Retificar para ratificar o Acordo Ortográfico

Academia Angolana de Letras recomenda a não ratificação do AO e pede correções



No dia 10 de outubro, em entrevista coletiva com a imprensa,  Filipe Zau, reitor da Universidade Independente de Angola e membro da AAL, recomendou que o governo angolano não ratifique o Acordo Ortográfico, de 1990.

aalA Academia Angolana de Letras – AAL – foi criada em setembro de 2016 e conta com 43 membros, após ouvir os participantes, resolveu ficar contra a ratificação, justificando que existe uma grande quantidade de “exceções à regra” e não contempla as contribuições das línguas angolanas na formação do idioma, o que dificulta a promoção do conhecimento, a alfabetização e não concorre para a unificação da Língua Portuguesa.

O comunicado da AAL destaca que o acordo “diverge, em determinados casos”, de normas da Organização Internacional para a Padronização (ISSO) sobre o conceito ligado à ortografia, além de “não refletir” os princípios da UNESCO nem os da Academia Africana de Letras (ACALAN) sobre a “cooperação linguístico-cultural com vista à promoção do conhecimento enciclopédico e de paz”.

Para o presidente da AAL, escritor Boaventura Cardoso, em Angola, a língua portuguesa é a oficial e é falada “mais ou menos em todo o país”, tendo-se tornado “materna” para grande parte dos angolanos, uma vez que 65% da população utiliza-a na comunicação diária, tal como revelou o último censo populacional de 2016.

O AO de 1990 “trouxe mais problemas do que resolveu”: “trouxe o iminente risco de uma deriva arriscada que pode levar à desvirtualização da Língua Portuguesa”, completou Cardoso.

Depois de tantos anos da iniciativa, apenas Portugal, Cabo Verde, Brasil, São Tomé e Príncipe ratificaram o Acordo Ortográfico. Dos nove países da CPLP, apenas estes quatro Estados ratificaram o acordo.

 

José Carlos da Silva

Desde 2008, José Carlos da Silva é correspondente do PGL no Brasil. Residente em Campinas (São Paulo), é produtor cultural e periodista. Como produtor cultural trabalha pela difusão da cultura caipira, que tem na viola de 10 cordas, sua maior expressão.

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  • Joám Lopes Facal

    Plausível decissom em defesa da variedade própria e o auto reconhecimento.
    Algumha reflexom desde o galego, secular e subordinado?

    • Ernesto V. Souza

      Há varias. A minha pessoal, se perguntas, é que o AO importa, para nós, na Galiza, na prática, um ‘aralho, como importaria qualquer outra ortografia em uso da língua portuguesa. É uma formalidade com uma questão de debate que não nos atinge, porém a ideia pode nos aproveitar e vem justo a calhar no momento que vivemos na Galiza.

      A questão, para mim, é fazer recuperar o pulso ao galego escrito. Para isto são importantes três cousas a nível pessoal, privado ou em pequenos grupos, dado que com o institucional, o escolar e o público não podemos contar:

      a. Colocar o galego ILG RAG na listagem dos precedentes, mais uma tentativa condicionada pelo contexto e a época. Dar valor ao que vale mas entender como filosofia e caminho errado.

      b. Pôr-se a aprender, como seja, onde seja e podamos, o mais academicamente possível, uns rudimentos gramaticais ortográficos de Português. Algo prático, mas bem e a sério. Qualquer modelo. (Apreciar matizes e variantes já é para nota). Nesse sentido o AO, na tentativa de comum, é útil, justo para nós os galegos (pelas nossas carências e pela ideologia subjacente espanhola-castelhana na que nos formamos), talvez mais do que para nenhum outro lusófono, mas tanto tem, qualquer gramática e ortografia valeria.

      c. Invadir essas formas uma vez aprendidas e apropriadas, com os nossos jeitos, estilos, léxicos e modismos, com as nossas galegadas, que já de natural nos saem… com orgulho, tratando de equilibrar no produto resultante a tradição literária e usos, a oralidade viva e a nossa complexa e mestiça realidade.

      Depois disto tudo e quando haja uma massa avondo… é que começaremos a falar a sério e a debater matizes… para elaborar o nosso modelo…

      Apertas,

      • Joám Lopes Facal

        Depois de superar o C1 em português, diferencio com nitidez a riqueza do português europeu e brasileiro culto, que nos lecionam sobre as fortalezas e fraquezas do galego, do seu uso terapéutico, para encher o ominoso buraco do galego prematuramente enterrado.
        O escamoteio da nossa tradiçom linguística no seio dum português onipotente e sem atributos nom me convoca, Ernesto.

        • Ernesto V. Souza

          A mim também não me convoca.

          Eu como não procuro as diferencias, nem entendo que importancia dão a isto nas EOI… pode que tope, nomeadamente quando são evidentes … mas como que não me atinge… Simplesmente tendo a gorentar os estilos epocais, autoriais… e assim me vai… misturando épocas e livros de época diversa, galegos e portugueses, castelhanos, franceses.

          P.s. Parabéns pelo teu C1. Eu não estudei tanto, faltou-me a oportunidade.

          P.s. 2. E não penso que nem tu nem eu, sejamos precisamente exemplos de qualquer escamoteio.

          Apertas,

      • Celso Alvarez Cáccamo

        Muito bem dito tudo isto, Ernesto. Na minha humilde opinião, é assim. O galego, ou é diferencial dentro da lusofonia, ou não é. Lembro quando, na década de 1970, se introduziu o chamado “boom” da literatura hispanoamericana. Para os que tínhamos como referente sobretudo o espanhol e a literatura espanhola peninsular (eu estudei Filologia Hispânica), aquilo foi uma bomba, literária evidentemente, mas linguística, léxica, estilística… Podia-se fazer “lengua común” com uma lingua(gem) muito incomum. O argentino de Cortázar ou o mexicano de Rulfo (ou Lezama Lima!) eram “lengua española” precisamente porque não eram espanhol peninsular.

        Acho que num equivalente a isto (sermos lusofonia e lusografia sêndomos 😉 precisamente galeguia) está praticamente todo o reintegracionismo. Dizer que queremos o contrário, como se faz periodicamente para atacar um setor do luso-reintegracionismo, representa uma grande distorção deliberada e interesseira. O Acordo Ortográfico é apenas um instrumento de reconhecimento comum (nem Cortázar, nem Lezama nem Rulfo utilizavam uma ortografia ou umas regras ortográficas diferentes!), mas o re-conhecimento passa inelutavelmente polo conhecimento (mútuo e respetivo) da diferença.

        • Joám Lopes Facal

          Cremos a sério que a descaracterizaçom da escrita mediante a prática lusográfica –excelente neologismo–, niveladora de diferenças, é a via óptima para produzir Valle Inclanes e Cunqueiros?
          Que a criatividade estilística pode basear-se em flexons verbais e modismos artificiosos, alheios à língua do leitor e fortemente conotadas de padrons gramaticais importados?
          Acaso o pacto ficional, o humor, nom requerem um código comunicativo partilhado?
          Ganha algo o texto galego em mudar artificiosamente João por Joám por e Diogo por Diego?
          Provemos a verter Cunqueiro a português padrom ou a brasileiro (há traduçons recíprocas entre ambas variedades, nom esqueçamos); tenho sérias dúvidas de seja este o caminho para dar com o próximo Cortazar ou Rulfo galego, com o próximo Cunqueiro sem ir mais longe.
          Dito seja isto com toda cordialidade, em defesa de umha posiçom que julgo afastada de simples mania persoal.e si voltada para o futuro da língua que todos herdamos.

          • Celso Alvarez Cáccamo

            1) Não sei o que é a “descaracterizaçom da escrita”. Como se a escrita galega estivesse “caracterizada” historicamente. O que a caracterizou sempre, contrariamente, foi o caos. Escrever em “ão” não é “descaracterizar” nada.

            2) Quem falou em “modismos artificiosos”? Quanto à flexão verbal “não artificiosa”, suponho que então propões que digamos “salgo”, “traigo”, “eres” ou “iba”, que são formas populares vivas.

            3) Ganha algo um texto em mudar “Juan” ou “Xoán” por “Joám”, Juan López?

            É o cansativo argumento de sempre: que regaleguizar tudo (os castelhanismos, os X, os ñ, os ll) para chegar até à artificiosa norma AGAL-om está bem, tudo legal, mas regaleguizar tudo isso e mais a norma -om para chegar até o artificioso ão e a artificiosa norma AO já é “descaracterizar”. Pff.

          • Ernesto V. Souza

            Bom. Dado que eu acredito a sério no que digo, que é o que prático… Pois daquela não temos mais que falar…

            Chove por Compostela? As barocas andam caras? Que che parece o do Xacobeo?

        • Ernesto V. Souza

          Efectivamente… De feito uma das cousas que menos compreendo é como é que os lusistas ferozes na Galiza, apoiem o AO, que não é português de Portugal, que é o que deveriam fazer… E os que os acusam de fanatismo… São os que rejeitsm de plano o acordo e defendem a existência diferenciada de um pt Brasil, um pt Portugal, como se nisso lhes fosse a vida ou fossem nacionalistas portugueses ou brasileiros?

