O retorno da zebra



Quando os colonialistas portugueses toparom com uns fabulosos équidos em África, animais de cores inverosímeis, apenas atinárom em chamar-lhes zebras, comparando-os com os onagros ou asnos selvagens que conheciam na sua terra natal. Extinto na Península Ibérica por volta do século XVI, do zebro permanece o recordo, como fóssil toponómico, em dous pontos da comarca de Ordes: no linde com Bergantinhos, num terreno conhecido como Campo da Zebra, entre Ínsua Boa (Soandres) e a Cortelha (Cerzeda)[1]; e em outra zona chamada o Zebro em Chaiám[2].

Mapa do lugar do Campo da Zebra, entre A Cortelha (Cerzeda) e Insua Boa (Soandres)
Mapa do lugar do Campo da Zebra, entre A Cortelha (Cerzeda) e Insua Boa (Soandres)
Mapa de Chaiám, co lugar do Zebro (Traço)
Mapa de Chaiám, co lugar do Zebro (Traço)

Estas zebras receberom muita atençom por parte dos filólogos galegos e portugueses[3], sendo o pioneiro –mas umha vez- o Padre Sarmiento, quem já fala deste animal no seu Onomástico com motivo do topónimo zebreiro, confessando que tinha escritos sete pregos “sobre este hermoso animal”. Baseava-se Sarmiento em que no Cronicon latino de Sampiro se di que em tempos de Ramiro III os normandos chegaram “ad Alpes montes Ecebrarii”, exposiçom que o arcebispo D. Rodrigo parafrasou escrevendo “mons qui onagrorum dicitur”, mostrando a equivalência entre o zebre ou ezebro e o onagro.

Quanto à etimologia, J. da Silveira mostra como do equiferus que regista Plínio, ou equus ferus (cavalo bravo), através de *eciferus resultaria normalmente ezebro/zebro. Precisamente Plínio, na sua História Natural, deixou constância de que “há um povo Callaico e Astur, estes tenhem cavalos aos que chamamos Tieldons e Asturcons, de talhe mais pequeno, que nom tenhem um passo normal na carreira senom um pouco mol polo movimento alterno das patas, por isso se conta que com manha sotam os cavalos a andar ao trote[4]”. Estes équidos da Gallaecia eram mui apreciados polo emperador Neron[5], e também Sílio Itálico dedicou um poema ao Lampom Callaico, cavalo mui valorado nas carreiras[6].

encebro

[1] Na folha 45-III dos mapas do Instituto Geográfico Nacional.

[2] Na folha 94-II.

[3] Resenhados em A. Moralejo Laso, Toponimia gallega y leonesa, Santiago de Compostela, Pico Sacro, 1977, pág. 24 n. 3, pág. 41 e págs. 45-46 n.8. A publicaçom mais exaustiva e recente sobre o zebro é a de N. Papavero & M. E. Viaro, O “zebro”: considerações históricas, sua identificação e distribuição geográfica, origem da palabra “zebra” e considerações sobre etimologia, São Paulo, FFLCH/USP, 2014, que nom pudem consultar por trata-se dum livro eletrónico.

[4] Plínio, Nat. Hist., VIII, 166.

[5] Quem, por certo, tinha um amigo chamado Montanus, que em galego seria Montaos.

[6] “Evolat ante omnis rapidoque per aera curru / Callaicus Lampon fugit atque ingentia tranat. / Exultans spatia et ventos post terga relinquit”, Sílio Itálico, XVI, 333-335. Também Grattio (V, 513) fala dos cavalos calaicos.

 

Publicado em Aldeias de Ordes, 09,04,2018.

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
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  • Joám Lopes Facal

    Muito interessante e documentado artigo como sempre, Carlos, contodo, nom será possível um cruzamento com cebro/azivro/azivo…azebo/azevinho que adorna os nossos montes com os seus frutos vermelhos e mesmo deu nome a um mosteiro?

  • abanhos

    Bem interessante como todos os do nosso caro autor