MAR DE FORA

Saudade e lares viais



 

“… e sempre excede a vida”

Polissemia é voz grega da que muito gosto. Tenho prazer em observar o dinamismo do significado, a extensão, a redução, a transferência, e outros fenómenos que observa a semântica. Como no verbo criador de Cícero, o desvio do arado a sair do sulco, imagem da palavra para a loucura que chegou a nós em delírio. A metáfora persiste, e ainda não sendo transparente, é dita. É fácil dizer que uma palavra pode ter vários sentidos, o difícil é observar como essa inconclusão colide com algumas maneiras de pensar a vida coletiva, que também passa, sobretudo passa, por aquilo que fazemos com as falas. E assim nesta indeterminação do significado muitos vem imperfeição e dai a interminável lista de utopias linguísticas que descreveu Umberto Eco no seu À procura da língua perfeita, utopias movidas em grande medida pelo intuito de fixar o sentido das palavras que de voz em voz se entregam. Há a propriedade no uso das palavras, sem o qual as ciências que usamos não têm arquitetura, mas também há esse inacabamento sem o qual não sei onde tem o suporte a liberdade individual e o clarão de cada existência. Na palavra concórdia, deusa entre os romanos, ficou a marca de que o entendimento passa pelo coração e não pela língua. Já a homonímia, à que só os poetas e os publicistas parecem dar valor, é uma ponte mágica entre palavras de significados diferentes. Eu da magia vou precisando do pensamento da continuidade e a simpatia. Com frequência volto à leitura de Agudeza y arte de ingenio de Gracián e a sua ideia de “conceto”, pelo gosto e a curiosidade de explorar os espaços intermédios entre os dizeres e os pensares da poética barroca, esgotada como sinto a via de pensar o signo pela sua arbitrariedade, como nos ensinou Ferdinand de Saussure. Como poeta dou-me licença para usar o que sobra do pensamento, aquilo que excede a lógica e arde ou ecoa ou brilha ou nos olha. Animal selvagem que é, o pensamento poético, como os gatos, gosta de experimentar os benefícios das mínimas mudanças, como uma almofada fora do lugar, uma caixa esquecida ou um cobertor amarrotado, e sobre todos eles dormir, sonhar talvez. Como à sereia daquele filme americano dos anos 80, excede-me a cauda na banheira do pensamento lógico.

Sirva este prólogo para começar uma reflexão sobre uma palavra que nos excedeu, a saudade, como herdada casa assombrada que não queremos habitar, de tantos ecos que não queremos ouvir. E herdamos língua e casa não só como gramática de flexão nominal e verbal, como se não fosse pouco com as suas vogais abertas, o infinitivo pessoal e o dativo de solidariedade, mas sobretudo como repertório de palavras para a vida interior e para a vida social, com todas essas metáforas, perceções e imaginações fossilizadas. A palavra saudade está tão gasta entre os galegos que até a evitamos. Mais uma imagem do espelho deformante que, como um feitiço de conto infantil, nos encerra pensamento, ação e alegria. A boa nova é que há mais língua para além do território das quatro províncias que delimitou Javier de Burgos e do pensamento encaixado e encaixante que nos produziu como identidade limitada e limitante nas últimas décadas. O apaixonante para quem transita pela língua dita portuguesa é perceber como os significados da palavra saudade, como de tantas outras, estão organicamente espalhados no mundo sem que eu consiga descrever que genealogia está nesta continuidade entre a “Sodade” de Cesárea Évora e a evocação da saudade criadora do longo poema de Cabanillas Na noite estrelecida. As genealogias na história não se dão num único momento e num único sentido, sentido físico e sentido teleológico, como as narrativas colonialistas nos habituam a pensar. O mar anda que desanda e anda que desaparece, como diz a canção galega. E assim são as genealogias do significado e os seus sentidos num espaço linguístico feito pela contiguidade do mar e a descontinuidade da terra.