          Nós somos galegos e precisamente o que mais rendabilidade nos pode dar, como ferramenta e propaganda do reintegracionismo na Galiza, não é o português, associado com o português de Lisboa, nem com modelos cariocas… A contrário… Interessamos mais que a ninguém falar de um português na nuvem… Asséptico… E nisto o AO véu muito a calhar…

          • Luis Trigo

            Caro Ernesto,
            O problema do AO foi mesmo não ter apagado as diferenças gráficas entre o pt e o br, principalmente porque eram impossíveis de apagar. Em alguns casos até agravou as diferenças, como no caso de palavras como recepção, não tendo resolvido as duplas grafias. E este é um dos fundamentos da crítica angolana. E depois tem um argumento técnico nuclear da aproximação à pronúncia culta que, sendo questionável em pt, ainda é mais na Galiza. E não vale a pena escamotear a parte técnica porque ela é vendida como parte do pacote do AO.
            Poderia até ser que escrever Polônia em vez de Polónia em Portugal fosse linguisticamente aceitável, mas ninguém o aceitaria.
            Numa coisa o Diego Bernal tem toda a razão, é muito valorizado por um pt ou um br a marcação gráfica galega que o coloca no mesmo sistema linguístico, mas preserva a sua identidade própria. Pelo contrário, a mistura de elementos br com pt que um galego possa fazer deixa perplexo os utentes das variantes padronizadas do português porque estas são percepcionadas como distintas. E isto é uma barreira de facto na comunicação que um galego pode enfrentar. As normas cultas são por natureza preconceituosas. Um utente da norma culta pt consegue identificar um utente da norma culta br e considerá-lo culto. Mas a mistura das duas normas causa perplexidade. Acredito até que, havendo esta mistura, ela seria melhor aceite em pt ou br ou até valorizada se feita com grafia galega pelo hermetismo simbólico que uma grafia encerra. Não sei o que isto implicaria entre os galegos…
            De qualquer forma, este AO não deve ser encarado como o fim da história. Antes de 1990 tinha havido uma reforma ortográfica em 1973… Ou seja, menos anos passados. Este incidente angolano prova que muita água correrá ainda.
            Saúde!

          • Ernesto V. Souza

            Agradeço os comentários e entendo, não pensem que eu não entendo a questão. Provavelmente se fosse português ou brasileiro e aos meus quase 50 anos e tantos de alfabetização e pratica escrita, me viessem com estas leiras estaria a contra disso tudo… porém, insisto, prezado amigo, prezados amigos: a nós, aos galegos esse debate a respeito do AO não nos atinge, nem nos interessa.

            E também insisto: não nos interessa o Acordo, quanto a ideia de ACORDO, exista ou não, na prática. Do mesmo jeito que em Portugal ou Brasil, ou na Angola essa ideia provoca rejeitamento, porque desnacionaliza, porque tira soberania, descaracteriza… mas para a Galiza é atrativa, porque justamente desnacionaliza o Português (de Portugal ou Brasil) e permite um paralelo com o Inglês.

            Muitos galegos são espanhóis. Para eles aprender Português é aprender uma língua estrangeira. Os motivos são diversos como os interesses. Aí, quanto mais imitativa dalgum dos centros, melhor… e até agora isto não foi problema. Porém, no esquema reintegracionista…É que está o problema.

            Porque não se trata de laminar o modelo galego e substituí-lo pelo Português de Portugal ou Brasil, como alguma gente espalha e a propaganda anti-reintegrata defende.

            Não, do que se trata é de modificar, corrigir e melhorar o galego, e de integrar as suas versões existentes: popular, histórico galeguista, ILG, variantes reintegracionistas, tomando um espaço e ferramentas existentes e dentro da ideia da existência de um idioma internacional. Passar de perspectiva de língua menorizada da Espanha a utentes de uma das línguas com mais projeção internacional e com fortes comunidades de falantes, materiais, recursos…

            Também diria, que nem nos atinge nem nos preocupa, e diria que nem nos interessa atender ao que portugueses e brasileiros achem do jeito esquisito, analfabeto, rudimentar, cru, arcaico, regional, rural, crioulo… em que escrevemos, às perplexidades que lhes causemos e os rasgos característicos que segundo eles seria interessante ou não conservar… na realidade não é um problema para nós. Não participamos dos seus mercados e espaços. Para quando façamos – se um dia chegamos a fazer – essas barreiras de hoje, serão as características do futuro.

            Os nossos problemas são outros.

            E, bom… Nós, não podemos parar-nos com esta questão imediata da perplexidade dos outros lusófonos, não podemos ficar nesta imediatez, temos de pensar em futuro. Uma língua não se faz num dia. As hesitações são normais, em tudo, a prática é quem faz as cousas. E afinal, simplesmente, o uso faz costume… e não há nada que o tempo não cure ou que não os olhos acostume.

    • Diego Bernal

      Caro Joám,

      A lingüística tem claro que a escrita nom é tanto um meio de transcriçom linguística senom um meio de desenvolvimento de umha identidade cultural e de adscriçom a uns modelos identitários ou religiosos.

      Por isso resulta cómico ouvir argumentos exclusivamente técnicos em relaçom aos acordos ortográficos, pois nestes casos, o ingrediente lingüístico é o que menos importa.

      Na minha experiência, tanto em Portugal quanto no Brasil, usar umha norma para o galego de grafia portuguesa mas que marque certas diferenças -como pode ser o -çom- é útil na medida em que é perfeitamente compreendida e chama a atençom e gera curiosidade e interesse, com o qual é um bom motivo para visibilizar e explicar a Galiza.

      Ora bem, do ponto de vista técnico, o galego pode ser perfeitamente escrito em AO de 1990, em alfabeto cirílico ou em katakana japonês.

      Já só por isso, devíamos ser mais respeitosos entre nós porque às vezes as brigas por este tema som delirantes e próprias de povos imaturos e incivilizados.

      Mais amor, por favor! 🙂

      PS: É claro que nom me refiro aos amigos Joám ou Ernesto em particular, é apenas umha crítica geral à teimosia doentia dos galegos.

      • Ernesto V. Souza

        Claro que é cómico… esta paixão a favor e a contra do AO é como os debates na Galiza sobre normas… ou a absurda importância dada a diferenciar os diversos rasgos do dialetalismo galego nos estudos universitários…

        Tou seguro que se apanhassem todas as escritas nossas dos de uma banda e doutra, mesmo das irreconciliáveis, dentro de um século metem-nos a os mais no mesmo saco… enfim… nada de dramas… 😉

  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    O certo é que se acham que não contaram com eles para a elaboração do AO, ainda que não o ratificar é um atraso, pois não deixa de ser uma formalidade, alguma razão têm. Portugal e Brasil não são os donos da língua portuguesa. A língua tem mais berços e braços.

  • Venâncio

    Existe o unitarismo Gramatical e Ortográfico espanhol, que pervive no fantasioso Português dalguns galegos. E existem as várias Normas Gramaticais e Ortográficas do Português: o Português Brasileiro, o Português Europeu, e outros em franco desenvolvimento. O mal-cozinhado AO90, quixotescamente, imaginou-se num mundo diferente.

    A história da Expansão do Espanhol e do Português (já o lembrei aqui diversas vezes) foram desde início inteiramente diferentes. Pensar poder sobrepor uma e outra é insensato, e gera monstros.

    Enquanto certo e palavroso sector do Reintegracionismo Galego mantiver uma leitura espanhola da realidade do Português, só andareis, só andaremos, perdendo tempo.

    Abraços.

    • Ernesto V. Souza

      Não Fernando, não… o certo setor do reintegracionismo não mantém uma leitura espanhola da Realidade do Português… Em todo caso manteria – o que do meu ponto de vista seria perfeitamente legítimo – uma leitura espanhola da ideia confusa que têm os galegos do Português…

      Por isso mesmo, a fantasia do acordo, desde uma perspectiva galega e reintegracionista é útil e é pragmática… para os reintegracionistas, e para os galegos de a pé…

      p.s. Por outra banda, a questão da espanholidade dos galegos é muito complexa. Não sei como lha explicar… mas não é a castelhana.

      • Ernesto V. Souza

        Vou-lho tratar de explicar de um jeito mais simples.

        Esqueça, por um momento, tudo o muito que sabe do português, esqueça que é português.

        Considere este cenário possível a 10 anos:

        – O reintegracionismo vai ganhar a partida.

        – As instituições galegas vão rumar de mais em mais cara os espaços e foros políticos, económicos, académicos, culturais de língua portuguesa. Queiram que não, vão-se mergulhar de Português.

        – A Sociedade galega vai abrir de mais em mais aos espaços de língua portuguesa. Vai valorizar de mais em mais o saber português.

        – A política vai assumir que a Galiza deve se orientar aos países de língua portuguesa e a Portugal. Vão necessitar do português.

        – O modelo educativo vai incorporar, tarde ou cedo o Português, primeiro como língua estrangeira… porém funcionalmente como língua ativa dos neo-falantes e dos mocinhos/as galeguistas… é só abrirem a porta…

        Voltamos dalgum jeito ao cenário de 1973… E daquela aparece de novo a pergunta: Que modelo escolhemos afinal, na prática, para o ensino do Português na Galiza?

