O FUTURO POSSÍVEL

A síndrome da Transição



Resposta à professora da UDC María Pilar García Negro, que me interpelou.

A interpelação direta em artigos de opinião, ainda que pode servir para louvar as qualidades de alguém, é um recurso normalmente empregado para criticar, contestar e mesmo acusar dalguma cousa a pessoa nomeada. Eu tenho a estranha honra de ter conseguido a interpelação direta da professora da UDC, María Pilar García Negro, ex-deputada do BNG e especialista em literatura galega. Mas antes dela já Glória Lago, dirigente do grupo extremista Galicia Bilingüe, tinha feito o mesmo como parte duma estratégia para impedir o avanço do Galego internacional no meu lugar de trabalho. Devo reconhecer, contudo, que as intenções duma e doutra distam bastante entre si. Se bem os motivos da Lago eram diáfanos, custa-me mais entender os da professora universitária, que contesta deste jeito um meu comentário informal duma linha de extensão. Vou aventurar que a sua atenção encerra uma curiosidade real pela argumentação que subjaz no meu comentário. Por esse motivo decidi escrever este artigo, para esclarecer à professora, dentro do possível, as dúvidas que ela expressou no seu.

mapa-cunha-cintra_1Desde a década de 70 do século XX foram-se conformando duas linhas de interpretação da língua da Galiza. Uma dessas linhas recebeu, já naquele momento e depois nas décadas a seguir, todo o apoio da oficialidade espanhola e galega. A outra linha foi reprimida com perseguição e violência, e depois com o silêncio e a indiferença das instituições. A tomada de posições institucionais foi realizada por pessoas que representavam bem a linha de interpretação favorecida. Tudo o que aconteceu no âmbito oficial da normalización linguística teve e tem diretamente a ver com essas pessoas com nomes e apelidos que produziram ao longo das últimas décadas textos e contextos a justificarem a escolha linguística do poder.

Era imenso o trabalho que tinham, pois a escolha linguística do poder, sendo coerente com a unidade espanhola, era contra a razão filológica. Assim, as pessoas que serviam bem os interesses oficiais assumiram a difícil tarefa de justificar a sua fratura com a linha académica que traçava a filologia românica, a qual afirma que ‘galego’ e ‘português’ são duas variantes do mesmo idioma. A linha oficialista, pelo contrário, tinha de elaborar-se sob outros critérios. Um deles era a fronteira política do Reino tomada como barreira linguística, outro era o que se conhece como double bind ou duplo ligame: Relação de poder em que o servidor ou servidora se vê comprometida com dous pressupostos contraditórios entre si. O primeiro pressuposto era que as falas galegas deviam formalizar-se, e o segundo, que essa formalização tinha de fazer-se contra o português. Hoje sofremos as consequências desta contradição, pois o galego contra o português, isto é, contra si mesmo não consegue sobreviver.

O isolacionismo recebeu os favores do centralismo espanhol e entre todos puseram em andamento a maquinária: O esbanjamento de dinheiro público em medidas normalizadoras e normativizadoras cujo resultado, após quase quarenta anos, é um completo fracasso. Fracasso que algumas vozes da linha oficialista reconhecem agora, mas sem assumir a sua parte de responsabilidade. O modelo de língua elaborado pelo isolacionismo criou um estado sociolinguístico nefasto, incapaz de estabelecer a necessária concorrência com o castelhano, espalhando o que denomino a síndrome da Transição, doença provocada por uma série de falsas ideias-força que distorsionaram o senso linguístico comum. Apesar de tudo, o galego “admitido” oficialmente não foi admitido pelo povo. Ao longo dos anos vimos que a ferramenta que construíam com entusiasmo não prendia na gente. Atualmente, a precariedade da situação não só está ligada às atuações institucionais das últimas décadas, mas é produto direto destas e da aplicação da política linguística isolacionista num contexto em que o castelhano conta com todas as atenções. É por isso que os produtores do pensamento oficial não podem, agora que lhes chegou a crise, pular fora do navio e desligar-se das suas responsabilidades nos resultados. Aproxima-se o momento das explicações tanto do modelo escolhido quanto do dinheiro público empregado durante tanto tempo numa normalização inexistente.