Já tenho invocado, penso que quase no significado mediúnico do termo, a presença de Otero Pedrayo nestas crónicas que escrevo desde Lisboa. A sua alegoria dos caminhos da vida é uma das que tenho mais presentes quando olho para o mundo à minha volta e ela descobre-me contiguidades, semelhanças e, afinal, esse olhar poético do que, apesar dos ventos do prosaísmo deformante, não desisto, não por defesa da irracionalidade, mas por exercício ético consciente de escolher a compaixão antes da classificação, porque tenho a convicção de que há uma continuidade no subjetivo humano que nos universaliza. Desta errância dos nomes espero que eles tragam o que levam, memória da nossa humanidade, “proteica y múltiple, ubicua y cambiante”, como diz da realidade aquele maravilhoso começo do romance de José Asunción Silva De sobremesa. Publicou Otero Pedrayo um artigo nas atas do I congresso nacional de Filosofia celebrado no Porto em 1955 chamado “Filosofia e saudade”, em que faz um exercício do dizer que espelha a sua visão orgânica do pensar “com a energia inteira do espírito”, sem hierarquias entre matéria, emoção e razão. Otero, com esse verbo belo que não separa o dizer do pensar, tem uma expressão que se fixa na memória: “a saudade vigia”. Depois de lhe dar tantas voltas à frase não sei se “vigia” é gramaticalmente um nome ou um verbo. O termo traz-me logo o pensamento do filólogo Eugenio Coseriu, com aquela diferença que fazia entre a língua como ergon, essa arquitetura de flexão vertebrada como esqueleto de baleia, e a língua como energeia, esse algo que se mexe em todo o universo expandindo-se desde a matéria das estrelas até à necessidade de comunicar. Dos que pensaram a saudade na Galiza antes de 1936 é evidente a força integradora e organizadora que encontraram no termo e um entendimento da saudade entre o contar e o pensar com o vértice da demanda de um destino humano para além da miséria e o prosaísmo quotidianos. Risco ligou-a ao atlantismo e a uma ideia finalizadora da história coletiva dos galegos, caminho de volta da civilização mediterrânica a escindir o homem da natureza, fim dos exílios e das utopias alienantes do humano concreto. Castelao ligou-a à memória agrária e à cultura comunitária e encontrou na saudade um ângulo transcendente para a contingência histórica da emigração. Plácido Castro à rebeldia contra a tirania dos factos distintiva, segundo ele, dos povos celtas. E do outro ângulo de eles mesmos, Teixeira de Pascoaes, com aqueles suaves versos da dedicatória do seu poema Marânus “à Galiza, terra irmã de Portugal, que a divina saudade transfigura”. Do que se filosofou sobre a saudade depois da Guerra, com o ensaio de Pinheiro no centro, fica-me essa ideia de isolamento, no tempo e no espaço, retirada toda a energia que alguma vez a palavra convocou. Roubaram-nos o sol e o vento e fomos ficando sós.

Mas como também sabemos a manobra dos navios que fundeiam a sotavento duma singradura, tudo o que foi na palavra saudade como numa nau pelo tempo continuou noutros discursos, na narrativa, na lírica e sobretudo na múltipla vida que nos excede, porque há mais marés que marinheiros e mais vida que pensamento. Dizem os que investigam sobre a antiga religião galaica que são distintivos da Gallaecia os Lares Viais. As cruzes de pedra das encruzilhadas, os petos de ânimas, os amilhadoiros, variados santos, como o santo Amaro, cavaleiro buscador do paraíso, dito em Lisboa “dos galegos”, que nesta cidade tem ermida, são signos contínuos e renovados dessa visão do mundo em trânsito que sacraliza o espaço do caminho e abre o sentido da casa. E tem sentido ainda tem medir a distância como destino. Essa consciência dos intervalos é uma energia que me move e não me divide entre a poeta e a cidadã. E se é assim, se toda a terra é dos homens, se a casa do humano é trânsito, não longe da ideia de ecúmene dos gregos, de onde vem esta sujeição à lógica territorial das quatro províncias? Da língua que herdei pelos tempos recolho este pensar-se em rede dos lares viais que fazem do caminho a casa, a expansão, o movimento, a demanda, o desejo ou qualquer outro dos contínuos ecos no tempo desta necessidade de sermos, nesta vida que continuadamente descontinuamos no ciclo que com cada um começa, nesta língua que não nos cabe e nos excede como o oceano que nos entra em marés pela terra adentro e os rios acima, neste sonho que nos arde como luz de farol que construímos de sermos humanos como e com a natureza, em tudo e nas partes, sem medo aos limites da sintaxe em particípios ativos que não são fósseis da gramática que já não somos mas areia da praia no vento a brilhar pois é na metáfora que compreendemos para quê a língua se não para sair de nós e a nós voltar.