        Nós não temos qualquer problema em escolher um ou outro modelo de português, porque vai ser tudo novo…

  • Ernesto V. Souza

    A sério, meus, que teria de nos importar na Galiza que portugueses, brasileiros, angolanos… polemizassem com o acordo, estivessem contra o acordo ou rejeitassem o acordo??

    É dizer… podemos noticiar, podemos publicar textos de portugueses e brasileiros a contra e a favor do Acordo… mas e com isso que? que nos importa ou que nos incumbe a respeito da problemática que temos e das soluções que necessitamos, na Galiza??

    Esses são problemas deles… debater na Galiza sobre o acordo como se fosse algo no que nos fosse a vida… enfim…

    E nesse esquema de tonteria… a que vem isso de dizer-nos uns a outros isso de que o nosso galego não vale, que descaracteriza, que estamos vendidos e vendendo a tradição… ??? Mais respeito e mais amor… como diz o Diego… nesta tarefa o que fazem falta são mais mãos, mais trabalhos e mais textos… tudo vale, tudo conta… é ir deixando se formar a massa…

    Pessoalmente, não me interessa nada o que em Brasil, Portugal, Angola digam a respeito do Acordo… e ainda muito menos me importa o que os portugueses, os brasileiros e os angolanos opinem sobre o jeito em que eu escrevo o galego ou o português da Galiza… não me importa o que opinam os galegos… vai-me importar o que digam os de fora.

    O que tenho claro é que nós podemos e devemos nos apropriar de um modelo de Português, moderno e atualizado, e construí-lo. O resultado vai estar condicionado por toda a nossa história e por todas as nossas imensa limitações: mas o objetivo tem de ser – propositadamente – um português não marcado (ou não exageradamente condicionado) pelos existentes, e pelas suas tradições culturais, modismos e lexicalhada….

    A mim que me pode importar ou preocupar como lhe chamem aos tipos de café em Braga, Lisboa, São Paulo, rio de Janeiro ou Luanda…, como se denominem as agrupações ou divisões políticas e administrativas nesses países e que me vai importar se um manual de instruções ou um romance está escrito em Português ou em Brasileiro… que me importa como lhe chamem aos copos de cerveja em função de tamanhos, ou o nome popular que lhe deam a ferramentas de uso diário, a processos, a usos ou as partes do carro??? se não moro lá… ?

    Se queremos ser soberanos o nosso Português tem de ser soberano.

    • Joám Lopes Facal

      O nosso português soberano, Ernesto, nom será um eufemismo do galego reintegrado genuíno, a mais alta criaçom da AGA, agora extraviada nos meandros do tal português da Galiza?

      • Ernesto V. Souza

        Português da Galiza é o mesmo… e nada… Um nome.

        Os nomes nem matam, nem engordam… e eu não perdo tempo a debater sobre nomes.

        A questão é outra.

        • Venâncio

          Ah, meu admirado Ernesto, que escreves em 2018 “Se queremos ser soberanos o nosso Português tem de ser soberano”.

          Que decepcionante, quanto tempo perdido!

          Já em 2004, certo Venâncio, em certo PGL, expunha detidamente a necessidade de criar UMA NORMA FORTE GALEGA DO PORTUGUÊS, aqui imediatamente posta a ridículo pelos caccamos, os giles e as reis deste mundo.

          O mais saudável, o mais sensato, é para mim desistir definitivamente de vós.

          Aprendi muito com o debate, mas não adiantou a ninguém a ponta dum corno.

          • Venâncio

            P.S.

            Constato que o facto de uma Língua ter mais que uma Norma continua tabu para vós.

            Por outras palavras, desconheceis (e até vos repugna) a realidade multi-normativa (gramatical, lexical, pragmática, sim, até ortográfica) do Português. Falais mil vezes em Ortografia, e vez nenhuma nas nossas Normas. A isso chamo eu uma leitura espanhola da realidade do Português.

            Mas para quê tentar levar-vos a conceber o para vós inconcebível?

          • Ernesto V. Souza

            Fernando… Eu proprio sou autor de norma múltipla… não apenas por ter mudado, por ter cedido textos, por escrever sem assinatura outros no PGL… Leio e admiro normas galegas de toda época e aproveito com prazer os raros e as variações rurais, dialetais, nossas e alheias… Admiro, desfrutando e incorporo, consciente e inconsciente.

            Não diga que não tomamos a sério as suas críticas e o seu contributo. Tomamos e incorporamos. Tenho e temos muitos considerado as suas ponderações e esquema. Damos a razão em muito.

            Eu acho que é evidente. E por isso sempre agradeço. O mesmo que com o Joam. Eu dou valor as suas advertências e compreendo o seu temor.

            Porém eu não me considero, na prática, longe do que propõem. Apenas pretendo equilibrar no grande esquema.

            Porque não se trata de criar um registro, um estilo individual, literário e formal. Do que se trata é de encher todos os ovos, todos os modos, todas as variantes e variações do sistema. Reparar ao mesmo tempo uma língua que sirva para falar em estilo académico, literário e popular, técnico, jornalístico e objetivo… Mas também que permita falar em familia, com as amizades próximas e á vez conetar com lusofonos diversos…

            Como não vamos querer a variedade se é o que fomos, o que simos e o que mais precisamos.

            O debate, como a língua, não é plano. Não se trata de um único debate… Quanto de um poliedro no que cada um fica numa face ou a considerar um aspecto. É multifacetado e complexo…

            Saudações e obrigado.

          • Venâncio

            Ah, caro Ernesto, eu já desconfiava, mas agora tenho a certeza. Tu não sabes o que é NORMA quando se fala em Norma do Português Brasileiro ou Norma do Português Europeu. Confundes Norma com “variedade”, com “ortografia”, com “registos”, com “estilo”.

            Mas essa ignorância estende-se a todo o Reintegracionismo Galego. Como não existe, desde há 30 anos, nenhum Linguista reintegracionista, ninguém consegue explicar-vos nada de útil nessas matérias. Quando ledes um texto brasileiro ou português europeu, podereis reparar nas “variedades”, mas escapa-vos a sistematicidade delas, aquilo que torna “brasileiro” ou “europeu” um texto, e que impede, entre outras coisas, que haja traduções luso-brasileiras.

            O Português não é para vós do âmbito da Ciência, mas da Teologia.

          • Ernesto V. Souza

            Fernando, é pior, eu não acredito na norma… Acredito nas mudanças e nas causas das mudanças…

            A norma viaja pelo tempo sendo uma mas vária e imutável por causa da localização geográfica?

            Isso claro que é teologia, é nacionalismo… 😉

            Eu não quero brigar consigo, nem com o Joam, nem com o Diego, tenho-lhes muito respeito, carinho e admiro-os como polemistas… E francamente não término de compreender de que me querem convencer…

            Abraço

            P.s. o da nuvem ia pela construção, trabalho e arquivo colaborativo e não físico, nos servidores da internet…

          • Venâncio

            Ernesto, procura algum texto de Eugenio Coseriu que explique as relações de Sistema, Norma e Fala. Até na Net encontrarás. Também existem muitos e interessantes estudos brasileiros sobre o assunto.

            Abraços.

          • Venâncio

            Também o amigo Freixeiro Mato está muito a par do tema.

          • Ernesto V. Souza

            Ok.

            Mas para nos entender:
            1. A norma portuguesa criou-na em fases o estado português. Em inicio na corte do rei, contra a galega, em base a koine do hinterland Lisboa e modernamente regularizou a alfabetização, a imprensa e TV.

            2. A norna brasileira formou o estado brasileiro, apoiado numa amálgama épocal e depois diferenciais do português… Depois e anda em via de unificação pela presa, escolarização assumindo tropicalismos…

            3. As normas africanas, tomaram ejemplo do Brasil e constriram-se também propisitadamente diferentes da de Portugal, e nisso andam nas literaturas e com a imprensa, a escola, o estado…

            Os galegos… Quando isto tudo aconteceu… Estavamos a durmir… Porém nós somos integraçionistas, adaptativos e imitadores…

          • Venâncio

            Assim é, assim foi.

            Agora exige-se que os reintegracionistas galegos estejam também INFORMADOS da História da língua e das Normas que foi desenvolvendo. Depois da morte de Carvalho, o Reintegracionismo cresceu em Ideologia, e pouco em Ciência, isto é, em observação histórica, em informação linguística.

            É uma pena tremenda que um clube que gerou um Estraviz, um Corredoira, um Souto Cabo, um Iriarte, pense poder funcionar sem um historiador do idioma, sem um especialista em gramática.

          • Ernesto V. Souza

            Bom, eis a questão… Já não somos um clube, um sindicato corporativo de linguistas dissidentes e protestantes… Somos um movimento social, cultural e político…

            Do resto falta por dizer nesse rascunho torpe meu.. a língua dos galegos entrou na órbita do castelhano, desde as origens deste, e foi no processo de construção da língua castelhana, esmagado, constringido, alterado e levado a periferia e a exclusão social. Foi interferido a vez que se destruindo como lingua social da Galiza.

