CARTAS MEXICAS

Salvar a nossa Língua



“Eu nada faço” deve pensar o devoto instruído na verdade quando vê, ouve, toca, come, anda, dorme, respira, fala, segura ou solta alguma coisa, abre ou fecha os olhos, considerando que “são os sentidos que se relacionam com os objetos sensíveis (…) O devoto que renuncia ao fruto de suas ações consegue a paz eterna. Ao contrário, o homem sem devoção, que fustigado pelo desejo se apega ao fruto de suas obras, mantém-se prisioneiro de seus próprios atos” (Bhagavad Gita)

Normalmente não reparamos em que os fortes dividem, enquanto eles (por interesses escuros comuns) continuam unidos, em este mundo de guerra – concorrência (Divide e venceras). O mesmo fazem com as línguas, as quais eles consideram débeis e portanto não respeitam, dentro das mesmas dinâmicas de continuo confronto.

E todas estas lutas se dão dentro imaginário coletivo e individual, movimentados ambos, dentro do anel de poder o qual os senhores dominadores controlam num determinado momento histórico.

Assim no Estado Espanhol, catalão, valenciano são línguas diferentes, tal qual galego e português, enquanto o castelhano de Andaluzia e de Castela-Leão ou Castela–La Mancha ou do Peru, são referenciadas como única e indivisível língua (nem sequer falando muito em voz alta de suas variantes dialectais).

Por outro lado a língua de poder castelhano, transformou-se na única com reconhecimento real de espanhola, sendo as outras relegadas a uma função secundária de línguas ou falas destinadas ao ambiente social-familiar e condenadas à morte lenta. A língua comum espanhola (identificada com o castelhano), fica inserida no imaginário coletivo como única língua de unidade entre os espanhóis, sem que ninguém nos explique se esta unidade linguística foi constituída historicamente de maneira democrática e consensualizada ou, pela contra, por imposição. Também nunca foi explicado ao conjunto dos cidadãos e cidadãs do Estado Espanhol como essa língua minoritária, durante grande parte da idade média, chegou a expandir-se, absorvendo inicialmente o espaço das línguas moçárabes e mais tarde o do catalão e o do galego-português… Damos por feito que sempre esteve ai para fomentar a unidade, (unidade espanhola que nos fazem acreditar existiu desde Roma e os Visigodo), como símbolo perfeito desta união. Este esquema de construção histórica, fica quebrado pela existência de Portugal. No entanto, depois do Tratado de Tordesillas, Portugal adaptou sua historia (através dum processo secular) para encaixar com a visão histórica fabricada pelo poder castelhano dentro da península celto-ibérica (esse poder central espanhol chegou mesmo a traduzir a denominação andalusí do reino cristão de Al-Jalika, pelo reino de Leão, como si nossos irmãos do Al-Andalus não soubessem com que reino faziam fronteira).

Em estas circunstancias (acrescentando o processo de doma e castração, que vazou a Galiza dum poder hierárquico, que a organizasse como nação) a tendência a morte, vagarosa e paulatina do galego era inevitável. Mas então aconteceu um processo histórico muito complexo, que vai desde a vontade dos ilustrados padre Sarmiento e Feijoo (que acreditavam o galego ser uma variante dialetal do português, passando pelo ressurgimento (e aliança da intelectualidade galega e portuguesa), os inícios do século XX e a quebra da ascensão galeguista pela Guerra Civil espanhola, com o triunfo do poder nacional católico. Assim como o debate Pinheiro – Rodrigues Lapa; a volta da democracia, as manobras na sombra dos setores anti-reintegracionistas (a amizade e quebra de amizade entre Filgueira Valverde e Carvalho Calero). Também as lutas dentro da RAG, e a aprovação pela Real Academia Galega, duma tendência normativa do galego, em ausência forçada dos sectores reintegracionistas (que afastava esta do tronco comum lusófono); dariam definitivamente no Decreto de 1982…

Muito longo de explicar e com muitos fios soltos deitados pelos caminhos…

Utilizaremos então melhor uma frase simbólica – Lembramos que o grande poeta Celso Emílio Ferreiro, tinha prognosticado nos anos 60 do século passado que o Brasil iria a tornar-se uma potencia mundial, de tanta dimensão como na época eram a União Soviética ou os EEUU, afirmando sem ambiguidades que o gigante sul-americano falava nossa língua (como diziam os Essénios: “Quem tenha ouvidos para ouvir, que ouça”).

