ABRAIANTE

Saudinha!



Ainda que nom o pareça, sou médico. Sim, de verdade, nom estou a brincar. Figem Medicina em Santiago de Compostela, e tenho o título assinado polo Rei de Espanha e tudo. Pobre reizinho, aí todo o dia a assinar diplomas, deve ter a mão mais dolorida que um adolescente em pleno apogeu do seu despertar sexual. Enfim, nom era de reis e de masturbações do que vos queria falar, que me enredades!

O caso é que durante as minhas práticas no hospital, alá no ano 2010, um velhinho despediu-se de mim usando a expressom Saudinha!. Adorei tanto que mesmo dei aviso no Twitter de que daí em diante ia incorporá-la à minha fala. E meu dito, meu feito. Converteu-se na minha fórmula de despedida padrom, a minha assinatura léxica ao final das mensagens escritas por mim. Mas assim como essa palavrinha chegou a mim, quero partilhá-la com toda a gente, difundi-la, e quem sabe se algum dia chega a estar na moda.

Saudinha, obviamente, é o diminutivo de saúde. Mas se despedir-se com um Saúde! soa formal, mesmo litúrgico. O diminutivo dá-lhe umha familiaridade especial. Tem esse aquele tam galego que dá o sufixo -inho, capaz de converter a cabeça em cabecinha e o sentido em sentidinho. Porque ter saúde é fundamental na vida, mas ter saudinha fai a vida melhor.

Ainda que nom é comum que os dicionários indexem diminutivos, a tal palavrinha aparece em dicionários galegos como o Estraviz ou… oh, surpresa, também em dicionários portugueses e brasileiros, como o Priberam. E nom é cousa moderna, madia leva, que leva aparecendo em dicionários da nossa língua como mínimo desde o de Marcial Valladares, do ano 1884.

Ah! E como último apontamento, a pronúncia mantém o mesmo hiato que saúde. É dizer, é pronunciado sa·u·di·nha, quatro sílabas. Nom é como a palavra saudita (Arábia Saudita), que tem apenas três sílabas, sau·di·ta. Como bem explicam no Ciberdúvidas, para casos como estes se calhar até era bom usar a diérese para aclarar a pronúncia (saüdinha). Mas agora que por causa do Acordo Ortográfico a tendência é a desterrar esse sinal, nom vamos andar a complicar ainda mais a ortografia, ou?

Entom, agora que já vos contei todo o que tinha a dizer sobre a palavrinha, adivinhades como é que vou despedir este texto? Pois é, vai ter o final previsível, que tampouco é questom de fazer agora um plot twist.

Saudinha!

Jon Amil

Jon Amil

Jon Amil (Vigo, 1988) é um célebre escritor galego. As suas obras som geralmente distribuídas em formato post-it de maneira manuscrita, com desigual acolhida. Assim, relatos como "Deixo-che aqui os 10€ que che devia" fôrom bem recebidos, enquanto outros como "Mamã, saim com os meus amigos. Chegarei tarde. Nom esperes desperta", resultárom amplamente criticados. Atualmente deu o salto às novas tecnologias e as suas últimas obras, como "Merda! Gastou-se o butano e tivem que me duchar com água fria!", podem ser consultadas através do Twitter.
Jon Amil

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  • Heitor Rodal

    Muito bom, Jon. Curioso contudo esse pendor nosso cara às cousas pequeninhas.

    Saudaça! 😉

    • abanhos

      concordo

  • Joám Lopes Facal

    Sodoutor, a dose de humor administrado e o bom ouvido clínico para a fala popular é um tratamento infalível ; )

  • Ernesto V. Souza

    Pois eu diria que sim pareces, sempre houve médicos humanistas e médicos galeguistas… todos com grande sentido do humor… 😉