Santiago Quiroga: “Quanto menor é a idade, maior é o grau de espanholizaçom das crianças”



santiago-quiroga-01Santiago Quiroga García é professor de primária em Boqueixom e tem notícias desalentadoras a respeito da transmissom linguística.

É um ativista da escola Semente que visualiza como um percurso vital nom apenas das crianças como também dos adultos.

Ver o presidente da Agal vestido de pastorzinho foi um momento sem retorno na sua vida.

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Santiago tem um perfil relativamente comum no ativismo linguístico. Filho de pais galego-falantes que nom lhe transmitiram a língua. Pola tua experiência docente em primária numha vila como Boqueixom, essa atitude achas que tem vindo a aumentar ou, polo contrário, está a recuar?

No ano académico 2015-16, a Equipa de Normalizaçom e Dinamizaçom da Lingua Galega, da qual formava parte, realizou um estudo de usos linguísticos que reflete, num ámbito vilego e rural, a tendência geral que está a sofrer a nossa língua: a sua substituiçom acelerada polo espanhol. Em palavras de Herrero Valeiro, a política linguística eutanásica da era Fraga deu lugar a umha versom homicida, esta vez dirigida pola administraçom colonial do presidente Feijoo.

Do inquérito realizado, tiramos duas ideias de interesse: a primeira é que quanto menor é a idade, maior é o grau de espanholizaçom das crianças; a segunda é que, mesmo quando as famílias fazem um uso maioritário do galego, nom conseguem transmitir a língua às suas meninas/os, tal e como o nosso povo figera durante cinco séculos de inacabada doma e castraçom.

Diante desta paisagem devastadora, há quem se laia da ineficácia das políticas linguísticas sem considerar que som, em realidade, o êxito dum projeto político supremacista que tenta por todos os meios a liquidaçom das bases materiais e imateriais que alicerçam o projeto nacional galego.

É comum entre certo galeguismo umha visom romântica do rural galego como uma ilha onde transmissom intergeracional se mantém. Existem ilhas no séc. XXI?

As ilhas mentais existem, mas a realidade é bem diferente. Os três espaços ou meios fundamentais de socializaçom das crianças som: a escola, a família e as amizades, assim como as tecnologias da informaçom e da comunicaçom. Cumpre, portanto, analisar cada um destes âmbitos.

Historicamente e, de umha focagem foucaultiana, o objetivo das instituiçons educativas estatais tem sido, por umha parte, acabar com a educaçom comunitária nom escolar e por outra, substitui-la por um aparelho ideológico que permitisse a transmissom dum arbítrio cultural feito à medida dos interesses das elites políticas e económicas, afastando as crianças dos seus núcleos comunitários mediante o seu encerro a tempo parcial ou total, como no caso das escolas lar. O objetivo governamental era e segue a ser claro: forjar um habitus, é dizer, um “adn cultural” nas crianças descendentes daquelas labregas ingovernáveis -que luitaram pola defesa do monte comunal e dos seus direitos históricos- para transformá-las em operárias eficientes e cidadás submissas. Para atingir este objetivo, foi precisa a aplicaçom de diferentes graus de violência, sendo esta proporcional à distancia entre a dotaçom cultural da família e a inoculada na escola, como tem assinalado Bourdieu.

À minha avó arrancavam as palavras galegas da boca maçando-lhe na cabeça com umha vara; ao meu pai punham um anel, a modo de estigma, quando se despistava e falava galego no Seminário; e com a minha geraçom, foi suficiente a violência simbólica com que os manuais escolares transmitiam os princípios da cultura capitalista, urbana e espanhola que negava ou, no melhor dos casos, estigmatizava a nossa realidade histórica, política, cultural e económica. As vítimas e os vitimários mudam, mas os seus efeitos perduram no tempo e som bem conhecidos por todas nós: auto-ódio.

Na última década, assistimos a umha agressiva reformulaçom deste projeto histórico anti-galego que começa com a derogaçom do Decreto 124/2007 que introduzira a oferta pré-escolar em galego e como mínimo 50 % de ensino na nossa língua para todos os ciclos educativos, sendo substituído polo Decreto 79/2010, que limita a um máximo de 50 % o número de cadeiras a lecionar em galego, chegando apenas a 33% nalguns centros “plurilingues”.

Às vezes, umha frase explica melhor a realidade do que o fazem os dados; o ministro Wert explicou em sede parlamentar que o objetivo da LOMCE era espanholizar às crianças catalás. Nom será isso o que tenhem feito, durante muito tempo, com as crianças galegas?