Agora que as posições institucionais parecem virar a políticas mais favoráveis ao reintegracionismo, num Parlamento com jornadas em que todas parecem lusistas, um certo medo ou incomodidade surge nalguns miolos que sabem o que fizeram nos últimos quarenta anos e procuram escudar-se na tentação da inocência, como se não tiveram nada a ver na questão. Outros preferem carregar a destra e sinistra contra nacionalistas e reintegracionistas a um tempo, mesmo levantando casposas acusações de portuguesismo nos tempos da Lei Paz-Andrade e da Compostela capital de língua portuguesa. Com certeza, o quadro legal imposto desde a Constituição espanhola de 1978 é desfavorável ao normal desenvolvimento das línguas diferentes do castelhano, mas o exemplo catalão indica-nos que ainda dentro da marginação bourbónica as cousas podem ser de outro modo. Atualmente a academia valenciana reconhece a unidade da língua e as diferenças ortográficas são mínimas entre os territórios catalanófonos. Na Galiza contávamos e, afortunadamente, ainda contamos com o galego de Portugal, um modelo espetacular tanto de poder simbólico quanto real, com implementação mundial e consolidado nas suas bases gramaticais. Um modelo que serve para representar todas as falas galegas. Um modelo aberto que permite a adição da variante galega como enriquecedora da língua comum. Em definitivo, um modelo que significa um passo à frente para a nossa formação, a nossa literatura e a nossa dignidade. Mas esse não foi o caminho escolhido pelo oficialismo galego e as suas colaboradoras. Como seria o nosso presente se hoje levássemos quase quarenta anos de português como língua oficial na Galiza?

mincinho

Tempo atrás quis saber o que tinha acontecido historicamente com as mulheres no âmbito reintegracionista. Essa aparente carência feminina parecia-me semelhante à falta de coerência linguística do galeguismo oficialista e perguntava-me eu: “Onde é que estamos que não nos vemos?”. Busquei as mulheres nalguns textos disponíveis e, por honrá-las, escrevi um breve artigo com os seus nomes. Um artigo em cujo terceiro parágrafo aparecia uma “Pilar Garcia” que participava na revista Agália e, ademais, defendia o isolacionismo. Já não é possível continuar a dar uma no cravo e outra na ferradura. As posições estão a cada dia mais claras. Comprovo agora que a síndrome da Transição, criada pela má política contra a razão filológica, também nos afetou às mulheres ao aceitarmos, como outros homens, o engano de defender a língua desde falsos pressupostos pensando que tudo resultaria mais fácil do lado do poder. [email protected] cometemos erros. Contudo, não são os erros que nos definem, mas a nossa capacidade de os transformar em fecunda aprendizagem.

Isabel Rei Samartim

Isabel Rei Samartim

Mulher, música guitarrista, galega. Pensa que a amizade é uma das cousas mais importantes da vida. Aprendeu a sobreviver sem o imprescindível. Aguarda, sem muita esperança, o retorno do amor. Entanto isso não acontece, toca e escrevinha sob a chuva compostelana.
Isabel Rei Samartim

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  • Paulo Terra Nosolhos

    Triste decissom da Pilar depois de tanta luta pola língua e a literatura galegas.

  • Ernesto V. Souza

    O José Paz, com problemas de ligação desde a Índia roga incorporemos este seu comentário:

    “Comparto plenamente tudo o que a Isabel diz. O seu depoimente é
    excelente. Os meus parabéns. O anti-reintegracionismo da Pilar já o teve
    que suportar nos anos oitenta dentro da ASPG (logo foi ASPGP, que é a
    que tem o nº de registo original do ano 1978). Artigos como este são
    muito necessários para colocar as coisas no seu lugar.