E ainda há a história de amor que nos vive na extensão do mundo que nos vê e não vemos. De todas as sombras da língua que assombramos sem consciência, nenhuma tão larga como a saudade dos amantes separados, a conspiração dos séculos a cercar a liberdade interior neste mundo prosaico, a saudade que se espelha em metáforas da vida encerrada, do cerco às emoções e aos desejos. A saudade é o que os amantes sabem, que não há tu-eu mas espaço sem distância e o vento sagrado do desejo que nos zoa por dentro. A omnipresença das relações de poder na vida coletiva galega deixa pouca margem de fantasia sobre o Outro. Pouco desejo, pouco eros de asas abertas, demasiada palavra para marcar posição. O discurso público galego é predominantemente reativo e deriva num reajustarmos constantemente a imagem que temos de nós próprios em contínuos discursos identitários que funcionam para legitimar a nossa existência, evitando ser aquilo que se diz de nós como se fôssemos um todo indiferenciado. Como quem está a perder a frequência de um canal de rádio e está pendente do sintonizador sem poder perceber a mensagem do canal. E não temos consciência do marco semântico da carência que limita os discursos e tolhe as emoções do dia a dia quando temos uma história cultural tão saturada de referências ao ir além e a um mundo organizado em pluralidade de centros. Sem vontade de definir, com puro fluir dos sentidos, a saudade é a energia da busca do outro lado, dos tempos outros, dos espaços outros, dos outros. Ou no reverso da história do divide e impera dos impérios, a tal rebeldia contra os factos de que falava Plácido Castro, um ponto de apoio para o caminho de volta das separações impostas pelo poder, o amor como a grande força oceânica envolvendo a cidade para sempre assulagada, a amante da ilha que morre para a beleza que há de vir do além na onda que a cerca. Pouco importa perder-se. “Todos os rumos, todos os navios, levam-me ao grande rio a renascer”. Pode ser que nas voltas encontremos a casa em Chachahuí que descobriu Avilês de Taramancos, para estarmos ao pé dum deus antigo, amigo do sol, num tempo outro também nosso. Há anos compreendi porquê o meu avô emigrou à América. Compreendi, porque eu também invoquei alguma terra longe para ser o que me transita e não encontra. Pouco importa perder-se, pouco importam as traves de madeira de carvalho ou de osso de baleia que sustentam a casa. Importa a floresta e o mar que as trouxeram e me são e me fazem. Sou se longe. Importa é estarmos vivos.

 

Maria Dovigo

Maria Dovigo

Nasci na Crunha em 1972 e vivo desde 2000 em Portugal. A minha formação é a Filologia, exerço a docência e sou poeta por vocação. No labor criativo ligo a minha vontade de intervenção cívica com a convicção de que a criação é a verdadeira natureza do ser humano. Colaboro com diferentes associações do espaço lusófono, tecendo redes de afetos e projetos à volta da vivência da língua portuguesa. Sou académica de número da Academia Galega da Língua Portuguesa.
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  • abanhos

    que bem escreves, que delícia ler-te Maria, que prazer. Tu faz o mundo melhor e mais luminoso