            Mas por outra banda… Ainda hoje muito do que é periférico, marginal, dialetal, arcaico, desbotado, africano, indígena, rural… nessas niormas suas… Está de algum jeito presente, vivo ou documentado no magma galego…

            Não é tarefa simples inventar um galego que seja tudo quanto em realidade é com a sua própria base, história… Mas a questão gráfica e ate atecnica é irrelevante.. ou uma consequência…. É uma questão de força, dinheiro e poder…

          • Ernesto V. Souza

            Porque repensar a Língua, levou a repensar a história, o espaço no que estamos… O espaço no que queremos estar no mundo. O que somos… E portanto levou, no reintegracionismo, a repensar a nação e o nacionalismo…

            Por isso e que o modelo AGaL ficou obsoleto. Não por uma questão técnica ou de adequação, não porque tenha mais ou menos base social… Senão porque está concebido e desenhado como resposta, mas ao mesmo contexto político e social, á mesma ideia de nação e nacionalismo menorizado que gerou o ILG … Galáxia…

          • Venâncio

            O abandono do Modelo AGAL foi um acto ideológico, que nada teve de linguístico. A norma Agal era uma proposta linguística séria, em que teria importado continuar a investir.

            Mas a Agal não dispunha da informação linguística que isso requeriría, estava sob pressão dos seus mentores ideológicos, e deu linguisticamente um irresponsável salto no escuro.

            Que sejais felizes como “movimento social, cultural e político” (palavras tuas).

          • Ernesto V. Souza

            A cousa é mais simples.

            O modelo AGaL era um bom modelo, o melhor modelo que poderiamos ter em 1980… Se fosse, a história seria outra e daquela sim teriam sentido os lamentos do Joam e os seus…

            Mas já sabemos que não foi e até suspeitamos por que não foi.

            Entre 1982 e 2018 o reintegracionismo debateu muito e um setor nele saiu do esquema inicial.

            A norma AGaL é o melhor modelo de galego, mas dentro do mesmo esquema de língua menorizada na Espanha. Que aceita influência do Português, mas que não quer ser português…

            O modelo novo, esta em construção e prova. É inestável, incompleto, esquisito e problemático, mas enquadra por primeira vez a construção de uma norma galega do Português… É dizer declara abertamente que o galego é uma forma do Portugues.

            O salto ideologico é histórico… O técnico são uns passinhos.

          • Luis Trigo

            Os galegos devem saber que o galego como forma de português é inconcebível para um português. Porque não uma forma de brasileiro? Desconfio até que nem os galegos aceitem isso, daí a formulação do galego internacional.
            Porque não o indo-europeu como uma forma de português?
            Um abraço 😉

          • Venâncio

            Caro Luís, gostaria de manter contacto consigo. Pode escrever-me para fmvenancio[arroba]hotmail.com

          • Luis Trigo

            Obrigado Fernando Venâncio 🙂 Não tenho grandes coisas a dizer ao mundo, mas parece que temos interesses confluentes. Assim o farei. Um abraço 🙂

          • Venâncio

            Eu também não terei muitas. 🙂 Mas em artigos e congressos internacionais, tenho aproveitado para expor detidamente as relações históricas entre português e galego, e português e castelhano. Torna-se perfeitamente claro que o nosso idioma se formou na Galiza, séculos antes de Portugal existir socialmente. Isto contradiz alguma mitologia portuguesa, e pode imaginar como é triste, e é absurdo, vermos galegos a confirmarem os portugueses nos seus mitos… Espero que apreciará um ou outro artigo.

          • Luis Trigo

            Agradeço-lhe bastante, sei que os seus artigos valem a pena, e vou aproveitar 🙂

            É isso mesmo, a realidade é muito difusa e opaca tanto em Portugal como na Galiza. Acho que nos devemos mutuamente um bocado de paciência, não há outra maneira de as coisas mudarem. Se andarmos nos jogos da culpa entre pessoas com quem partilhamos interesses (mesmo quando vítimas de circunstâncias adversas), acabamos com razão sozinhos. E isso também é muito triste.
            Obrigado mais uma vez e um abraço!

          • Carlos

            Venâncio, gostaria de lhe formular duas perguntas:
            1) Deixando de lado as pessoas que profissionalmente se dedicam ao estudo da língua portuguesa no país, qual considera que é a ideia que tem o português médio sobre a relaçom existente entre a língua dele e a Galiza? Existe o conhecimento de a Galiza ter sido o «espaço matricial» do idioma ou, polo contrário, sobejam as ideias de o português ser umha criaçom genuinamente portuguesa?
            2) Por outro lado, atendendo ao discurso do nacionalismo português durante a Contemporaneidade, particularmente no que tem a ver com a questom da língua, a Galiza e o galego tivérom algumha importáncia –ainda que fosse reduzida– nas reflexons dos intelectuais portugueses que se ocupárom de elaborarem essa narrativa nacional? Há algum tipo de reconhecimento explícito das remotas origens galegas do idioma?
            Obrigado.
            Carlos

          • Venâncio

            Carlos, vou ter um domingo um bocado complicado. Espero que o Sistema ainda me deixe escrever-lhe. 😉

          • Ernesto V. Souza

            Sempre seria melhor um artigo, ou vários… Mas por acaso temos implementado o sistema de comentários para os fazer mais duráveis e que não fechem automaticamente aos 4/5 dias… 😉

          • Carlos

            Nom se preocupe!
            Escreva quando puder, naturalmente.
            Bom domingo e obrigado pola atençom 🙂

          • Venâncio

            Caro Carlos, veremos aonde chego após um dia bastante cansativo.

            A Galiza não ocupa nem preocupa mentes portuguesas. Como soa o meu mantra: a Galiza não tem papel nenhum na auto-imagem dum português. Já não têm conto os livros, antigos ou recentes, sobre a cultura e a história dos portugueses que não fazem qualquer referência com alguma importância à Galiza. Portugal entende-se perfeitamente a si mesmo, e o seu único interlocutor próximo é a Espanha.

            Somos poucos, pouquíssimos, aqueles que em Portugal procuram suscitar outras perspectivas. Sim, a ideia de que a língua portuguesa foi criada na última tarde antes de criar-see o Reino de Portugal é muito mais credível do que a ideia de que ela foi criada fora de Portugal e mesmo antes da existência dele!

            Procura na Net o meu artigo “O passado galego do Português”. No Facebook teve já milhares de leituras.

            Abraços.

          • Venâncio

            Carlos, procure também na Net “Entre Latim e Português: o Galego”, aula que dei na Universidade Nova de Lisboa.

          • Carlos

            Ótima ocasiom para ler, num caso, e reler, no outro, dous excelentes textos. Obrigado 🙂
            Nom é nada novo nem desconhecido, mas, apesar disso, eu continuo, por vezes, a ficar impressionado perante a íntima conexom existente entre o discurso lingüístico e o nacional/identitário. É tal a relaçom que, mesmo reparando nas investigaçons de conceituados filólogos sobre a história da língua, é fácil constatar que estes estám, incontestavelmente, extremamente condicionados polo devir político do(s) país(es) em que o idioma é falado. Língua e política sempre fiéis companheiras. Neste sentido, fico ainda mais convencido desta ideia ao me debruçar sobre as palavras de um dos mais destacados lingüistas do país vizinho, e que, de maneira muito pertinente, você inclui no seu artigo. Que cauteloso se manifesta Ivo Castro ao penetrar em questons espinhosas que podem ir «contra a corrente de construção de um país»! Fico, no entanto, com a dúvida de saber a que está a aludir quando fala dessa «aplicação» necessária para, como ele refere, reconhecer essas afinidades lingüísticas.
            E, por outro lado, no que tem a ver com o texto que já lera, nom pudem evitar, ao ver o nome de Teixeira de Pascoaes, lembrar aquela célebre frase do escritor que caracterizava a Galiza como «bocado de Portugal sob as patas do leão de Castela». Imagina, professor Venâncio, essa frase formulada do seguinte modo por parte do amarantino?: «Portugal, esse bocado da Galiza que se tornou independente». Difícil imaginá-lo. Demasiado protagonismo para a Galiza em detrimento do país verdadeiramente importante! Seria inimaginável que este fosse um mero «bocado da Galiza», nom é? Pois isso 😉
            Abraços!

          • Venâncio

            Caro Carlos,

            Agrada-me muito vê-lo destacar Ivo Castro, que vem confrontando a muitos portugueses com o modesto papel deles na História da língua. Ele tem algures uma frase terrível, dizendo que o Português “está de passagem” por Portugal: nasceu fora dele e vai sobreviver alhures.

            Eu vivo na expectativa de ver Ivo Castro entendido. Mas vai ser difícil. O nacionalismo linguístico penetra a inteira percepção que o portugués alimenta de si mesmo. Talvez que essa tarefa esteja reservada para gente que hoje ronda os 40 anos, como Marco Neves.

            Muita pena é vermos certos ensaístas do Reintegracionismo Galego contrariarem este delicado processo, insistindo na portugalidade do Galego, assim uivando, ainda por cima, com os chacais velhos e novos que em Portugal colocam o país no centro da cultura ocidental da península.

            Já aqui neste lugar advertí para a já histórica convergência de certos pontos de vista dominantes no Reintegracionismo Galego com a velha e nova retórica da extrema-direita portuguesa. Não culpo disso os reintegracionistas mais do que dalgum descuido no conhecimento da realidade portuguesa. A chatice é vós não terdes, nesses avisos, mais mensageiros que este pobre ancião.

            Um abraço amigo.

