Seis bons motivos para nom perder o filme ‘O Jovem Karl Marx’



 

Na semana passada tivem ocasiom de desfrutar, por duas vezes, o filme do realizador haitiano Raoul Peck, sobre a etapa de formaçom de Karl Marx como militante e intelectual, até a publicaçom do seu Manifesto Comunista: O jovem Marx.

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Resolvim vê-lo sem esperar à sua eventual estreia nos cinemas da Galiza por dous motivos: primeiro, porque visto o silenciamento geral da obra, receio que poda acabar por nom ser exibida comercialmente nas salas galegas; e segundo, porque a internet ainda nos permite assistir qualquer obra cinematográfica na nossa língua, desde que desrespeitemos as normas do mercado sobre monopólio intelectual, o que sempre fago com o máximo prazer.

Há muitos argumentos, tanto estéticos como políticos, para recomendar assistir este filme. Eu vou expor brevemente só meia dúzia deles.

Primeiro, porque sendo raríssimo umha grande produçom cinematográfica ser dedicada a umha figura como Karl Marx, ainda é mais rara umha aproximaçom favorável e nom tendenciosa a quem sem dúvida foi o maior cientista social da história contemporánea. Marx é umha dessas poucas figuras indigeríveis para a ideologia dominante; daí a dificuldade de umha difusom massiva do seu verdadeiro significado.

Segundo, porque, contra as tendências habituais no cinema comercial de cunho biográfico, este Jovem Marx nom idealiza o fundador do socialismo científico. Ao invés, traz-nos umha série de personagens (Marx, Engels, Jenny von Westphalen, Mary Burns, Proudhon, Bakunin…) apresentadas como pessoas comuns: militantes e intelectuais em simultáneo, submetidos às mesmas pressons policiais, fraquezas e limitaçons que ainda sofre qualquer ativista da esquerda revolucionária atual.

Terceiro, porque a narraçom nom perde nem um pouco do rigor exigível quanto à macro-história dos anos prévios às revoluçons de 1848, em que se desenvolveu a atividade dos jovens Marx e Engels, nem sobre a intra-história dessa atividade particular e dos grupos políticos que comparecem no ecrám. Assistimos ao episódio inicial do ‘roubo de lenha’, como parte da chamada acumulaçom originária, que ajudou a formar a consciência política de Marx; às pugnas entre utopistas e comunistas no seio da Liga dos Justos até a sua transformaçom em Liga dos Comunistas; aos sonhos e sacrifícios por trás da construçom de um fraco movimento operário internacional; à repressom como ferramenta permanente da burguesia contra a nova classe ascendente: o proletariado.

Quarto, porque as duas horas de duraçom do filme conseguem manter a nossa atençom, graças à perícia narrativa e à beleza formal; mas também nos introduzem no processo de tomada de consciência de Marx, desde a sua etapa de rutura com os jovens hegelianos até a plena maturidade como teórico comunista. E todo isso indo além das citaçons e mistificaçons habituais que se seguírom à sua consagraçom histórica, bem posterior à sua morte. Um Marx radical e racional, convicto da necessidade de acompanhar o ativismo com a formaçom científica de umha teoria para a compreensom do capitalismo, imprescindível para a sua superaçom através da luita revolucionária.

Quinto, porque a quebra dos mitos inclui a apresentaçom de um papel ativo das mulheres protagonistas, contra a visom cinematográfica dominante da mulher passiva e também contra a invisibilizaçom das duas coprotagonistas da história concreta retratada no filme:

— Jenny von Westphalen, companheira de Marx, jovem de umha família da burguesia financeira germana, que deixa as comodidades para ir à atividade revolucionária. Num diálogo com Engels, ela proclama, com firmeza: “Sem revolta, nom há felicidade” … “eu espero muito em breve ver este velho mundo ruir!”.

— Mary Burns, operária irlandesa despedida de umha das fábricas têxteis do pai de Friedrich Engels em Londres, ativista revolucionária que, num diálogo imperdível com Jenny, deixa de pernas para o ar as convençons patriarco-burguesas dominantes na época, ao explicar os termos da sua relaçom afetiva livre com Engels.

Ambas participam tanto do ativismo prático como das discussons e elaboraçons teóricas do movimento revolucionário, incluindo a redaçom do Manifesto Comunista.

E sexto, porque havendo muitos motivos para recomendar este filme, o que mais me impactou foi a plena identificaçom que, como expetador e militante galego do século XXI, experimentei em relaçom às dificuldades, misérias, incompreensons e necessidades que já caracterizavam a militáncia na minoritária esquerda revolucionária no seculo XIX.

Com as grandes diferenças entre aquela sociedade e a nossa, as determinaçons fundamentais derivadas do domínio do capital contra quem produz a riqueza som as mesmas. Também os desafios que a classe trabalhadora enfrenta, incluindo a superaçom do reformismo e das diversas versons idealistas que, com melhores ou piores intençons, ainda hoje mantenhem a esquerda longe da liderança necessária para a derrota do capital.

Maurício Castro Lopes

Maurício Castro Lopes

(Ferrol, Galiza, 1970), é docente de Português na Escola Oficial de Idiomas de Ferrol, autor ou co-autor de obras divulgativas como a História da Galiza em Banda Desenhada (1995), Manual de Iniciaçom à Língua Galega (1998), Manual Galego de Língua e Estilo (2007) ou Galiza Vencerá! (2009). Participante no grupo promotor do primeiro Centro Social reintegracionista em defesa do galego, aberto pola Fundaçom Artábria em Ferrol no ano 98 e em 2010 co-fundador do portal informativo Diário Liberdade. Desde 2017, membro da Comissom Lingüística da AEG (Associaçom de Estudos Galegos).
Maurício Castro Lopes

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