    Um abraço. José Paz”

  • Ernesto V. Souza

    Sempre “as formas” para punir e eludir certos debates…

    • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

      Mais bem apontar o anedótico para eludir o fundo da questão que é a responsabilidade. Para mim isto tudo é um atraso. Eu não teria redigido este artigo se não fosse pela provocação da senhora professora. Teria ficado calada ou feito alguma outra cousa completamente diferente. Nesta altura enfastia-me aparecer para dizer o mesmo, por isso tentei dar-lhe um algo de novidade, uma elaboração da análise, um não sei que para as pessoas novas puderem ler algo novo. Porque o velho nos freia e nos faz recuar até no pensamento. E para podermos aguardar pelos mais tartarugas precisamos de evoluir livremente e avançar nas análises.

      • Ernesto V. Souza

        Pois… “um não sei que para as pessoas novas puderem ler algo novo”

        Para mim o melhor e mais interessante que leio, e é cada vez mais evidente, são as entrevistas de reintegratas no PGL. Gente crítica, reconstruida a recuperar o galego, e a construir com esforço o galego moderno… mas com esperança… nova de pensamento, sem importar a idade e bem longe desse muro das lamentações e sucedidos intelectuais e guieros cara nenhures que andam arredor do mundo político, institucional e académico aguardando por um aniquilamento sem sentido.

  • Pedro Lopes

    Topei com este post algo interessante, e se me é permitido acrescentar, por analogia o percurso da Galiza assemelha-se aquela pessoa que quer ir de A para B, faz o estudo, planifica, estabelece o objectivo e empreende a viagem mas a certa altura sai do caminho previsto e deriva ou melhor dizendo atalha para C e nunca chega a B.
    Por outras palavras o reino da Galiza que coincidiu posteriormente com o reino Suevo, foi o início e Portugal foi o fim que se prolongou claro ao Brasil e a todos os países criados pelo reino de Portugal no mundo, esse caminho foi empreendido por aqueles “galegos” que viviam a sul do Minho e também por aqueles que o atravessaram à procura de novas oportunidades, o Condado Portucalense afigurava-se para a nova nobreza galega que estava tapada pela alta nobreza, como uma terra de oportunidades, esses chegaram ao fim do destino, os outros galegos, aqueles que estavam a norte do Minho e a sua alta nobreza, também decidiram empreender uma viagem mas ao não ter bem claro qual era o seu destino e objectivo, derivaram e foram parar ao tal ponto C, que é um ponto intermédio, um ponto de destino provisório, que foi Castela, e actualmente é Espanha.
    O problema de se ficar num ponto intermédio durante muito tempo sem atingir o destino é que corre-se o risco de alguém já ter chegado ao nosso destino primeiro e de ter ocupado o nosso lugar, esse lugar foi de facto ocupado pelos “galegos do sul” chamados de potucalenses antes da independência e portugueses depois da independência em 1143, chegaram a esse tal destino quando completaram toda a reconquista a sul até ao Algarve, estabelecendo a maximização territorial galaico-portuguesa peninsular.
    É interessante notar que todos o réis portugueses a partir da conquista do Algarve por Afonso III, se intitulavam, réis de Portugal e dos Algarves, para reforçar essa conquista perante Castela e digamos como que a dizer, completámos a nossa reconquista, chegámos ao destino primeiro.
    Digamos que os galegos do norte decidiram a meio caminho ir por um atalho pensando que daria menos trabalho e seria mais fácil chegar ao destino desejado, enquanto os galegos do sul mantiveram-se no trilho, não atalhando escolheram o caminho mais díficil (guerras pela sua independência) mas chegaram ao destino,
    Ora bem a única saída para se sair de um ponto de destino intermédio que não nos leva a lado nenhum, é empreender o atalho de volta e retomar o trilho inicial mas como o destino inicialmente previsto já está ocupado, torna-se necessário estabelecer outro destino que nos satisfaça, é o que os galegos tem que fazer, estabelecer o seu destino que os faça sair da etapa intermédia onde estão, num chamado beco sem saída, mas tendo a noção que os melhores caminhos não são os atalhos ou os caminhos mais fáceis, na questão identitária dos povos, os melhores caminhos para atingir o destino, são sempre caminhos difíceis, não conheço nenhuma nação que se tenha tonado um estado e ‘país independente e soberano que não tenha tido guerras, derramamento de sangue, interno e externo, a questão é se os galegos estão preparados para empreender esse caminho, eis a questão.