          • Ernesto V. Souza

            Bom, esse é outro dos saltos… O que pensem a respeito ou opinem os portugueses, não deveria influir nas nossas decisões… E mais, duvido que de nenhum jeito resultemos compreensiveis, ou mais simpáticos, tanto tem o que aparentemos ou façamos, mas em qualquer caso seria assunto deles.

          • Venâncio

            Sois livres para fazerdes o que bem quiserdes. Só quero lembrar que, perante o mundo, afirmar que “o Galego é uma forma de Português” é tão sério, ou tão hilariante, como afirmar que “o Português é uma forma de Brasileiro”… Mas com a vossa criatividade terminológica lá chegaremos.

          • Luis Trigo

            Caro Ernesto, não se trata de simpatia ou de jogo argumentativo. Na verdade, se não tivesse empatia pela causa e pelo movimento nem comentaria. E claro que este último comentário vai para além da opinião ou do que pensam os portugueses – é uma questão de lógica, de propriedade, daquele rigor que se associa ao científico.

            E se não querem saber do que pensam os portugueses, brasileiros, angolanos e até galegos para que serve essa identificação com a lusofonia?
            Eu até compreendo a dissonância cognitiva que a realidade galega comporta. O mesmo acontece com muita coisa portuguesa. E olhando para a actualidade brasileira…
            Força e coragem!

          • Venâncio

            Ernesto, eu, historiador do idioma, informo-te de que estou a exprimir-me na nossa variedade de Galego, hoje conhecida como Português.

            Cada vez mais portugueses e sobretudo brasileiros começam a compreender isso. E não é por acaso que quase todos os contactos linguísticos estáveis, institucionais e pessoais, alguns deles muito fortes, se estão a fazer com o Galego autonómico. Afora mim mesmo, não conheço nenhum contacto linguístico estável com o Reintegracionismo. Sim, quando algum dos vossos amigos académicos portugueses ou brasileiros, escrever uma linha sobre a Galiza e o Galego, podeis despertar-me.

            Moral da história e da História: os reintegracionistas galegos vão acabar a falar sozinhos. Na sua “forma de Português” cada vez mais fantasiosa e mais delirante.

            Sede felizes, amigos, nesse erro histórico para que sempre quis abrir-vos os olhos, mas em que acabaste por enterrar-vos.

            Não conheço o Luís Trigo. Mas ele está coberto de razão.

            Abraços.

          • Ernesto V. Souza

            Fernando eu bem sei que o senhor, Luis, e as suas mães, e antes os seus antepassados, os que venham depois, hoje os Brasileiros e africanos falam galego e escrevem em variedades do galego. Porém a primeira vez que se oficializou o nome da língua, nos tempos, em que se deu nome as línguas com o nome dos Reinos e do Rei, foi Português.

            Os galegos estivemos tempo de mais fora do clube, como para pretender que antes de nos aceitarem mudem o nome, os sócios principais…

            Tudo quanto dizemos é lógico. Mas a lógica pode ser diferente. Não me querem entender, não me sei fazer entender, ou não me podem entender…

            Porque eu não vejo que digamos cousas diferentes. Eu o único que lhes estou a explicar é: como chegamos cá, o que estamos a fazer, e porque o estamos a fazer. O como o estamos a fazer é algo que enxergam no dia a dia…

            Muito de nós, arredor e neste PGL, temos, nesta viagem re-pensado muitas cousas. As categorias e as palavras que usamos, as ideias que consideramos inamovíveis e cousas que hoje achamos risíveis.. obedecem a uma série de tropos produzidas no decurso da era das nações. Nem são de antes nem serão de depois.

            No reintegracionismo tem-se avançado muito mais do que muita gente quer entender ou é capaz de entender. Mas é lei de vida… hoje miramos aquelas cousas dos primeiros anos do século XX e sorrimos, botamos um olho nas dos anos 70 e nos pasma a candidez, miramos nos 80 e enfim…

            Pode ser que não consigamos nada. Porém pessoalmente acho que toda a estratégia reintegracionista desde a aparição da AGLP há dez anos tem sido não apenas proveitosa quanto também um importante revulsivo para o conjunto do movimento restaurador da Língua galega. Isolacionismo institucional incluído. Hoje as posições não são as mesmas. E muitos marcos tidos como fronteiras se desintegraram…

            Podem, claro não concordar com nada do que digo, e até eu posso estar completamente errado nas minhas análises, percepções e intuições.

            Saúde,

          • Venâncio

            Não é verdade que o primeiro nome da nossa língua tenha sido “português”.

            Em 1290 o catalão Jofre de Foixà chama “Galego” [sic] ao idioma.

            Em1330, Don Juan Manuel escreve que o arcebispo Rodrigo de Padrón “començó de dezir en su lenguaje gallego”.

            E foi preciso esperar por 1430 para termos a primeira referência a um “linguage portugues” ou qualquer coisa semelhante.

            Por favor: 2018 é um nadinha tarde para criarmos mais mitos!

          • Venâncio

            P.S.

            Entre os reintegracionistas galegos reina um grande desconhecimento da História da língua. É matéria que nunca realmente vos interessou. Vai ao índice geral das vossas revistas, mesmo das melhores. O tema está praticamente ausente.

          • Ernesto V. Souza

            Ok, Fernando, ok… Os portugueses chamaram o seu idioma com o nome do seu reino, propositadamente apagaram o de galego, tal e como hoje continuam a fazer os seus naturais… que por demais e em boa logica, nem nos querem no clube, nem tem qualquer interesse nos galegos… Ja sabemos… Ninguém gosta dos galegos… Nem os galegos… XD…

            Enfim boas noites…

          • Venâncio

            Um historiador como tu, e tu sabes quanto te admiro, só pode estar a fazer chacota, atribuindo aos portugueses de há 800 anos a intenção dum silenciamento do nome para o idioma dos galegos, quando eles mesmos não estavam interessados em denominar o seu…

            Só te aviso que pode haver aqui na sala quem te tome literalmente. 😉

          • Venâncio

            P.S. muito tardio

            No destaque das intervenções linguísticas, mais que todas meritórias, que acima fiz de Estraviz, Corredoira, Souto Cabo, Iriarte, Maragoto e Pichel, foi imperdoável não mencionar a de CARLOS GARRIDO. Aquí fica, pois.

          • Ernesto V. Souza

            A questão galega, Fernando, é muito complicada. Tomarmos a sério ou não é irrelevante, porque é impossível, no marco político atual (e na correlação de forças e de poder político, social e económico) e complexíssima com a bagagem histórico e conceptual elaborada pela história desde o Renascimento e re-criada pelo Nacionalismo… ou quando menos eu não acho jeito – ainda – de lhe meter dente.

            A sua complexidade reside justo na sua inexistência, precavidamente discreta, entre duas existências sonoras, uma delas ausente e outra delas gritante e esmagadora.

            Como resolver a questão existencial (nacional) neste contexto. Enfrontar ambas ao mesmo tempo e com os recursos e equipamentos atuais não é possível. Daquela só é possível com muita prudência contornar uma das presenças e não incomodar a outra… mas como?

            A história não é uma suma de factos e efemérides. Não é mesmo um conjunto de episódios que nos levam a um hoje e que podemos compreender com as ideologias, as crenças e os valores de hoje. A linguística o mesmo. Não é ciência, pois nem a ciência é tal ciência pura. Todas elas, mas especialmente a história, é um conjunto de narrativas possíveis, umas fechadas, outras cortadas, outras desbotadas e outras refeitas e retomadas, mas sempre profundamente ideológica, que vai mudando no decorrer das épocas e a respeito das crenças e valores circundantes.

            Cada época requer uma conceituação prévia de valores, de significados e de sentidos. Requer perceber e compreender os troppos e lugares comuns… Os antigos, tinham as mesmas capacidades intelectivas e atributos que temos hoje, condicionados pela tecnologia, os recursos e as sociedades arredor tomavam e falsificavam e distorciam a realidade com a mesma paixão que hoje fazem, os que governam.

            Eu, na realidade, e por muito que pareça o contrário sou um homem bastante prático. Sou partidário de soluções elegantes, mas práticas e funcionais. Gosto das máquinas, dos armazéns e a logística, das ferramentas e das construções, da carpintaria e da arquitetura, apreço as qualidades, o aproveitamento do material, da energia, do combustível, e nomeadamente dou imenso valor e adequação aos recursos humanos.

            Uma boa solução é aquela que não apenas resolve uma situação para sair do passo, mas que está bem desenhada, construída, vai durar no tempo e vai permitir, arredor ou sobre ela estruturar outras dinámicas, possibilidades, estudos, construções.

            Os mais de nós em determinada altura percebemos que o cenário era absurdo e redundante.

            Postos a escrever nalguma norma reintegracionista, para que aprender duas normas? e para que ter de empregar outra para escrever nos espaços institucionais?

            A simplificação, para mim é consequente, e pragmática. Por outra banda, era prioritário romper todas as alfandegas e barreiras de grupo criadas.

            Para mim a estratégia não é nem a fusão normativa (que não entendo) nem o binormativismo. Não compartilho. Para mim a solução é a tolerância e o respeito, que cada pessoa ou grupo, defenda uma prática de escrita coerente, dinâmica e cuidada… o tempo – sempre que se elimine o apartheid e os condicionantes laborais, económicos – a sociedade é que se encarregará de de construir o modelo guia.

