MAR DE FORA

Santiago é grande



Gaudeat plebs gallecianorum…

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O Largo das Portas do Sol é um miradouro sobre o estuário do Tejo bem conhecido por quem visita a cidade de Lisboa. O dia em que começo as notas de esta crónica o miradouro está cheio de turistas que circulam entre a Baixa, Alfama e o Castelo de São Jorge. Uma regata de grandes veleiros dá há dias um invulgar pano de fundo a este cenário. Os barcos vêm da Crunha e hoje estão de partida para Cádis. Também eu venho espreitar o rio e os movimentos dos barcos desde este ponto, atraída pelo nome do lugar, lógica da poeta que me domina o pensamento, pois tudo o que contenha a palavra sol tem uma irresistível atração para mim. Aqui situada olho em redor, e com esse gosto pela miniatura que me imprimiu a matriz cultural galega que me dá humanidade paro a contemplar esta miniatura da história da cidade contida na pequena quadrícula das ruas que se veem do Largo. A Porta era da chamada “Cerca Moura”, que escavações já deste milénio dizem ser da época romana, quando este território tinha o nome de Olisipo. Esta cerca defendeu a cidade quando os seus naturais a chamavam al-Ushbuna. Daqui vê-se a igreja do mosteiro de São Vicente de Fora, construída para albergar as relíquias de São Vicente que Afonso Henriques mandou trazer do Algarve depois da conquista cristã. Há uns anos andei por lá à procura das relíquias do santo, padroeiro da minha freguesia nativa, São Vicente de Elvinha, onde está o castro e aconteceu a batalha em que ficou ferido de morte o general escocês John Moore, às portas da Crunha. Parece que as relíquias se perderam no terramoto de 1755. Um pouco atrás está o Panteão Nacional, com as cívicas relíquias de uma extensa lista presidentes da república e escritores e também as de Amália Rodrigues e Eusébio.

Há outra razão que me traz hoje aqui, a esta mínima quadrícula da densa história de este território. Hoje é 25 de julho, dia de muita ou qualquer cousa para os galegos, e como não posso estar na carvalheira de São Lourenço ando à procura em estas ruas da igreja de Santiago, que é o mais próximo a Compostela que consigo imaginar agora. Foi em algum 25 de julho em Compostela, cantando já nem lembro o quê na praça da Quintã, sendo eu mocinha a descobrir país, que soube que ser galega também podia ser motivo de festa e alegria. Não me parece pouco se recordo que o que me deu consciência de que eu era galega e da vida de luta que me esperava se como tal me identificava foi a amarga traslação do corpo de Castelão em aquele que já parece tão distante dia 28 de junho de 1984. Tinha eu onze anos e uma mãe que conseguia juntar lógica, rebeldia e emoção em uma única frase. Com ela e a sua raiva de criança do pós-guerra a quem tinham roubado terra e sonhos, assisti à retransmissão do que ia ser, e foi, tão histórico momento pela televisão. Aprendi então que quem decide as relações de poder na Galiza também decide o sentido do simbólico. É um alerta que tenho sempre presente, como um frio na nuca, cada vez que me debruço sobre qualquer questão da cultura na Galiza.santiago03