  • Marcos Celeiro

    A «persoeira» que dispõe dum «voceiro particular» chamado «SermosGalicia» (Anselmo dixit) nem sabe defender como filóloga nem replicar como filóloga. Tudo gira arredor do seu umbigo.

    • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

      Acho que o problema não está em saber filologia, que sabe e muita, mas na falta de ética da escolha isolacionista, por mais que pratique os “mínimos”, e da atual postura -não somente dela- de elusão da devida responsabilidade.

  • Luís Gonçales Blasco

    Excelente artigo que partilhei, cara

  • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

    Bom artigo, mas como tudo nesta vida complementável. Parabéns, Isabel!
    Mas permite alguma precisão mais do que comentário:
    1.- Apontas e dizes bem, mas podemos precisar com Lebrixa (ou Nebrija) no prólogo da sua Gramática castellana (sic) à Rainha Católica: “Siempre la lengua fue compañera del imperio [= poder militar e político]”. Os problemas da língua e sobretudo dos “linguados”, mais ou menos notáveis, e nestas partes do mundo e nestes tempos “sempre” foi e é político-e-militar, quer dizer, de estado, de estado dominante, existente, e de estado possível, até hoje dominado.
    2.- Todos e todas sabem, a pouco que pensem, “lusistas”, “quase lusistas”, “isoladores” e “simples exterminadores”, todas e todos, sabem que a união da língua começa e acaba por algum jeito de união política. Alguns imaginavam que a União Europeia, se o for, poderia garantir a união política e de língua pacificamente, mas por hoje apena há des-U anti-E.
    3.- Como tudo isso, o exposto em 1.- e em 2.-, era bem sabido, cada um e cada grupo e cada “nación”, “naçom”, “nação” na CAG (ou na Galiza) optaram em consequência. Uns com maior claridade; outros como dubitantes e outros escorregando para assuntos colaterais e mesmo estranhos.

    E mais não digo, salvo por palavras do “ousado” escritor e plagiário Camilo José Cela: “Qué nacionalismo es ese que asume como propia la lengua extranjera?”
    O infeliz não percebeu (ou sim?) que na realidade não ofendia os nacionalistas galegos, mas que, se for coerente, estava a animar todos os hispanófonos não súbditos do reino bubónico a “elaborar” uma “lengua de suyo”, diversa y contrária da castelhana comum…

    Cousas do naZionalismo radical…

    • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

      Mais uma precisão: Houve nas novas repúblicas (repúblicas!!!) hispano-americanas essa tentação, de criar uma “lengua de suyo”, mas sem paradoxo os seus melhores notáveis optaram pela união linguística através da (quase) união gráfica.

      • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

        Aí a América Latina de fala castelhana evidencia que, em questão de língua escrita, é melhor chegar a Acordos e empregar o mesmo código, que andar a dividir os utentes com jogos de letras que, afinal, viram em hieroglíficos irresolúveis.

