos externos. Interessou-se pela filosofia e pela evolução natural. Porém, diferente de Darwin, as preocupações do filósofo eram as questões sociais. Em seu livro Estática Social (1851), abordou questões sobre o bem-estar social e suas condições. Na sua obra monumental Sistema de Filosofia Sintética, estão inseridos os “Primeiros Princípios” e as leis gerais da evolução do universo. Outros volumes da obra tratam sobre os princípios da evolução biológica, psicologia e sociológica. Herbert Spencer escreveu ainda os trabalhos O Indivíduo Contra o Estado, (1884) e A Educação Inteletual, Moral e Física em 1863, a sua obra de carácter pedagógico.

Herbert Spencer faleceu em Londres, no dia 8 de dezembro de 1903.

Aplicou à sociologia ideias que retirou das ciências naturais, criando um sistema de pensamento muito influente a seu tempo. Suas conclusões o levaram a defender a primazia do indivíduo perante a sociedade e o Estado, e a natureza como fonte da verdade, incluindo a verdade moral. No campo pedagógico, Spencer fez campanha pelo ensino da ciência, combateu a interferência do Estado na educação e afirmou que o principal objetivo da escola era a construção do caráter “Ele dizia que os conhecimentos úteis, que serviriam para formar os homens de negócios e produzir o bem-estar pessoal, eram desprezados em favor do ensino das humanidades, que davam mais prestígio”, diz a professora Maria Angélica Lucas, da Universidade Estadual de Maringá. 
Para Spencer, havia uma lei fundamental da matéria, que ele chamou de lei da persistência da força. Segundo ela, a tendência natural de todas as coisas é, desde a primeira interação com forças externas, sair da homogeneidade rumo à heterogeneidade e à variedade. À medida que as forças vindas de fora continuam a agir sobre o que antes era homogêneo, maior se torna o grau de variedade.

Conhecer, só pela razão: Baseado nessa observação, Spencer deduziu um princípio para todo desenvolvimento, que é a lei da multiplicação dos efeitos, causada por uma força absoluta que não pode ser conhecida pelo entendimento humano. Trata-se, para Spencer, de uma lei da natureza, uma vez que ele se recusava a levar em conta, para efeito científico, a possibilidade de forças sobrenaturais. O filósofo, herdeiro da linhagem empirista britânica e também influenciado pelo positivismo, era agnóstico e combatia a influência religiosa no ensino e na ciência. O próprio termo agnosticismo, para se referir a uma postura filosófica que só admite os conhecimentos adquiridos pela razão, foi criado por um amigo e defensor de Spencer e Darwin, o naturalista Thomas Huxley (1825-1895).
De acordo com Spencer, o processo de desenvolvimento segue a mesma lei em todos os campos, da formação do universo à transformação das espécies. Seu entendimento inicial da evolução biológica se baseava na concepção errônea de que as sucessivas gerações de uma mesma espécie herdam das anteriores as características adquiridas do ambiente. Essa era a teoria do naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829), derrubada por Darwin. Ele mostrou que o mecanismo da evolução é a seleção natural, pela qual sobrevivem as variedades animais e vegetais mais adaptáveis às condições ambientais. Tão logo conheceu as conclusões de Darwin, Spencer reformulou sua teoria. 

VISÃO DA EDUCAÇÃO:

Ao contrário do que acontecia na Europa continental, na Grã-Bretanha do início do século 19 o ensino era um assunto privado. A primeira ingerência pública na educação foi uma resolução aprovada pelo Parlamento em 1802, pedindo aos empregadores que providenciassem instrução para seus funcionários – como não havia obrigação atrelada, o efeito foi nulo. Quando não era paga, a educação britânica dependia da filantropia. Só na década de 1830 o governo passou a reservar uma parte do orçamento para o ensino. Na virada para o século 20, no entanto, quase toda a formação elementar (equivalente ao Ensino Fundamental) já era provida pelo Estado. Herbert Spencer defendeu a escola privada até o fim da vida, porque considerava que a interferência do Estado, sendo igual para todos, poderia sustentar estudantes que não estariam, por natureza, aptos a competir em sociedade. “De acordo com a filosofia spenceriana, seria fatal se o regime da família, em que a solidariedade faz com que o mais apto ajude o menos apto, regulasse a sociedade, onde o que conta é a luta pela vida”, diz a professora brasileira Maria Angélica. Seguindo outra tradição britânica, Spencer acreditava que a função principal da educação era formar o caráter. Sua defesa do ensino prioritário da ciência tinha o objetivo de fornecer aos jovens um conhecimento sobre o funcionamento da natureza que lhes desse meios de se ajustar às exigências do mundo.

ANTOLOGIA DE DOCUMENTÁRIOS:

1. Herbert Spencer. Ano 2014, 42 min.

2. Spencer: dinâmica e estática social. Ano 2016, 5 min.

3. Will Durant. The Philosophy of Spencer (W. Durant. A Filosofia de Spencer).

Ano 2014, 109 min. Idioma: Inglês.

4. Comte x Spencer. Ano 2015, 5 min.

5. Georg Simmel & Herbert Spencer. Ano 2015, 8 min.

6. Herbert Spencer. Teoria Evolutiva. Ano 2015, 5 min.

7. La filosofia evolucionista de Hebert Spencer (A Filosofia evolucionista de H. Spencer).

Ano 2017, 13 min.