A respeito do ámbito familiar, o processo de substituiçom linguística do galego polo espanhol continua a avançar dum jeito sustentável e continuo, por mor da perda de transmissom intergeracional e intrageracional. Já existem crianças que nom percebem os alouminhos dos seus avós por serem em galego. Qual vai ser a próxima medida em política linguística do Governo Feijoo: um serviço de traduçom para que as famílias podam comunicar em galego?

Por último, nos últimos tempos, tem aumentado muito a exposiçom das meninas/os aos conteúdos audiovisuais e interativos através da televisom, dos telemóveis e doutros dispositivos eletrónicos. Esta realidade, em princípio, nom suporia nenhum problema, no plano linguístico, se nom fosse porque quase a totalidade dos conteúdos a que acedem as famílias galegas estám em espanhol, já que os resultados obtidos em galego autonómico som paupérrimos. É portanto demonstrável que o código ortográfico autonómico para o galego é disfuncional e prejudicial para a reproduçom social da nossa língua, exercendo de véu que impossibilita a umha boa parte do nosso povo tirar proveito das potencialidades das outras variedades do nosso diassistema linguístico, tais como as afro-luso-brasileiras.

Um debate infelizmente incipiente no ativismo linguístico (incluo aqui as equipas institucionais de dinamizaçom linguística) é a necessidade, ou nom, de implementar vias linguísticas no ensino ao modo basco e valenciano. Qual a tua visom ao respeito como docente?

O modelo atual é um fracasso para o exercício dos nossos direitos linguísticos como povo, pois o galego esta a receber o trato institucional próprio duma língua estrangeira. Um estudo da “Mesa pola Normalización Linguística” intitulado: “a lingua galega na educaçom infantil de Galiza de 3 a 6 anos” para o ano académico 2016-17 assinala que 76 % dos centros realizam o primeiro ensino maioritária ou exclusivamente em espanhol, fronte a 19 % que manifesta tentar equiparar o uso de ambas as línguas.

Frente a esta política etnocida, a imersom linguística é a única via que pode garantir a transmissom intergeracional da nossa língua. Os modelos de imersom linguística basco e catalám tenhem demonstrado que, além de garantir a plena competência nos seus respetivos idiomas, também o fazem com mais qualidade em segundas e terceiras línguas como o inglês ou o espanhol.

Santiago colabora intensamente com o projeto Semente de Lugo. Que tem mudado desde que o projeto Semente existe?

O projeto semente representa a possibilidade de construirmos coletivamente espaços educativos em galego, abertos à comunidade, onde as crianças medram sendo respeitadas nos seus interesses, ritmos e necessidades.

Desde que abrimos as portas, forjamos umha comunidade de pessoas que deu o melhor de si própria para proporcionar um serviço educativo de qualidade que sirva de modelo para outras cidades ou vilas em que ainda nom existe. A Semente muda o percurso vital das crianças, mas também o das adultas porque nos compromete na construçom dum futuro cheio de amor e esperança para o nosso país.

Com 18 anos começas a falar galego. Que alterações houvo no teu dia a dia?

Quando comecei a falar e a profundar mais no estudo do galego, aprendi duas línguas: galego e espanhol, pois até o momento misturava-as sem ter consciência de o fazer.

A língua também foi importante num nível político porque é um dos elementos de identificaçom coletiva mais importantes que possuímos como povo.

No pessoal, a mudança de idioma causara umha certa incredulidade e incompreensom entre as amizades que naquela altura eram maioritariamente monolingues em espanhol.

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E em que medida a realidade linguística, e não só, deu uma reviravolta ao contactares com o lado escuro da norma?

Tempo depois, ao conhecer o reintegracionsimo no C.S. Madia Leva!, na Semente e em organizaçons em defesa e promoçom da língua galega- portuguesa como a AGAL ou a AEG, atopei a soluçom a muitos dos estereótipos que o colonialismo espanhol introduzira nas mentalidades da maioria social galega. A nossa língua, baixo umha olhada reintegracionista, já nom era periférica mas internacional; deixava de estar subordinada à língua que a estava a substituir -o espanhol-; permitia recuperar funçons sociais que na sociedade da informaçom estava a perder; ligava-nos a umha realidade sociocultural que rachava com as artificiais fronteiras do Estado e, além disto, lograva construir umha praxe social performativa ao fazer da língua um campo de batalha que permitia reconstruir a nossa própria história em chave de libertaçom coletiva.