Atualmente a grave situação político-institucional, vivida pelo povo brasileiro, tem mais a ver com certas tensões estratégicas, derivadas da luta ente os BRICS e o Império Ocidental, em este mundo de guerra contínua, que teremos de mudar se quisermos ter hipótese de vida. Na América do Sul foi vencido o projeto esquerdista de Independência político – económica (independência do Império Ocidental). Mas agora também está a ser derrotado o projeto direitista neoliberal (de volta a dependência do Império Ocidental). Mais que nunca se fez necessária a confraternização dentro dum projeto de unidade esquerda – direita, que garanta tanto no Brasil como no continente sul-americano a independência e mantimento do património natural, cultural, económico, e mesmo imaterial de nossos irmãos sul-americanos, nas suas próprias mãos. Não duvidados que está será alcançada e o povo brasileiro saberá impor-se as tentativas destabilizadoras de potencias estrangeiraras e interesses negros, que tentam manipular a mente das pessoas nobres e generosas (como fala o iniciático hino galego, que anuncia os novos tempos de mudanças). Lembremos agora o pensamento de Roberto Lucióla, em seu caderno Fiat Lux, 02: “…Qualquer tentativa de embrutecer e suprimir a consciência do ser humano, tornando-o um robot passivo, sem vontade própria, como tentam fazer na atualidade os grandes oligopólios que controlam os meios de comunicação à escala mundial, manipulando as consciências de modo a tornar as pessoas joguetes nas mãos das egoístas forças políticas e económicas das classes dominantes, constitui uma afronta (…) Não resta a menor dúvida que os responsáveis por tal comportamento terão que responder oportunamente por isso perante a Lei que a tudo e a todos rege, como aconteceu com a aristocracia no século XVIII, com especial destaque para os da estirpe dos Bourbons, que de tanto decapitar a mente do povo tiveram as suas cabeças cortadas. Que a experiência histórica sirva de advertência às classes dirigentes, principalmente às do Brasil, país destinado a ser o paradigma da Humanidade.”

As batalhas geopolíticas afetam também a geo-língua. O galego português ate finais dos anos 90 do século passado estava em decadência, perda, derrota. Isso acelerava o processo de descomposição – desunião, separação. As línguas com as que compartilhava território iam expandindo-se ao tempo que ele minguava… Nem a mesma trabalhosa ideia de criação da CPLP, por parte de Aparecido de Oliveira e Agostinho da Silva, dava travado essa dinâmica de contração. Mas afinal dos 90, inícios dos 2000 a cousa mudou, como consequência da Emergência brasileira. Os BRICS deram uma nova visão geopolítica a nossa língua, e as riquezas do subsolo africano, fizeram o resto.

O galego português medra devagar, invertindo as tendências auto-destrutivas, pelas tendências novas de unidade, dentro deste ainda desgraçado mundo de guerra pelas hegemonias, onde tristemente manda somente o dinheiro. Ademais nossa língua comum têm um centro dinamizador, ainda em formação, algo de vital importância. Poucas línguas no mundo podem contar com um centro geográfico continental, que seja cabeça regional. Nem sequer o castelhano possui esse privilegio, pois apesar do poder económico de Madrid, e da vitalidade do poder Hispano de Miami, nenhum dos dous são centros nos seus respetivos espaços regionais. Um dependendo do poder germano e outro Norte-americano, ambos as ordens do poder financeiro global do Império Ocidental, a serviço do inglês como língua franca planetária (o mais inteligente para o castelhano seria uma aliança global com o galego português, mas por desgraça seus dirigentes ainda não perceberam esta importância, e alguns sectores da direita imperial nostálgica sonha ainda com mundo em castelhano, onde não se põe o sol).

Haverá séculos de mudança, transição de polo hegemónico e mesmo fim da Era Negra de Guerra. O Hemisfério Norte já tem servido de centro geográfico vitalizador: China, Índia, Pérsia, Bizâncio, Egito, Grécia-Roma, Estados Europeus e EEUU, têm-se revezado em esse comando. Pelo que o processo de desloque continuo da força evolutiva civilizacional, já não se fará mais em este hemisfério.

O traslado desta para o Sul, já foi descrito pelo mesmo Dante Alighieri na Divina Comédia, quando falava do cruzeiro do sul, numa época na qual os portugueses ainda não tinham navegado as costas da África.