Depois de algumas voltas chego à igreja de Santiago. Uma placa diz que ali começa o Caminho. Como a igreja está fechada, sento-me nos degraus de uma porta, a beber um pouco de água e repor-me do intenso calor do meio-dia. Passam alguns turistas a caminho do castelo. Falam em inglês, em francês, em italiano, em catalão, em espanhol e em alguma outra língua que não reconheço. Ao longe vê-se o rio e a invulgar estampa dos veleiros. O dono de uma loja de lembranças começa a conversar comigo. É do Bangladesh e como nem ele fala português nem eu bengali, procuramos uma língua em que nos comunicar. No meu inglês “daquela maneira” (em vez de tanto latim, devia ter estudado mais inglês, penso sempre que me vejo nestes casos) começamos a conversar sobre os motivos que nos trouxeram a este lugar. No meu caótico relato vou misturando o nome da Galiza, a sua localização geográfica, a imagem da vieira, e sei lá quantos referentes mais até descobrir algo que seja conhecido também para ele. Estou quase a desistir quando ele me pergunta se afinal o tal Santiago era “um dos doze”. Prescindo da palavra apóstolo e de não sei quantas mais para ir ao encontro do relato do meu interlocutor. Pois é, é um dos doze que, diz a tradição muçulmana, seguiam ao profeta Jesus. Shamum, esse é o nome do meu interlocutor, diz ser suficiente para ele mostrar o seu respeito pelo tal Santiago que está no templo que ele vê todos os dias da porta da sua loja. Em este ponto não consigo decidir se é fácil ou difícil dous seres humanos se comunicarem. Para não esquecer o seu nome, peço-lhe que mo escreva no meu caderno de notas. Escreve-mo no alfabeto latino e no bengali. Shamum oferece-me um café, que aceito de bom grado, e com o café traz-me uma maçã. E com a maçã na mão lá se desperta outra vez este animal selvagem que é o pensamento poético com que convivo desde que tenho memória. Qualquer maçã faz-me pensar no paraíso, na ilha das maçãs na que descansa o rei e toda a honesta beleza dos mitos. De todas as muitas capas com que o nome de este dia está coberto, nada pode apagar que hoje é o dia em que estão abertas as portas do sol, esse antigo signo ritual no calendário da gente que observa admirada os movimentos dos astros e em eles querem ver o seu reflexo. Guardo a maçã, agradeço a Shamum o café e a conversa e pelo sorriso com que acompanhamos as palavras de despedida e boa sorte que para os dous são estrangeiras parece-me compreender porquê sorri o Daniel do Pórtico da Glória. Continuo o meu caminho. Decididamente hoje é um bom dia para sonhar com a Galiza.

Algo assim fez Daniel Castelão em 25 de julho de 1948, também longe da terra, no exílio de Buenos Aires, quando pronunciou o seu discurso “Alva de glória”. Evocava em ele o Pico Sacro, o culto panteísta, o insubornável fundo étnico e, sobretudo, a visão da procissão dos imortais galegos, com Prisciliano à frente. Muito me tem feito pensar esta primazia do Prisciliano heterodoxo, druida e mártir da visão de aquele Castelão que teve tantos momentos de cegueira física na sua vida. Não é difícil ligar o martírio de aquele remoto galaico com o dos companheiros de Daniel no terror que seguiu ao golpe de estado de 1936. Que o discurso fosse escrito por quem sobreviveu à morte de tantos companheiros faz com que, sobre todas as leituras possíveis da “Alva de glória”, resplandeça para mim o testemunho da esperança na vitória da bondade sobre a violência como fio condutor da humana epopeia. A sua vindicação de esses mundos que os mártires criam e que os heróis nem são capazes de imaginar, como deixou escrito no álbum Átila em Galiza, é um exemplo da resistência e da resiliência espiritual do ser humano que foi Daniel. A continuação da citação coloco-a eu em frase interrogativa: na nossa Terra cumprir-se-á a vontade dos mártires? Mártir foi Alexandre Bóveda, mártir foi Prisciliano, mártir o próprio Santiago Zebedeu… Bem diz Castelão que na história não há se não mortos.

Paro no miradouro de Santa Luzia. Ao longe os veleiros navegam pelo Tejo. Por uma grande bandeira mexicana em popa distingo o veleiro Cuauhtémoc que já vi alguma vez na Crunha. A perspetiva de miniatura da humana história em esta quadrícula multiplica-se. Também o Cuauhtémoc que dá nome ao navio foi mártir da conquista do império asteca, capturado por Hernán Cortés depois do longo cerco da cidade de Tenochtitlan, torturado e assassinado, e hoje mito nacional fundacional mexicano. Também morreu violentamente o último bispo moçárabe de Lisboa, a mãos dos cruzados que auxiliaram Afonso Henriques e que tomaram a cidade quando atravessaram esta Porta da Cerca Moura em que comecei as minhas notas. Mas dele, até onde eu pude pesquisar, nem o nome se conserva.