Foi importante neste processo ver o presidente da Agal vestido de pastorzinho? O feixe de luz foi cegador?

Foi importante. Qualquer ideia defendida com humor abre um espaço ao entendimento e dificulta que os preconceitos sejam umha barreira para conhecer opçons mais vantajosas para a nossa língua. Desde que o Eduardo Maragoto me enviou o feixe de luz reintegracionista apenas vejo “nh” onde antes apenas lia “ñ”.

Que vias recomendas para aumentar o contacto com as variedades internacionais da nossa língua entre docentes e alunos/as do sistema de ensino obrigatório?

Até o momento a Lei Valentim Paz Andrade nom se desenvolveu praticamente, portanto fica apelarmos ao voluntarismo do professorado que quiger transmitir os seus conhecimentos de português ao estudantado através do estabelecimento duma cadeira optativa no seu centro. Igualmente, pode ser de interesse o trabalho que façam as Equipas de Normalizaçom e Dinamizaçom Linguística possibilitando um achegamento ao mundo cultural lusófono através de ateliês de aprendizagem da norma reintegracionista, de viagens culturais a Portugal ou doutro tipo de atividades musicais, dramatúrgicas ou cinematográficas em galego-português.

Porém, todas estas medidas serám insuficientes para normalizar a nossa língua se nom houver umha mudança no estatuto social, político e económico da Galiza. Para termos umha educaçom pública galega, livre de ingerências, primeiro teremos que ganhar um país.

Que te motivou a te tornar sócio da Agal. Que esperas da associaçom?

Fazer parte dumha grande comunidade que aspire à normalizaçom da nossa língua, tornando-a hegemónica na Galiza, e à sua plena incorporaçom no ámbito linguístico que lhe corresponde: o afro-luso-brasileiro.

Da associaçom, espero que seja um espaço de aprendizagem coletiva e de difusom dos projetos focados nos interesses da nossa língua e do nosso povo.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2040?

Imagino a integraçom da Galiza na CPLP, o desenvolvimento pleno da Lei Paz Andrade e um povo organizado na defesa dos seus direitos linguísticos e nacionais.

Conhecendo Santiago Quiroga

Um sítio web: mádia leva!

Um invento: a música.

Uma música: Clair de lune, Debussy.

Um livro: Rayuela, de Julio Cortázar.

Um facto histórico: A revolta das Encrobas.

Um prato na mesa: arroz com verduras e cogumelos.

Um desporto: o basquetebol.

Um filme: Terra e liberdade, de Ken Loach.

Uma maravilha: Dormir a sesta.

Além de galego/a: curioso.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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  • Ernesto V. Souza

    Mais uma outra entrevista interessante… afinal e com tudo o que leva chovido e chove – haverá que procurar outra metáfora para o cambio climático 😉 – e ainda resta gente e país.

  • http://pgl.gal Valentim R. Fagim

    Um dos grandes focos, talvez o Foco, do ativismo linguístico na Galiza deve ser a transmissão intergeracional. Se não der, o resto é brincadeira. De resto, um prazer ter sócios na Agal como Santiago.

  • Mário J. Herrero Valeiro

    Sangue novo. Força nova. É bom saber que alguém (te) lê.

  • http://bagoasnachoiva.blogspot.co.uk/ Roi BêNaChoiva

    O projecto Semente é mui louvável, mais é praticamente impossível conseguir respeitar as crianças nos seus “interesses, ritmos e necessidades”. Um simples exemplo: as crianças e adolescentes deveriam acordar a partir das nove ou dez da manhã, o qual é impraticável nesta nossa sociedade, pois os pais tenhem que tomar conta deles ou / e levá-los à escola antes de ir pròs empregos.

    De facto, o sistema precisa “domar“ as crianças, mais esse processo de doutrinaçom começa no seio da própria família. Quando as crianças chegam à escola já estám ”deformadas“ dabondo …

    • Galego da área mindoniense

      Se as crianças acordassem a issa ora, nom teriam moito tempo pra realizar as suas atividades fóra da escola.

  • Eduardo Monteiro

    Infelizmente a extensa maioria dos pais de crianças na GZ fala em castelhano aos seus filhos.

    • Galego da área mindoniense

      Polo menos, segue avendo ũa minoria. Apenas á que ampliá-la.