            É preciso tempo, mas antes é preciso desbotar as décadas de absurdo e má escola, de destruição e de caminhos errados.

            Saúde,

          • Celso Alvarez Cáccamo

            Caro Ernesto, eu acho que as pessoas te entendem perfeitamente, sim (na verdade, algumas não sei o que dizem, porque as tenho blocadas, mas imagino). Mas ninguém che vai dar lições de conhecimento da história cultural galega e dos seus textos, as suas grafias e as suas afiliações nacionais e dos seus imaginários, nem, portanto, lições do que significa metafóricamente / metonímicamente escrever duma maneira ou outra. As pessoas entendem perfeitamente e até concordam teoricamente quanto à relação fala-escrita. Simplesmente, algumas não vão aceitar que um paisinho paifoco e as suas elitinhas e povinho utilizem o mesmo “ão” nacional que o da Língua Verdadeira, e se aproprie dele como se o galego fosse português. É assim simples. Em “om” não há problema, como se se escrever em “ón”. Mas o “ão” é Nacional Português e das suas (ex)-colónias (=Nacional Português), pronto.

            Quanto a argumentos genuínos (do Luís Trigo) como a ‘perplexidade’ da escrita galega vista de fora, será certo, mas concordo contigo em que isso deveria preocupar-nos pouco. Há um looongo caminho não só de utilização da escrita lusógrafa na Galiza, mas da sua socialização também para fora, e de pedagogia. Sem soberania política, é ainda mais difícil incidir nisto. Mas, repito, concordo em que não é prioritário.

            Pessoalmente acho que já disseste (de novo) tudo quanto cumpria para este debate, e que caracterizaria como a tua visão “eladiana” do galego (de Eladio Rodríguez, conhecem?; espero não ter-te distorcido). Abraço.

          • Luis Trigo

            Caro Celso,

            Agradeço que tenha considerado genuíno o que escrevi, porque realmente o tento ser sempre. É certo que interpretar/julgar o que se escreve e o que se escreveu pode ser bem tortuoso. O Ernesto tem reflexões bastante interessantes sobre esta temática. Devemos ter sempre presente os contextos de cada uma das épocas. Mas para termos acesso a esses contextos baseamo-nos muitas vezes noutros escritos… Há quem diga por isso que a arqueologia é mais honesta que a história.

            E depois há essa ideia de progresso que colocamos nas nossas próprias biografias nos coloca num plano superior no presente, quando muitas vezes nos falta acesso às concepções implicitas (as de senso comum, tão naturais e estruturais, que não precisavam de ser explicitadas) que marcaram determinadas épocas e que se tivessem sido explicitadas talvez não se fizessem essas concepções parecer tão ridiculas agora. Até porque uma das funções da escrita é também de auxiliar a nossa própria memória. Eu fico realmente perplexo quando encontro algumas das coisas que escrevi há alguns anos, a maior parte das vezes contrariam a percepção que tenho do que era… imagino a importância das coisas que não escrevi e que me moldaram.

            Mas esse juízos de intenções em que caímos muitas vezes podem ser realmente injustos. O que escrevi teve como intenção mostrar uma perspectiva exterior que não deve ser muito transparente para um galego. E é realmente certo (falo por várias experiências pessoais dentro da galeguia) que o que um português/galego interpreta do que um brasileiro ou angolano ou até outro português diz se prende com a valorização do que ele espera como genuíno, genuíno valorizado como bom – um português falar como um angolano ou brasileiro e vice-versa, mesmo com a melhor das intenções (que muitas vezes passam por tentativas de integração), pode, como sabe, resultar em interpretação de intenções que vão desde o pretensiosismo, à chacota, ao racismo e até à apropriação cultural ou num estado de preplexidade pura. E sabemos que muitas vezes há mecanismos de retroacção que fazem que esse genuíno atinja ridículos de folclorismo.

            O que não é realmente certo é que muitos de nós considerem a Galiza como uma amostra de país, muito pelo contrário. Vejo em muitos de nós forâneos que se relacionam com a Galiza fora dos roteiros turísticos uma extrema reverência, muitas vezes com traços essencialistas. E que sentem empaticamente muita da sua má fortuna.

            Não é certo que consideremos o -ão um exclusivo simbólico do nacionalismo português – o que eu já vi explícito é o ão como degeneração ou atrofia portuguesa. No meu contacto com o galego e sendo um residente de longa data da naçom do puortu em pt, vejo cada vez mais rasgos simbólicos no -ão da cidade-estado Lisboa em que se converteu Portugal (apesar de eu próprio ter sido criado com sonoros ãos transmontanos).

            Tenho usado o -om algumas vezes em registos mais privados (alguns até jocosos, também uso ões para isso – rir faz bem) e só não o uso mais para não ser mal interpretado. Mas também defendo o direito dos pt a usarem o -om, nomeadamente aqueles que quiserem dar uma correspondência gráfica à sua pronúncia (sei que não é a pronúncia culta que o AO prescreve, mas se um galego pode…)

            Não pedirei licença aos galegos para o fazer – até porque é certa a variação dialectal na Galiza. Não espero que o Celso ou outro galego nos peça autorização para usar o -ão.

            Mas o que realmente gostava era que não houvesse entre nós tantos processos de intenções…

            De qualquer forma, é explicitando as coisas e na discussão que podemos perceber o que se passa nestas cabeças e por isso também lhe agradeço, Celso.

            Um abraço 🙂

          • Venâncio

            Luís, desculpe a intrusão.

            O frequentissimo ão português nada, de facto, tem historicamente de genuíno, é antes uma hipertrofia, uma proliferação indevida quatrocentista, uma moda que pegou após muita resistência. Inicialmente limitava-se a palavras como mão, irmão e poucas mais. E tenha-se em atenção que muitas edições de textos medievais galegos e nossos são obra posterior de editores portugueses.

            Só uma concepção essencialista do idioma continua a erigir o ão em símbolo significativo.

            Escrevi sobre isso na Galiza um extenso artigo histórico que nenhum eco teve em círculos reintegracionistas.

          • Ernesto V. Souza

            Mas Fernando… eu também penso que a maior desgraça do século XX e do nosso tempo foi dar um uso privado ao carro.

            Sei que é a economia dos países, da indústria, do combustível e sabemos como o carro condiciona e condicionou a estrutura das cidades, os sistemas de relacionamento, a existência de grandes superfícies, da população do traçado periurbano… tudo…

            Eu se puidesse voltar atrás, aos primeiros anos do século XX. Deixava reduzido à monopolio dos estados, transporte público…

          • Venâncio

            Se imaginas algum saudosismo no que escrevi sobra a nossa história do ditongo ão, ou algum desejo de aboli-lo, estás errado. Até me ficava mal como historiador do idioma. 😉

            De lamentar é, sim, que certa ideologia a-histórica galega fantasie propriedades essenciais naquilo que foi uma casual deriva fonológica lisboeta.

            Mas, e como sabes, a Ideologia sente-se desconfortável com a Informação. Absurdo é, porém, ver galegos entusiasmados com a Mitologia portuguesa. Achas que isso é papel do Reintegracinismo?

          • Ernesto V. Souza

            Não, não penso em saudosismo.É mais não imagino qualquer capacidade de ninguém, de nenhum grupo, corporação mesmo ou governo capaz de o abolir…

            E é justo por isso que digo. Está aí. Forma parte do pacote. E define, pela alfabetização e a TV, o português moderno. Simplesmente. Mas nem o atual português, nem o do último século é apenas mais que o português atual, e a sua escrita… os rasgos caracterizadores, as palavrinhas, as estruturas… enfim…

            Uma língua na história não é uma norma. De feito é para consideramos se uma língua é a mesma cousa que hoje entendemos, na Idade Média, no renascimento, ou desde que há estados … ou depois de haver televisão. A sua função social e identificativa é mui outra… da que foi e talvez será.

            E como já temos muitas vezes dito: com a Internet – talvez nem enxergamos – a língua deixou de ser controlada pelos estado. Superamos a época unificadora da TV Nacional. E estamos numa fase nova com uma tipologia comunicativa internacional, em tempo real, multifoco.

            Eu, como sabe, algo da história escrita do galego sei. Antes do XVIII, de Sarmiento e o Nacionalismo, é de duvidar que os galegos cultos, tivessem qualquer conflito em deduzir que o Português escrito, em todas as suas variantes tipográficas e escritas de mão antigas, contemporâneas e anteriores não fossem uma representação da sua própria língua local. Simplesmente uma mais elaborada, musical e artificiosa.

            Mas dado que em 1818 os galegos não continuaram independente nem constituíram um Estado próprio como os Suíços, e dado que não tiveram todo o século XIX para construir academias, imprensas, universidades e dado, que nem com a construção do estado espanhol, nem com a ditadura nem com a autonomia tiveram imprensa, bibliotecas e nomeadamente uma televisão…

            A nossa tradição literária, menorizada, para além tem vários momentos de fulgor, mas também vários reset…

            E dentro dessa tradição… que me diz a mim escrever uma modernalhada snobista como o -OM?