O meu pensamento procura refúgio de tão cruentos episódios no mar de Arouça. A mais persistente imagem que tenho das muitas do santo que dá origem a este dia é a do corpo em uma barca sem velas nem leme a navegar pela ria maior da terra dos galegos. Há anos que tenho curiosidade por todo o ciclo jacobeu. A primeira faísca acendeu-se com a leitura de um ensaio sobre as relações entre a Galiza e os países escandinavos durante a Idade Média chamado Gallaecia scandinavica ao que cheguei pelo interesse que sempre tive nas navegações atlânticas anteriores ao século XV. A exposição “Santiago, caminho de Europa” e a leitura de Santos e barcos de pedra fizeram com que nunca mais perdesse o interesse. Santiago está muito escrito mas ainda assim arrisco a deixar enunciados os assuntos que sempre chamaram o meu interesse em este ciclo entre o mítico e o histórico, por um lado o enorme lapso de tempo que o culto jacobeu permite percorrer na construção cultural de todos os povos do ocidente europeu e por outro a utilidade, com tanta eficácia, que tem tido para estruturar e dar uma perspetiva de transcendência a diferentes projetos políticos, desde Carlos Magno aos militares golpistas de 1936. Admira-me a complexidade de fontes com que se constrói esta narrativa e toda a sua gramática simbólica, algo mais do que o conceito de sincretismo, pois se encontramos elementos das crenças pagãs de território galego, também encontramos um fenómeno cultural semelhante no culto a Santiago entre os povos americanos. O caráter guerreiro da imagem do santo foi mais forte que a sua identificação com os conquistadores que converteram o “mata-mouros” em “mata-índios”. Os povos americanos, que como os galaicos também não viviam no vazio cultural quando os europeus chegaram ao continente, apropriaram-se do santo e fizeram-no seu. Os incas identificaram-no com o deus Illapa, como Santiago deus do trovão, imagem suprema da harmonia do cosmos. Não é o conceito “sincretismo” o que descreve este exemplo de resistência à ordem do império. Por outro lado também despertam a minha curiosidade todas as tensões argumentativas à volta da autenticidade das relíquias e dos ritos da adoração do corpo santo e da peregrinação. Curiosamente, ou não, as grandes reticências à peregrinação a Compostela encontram-se no cristianismo, em parte pelo excesso de “mundanidade” dos peregrinos, oposta à simplicidade evangélica refletida na vida sedentária e no ideal monástico, como espelha a frase de Thomas de Kempis “qui multum peregrinantur, raro sanctificantur” e da que também se fez eco Erasmo de Rotterdam. Pode que também haja uma veia de desconfiança na própria errância e nos povos nómadas e a desaprovação de que uma vida aventureira e alegre possa ser moralmente aceitável. A mulher de Bath dos Contos de Cantuária, cinco vezes viúva, peregrina experimentada que já tinha visitado Jerusalém, Roma, Bolonha, Colónia e, claro, Compostela, é exemplo literário dessa mundanidade que também hoje, 2016, não está ausente das críticas à peregrinação. Há ainda a rejeição do rito do corpo santo, espelhada na lenda de que Francis Drake tivesse como verdadeira motivação o roubo das relíquias quando assediou a cidade da Crunha, por ser Compostela imagem máxima das superstições católicas a Ocidente. Verdade ou não, o temor fez com que o arcebispo São Clemente pusesse a salvo as relíquias, que ficaram assim desaparecidas durante quase trezentos anos. Verdade ou não, o ano de 1589 dividiu a meio a história da cidade da Crunha que no assédio de Drake ficou arrasada. Verdade ou não a raiz da tradição jacobeia, muito custou aos galegos conservar aqueles ossos que estão na cripta da catedral de Compostela.