        Mas esse exemplo contradiz um bocado a tua mensagem anterior, em que tomas por verdade que “a união da língua começa e acaba por algum jeito de união política”. Neste caso, a América Latina de fala castelhana mantém as suas repúblicas tão independentes quanto pode sê-lo o próprio Reino da Espanha da UE ou dos EUA (não ao 100% como sabemos). E o mesmo acontece com o Brasil e a língua portuguesa. É certo que existe essa tendência, que se dá também no caso galego, de criar normas próprias para variantes de língua que não partilham Estado. Por isso o caso da língua castelhana, nesse sentido, é exemplar, porque permite ver que ainda que na língua se manter um grau de unidade elevado, a independência política dos diversos Estados é hoje inquestionável.

        Para mim, o caso do galeguiÑo é aquela perversão do senso linguístico comum que se deixa levar pela tendência de criar uma norma própria para o que se considera próprio mas ignora-se comum. Essa ignorância da língua comum é o que não se explica em [email protected] em filologia. E por isso digo que a teoria isolacionista representa uma “fratura” com a razão filológica.

        • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

          Penso que não me contradigo:
          1.- As repúblicas hispanófonas da América conseguiram um grau suficiente de estabilidade (sem exagerar…).
          2.- Mas no seu interior, de cada uma, a tendência política é a mesma, salvo exceções, do que a política linguística no reino bubónico: a unidade de língua… castelhana, mais cada vez “española”.
          3.- O problema da Galiza e dos galegos (da parte do reino bubónico) é a proximidade não só linguística com Portugal e através dele com a Lusofonia toda, por outro lado, reconhecida implicitamente no art. 35.º do EAG.
          4.- Esse problema não existe nem em Euskal Herria nem nos Paisos Catalans, divididos, aliás, entre dous (ou três) estados de língua nacional “própria”.
          5.- Por isso foi necessário (sic) para o reino bubónico diversificar (e castelhanizar) o português galego ou galego português (tanto tem), cujos “notables” efetivaram unânimes essa diversificação, mesmo atraiçoando os “princípios filológicos” da Escuela menendezista.

          • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

            De acordo com 3, 4 e 5.
            1 e 2 implicam independência política mas acordo linguístico. Portanto, hoje a língua comum não precisa de Estado comum.

            Se algum dia uma eventual República espanhola levar isto em consideração talvez pudessem criar-se as condições para o estabelecimento a todos os efeitos do Galego internacional na Galiza. (agora saltam todas as alarmes a lembrar que o Reino não tem traças de mudar e a República nem se cheira, e é certo e as alarmes levam razão, mas isso não significa que a possibilidade não exista).

        • Galego da área mindoniense

          A questom, Isabel, é:
          Por que os galegos temos d´empregar o mesmo código cós portugueses? Por que nom usam os portugueses o mesmo código ca nós?
          Por que renunciarmos à diferenciaçom -om/-am/-ão coas vantagens que isso tem? Nom seria melhor que os portugueses tamém empregassem issa diferenciaçom, e assim evitariam a contaminaçom dos plurais (verão – verões. É a sério?)?
          Por que escrever “uma” em vez de “ũa”, sendo que ista foi a grafia empregada durante a Idade Média e a pronúncia da Galiza e de boa parte do Brasil atual?
          E as formas do pretérito perfeito do indicativo? Nom seria melhor pros portugueses e brasileiros usar a diferenciaçom antre andárom/andaram ou houvem/houve?
          E nom é melhor seguir coa distinçom antre “te” (complemento direto) e “che” (complemento indireto)? E por que nom usar “caminhache” em vez de “caminhaste”, cando ista última semelha castelão?
          E por que utilizar “cantais” em vez de “cantade”, cando ista forma é classificada no resto de países como português arcaico; mais na Galiza inda se mantém? Acaso as formas que passam a ser arcaicas em determinados logares, já nom devem ser utilizadas polo resto d´utentes da língua?
          E a diferenciaçom antre ca/do que, coma/coma ou tu/você?

          E inda poderia seguir, mais issas som as principais questões.

          • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

            Mindoniense, há muito tempo que o reintegracionismo tem resolvido todas as suas questões. Acho que chegado a um ponto, é o senhor quem tem de resolver pela sua conta também. Veja: Já não temos qualquer problema com a assunção da ortografia vigorante para a língua portuguesa. Já não questionamos a pertinência no padrão linguístico das variantes que você propõe. Todas as que relatou são validíssimas para o estudo da variante galega dentro da norma internacional, especialmente na oralidade, e também são interessantíssimas para os nossos usos literários, especialmente para representar o registo coloquial. Os nossos hábitos como utentes de língua têm características próprias, mas não é preciso refleti-las todas na escrita porque o código comum não as precisa todas e, portanto, as que não precisa não acrescentam grande cousa ao conjunto. Para nós, sim. Para estudar o nosso comportamento linguístico, para tirar conclusões de como evoluem as línguas quando são abandonadas da norma padrão comum, para observar como é que os galegos conservamos no s. XXI traços do s. XIII espontaneamente nas nossas falas. É evidente que isso tudo é uma riqueza, mas é algo que deriva do nosso passado como povo, não algo que contribua ao futuro do Galego internacional, cuja forma e normas foram estabelecidas por outros Galegos. É muito mais importante deixar como legado a continuidade da língua no seu berço, o seu emprego na Galiza, o seu estudo tal como é hoje fora da Galiza, a nossa capacidade de adaptação e aprendizagem depois de séculos de abandono, a nossa vontade de contribuir ao conjunto da melhor maneira possível. Mindoniense, se o senhor considera que a melhor maneira de contribuir ao conjunto é voltando aos termos do s. XIII, faça e fique tranquilo.

          • Galego da área mindoniense

            Tu mesma o dis: “cuja forma e normas foram estabelecidas por outros Galegos”
            O probrema é que isses galegos construírom ũa norma do galego (tentando desgaleguizá-la todo o possível, que ironia) sem consultar òs galegos dacô, sem terem em conta os nossos usos linguísticos e a nossa opiniom.
            Eu acho que a Galiza tem certos usos linguísticos que têm vantagens respeito òs de Portugal e do Brasil. Se têm vantagens, pra que renunciarmos a iles?
            E discrepo totalmente respeito òs traços do século XIII. Entom; o futuro som os anciões, verões e irmões. Acredito que a sobrevivência de certos traços na Galiza tamém poderiam ajudar òs portugueses e brasileiros.
            Obviamente, a norma de Portugal e do Brasil deveria ser conhecida por tôdolos galegos e, igualmente, tamém deveria ser conhecido por tôdolos galegos a razom de termos algũas diferenças e o porquê dissas diferenças. Atualmente, o isolacionismo é diferente do reintegracionismo e da norma de Portugal e do Brasil; mais nom dá nengũa explicaçom convincente (as razões do Carballal nom som convincentes na meirande parte dos casos). Outrossim; os portugueses, brasileiros, angolãos… deveriam conhecer as diferenças do seu padrom em relaçom òs galegos e o porquê dissas diferenças.
            A Galiza deve estar integrada cos demais países da CPLP (nom importa nom sermos um país, podemos fazer coma Macau), peró isso nom implica renunciarmos à nossa variante. É máis se consideramos que levamos razom.
            Com efeito, eu acredito que isse é o melhor jeito que a Galiza tem pra contribuir na CPLP e na galaicofonia (ou lusofonia). As diferenças que a Galiza tem co resto de países ou regiões da nossa língua nom dificultariam a comunicaçom. Diria máis, algũus (nom galegos) poderiam usar determinadas particularidades dos usos linguísticos da Galiza pra resolver algũas dúvidas. Por exemplo, o plural de vulcão, ancião, refrám ou furacám. As diferentes terminações que usaríamos na Galiza, resolveriam as dultanças dos utentes dos demais países; já que nom têm issa vantagem. Obviamente, pra lográ-lo, temos de refleti-lo na escrita. Caso contrário; os portugueses, brasileiros, macaenses e demais dificilmente se decatarám de que a Galiza possue algũas particularidades na língua e que podem ser aproveitadas. É máis útil prá CPLP ter a ũa Galiza que conserve as suas particularidades na escrita ca ũa que apenas se limite a usar um padrom lisboeta (ou brasileiro) com moi poucas distinções.
            Isso é o que eu penso. Os demais poderám ter outras opiniões, mais seguirei percorrendo isse caminho; porque acredito que é o melhor pros galegos e pros utentes da nossa língua.

          • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

            A sua escrita fala por si mesma. Sem dúvida, é melhor contribuir ao comum que lutar pelo particular. Mas cada quem com as suas teimas. 😉

    • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

      Eu disse-o deste modo: “a escolha linguística do poder, sendo coerente com a unidade espanhola, era contra a razão filológica”.

      O grande nosso problema é que a unidade linguística do Reino da Espanha não se conseguiu. Talvez hoje esteja, sim, no seu melhor momento. Mas, em qualquer caso, a aniquilação das línguas espanholas diferentes do castelhano é uma ação política que vai contra toda razão filológica. Porque a filologia estuda o que houve e o que há em matéria de língua, entanto que a política centralista espanhola não estuda nada mais que o modo de centralizar o máximo possível e rentabilizar os benefícios também no máximo grau.

      O grave é que nós [email protected] tenhamos contribuído a essa desfeita. Precisamos de reconduzir a situação, no bem de [email protected], e começar a aplicar a teoria linguística correta para sairmos do ostracismo nacional a que nos condenaram uns e outros.

  • Ernesto V. Souza

    Uma cousa ao meu ver interessante, talvez um pouco fora do fio… é que Garcia Negro (e com ela boa parte do reintegracionismo de mínimos e boa parte ainda do nacionalismo político no BNG clássico e hoje, também fora dele) analisa a realidade da língua e portanto a estratégia e pragmática a seguir, em chaves analógicas e não digitais.

    Tanto o debate quanto a ação e a relação, a escrita, a publicação, a intervenção política e social define em termos não digitais. É dizer para ela o digital é um apéndice, um plus… e digo porque já há alguns anos eu teve com ela um intercâmbio de comentários em Terra e Tempo a respeito.

    E isto é importante porque para mim a grande mudança do papel e presença do reintegracionismo aconteceu com a popularização da Internet. Antes de 1999-2000, ainda podia ter lógica pragmática apostar por uma via isolacionista, não era realmente tão descabido pensar que com o sistema cultural e o modo em que se alfabetizava a população…

    Fruto disso foi o consenso de 2003, que chegou tarde dentro do próprio esquema e foi tão ligeiro que apenas serviu para dar entrada a um cheirinho de mínimos na ortodoxia isolacionista e incluir no esquema algumas vozes dissidentes agrupadas arredor das Teses da escola da Crunha e politicamente afins ao BNG e a MESA. E que é a via que defendem Garcia Negro, Freixeiro e os mais desse conjunto.

    Porém o mundo digital é quem definiu o caminho e rompeu toda estratégia e lógica anterior.

    Esse é o mundo em que nós nos movimentamos e no que medrou exponencialmente o reintegracionismo… mas não é o mundo de toda a gente.

    • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

      Concordo. Mas pensa que no mundo de toda a gente, que também integra àqueles do bando digital, há elementos que vão para além da extensão dos usos. Estão os elementos simbólicos gerados pelo Estado na sua versão Xunta. Há dinâmicas de comportamento que se reproduzem na rede e, graças à rede, confrontam-se mais facilmente com outras dinâmicas. A internet ofereceu um modo espetacular de desocultação do que estava oculto. Mas a ética pessoal e profissional é a mesma dentro e fora da rede. É preciso não desligar os comportamentos virtuais dos reais.