8. Spencer, Darwinismo Social. Ano 2017, 3 min.

AS IDEIAS EDUCATIVAS DE SPENCER:

Tomamos como base o seu livro Educação para analisar o pensamento pedagógico de Spencer, que se interessou desde jovem pela educação. Durante algum tempo pensou mesmo em fazer-se mestre. Noutro momento da sua vida projetou estabelecer uma escola, junto com o seu pai. A sua atividade docente durou só três meses. Sem experiência real no ensino, protestou contra a educação do Estado em cartas que publicou num jornal britânico em 1842, quando só tinha 22 anos de idade. Ele sustentava que a verdade resulta sempre do encontro de mentes diferentes e que a educação «oficial» obstaculiza, pela sua natureza mesma, a mudança. Na década de 1850, defendeu sistematicamente em vários artigos o critério de «deixar fazer» contra os perigos da intervenção do Estado na vida dos indivíduos, através da educação pública. Embora tratar-se dum debate político, Spencer pôs em dúvida a necessidade da educação formal à luz da sua teoria incipiente da evolução. Na sua obra Social Statics (Estática Social), pergunta-se porque é que é necessária a educação, se na biologia a semente e o embrião crescem até chegarem à sua maturidade sem ajuda externa. Porque é que não vai crescer a criança espontaneamente até tornar-se num ser humano normal? Para ele a educação coercitiva, fruto das imperfeições do ser humano, é desnecessária. À medida que a sociedade evolui conforme às leis não é necessária uma educação organizada, pois mesmo poderia atrasar a mudança social.

O livro pedagógico mais importante de Spencer foi publicado em 1861, sob o título de Educação (Education). No mesmo, entre outros, recolhem-se os seus depoimentos: «A arte da educação» (1854), «Disciplina moral para as crianças» (1858), «Capacitação física» (1859) e «Qual é o conhecimento mais valioso» (1859). Do mesmo realizaram-se muitas edições e venderam-se milhares de exemplares. Nele ataca rotundamente a ortodoxia educativa dominante. E faz muitas referências favoráveis à teoria da educação de Pestalozzi, embora lamentando que a sua prática ficasse tão longe da sua teoria. Tomando como base esta obra educativa de Spencer, sintetizamos a seguir os princípios educativos mais significativos defendidos pelo britânico:

– A ciência deve substituir às línguas clássicas no plano de estudos. E mesmo deve constituir a totalidade do plano. Tema que provocou a antipatia de muitos educadores que, mesmo aceitando a importante presença das ciências no programa escolar, não se podia prescindir do estudo das línguas e das humanidades.

– A educação segue uma evolução similar à dos indivíduos e da sociedade. Por isto, não é possível que exista uma relação entre os sistemas sucessivos da educação, e os estados sociais consecutivos com os quais coexistiram.

– No processo da sua evolução existe uma maior heterogeneidade e complexidade dos sistemas de educação. Por isto, nas ciências, por exemplo, com o poder dos especialistas, a filosofia natural converteu-se em astronomia, física, química e biologia. E da física nasceram outras áreas especiais de pesquisa: o calor, a luz, o som e a eletricidade; da química: os ramos orgânico e inorgânico; e da biologia apareceram matérias especiais como a fisiologia e a morfologia.

– Na escola devem ensinar-se conteúdos de utilidade prática e dar menos importância ao ornamental e decorativo. Por isso, ele opinava que o latim e o grego não serviam para nada, agás para os alunos amostrarem que recebiam uma educação de cavalheiros, a modo de sinal distintivo de uma determinada posição social que tinha que ser respeitada. E na educação das meninas as aulas de dança, urbanidade, piano, canto e desenho tinham a mesma finalidade classista. E assim o valor intrínseco do conhecimento não determinava o ensino, mas o respeito e o poder social que a sua posse conferia aos indivíduos.

– As velhas práticas educativas baseadas na crença da maldade natural das crianças eram próprias de sistemas sociais repressivos, pelo que devemos eliminá-las. Porque o progresso procede de uma educação não coercitiva.

– A aprendizagem memorística deve suprimir-se e promover uma aprendizagem baseada nos processos espontâneos das crianças. E o ensino de normas deve ser substituído pelo de princípios. Por exemplo: a aprendizagem da gramática deve ser o último e não o primeiro e principal.

– O ensino deve estar baseado na investigação e a descoberta independentes. Fomentando a capacidade de observação das crianças, a sua atividade espontânea em forma de jogo. Para isto as lições deviam ser de carácter prático e ministradas com uma boa didática, escapando das abstrações e apresentando as verdades em forma concreta, por exemplo com modelos geográficos e geométricos.

– A aprendizagem deve ser algo agradável, e não penoso. Com o qual é importante o uso de jogos, canções infantis, contos de fadas e terminar as lições se se observa que os alunos se cansam. Em definitivo, o método natural de ensino é aquele que se adapta ao desenvolvimento mental natural da criança.

– É muito importante preparar os pais para a educação dos seus filhos, o qual hoje seriam as escolas para mães e pais.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Vemos os pequenos documentários citados antes e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar os seus conteúdos e as propostas de Spencer para a educação.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Herbert Spencer, o seu pensamento, as suas ideias educativas, a sua vida e a sua obra. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos levar a cabo um Livro-fórum lendo entre todos, estudantes e docentes, o livro de Spencer Educação, do qual, infelizmente só existe edição em castelhano, sob o título de Educación Intelectual, Moral y Física. Seria interessante tirar entre todos conclusões para o ensino e a educação atual.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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