santiago02A tradição jacobeia é um canal para percorrer o tempo da humanidade vendo o constante entrelaçamento entre o sagrado e o profano. Ter noção do sagrado é ter noção de um centro, como bem dizia Mircea Eliade. Ocupar um território é sacralizar, é alterar a continuidade da ordem natural, essa da que se diz que não dá saltos, para a abertura a outra ordem que a organização humana do mundo permite. Muito se tem debatido na Galiza dentro dos marcos metafóricos do centro e da periferia. Compostela é um centro. Lisboa é outro. Também a Cela Nova do poeta Celso Emílio Ferreiro. Quem descobre um centro não sei se define um limite ou simplesmente um ponto na rede. Penso que também traça uma ideia da magia ou do poder, que nunca andam longe o um do outro. Volto às relíquias e penso nessas linhas da narrativa tão difíceis de analisar entre os poderes profanos e o roubo de corpos santos e objetos mágicos. Como o “pio latrocínio” de Diego Gelmires e seu desejo de uma Compostela politicamente independente de Braga e ainda superior a ela. Como o roubo dos ossos de Daniel Castelão e uma Galiza pacificada e submetida manu militari. A apropriação do ciclo mítico jacobeu pelo projeto político do estado espanhol é um muro que nos afasta da interpretação de um elemento impossível de alienar não só da história cultura galega mas do nosso destino como coletividade. Para isso tinha alertado o professor Carvalho Calero em um artigo publicado em 1983 chamado “Santiago nom cerra Espanha” e que leio em Do galego e da Galiza. No artigo alerta-nos para esse hábito do diferencialismo que não é se não sinal de subalternidade. Esse hábito leva-nos a escolher a imagem do santo caminhante como galego enquanto deixamos o militante como identificador do castelhano quando as duas imagens, a do peregrino e a do cavaleiro são igualmente galegas. É só lembrar a procissão que em 30 de agosto de 1936 passeou as relíquias do santo por Compostela para rogar ao apóstolo uma rápida vitória do exército golpista para que seja compreensível que nem queiramos ouvir falar no assunto. Eu não sinto necessidade de concluir a história, nem de fazer sentenças, mas sim tenho a necessidade de compreender o mundo que herdei e tenho de deixar, na extensão do tempo e do espaço, não para saber a verdade, espalhada em factos, documentos e interpretações, mas para que os homens não se matem entre eles, que já não me parece pouco motivo. Gostava que esta parte do mundo que se diz Europa e que nem se faz nem se defende dentro dos muros que alguns reclamam que se levantem e que nunca existiram se não na imaginação dos impérios que nos separaram e nos enfrentaram com o resto da humana família, fosse mais semelhante àquele manuscrito anónimo de inícios do s. XIII que se escreveu em louvor ou por propaganda ao hospital dos peregrinos de Roncesvalhes e que se costuma conhecer como “Preciosa”. Entre versos que descrevem o hospital como um paraíso terreal de árvores, flores, fontes e frutos em que se cura aos doentes e aos peregrinos, ouço a simplicidade da compaixão em estes versos: “A sua porta está aberta a todos os doentes e aos sãos,/ não só aos católicos, mas também aos pagãos,/ aos judeus, aos hereges, aos ociosos e aos levianos,/ em uma palavra, aos bons e aos profanos”. E que não nos falte a força, pelo signo da hospitalidade que sobre nós tem de brilhar, para deixar aberta esta porta aos homens que sofrem e que entre nós buscam morada. Não aceito outra aristocracia se não a moral que ansiava Viqueira. Eu não vejo no vermelho da cruz de Santiago se não o sangue da vida que graciosamente nos foi dada e que a todos nos ata em natural irmandade. “Sant Iago esbarou para a Galiza como o sangue dentro duma veia…” cantava Dias Castro. Realmente, os poetas contam outra história.

