Aldeias de Ordes

O silêncio dos primeiros reis



 

Na paróquia de Buscás (Ordes) encontra-se o lugar de Esmoris, regado na sua parte baixa polo rego de Loureda –já tem ido meu irmao bem vezes aí às truitas-, que conta com um moinho do mesmo nome: moinho de Esmoris. O topónimo agocha um segredo surpreendente. Este, como tantíssimos outros, explica-se pola existência de umha vila ou outro tipo de exploraçom agrícola altomedieval propiedade dum senhor de nome germânico, neste caso Hermericus, e de aí a * (villa) Ermerici ou Hermerici; en genitivo latino, a “vila de Hermerico”.
esmoris-buscas 2

Hermericus é um nome germánico que, como é costume neles, representam “o que os pais esperam ver realizado no futuro dos seus filhos”, explica o filólogo J. M. Piel, “com inegável veia poética”[1]. Neste caso o nome estaria formado pola conjunçom de dous elementos góticos: *aírmas(aírmins ‘grande, grosso, largo’ e *rikaz ‘poderoso’, resultando que Hermericus viria a significar algo assim como “o Grande Poderoso”.

Explica Méndez Ferrín que “a abundancia altomedieval de persoas chamadas Ermericus/Hermericus delatada pola actual frecuencia toponímica de Esmoriz/Esmorís”, tanto na Galiza como no Norte de Portugal, “podería ser explicada a partir do prestixio mítico do primeiro rei de noso”[2]. Em efeito, o suevo Hermerico foi o primeiro rei da Galiza, quem numha noite de geada do fim-de-ano de 406 atravessou o Rhin com o seu povo para rematar assinando, por volta do ano 411, um pacto ou foedus com o decadente Império Romano para criar o Regnum suevorum ou Galliciense regnum, o Reino da Galiza, primeiro em se independizar de Roma na Europa Ocidental.

Tivo fama o rei Hermerico de homem prudente e diplomático, que se soubo manter à margem da guerra religiosa. Por palavras de Paulo Orósio, o discípulo galaico de Santo Agostinho de Hipona, com Hermerico os suevos “trocarom as espadas polos arados”. Talvez polo arado quadrado, bem estudado por Jorge Dias e que Bouza-Brey considera umha herdança bem conservada dos suevos, por ser um aparelho mui apropriado para trabalhar a terra mui funda.

Hermerico, que tivo um longo reinado, abdicou no ano 438 no seu filho Rekila, também presente na nossa toponímia, no lugar de Requiám (Beán, Ordes), nom recolhido no Nomenclátor mas sim na folha 70-III dos mapas do Instituto Geográfico Nacional. Segundo explica Cabeza Quiles, o topónimo Requiám “debe ser a versión actual do acusativo *Requilanem, do nome xermánico persoal en –ila, Rikila ou Rekila. Polo tanto, dende unha posible *(villa) ou *(villare) (de) Requilanem chegariamos ao actual Requián, por referencia a un posesor chamado Rikila ou Rekila[3], nome germânico em que parece encontrar-se o elemento gótico rik ‘rei’.

O dito rei da Galiza Rekila, filho de Hermerico, governou o Reino Suevo entre 441 e 448 com ambiçom imperialista, conquistando a lusitánia, a Bética e parte da Cartaginense. Rompeu relaçons com a ruinosa Roma mas, pola contra, soubo integrar politicamente todos os grupos do reino: suevos, galaico-romanos e indígenas. A morte, ao igual que ao seu pai, encontrou-no na capital da lusitánia, Mérida, posto avançado na expansom sueva. Também tem o seu aquele o topónimo de Mérida, pois como notou Camilo José Cela, “la etimología, con no poca frecuencia, también marchó por tan pudorosa y artificiales derroteros: […] al nombre de la ciudad de Mérida le sobra la i, que se conservó para evitar Merda”[4].

Voltando a Buscás, se o topónimo Esmoris vem do antropónimo Hermerico, o nome do lugar acabou por converter-se, à sua vez, em apelido das pessoas nadas numha das várias aldeias que levam este nome. Começaria com a forma De Esmoris, por exemplo Andara de Esmoris, para rematar aparecendo sem o ‘de’. Levou este apelido a bandoleira Úrsula Esmoris, da gabela de Manuel Fandiño, que operava na zona da antiga jurisdiçom de Messia. No 27 de maio de 1814, o subtenente Tomás Aldao dirigia o translado da reia Úrsula Esmoris, o seu mancebo José de Verea e Alejandro de Meneses, alcumado Negro de Francos, quando ao passo polo monte do Tambural, em Cabrui, som fusilados em duvidosa aplicaçom da “lei de fugas”[5].

Ainda ressoam hoje, nos lugares de Esmoris e Requiám, os nomes dos primeiros reis. E da bandida Úrsula, feroz e livre.

Notas:

[1] Citado em Casimiro Torres Rodríguez, Galicia Sueva, Corunha, Fundación Barrié de la Maza, 1977, pág. 230.

[2] Xosé Luís Méndez Ferrín, Consultorio dos Nomes e dos Apelidos Galegos, Vigo, Xerais, 2007, pág. 420.

[3] Fernando Cabeza Quiles, Toponímia de Galicia, Vigo, Galaxia, 2008, pág. 629.

[4] Camilo José Cela, Diccionario secreto, I. Series coleo y afines, Barcelona, Alfaguara, 1969, pág. 17.

[5] Beatriz López Morán, El bandolerismo gallego en la primeira mitad del siglo XIX, Sada, Ediciós do Castro, 1995, pág. 323. Arquivo do Reino da Galiza, Causas, 106/2.

Rei Hermerico
O suevo Hermerico, o primeiro rei da Galiza

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
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