Resta, pois, na Galiza atuar com discrição, paciência e bom saber. Nós não veremos esta realidade, decénios e séculos formarão este novo patamar da cultura humana, mas este pequeno território será vital na aliança inicial Brasil-Portugal-Galiza, para transitar o que de bom, belo e verdadeiro ainda se conserva da cultura ocidental, rumo a nova terra provisória… Pequenos passos em condições muito dificílimas tem sido dado, pela mãe Galiza, para criar uma ponte de transição desde um modelo linguístico de contração e morte, ate um modelo linguístico de expansão e vida (que possibilite o recontro com os povos irmãos de fala): em destaque a Lei Paz Andrade e, agora a inclusão do Conselho Galego da Cultura, dentro da CPLP (com o estatuto de observador). Agora ainda temos que dar outro pequeno – imenso passo, que consiste na elevação no plano institucional das duas normativas em pé de igualdade. E todo o movimento galeguista, tem de realizar unido esta ofensiva. Deste novo passo dependem agora as expectativas de sobrevivência do galego, em tempos revoltos.

Façamos humildemente este trabalho com a mente, o coração e as mãos.

Pois da mente intuitiva em associação com a mente racional, surge a ideia ou projeto de toda mudança.

Sendo as mãos, pois, que exercem de força intermediária entre o Amor-Sabedoria e a Ação, canalizando a vontade, para finalmente conseguir mudar nossas vidas. E com isso, as vidas, de todos quantos seres compartilham connosco esta formosa terra.

Mas também as mãos são as transmissoras das vibrações mais negativas e negras. Da sombra do medo que encolhe o coração e pelo tanto amargura o amor; desfaz a unidade tanto das formas de vida, como da visão mais ampla da unidade das culturas e as línguas.

No entanto também as mãos permitem ao espírito dotar-nos duma ferramenta de luz para a mudança. Como bem expressa o poeta português Manuel Alegre, em este canto.

Com mãos se faz a paz se faz a guerra

Com mãos tudo se faz e se desfaz

Com mãos se faz o poema ─ e são de terra.

Com mãos se faz a guerra ─ e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.

Não são de pedra estas casas mas

de mãos. E estão no fruto e na palavra

as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas

as mãos que vês nas coisas transformadas.

Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.

Ninguém pode vencer estas espadas:

nas tuas mãos começa a liberdade

Sejam agora estas mesmas mãos as assas da nossa liberdade. Confio em podermos mudar nosso destino, através da aliança: Mente Coração Mãos… com a intuição-ração, o amor-sabedoria e vontade-atividade, podemos fazer um novo país, uma esperança para a Galiza, começando pela união de todos e todas as galeguistas (sem exclusão por motivos de normativas) dentro desse imenso oceano de povos irmãos, que falam e sentem na nossa própria língua. Atuando ao serviço dos nossos filhos e netos, sabendo que renunciamos ao fruto das nossas ações, que eles hão de recolher, como nos recolhemos os dos bons e generosos filhos da geração Nós, entre outros.


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  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Gostei, Artur, do contexto global, as referências ao Brasil e de que repassas como foram acontecendo as anexações do território. É muito importante isso tudo para explicar aquilo que estão querendo chamar “plurinacionalidad”, cousa que vamos ter de explicar dado que agora até o PSOE se anotou ao conto e passa-lhes como ao PPdG, que não sabem o que é o reintegracionismo mas no Parlamento defendem-no como se soubessem.

  • Idilio Ferreira

    Parabéns pelo excelente artigo. O estado espanhol presta um mau serviço histórico e patriótico, pretendendo homogeneizar todas as Línguas dentro do formato castelhano e, no caso do Galego, comete um verdadeiro assassínio linguístico. Há que resistir e devolver às comunidades as suas línguas próprias, em nome dos seus Direitos, da sua história e das suas almas. Veja-se o excelente trabalho que tem sido desenvolvido pela Associação Além Guadiana, em Olivença na recuperação da sua língua própria o português desde 1297 até 1801, altura em que aqueles territórios foram roubados a Portugal e nunca mais devolvidos, o que faz de Espanha um País sem palavra e sem honra. Para a coexistência pacífica, para a confiança e para a amizade entre os nossos povos, essas contas ainda terão que ser feitas. Viva o PGL, Viva a Além Guadiana e que vivam em paz e em respeito a Galiza, Portugal e Espanha.