RODÍZIO DE LÍNGUA

Serve-serve de língua brasileira



No Brasil o povo gosta de jantar em restaurantes onde cada pessoa pega no seu prato e se serve à vontade para depois o pesar numha balança que fixa o preço da refeiçom.

Este tipo de estabelecimento tam enxebre costuma ser, paradoxalmente, denominado com a voz inglesa self-service embora o substantivo serve-serve substituísse por algum tempo o anglicismo para finalmente cair em desuso. Contano-lo muito bem o linguista Mário A. Perini no interessante livro A língua do Brasil amanhã e outros mistérios onde esclarece que hoje este estrangeirismo está a perder terreno em prol da expressom autóctone comida a quilo.

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Apesar do pouco sucesso do já arcaísmo serve-serve, este apresenta umha estrutura bem característica do galego-português. Som várias as palavras compostas conformadas mediante a duplicidade de um mesmo termo. Em português do Brasil temos o chup-chup que é um regionalismo mineiro para chamar o sacolé, forma supradialetal brasileira que designa um gelado embalado num pequeno saco de plástico. Em português europeu temos, do verbo piscar, o pisca-pisca dos carros –em português americano seta- e no Brasil referido às luzinhas que piscam; em galego do verbo bulir derivou o adjetivo bule-bule, para pessoas irrequietas, e de rugir ruge-ruge, que além de umha conhecida banda de rock compostelana é sinónimo de rumor ou boato, ao igual que o disse-me-disse lusitano e brasileiro. Do substantivo galego léria provém o lero-lero do português brasileiro e de significado bem próximo há o lenga-lenga, que se refere a umha fala longa e aborrecida.

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Quem nom brincou em criança às escondidas? Este popular jogo infantil é também conhecido como esconde-esconde. Um outro jogo corriqueiro é aquele em que um miúdo corre para apanhar os outros. Esta brincadeira é designada no Brasil pega-pega, nome que também pode ser sinónimo de briga. Já agora, quebra-quebra é umha briga mais séria, que envolve objetos quebrados; corre-corre ou lufa-lufa (1) é umha correria, umha confusom e mata-mata, embora pareça umha briga mais pesada, tem a ver no Brasil com o futebol, pois é assi que se chamam os jogos eliminatórios. Mas deixemos as brigas para lá e voltemos às brincadeiras. Nas festas dos concelhos galegos som muito comuns os carrinhos de bate-bate e camas elásticas, conhecidas na outra beira do Atlántico como pula-pula, que também serve para se referir às bolinhas saltitantes. Por último, convém lembrar que os vagalumes contam com múltiplas variantes diatópicas espalhadas pola Galiza, Portugal e o Brasil entre elas luze-luze.

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(1) Lufa-lufa é também, na traduçom brasileira de Harry Potter, a casa de Hufflepuff, cujas características estám relacionadas ao próprio significado da palavra em galego-português.

* Artigo originalmente publicado no site da AEG

 

Diego Bernal

Diego Bernal

Diego Bernal nasceu em Lugo em 1982. Licenciado em filologia galega pola Universidade da Corunha iniciou a sua carreira dando aulas de galego na EOI Jesus Maestro de Madrid, foi leitor da Junta da Galiza na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, professor de espanhol no ISEG da Universidade de Lisboa e professor de português nas EOI de Plasencia e de Montijo, na Estremadura. Atualmente mora no Brasil onde trabalha como professor na Universidade Federal de Viçosa.
Diego Bernal

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  • abanhos

    Bem interessante