RODÍZIO DE LÍNGUA

O segredo brasileiro da Marola



No nordeste do Brasil, no estado de Pernambuco, há umha ilha chamada Itamaracá conhecida polas suas lindas praias e por abrigar o forte Orange, construído durante o domínio holandês da regiom. Apesar da colonizaçom portuguesa e holandesa, Itamaracá conserva o nome que os povos originários dêrom a este pedaço de mundo. Itamaracá é topónimo de origem tupi e como tantos outros espalhados polo Brasil, contém o elemento ITA que significa pedra. Venhem-me à tona nomes de lugar como Itapuã, praia soteropolitana cantada por Vinícius de Moraes e Toquinho que significa pedra redonda, ou Itabira, pátria pequena do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. Itamaracá, seria pois ITA pedra e MARACÁ chocalho, étimo do famoso instrumento musical latino-caribenho maracas. Esta é a proposta etimológica de Marcos Bagno e Orlene Lúcia S. Carvalho no livro Poporaca, pipoca, paca e outras palavras domar2 tupi e cujo significado remeteria ao som que fai o mar ao bater contra os arrecifes da ilha.

Bem longe dali fica a nom menos cativante ilhota da Marola. A Marola é um leixom do concelho de Oleiros temido polos marujos da comarca das Marinhas pola bravura das ondas. “Quem passou a Marola passou a mare toda”, ecoam, a bombordo e estibordo, as tabernas e ruelas da cidade-barco da Corunha. O talassónimo Marola é sem dúvida de origem galego-portuguesa, formado polo lexema MAR e o sufixo -OLA. O dicionário da Academia das Ciências de Lisboa nom regista o vocábulo mas sim, curiosamente, o brasileiro Houaiss e o galego Estraviz, com a acepçom de agitaçom da água do mar ou, num sentido figurado, como agitaçom, alvoroço. Além deste verbete, marola é gíria comum no suleste brasileiro para se referir à fumaça de um cigarro de maconha.mar3 Eu acredito enxergar neste jergom carioca umha criativa metáfora marinheira galego-brasileira. Se calhar, ao igual que as tribos tupis nomeárom a ilha de Itamaracá polo som do mar ao bater nas rochas os marinheiros ártabros batizárom este rochedo medonho de Marola nom apenas polas bravas águas da zona senom também pola fumaça das vagas do mar ao esbarrar contra o mítico ilhote.

“O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito”, cantou o baiano Dorival Caymmi. E é que ouvir as ondas musicais de Itamaracá e sentir a fumaça nevoenta da Marola é, com certeza, bem bonito!

 

* Texto originalmente publicado no Blogue da AEG, 26,01,2018.

Diego Bernal

Diego Bernal

Diego Bernal nasceu em Lugo em 1982. Licenciado em filologia galega pola Universidade da Corunha iniciou a sua carreira dando aulas de galego na EOI Jesus Maestro de Madrid, foi leitor da Junta da Galiza na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, professor de espanhol no ISEG da Universidade de Lisboa e professor de português nas EOI de Plasencia e de Montijo, na Estremadura. Atualmente mora no Brasil onde trabalha como professor na Universidade Federal de Viçosa.
Diego Bernal

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  • abanhos

    texto bem gostoso e interessante