            Eu direi sempre: o dia que renunciamos ao NON, renunciamos à tradição. Renunciando a isto… NOM ou NAM, ou NÃO… valem por igual e o resto tanto che me tem…

          • Venâncio

            Muito boa reflexão. Mas não esqueças que a proliferação realmente imprevisível do ão é só uma das marcas da desgaleguização iniciada em Lisboa. Ela foi todo um processo, e provavelmente a única consciência era a de não querer falar “à Norte”.

            Só duas coisinhas.

            Sarmiento e Feijoo dispunham do monumental dicionário de Bluteau… feito com o ouro do Brasil (e hoje descarregável em purl.pt). Usaram-no. Eu gostaria de saber com que sentimentos.

            Caso tivesse havido pelo ano de 1500 um só livrinho de orações impresso na Galiza em galego, toda a nossa concepção do idioma seria completamente outra.

            Abraço.

          • Ernesto V. Souza

            Podia ter havido, quem sabe se não aparece… mas não mudava nada um livro, como não mudaria nada uma ou 40 testemunhas do século XI ou XIII falando do Galego como língua dos galegos, como sotaque dos galegos…

            Fazia falta ter existido um Rei, e um Reino, e uma chancelaria, e umas leis, e história escrita, e uma produção impressa, na Galiza, nesse momento auroral da modernidade… Mas de ter acontecido, não seria apenas outra a história e a concepção do Idioma, quanto de toda a História da Europa Atlântica.

            Feijó e Sarmiento faziam uso do Bluteau e de inúmeros livros portugueses. O mesmo os notáveis da Galiza. Debatiam com portugueses, liam portugueses e eram lidos por portugueses. Tinham com eles um velho relacionamento de “primos”, vezinhos e conhecidos. Relacionamento clássico, condicionado não poucas vezes pelas guerras de fronteira, e nomeadamente pelo trauma da Separação de Portugal de 1648 e pela guerra de Sucessão, muito presente em Sarmiento, que no mínimo durou até bem andado o século XIX.

            Mas, entre Feijó e Sarmiento acontece justamente o Salto nacionalizador. Se Feijó expõe que Galego e Português são em origem a mesma língua e que ele poderia escrever o galego como se escreve o português (apenas que regularizando-o, modernizando e incorporando palavras novas)… nunca leva a prática.

            Sarmiento, sim, ultrapassa Feijó. Teoriza e faz. E escreve – com perspectiva nacional, com um pé na antiguidade documental que conhece, o galego. Um galego que declara orgulhosamente não é propositadamente português.

            Mas Sarmiento teria ficado também numa anedota senão fosse porque esse modelo de galego depois usariam como base, Pintos (o editor de Sarmiento), Añon, Camino, Pondal, os Irmãos la iglesia… Murguia e Rosalia e os mais dos que escrevem – e tentam escrever e restaurar um galego a sério e culto – antes da publicação da Gramática de Saco e Arce…

            Gramática a de Saco, que, rompendo essa tradição de um século na altura, toma o modelo de ortografia da RAE… não o de Sarmiento… e é imediatamente apanhado pelos defensores do popularismo e pelos pragmáticos, que achavam muito difícil, erudito, o galego de Sarmiento… e mais havendo como já havia uma ortografia castelhana que era mais simples e unificadora… e integradora na Nação espanhola.

            Eis a origem do debate… O reintegracionismo considera-se na tradição de Sarmiento, e dos seus continuadores da primeira parte do XIX, da Segunda, das IF, que é a que propunha Guerra da Cal e a que em início gostava Lapa e na que se gera o reintegracionismo moderno.

            Mas, há uma ideia da Língua antes de Sarmiento e outra ideia da língua depois. E uma outra antes e depois de Saco e Arce. E outra antes e depois de Lapa.

            E interatuando entre uns e outros há tanto a aparição do estudo científico das línguas, as gramáticas do castelhano e português moderno e a alfabetização dos estados, a descoberta da língua medieval…

          • Venâncio

            Como eu gostaria de que colaborássemos numa história das relações linguísticas entre a Galiza e Portugal. Sabes que também Nunes de Leão (cerca de 1600) concebia os dois idiomas como originalmente um único.

            Quanto ao grande Lapa: ele não tinha em 1973 a informação que hoje (sobretudo em Esperança Cardeira) existe sobre o processo de Desgaleguização ou (sobretudo em f.v.) a cerca do de Castelhanização do Português renascentista.

          • Venâncio

            Tive de interromper.

            Aquilo que escrevi aqui acima sobre Lapa, referia-se à sua conhecida afirmação de que o Português é hoje o que seria o Galego, se não submetido… Não é, e aqueles dois processos baralham inteiramente essa especulação.

          • Venâncio

            A minha afirmação sobre o livro de orações pressupunha todo um novo cenário. Sabe-se hoje que a Imprensa foi decisiva para o próprio estatuto de “Língua” em contexto renascentista.

          • Luis Trigo

            Caro Fernando Venâncio,
            a valorização do genuíno como um marcador de verdade é importante na comunicação.
            Mas existem sempre inovações que podem ultrapassar a minha ou a sua compreensão. Gostava de os compreender, mas parece-me que já não haverá grandes avanços neste fio… aprendo sempre. E assim retiro-me.

            Um abraço 🙂

          • Venâncio

            É verdade, Luís.

            Outra inovação portuguesa que não estava no programa, e que veio arrastada pela inundação com o ditongo “ão”, foi o crescente caos na formação dos plurais, com as muitas duplicações e até triplicações (aldeãos, aldeães, aldeões; charlatãos, charlatães, charlatões, e bastantes outras).

            O português é uma língua magnífica, mas deu, na sua história, cada guinada!

            Abraço amigo.

          • Celso Alvarez Cáccamo

            Caro Luís, o meu comentário a respeito do “ão” (como metonímia essencialista da língua) não se referia ao senhor. Não vejo, no que diz, essa ideologia linguística. Refirome àqueles guardiães da língua que temem que os não-nacionais portugueses escrevam como eles. Porque, se escreverem como eles, como eles poderão exercer o controlo sobre a Língua, e exibir a distinction? Este portuguesismo é a mesma ideologia linguística do espaÑolismo que quer manter o galego como idioma regional estrutural e gráficamente diferenciado.

            Um abraço também, Sr. Luís.

          • Venâncio

            Seja público, Senhor Celso, que não lhe admito juízos de intenção. Seja público, também, que eu suspeito que não haja lido nada da minha pena nos últimos 10 anos, particularmente no atinente à realidade linguística do Brasil, da Galiza e de Portugal, e que nada disso desperte o mínimo interesse na sua mente. Mas fique informado de que “portuguesismo” é, aos olhos dos reintegracionistas que me conhecem, a última coisa a que me associaram. Fico, por mim, feliz por ter agora a certeza de que não ocupo o mínimo resquício do seu interesse. Assim deixamos o mundo um nadinha mais tranquilo.

          • Luis Trigo

            Caro Celso,

            Deixe-me dizer-lhe que esse tratamento por senhor me deixa um bocado constrangido e nem sei muito bem como me devo dirigir a si.

            É verdade que não tenho grande espaço mental para o portuguesismo, mas não deixo e ter as referências culturais portuguesas. Como quase todos os portugueses que nasceram antes do AO tive acesso a rios de cultura brasileira dos patinhas, ao cebolinha, livros técnicos e novelas e ficção televisiva. Nunca a pronúncia ou a grafia foi uma barreira para consumir

          • Luis Trigo

            Vale a pena ver este vídeo, sem dar atenção às palermices da jornalista sobre a pureza do Português. A determinada altura um dos populares reflecte sofre a diferença entre o pam de fafe e o pom do Porto – localidades que distam 70 km.

            https://youtu.be/RVaT7ESiWt4

          • Celso Alvarez Cáccamo

            Caro Luís, o do “senhor” foi um uso meu excessivamente cortês, mais nada. Um abraço.

          • Ernesto V. Souza

            Pois… eu acho que todos sabemos… mas como diz aquele foguete, do Perez Ballesteros… autor nada suspeito de lusitanismos nem de cultismos… que também não sei se conhecem 😉

            https://gl.wikipedia.org/wiki/Xos%C3%A9_P%C3%A9rez_Ballesteros

            Três cousas che comprem Vilas,

            se um preito tes de ganhar:

            ter razão, saber dizi-la,

            mais que cha queiram dar…

            Gosto com tudo desse dicionário… Pensar que esse dicionário de Eládio Rodriguez, com a ortografia que usava a RAG no fragmento de 1918-23, poderia ter sido o Dicionário referencial dos anos 20-30…

  • Paulo Terra Nosolhos

    Olá, estava a preparar uma apresentação sobre “moda medieval” nas cantigas (numa concretamente) e como cheguei a esse momento no que alguns precisamos de um descanso, decidi botar um olho às conversas que por aqui se davam.

    Adianto, desde já, que não tenho um C1 em português, ainda de seguida poderedes percebê-lo. Algum dos que aqui escrevem sabem da minha pessoa, outros ignoram quem sou, mas isso agora mesmo é irrelevante, para além de que eu também o sou a fim de contas.