E enquanto penso nisto e naquilo, ainda ando às voltas pelas ruas de Alfama. De volta para a casa paro na Sé, pois tenho o hábito de ver a sereia de um dos capitéis da fachada principal cada vez que por cá passo. Leio de novo a inscrição tirada do salmo bíblico sobre a porta: “in omnem terram exivit sonus”. Um dos grandes nós e mistérios das narrativas históricas é como o ideal ecuménico, de entendimento universal, que espontaneamente qualquer ser humano pode sentir, se converte em tão eficaz instrumento dos impérios para apagar culturas, dominar e explorar os recursos dos povos. A imagem dos “confins da terra” com que continua o salmo de David lembra-me sempre o império romano que deu o nome de Finis Terrae ao cabo dos nérios, deixando-nos o mais latino de todos os nomes da terra da Galiza. Quando o poeta Seamus Heaney recebeu o doutoramento honoris causa na Crunha ofereceu-nos a visão do mais belo ângulo para contemplar o cabo do nosso estremo ocidental. De todos os nomes que ouvia na predição do tempo para os marinheiros do canal de rádio da BBC, contou-nos Heaney, nenhum tinha o encantamento mágico de Biscaia e Fisterra. Heaney repetiu em aquele ato os nomes do litoral atlântico no arco que liga a Galiza e a Irlanda como a “litania das águas sagradas”. Aquela Fisterra dos marinheiros era o confim da terra só para os que falavam a língua do Lácio, mas nunca para os habitantes da ilha do nosso norte. Evocou então ao poeta Amergin como vindo da “primeira terra da nossa imaginação poética”, uma ligação que faz de cada poeta irlandês “um nativo de Fisterra”. Não há fio mais belo que o que tece a história por encantamentos. Do outro lado do mar de Irlanda está o meu porto, o do farol que acompanha os marinheiros. Quando era criança e passeava pelos cais lia maravilhada os nomes escritos nas popas dos barcos, imaginando a extensão do mundo que não se via desde a Crunha: Nassau, Phnom Penh, Panamá, Plymouth, Monrovia… Mal sabia eu que algumas de estas “bandeiras de conveniência” contam as histórias mais ocultas e podres do comércio mundial. Como podia eu imaginar essas rotas pelo meu mar sagrado? Nos olhos de aquela nena do Orçám que eu fui o mundo era uma rosa dos ventos com barcos que iam e vinham e ainda não desisto de esse sonho. Quando ouço o vento a fungar no meio da noite, ainda que esteja em Lisboa, estou no centro de aquela rosa. Nada, mas nada mesmo, cerca aquele vento mágico que me batia na face e me levantava os braços.

Toda essa comunidade cultural que vai da Galiza à Irlanda e mais além, que não passa pelo centro de um império, é invisível e impossível para muitos. Ao fazer a interpretação histórica de Espanha, é lugar comum nunca completamente contestado que a Espanha seria impensável sem o culto jacobeu. Américo Castro até dizia a meados do século XX que sem a referência de Santiago, a Espanha seria uma continuação do norte de África. Mas quer ele quer Claudio Sánchez-Albornoz, os que mais refletiram sobre o fenómeno jacobeu no século XX como estruturante da Espanha cristã, mostram a sua perplexidade porque um fenómeno cultural e político de tal dimensão tivesse assento na Galiza, que “no tuvo significación perceptible bajo los romanos ni en época visigoda”, como diz Américo Castro. Para alguns, e vem sendo a narrativa dominante, não há outra possibilidade cultural se não a que se transmite de império para império, literária e institucionalizada, como se os humanos não fossem sempre mais criativos e inovadores lá onde os centros imperiais não têm domínio, como nas ilhas gregas onde nasceu o pensamento científico e a especulação filosófica. Ou como se não fosse cultura aquela que vai na palavra viva e não escrita que recebemos como o pão na casa familiar. Nunca compreenderão porquê são uns imperialistas fracassados, porque deles só é o braço que executa e a espada que corta e nossa é a cultura que se vai filtrando sem que eles consigam fugir a ela, a cultura da que precisam viver como homens simples entre o mar e o céu. Porque matar é o contrário de dar vida e só quem cria é que vê longe. O oceânico alento sobre a Europa que é o “ultreia” dos peregrinos, corda tensa do desejo, da demanda e da aventura sobre a vida de todos, a concha que tem eco em aquela imagem da Vénus peregrina do poema de Manuel Rivas, convertido pelos Diplomáticos de Monte Alto nos anos 90 na canção “Rainha da Galiza” que gosto de repetir nas soidades do caminho, a visão musical do paraíso no canto dos peregrinos que cantam na variedade das suas línguas e com a diversidade dos instrumentos do povo do que cada um procede que descreve o Liber sancti Iacobi… Quem, se não nós, tem as chaves libertárias para ler esses signos e com eles alegrar-nos como a certa primavera? Que um poeta de outra terra, como o irlandês que foi Seamus Heaney, consiga identificar-se em esta continuidade cultural sem hierarquias, na transmissão cultural e na aliança de povos que não passa por conquistas nem leis escritas, sem marca de poder político, é uma narrativa impossível para quem conta a humana epopeia pela ideologia supremacista dos impérios. Que nos tenham à frente dos olhos, que nem tenhamos que nos ocultar para ser, que a nossa magia possa ser de todos, como diz o verso de Xohana Torres, e não de iniciados, como os ocultistas e secretistas ritos que inventam para garantir, pensam eles, a continuidade que sempre se lhes quebra, é a maior fraqueza dos que querem poder e a maior força dos que nunca o quereremos.

