ALDEIAS DE ORDES

A saudade do fundador



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Muitas quenlhas e quenlhos há na microtoponímia ordense, e mesmo umha que deu nome à contra-concelharia de cultura da Pontraga, a Asociación Cultural “Brisas do Quenllo”. Temos a Quenlha de Santaia de Gorgulhos, a Quenlha Grande em Lesta, a Quenlha da Ermida em Benza; um Quenlhas em Neám, dous o Quenlho, um em Visantonha e outro em Vila Maior (numha pequena elevaçom de 392 m)[1]. Esta palabra quenlha ou quelha, diz Moralejo Lasso que procede da latina canalícula, em alusom a umha canle de rego[2], e em toda lógica originou inúmeros microtopónimos na nossa paisagem fortemente conformada polas maos das labregas e labregos. Outro microtopónimo, a Quenlha de Cales, na freguesia de Berreio, deve ser umha tautologia (repite o mesmo significado da duas maneiras distintas), porquanto a palavra comum “cales”, já perdida na fala, também procede do latino canalis ‘gabia, conduto e água’, igual que “canal” e “canle”. Todas elas procedem, por sua vez, do latim canna ‘cana’. Outras hipóteses para os topónimos Cales som a de provirem dumha base préindoeuropeia kal ‘cumio’, citada por Hubschmid, ou a dada por Cabeza Quiles desde o latino callis, ‘senda, caminho’.

Quenlla de Guimbra

Contudo, de todas as quenlhas que temos a mais chamativa é a Quenlha de Guimbra, monte dumha altura de 393 m. situado pertinho da igreja de Traço[3]. Guimbra é topónimo bem frequente também no Norte de Portugal, e os estudosos do país irmao hesitam entre considerá-lo um resultante do antropónimo germánico Wimara (origem dos topónimos Guimarães, Guimaráns e Guimarás) ou um topónimo pré-romano, dependendo a dúvida só de se o dito nome pessoal se acentua na primeira sílaba ou nom, pois foneticamente Wimara só pode devir Guimbra de se acentuar assim. Para o caso de ser certa a hipótese pré-romana, Almeida sanala a possível presença em Guimbra dumha partícula –ara de significado hoje desconhecido, que também estaria em “cántara”, “gándara”, “Távara” ou “Támara”[4], já sinalada por Hubschmid e, para o caso galego, por Moralejo Lasso, quem também indica “Bracara” ou “Láncara”[5].

J. M. Piel, por sua parte, mudou de opiniom várias vezes. Primeiro (em Os nomes germánicos na toponímia portuguesa) admite a acentuaçom de Vimara na primeira sílaba, mas num artigo duns anos depois mostra reticências para logo no mesmo texto, numha nota final, remitir para um artigo convincente do P. Domingos A. Moreira defendendo a dita acentuaçom esdrúxula da palabra. Seja como for, o antropónimo em questom, escrito Wimara, Uimara, Wimara ou Guimara, é “um antiquíssimo nome pessoal visigodo” que nom se acha completamente compreendido. Poderia ser um composto de *Wi-mara ou de *Wim-ara, ficando sempre sem explicaçom o primeiro elemento. O segundo seria, caso de –mara, o gótico marha ‘cavalo de batalha’; e caso de –ara, ara ‘águia’[6].

Vímara Peres é umha figura tam imprescindível da história de Portugal quanto ignorada na Galiza, embora ter-se por natural da Corunha. O célebre “presor” estendeu em tempos de Afonso III o territorium portucalense, entom ainda sem independizar da Galiza, às cidades de Braga, Lamego, Viseu e Coímbra. Na Sé do Porto pode-se visitar umha escultura dele em posse épica a olhar para o horizonte, quem sabe se esculcando, saudoso, a sua quenlha de Traço…

NOTAS

[1] As que aparecem na cartografia do IGN, de certo haverá muitíssimas mais.

[2] Abelardo Moralejo Lasso, Toponimia gallega y leonesa, Santiago de Compostela, Pico Sacro, 1977, p. 102.

[3] Folha 69-IV da cartografia do IGN.

[4] Almeida, 1999, pp. 373-374.

[5] Moralejo, op. cit., pp. 30-31, n. 20.

[6] Joseph-Maria Piel, “Perfil historico-lingüístico do nome Uimara”, Estudos de lingüística histórica galego-portuguesa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1989, pp. 95-99. O artigo citado do P. Domingos A. Moreira é “Sobre o antropónimo Vímara”, Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, vol. XXXI, 1968, fasc. 1-2.

Quenlla de Cales

Quenlla da Ermida

Rua A Quenlha, do Mesom do Vento cara a Cerzeda, em Ordes
Rua A Quenlha, do Mesom do Vento cara a Cerzeda, em Ordes

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
Carlos C. Varela

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