    Bem, vou comentar aqui alguma cousa e espero que os olhos dos leitores não perdam capacidades quando cheguem ao fim do texto. Eu não adornarei as frases com palavras de alto púlpito, nem com giros e jogos metafóricos, irónicos, nem hei fazer gala de conhecimentos retóricos de nengum tipo. Vou a expor a minha opinião desde o desconhecimento, que é um lugar formoso onde habitamos alguns.
    Este pequeno artigo trata, se mal não entendi, de que Angola não aceita o AO de 1990. Apesar de ser algo curto e fácil de entender, o mercado da palavra nasce nos comentários, onde vêm e vão diferentes reflexões sobre a situação do galego e opiniões de qual deveria ser o caminho a seguir por este. Até aqui, tudo bem, acho que é muito interessante o que aqui se está a debater e também compreendo as minhas taras nesta matéria, mas vou dar a minha opinião ou a expor o que a mim suscita.

    O português, essa língua falada e escrita por tanta gente, esse veículo comunicativo do que tanto gostamos e no qual achamos ver a saída do túnel entre as trevas (negras sombras) vividas polo galego. Concordamos em que o português deve ser o modelo para o galego e não o castelhano (referente das normas ILG-RAG), temos isto muito claro, mas que português deve ser o nosso modelo? O português é um? Quando falo de modelo, entendemos da escrita, porque a fala de cada lugar é diferente e isso não tem de ser explicado entre tanto profissional da língua, perfeito.
    Seguindo com o assunto, o português, essa língua que segue o famoso AO90 do que tanto se falou e se fala. Para que vale esse “acordo”? está a cumprir a sua suposta função? tem algo a ver connosco, o povo galego?

    Faço-me várias perguntas, depois tento contestá-las. O que é um “acordo”? Eu acho que deve ser uma espécie de pacto, de entendimento entre várias partes. O que busca o AO90? Que toda a população utente de língua portuguesa utilice a mesma norma? Se essa é a sua função, acho que não tem utilidade, porque não está a funcionar. O português é falado de jeito diferente nos diversos países de fala portuguesa, mas esses países acham que existe uma escrita que os possa representar a todos? A fala evolui divergentemente e cada parte quer ter as suas características próprias, quer representar o que os diferência (ou isso entendo), de aí o (des)acordo. Parece que ninguém quer perder nesta disputa e há muitos que não querem ceder.

    Disto isto, o caso galego, pode entrar o galego nalgum “acordo” destes? Eu não acho que o português precise de um acordo e, portanto, tampouco acho que o galego o precise. As bases do português partilhadas entre as suas variedades (excluíndomos o galego) são mais de um 90% (se mal não lembro). Faz mal que haja diferenças entre estas variedades? Para que reduzir mais a diferença se há comunicação e se estamos bem representados? O galego também partilha muito com o português e poderia ajustar formas para encaixar no mundo ao que pertence, o da língua portuguesa. Ora, o problema chega neste encaixe, como metemos ao galego dentro da grande caixa da “lusofonia”? Quais são os prós e contras das mudanças que teriam de ser feitas?

    Eu sou ignorante e sou lento também, assim que tenho de fazer-me perguntas constantemente e depois pensar um bocado para tentar chegar a uma conclusão. Esta é a parte complicada, em que batem cabeças e ideias. Para que o galego tenha futuro tem de estar de mãos com o português, mas há diferenças entre os dous. Devemos analisar ambas as duas línguas e as suas variedades e achar o jeito de que o galego seja representado no português, mas salvando as suas características únicas. O labor aqui é salvar essas características para a posteridade dentro do português. Para esta tarefa, entendo que devemos estudar milimetricamente a nossa língua (ou variedade, segundo o queiram ver) para ver com absoluta claridade as coincidências e diferenças. Entendam-me, não estou a falar só de léxico e ortografia, que também são importantes e que acho que estão bem malhadas, estou a falar da sintaxe (essa disciplina tão desconhecida para o povo galego).

    Creio que, quando tenhamos tudo claro, quando haja uma pessoa com a capacidade suficiente para estabelecer os limites, então, o trabalho será feito. A continucação as caras de surpresa e alívio… mas, de momento, há trabalho por fazer, ainda que há muito caminho feito. Entrar dentro do português é fácil, o difícil é ver com meridiana claridade o que é só português e que o é partilhado polas duas, já que os galegos somos expertos em comparar-nos com o castelhano e em evitar caermos nele (eu ainda não, sou um principiante), mas não no outro sentido. Para além do que possamos discutir aqui, há que acrescentar o impacto social desta norma, que pode ser paliado com a visibilização e com um achegamento progressivo às gerações.

    Em resumo, isto é o que eu vejo e entendo desde a minha ignorância. Se o moderador crê que toda esta castanha que acabo de escrever não faz favor a este fio, não hesite em apagar-me, não me importo. Desculpem os meus erros, tanto ortográficos como de entendimento ou compreensão da matéria que aqui se está a tratar. Prometo não fazer habitual a minha participação no Portal! Grande abraço a todos.

  • Ernesto V. Souza

    E Fernando, mais uma cousa e fecho…

    A intervenção de Sarmento é provável seja a primeira manifestação de Literatura nacional.

    Porém há que ter em conta que Sarmiento era um brincalhão. O diálogo dos 24 galegos rústicos é um texto em chave que agacha uma sátira de costume, contra a corte no momento da morte e honras fúnebres do rei Filipe v… Um texto copiado e distribuído a poucos e manuscrito, com uma dedicatória expressa, para galegos, amigos e ainda naturais de ponte-vedra…

    O resto da produção é compilação científica sobre Galiza e os galegos, erudição em castelhano… Com exemplos.

    Mas a intervenção de Sarmiento, provoca um efeito imediato e persistente na história. Dá base á mistificação dos Séculos escuros, a ideia, hoje de mais em mais desbotada pela pesquisa, da inexistência de galego escrito entre ele e a idade antiga…

    E o que é ainda mais extraordinário… Obrigados a discriminar entre galego e português, a celebração de cada aparição de um documento ou prova desta separação (a centralidade que ocupa a crônica troyana é o melhor exemplo) e as filigranas para explicar aqueles textos de galegos que São demais aportuguesados…

  • Ernesto V. Souza

    Fernando, não posso dar resposta aos últimos comentários. Acho que o sistema de resposta atingiu o limite.

    Obrigado pela oferta… Mas eu para além destes diálogos pouca mais energia tenho.

    Um livro impresso de 1500, não mudaria nada… Mudaria que a Galiza tivesse sido produtora de livros galegos. Mas já sabemos que não foi.

    E repare no dito por Lapa no esquema que eu gizo, não é que o português seja o que teria sido o galego de se poder desenvolver em liberdade… É que na realidade é a forma em que se institunalizou o galego, onde teve liberdade.

    Não nos deram os emigrantes, recursos, bandeira, a RaG, politica, livros e imprensa, em anos e épocas nos que na Galiza não havia liberdade ou possibilidade…

    Por que os portugueses não nos poderiam ter dado a língua?

    Fizeram assim… Que se lhe vai fazer, a cavalo regalado… 😉

    • Venâncio

      Vejamos se ainda consigo inserir um comentário.

      Se digo que um livro impresso em galego em 1500 teria para nós um interesse particular, e mesmo decisivo, é porque ele teria mostrado, olhos nos olhos, aos portugueses de então que a língua de que se serviam não acabava no Minho…

      O meu ponto de vista é, estritamente, o da linguística histórica. É uma história do “Se…”, e só isso.

      Mas tudo o que eu venho fazendo é tentar mostrar aos meus concidadãos que foram circunstâncias históricas enganadoras as que impediram (e continuam a impedir) os portugueses de verem que a língua que chamam sua foi criação alheia: galega.

      Eu faço o que posso, e constato que não é sufidiente. Terei de ter ajuda de outros. Mas, recordo, no Brasil essa consciência vai crescendo.

      Esperemos, só, que o Brasil não acorde proximamente num caos social.

      Um abraço.

      • Ernesto V. Souza

        Exatamente.
        E sim… Isso do Brasil assusta…

  • Paulo Terra Nosolhos

    Não apareceu o comentário que escrevi há um par de dias. Foi banido pelo admin ou eliminado pelo Portal por não ser considerado últil ou spam? Não entendo como funciona isto.

    • Ernesto V. Souza

      Olá. Mais uma vez. Não existe qualquer eliminação de comentários no PGL de usuários identificados.

      Recuperei o Comentário através da Conta de Disqus. É esse sistema quem te bane: a advertência é que o teu code name de correio e nome de usuário é suspeitoso e que não há imagem pessoal. Se a isto juntas um comentário quilométrico…

      Que tu insistes em ser anónimo. Assunto teu. Mas os computadores não gostam.

      E insisto:

      Não apagamos comentários de usuários.

      Os únicos casos em que se eliminaram, desde que eu sou responsável com implicação de banimento de IP e com denuncia a conta DISQUS foram acossadores e trolls fascistas agressivos. Normalmente e após comprovar que escreviam com várias identidades.

      Não existe nestes momentos qualquer outra política de banir usuários. Porém é verdade que fica de tempos passados pessoal banido pela IP e correios por ter sido qualificada de Troll, Sabotador ou brincalhão isolacionista ou hespanhita anónimo sem qualquer intenção de dialogar e com pessoalidade múltipla.

      • Paulo Ferández Mirás

        Tudo bem, já mudei tudo, espero que agora não haja problema.