ABBAS CUCANIENSIS

Mais Sabela e menos farinha



Começou 2018 com um importante fenómeno televisivo, a série Fariña. Baseada no magnífico livro de Nacho Carretero que, como tempos atrás, pudemos comprar em Portugal perante um sequestro judicial, conta as histórias dos famosos contrabandistas e narcotraficantes da Ria de Arouça dos anos 80 do século passado. Nela, volta-se a responsabilizar o povo galego do problema da entrada da droga na Europa ignorando que a substância que matou uma geração inteira em muitos lugares do nosso país, a heroína, entrava por outros territórios (já agora, como bem indica Carretero no livro). Com isto, não quero desculpar as atividades criminais dos narcos galegos, senão lembrar que há muitos outros narcos não galegos e muito mais letais de quem nunca ouvim falar.

Linguisticamente, Fariña utiliza um castelhano irreal, um castrapo invertido, onde pitorescamente acrescentavam palavras como “trabalho”, “caixa” ou “cara de cona”. Lemos também na imprensa como se justificava o prodígio de conseguir que um ator de Noia falasse castelhano com sotaque de Cambados, e mesmo alegando que linguisticamente Fariña estava mais cuidada do que muitas produções da TVG, literalmente.

Não vou obviar que a série foi um sucesso de audiência, que em agosto entrou na oferta da Netflix e que as atrizes e os atores -maioritariamente [email protected] oferecêrom excelentes interpretações.

Chega no segundo semestre do ano o Operación Triunfo (OT), e neste programa aparece uma concursante das Pontes sem complexo por utilizar repertório em galego numa Espanha que ultimamente parece só olhar para a França para se inspirar no seu centralismo. Embora tivesse que padecer algum comentário de uma jurado com certo fundo supremacista, ao qualificar de folklore uma canção com texto de Rosalia de Castro, a atitude da cantora foi bem aceite pola audiência. Para a Gala Final, a Sabela escolheu “Tris Tras”, peça do grupo Marful cujo texto fora escrito na norma da AGAL pola Ugia Pedreira. A partir daí, as redes sociais, nomeadamente o Twitter, enchêrom-se de mensagens de públicos lusófonos surpreendidos por a Sabela cantar em português mesmo louvando o seu sotaque:

Perante tal alarma social em Portugal, o professor Marco Neves escreveu um formoso artigo explicando ao público português as conexões linguísticas entre a Galiza e Portugal. A seguir, com a mesma intenção, o nosso Eduardo Maragoto gravou este vídeo dedicado às adeptas e aos adeptos castelhano-falantes do OT explicando o que é isso do galego-português de que falava a Sabela, conseguindo cerca de cinco mil visualizações em três dias:

O dia da Gala Final OT foi chegado e desfrutámos de ver como TVE legendava a canção no galego-português original e também de um Twitter cheio de comentários nas diversas grafias da nossa língua que compartilhavam os hashtag #Sabelajáganhou #Sabelaxagañou e #ogalegoune:

Não vou especular com quais fôrom as intenções da Sabela quando escolheu uma ou outra canção, porque o que me interessa é o que conseguiu, e foi maravilhoso. Ajudou-nos a limpar um caminho para vermos que por ele chegamos longe, e que nele cabemos [email protected]: #olánovoconsenso #binormativismo.

Eliseu Mera

Eliseu Mera

(Ourense, 1976) Secretário da AGAL. Cantor lírico e professor de Música do IES de Valga. Acredito firmemente em que a boa música deve ser acessível para todos os públicos, sem exceção. Para este fim, experimento com um blogue:notas.gal
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  • Ernesto V. Souza

    A Galiza é diferente… 😉

    • abanhos

      Com certeza

  • Paul

    Por que não criar uma versão galega do Spilhennig, o alfinete usado na Bretanha, que os falantes de bretão usam para indicar a desconhecidos que falam esta língua e que preferem comunicar nela e não em Francês?

    https://gl.wikipedia.org/wiki/Spilhennig

    Assim, galegos que iniciassem uma conversa, na rua por exemplo, mas que não se conhecessem pessoalmente, em vez de falar (quase normativamente) em castelhano, podiam fazê-lo em galego. Seria como sinalizar aos outros que somos “Galician friendly”, ou seja, falo galego e prefiro que comuniques comigo nessa língua.

    Poderia dar até origem a novas amizades e quem sabe algo mais, se os rapazes o utilizassem como pretexto para iniciar conversas (em galego, claro) com moças que tivessem o alfinete.

    O potencial disto é imenso.