Olhando para todas estas teias feitas e desfeitas dou mais creto à imagem da Galiza como Penélope. Por vezes consigo olhar para a história da Galiza como um catálogo de possibilidades narrativas que se fazem e se desfazem para refazer-se novamente. Eu escolho contar a história pelos astros, esses dos que dizem que não falam, como diz o verso de Rosalia, nas almas como na Via Láctea, nem que seja só para seguir o rasto das metáforas astronómicas, e claro, as do sol, pela humana história. Sulco vai, sulco vem, em esses movimentos oscilatórios em que os caminhos irão trazer algum dia a gente que levaram… quem sabe. Conto-o porque é o sonho mais belo que consigo sonhar. E já não é pouco. Ilumina-se a memória das terras da Galiza, a terra que me deu corpo e sonhos para andar pelo mundo, e depois de tanto anotar lembro como se de história familiar falasse a lenda do reino da rainha Loba, da cidade assulagada de Duio, do altar do sol em Fisterra, do bosque do Libredóm e as suas clareiras e luminárias. Ilumina-se o mar da Barca em Mogia, onde um estrangeiro de nome Jacob chorou desesperado por não ser ouvido, e sinto o perfume salgado do Atlântico que lá vai no vento como um incensário. Ser galego é ter muitos caminhos, mas para mim também é saber onde está o centro em esta humana tragédia da fragmentação e o espalhamento, a esperança de sermos um com a terra, de não estar separados dela, do retorno amado sobre tudo, do fim dos exílios e o regresso à casa, aquela que tem a luzinha no alto da porta em este mundo de confusas portas. É esse sonho fora do tempo em que um dia segue ao outro, uma cena fixa na memória criadora de essa abertura ao paraíso que é a casa própria, arredor de nós, que faz com que me afirme galega e levante a minha esperança em esta longa história dos homens e os seus signos.

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Maria Dovigo

Maria Dovigo

Nasci na Crunha em 1972 e vivo desde 2000 em Portugal. A minha formação é a Filologia, exerço a docência e sou poeta por vocação. No labor criativo ligo a minha vontade de intervenção cívica com a convicção de que a criação é a verdadeira natureza do ser humano. Colaboro com diferentes associações do espaço lusófono, tecendo redes de afetos e projetos à volta da vivência da língua portuguesa. Sou académica de número da Academia Galega da Língua Portuguesa.
Maria Dovigo

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  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Obrigada por este relato de verão, caríssima. Beijinhos e saudades.

  • Alfredo Ferreiro

    Gostei imenso do artigo. Porém, a proeminência medieval galega no religioso e no cultural sim deveu ter correspondência no terreno político e no económico, mas a historiografia espanhola oculta ou não quere ver esta realidade. Em tempos anteriores, o fato de os visigodos do noroeste não serem conquistados pelos norteafricanos e de os romanos terem mantido o nome do país (Kallaikia grega>Gallaecia romana) semelha falar de uma identidade cultural e socioeconómica bem definida desde tempos remotos. Por outro lado, a causa de não conservarmos grandes construções arquitetónicas e documentos anteriores ao latim não temos ainda status de civilização; mas se usarmos outros parâmetros, como a existência do Caminho (simbólico “retorno” à cultura matricial celta?) e a complexa e antiquíssima organização social (castros>paróquias) abrem-se outras hipóteses à hora de encontrar o tesouro guardado dos nossos ancestrais até hoje: o património imaterial. Às vezes, o melhor modo de ocultar algo valioso é pô-lo à vista de todos.

  • Heitor Rodal

    Esplêndido texto, Maria, com tantos e tantos fios entretecidos que é difícil comentar.

    Contudo, por fazer algum contributo direi que pessoalmente já há tempo que acho que o desconhecimento da Cultura, Língua e História próprias é uma das eivas mais graves que padecemos as galegas e galegos, mas ultimamente estou a me decatar de que esse desconhecimento é duplo, na nossa condição de galegos e também de espanhóis (ou no mínimo no quinhão de espanholidade que nos toca) e que em ambas as cousas não nos diferenciamos lá muito do resto de espanhóis, voluntários ou forçados.

    Assim, como se fosse uma maldição eterna, a História da Galiza sempre tem ficado sepultada pola História das Culturas que nela tiveram origem e matriz e às que deu forma ou pola História dos Impérios aos que serviu: da cultura céltica atlântica, passando polo Império romano, polas línguas e reinos medievais peninsulares que criou, até chegar aos primeiros Impérios globais que construirom tanto a Espanha quanto Portugal e onde os galegos participarom – e participam – ativamente tanto num, quanto no outro. E brevemente, sem querer desviar o fio, dizer também que como todos sabemos “se Deus é bom, o demo não é mau” e que muitas culturas e sociedades pretensamente originais ou indígenas tampouco eram menos crueis que aquelas que posteriormente as conquistaram.

    E isso também me leva a me perguntar quem é esse “nós” quando falamos de Nós.

    Sei lá. Talvez, como acho que sugerem os teus textos, a definição de/da galeguidade e dos galegos e galegas, seja lá o que isso for, não possa ser redutível a uma explicação única, mas antes a um complexo caleidoscópio onde se entrecruzam inúmeros fios..

    Abraço.

  • Ângelo Cristóvão

    Parabéns, Maria.
    Por estas linhas de pensamento que estimulam e provocam. Hitórias e relatos, citações e factos, mitos e realidades reais ou inventadas.
    Num mundo mais aberto e diverso parecem mais necessárias as referências, os referentes. O Caminho tem dimensões várias e simultâneas: económica, política e religiosa, e de todas elas pode fazer-se contagem e proveito. A questão é como se orienta e para quem se orienta.
    Se a história da Galiza tivesse sido outra, provavelmente o mito de Santiago teria sido o mito fundacional da nação-estado, com todas contradições que acarreta. Seria ingénuo, e com isto saúdo o comentário de Heitor Rodal, pensar que a crueldade ou a maldade dos estados e dos impérios é sempre dos outros, e que um hipotético estado galego, como continuidade histórica da Gallaecia medieval, teria sido moralmente imaculado. A prova é o Império Português.
    Ângelo C.

  • Joám Lopes Facal

    Auguri, sereia artábrica varada no Mar da Palha!

  • Ernesto V. Souza

    O, Maria… lembras-me tanto os últimos relatos do Ciclo de Terramar da Ursula K. le Guin… tu em realidade não vás encaminhando artigos, escreves uma história da reivindicação da perspectiva… abraços

  • abanhos

    Que maravilha Maria, que prazer, que gosto, que encantamento produz o teu belíssimo texto, adorei.
    A Galiza é universal, na escrita que nos leva pelos pontos cardinais da nossa galecidade na caneta entupida de magia, que tão bem manuseia e controla Maria Dovigo.