LIVROS QUE ABREM GRADES

A República da Berxa



“… o apoliticismo obriga à confiscação
das memórias, à sua priva
tização e à sua individualização, de
forma a volvê-las inócuas…”

Paula Godinho

Nos domingos da década de 90 poucas cousas havia melhores, para um rapaz da comarca de Ordes, que ir com a família cear umas truitas à Berxa; o trator do tio Jesus, os contos divertidíssimos de Maria ou a foto de Bebeto no mostrador do bar, faziam dela um lugar mágico. Por baixo, ao nível da memória subterrânea, permanecia o lume da rebeldia justa. O olhar político moderno apenas poderá imaginar que nesta terra, dominada pola paisagem da monocultura leiteira e comesta polo caciquismo, estivesse o epicentro da resistência galega antifranquista. (Num pequeno círculo com o centro na Berxa podemos encontrar os dirigentes da III, IV e V agrupações do Exército Guerrilheiro da Galiza: Saúl Mayo Méndez, em Olas; Manuel Ponte Pedreira, em Abelhá; e Benigno Andrade Garcia em Cabrui). Com A República da Berxa. Antonio Gómez Carneiro e o seu tempo (1899-1979), Manuel Pazos Gómez devolve à superfície esse lume que ainda aquece.

A trajetória de Antonio Gómez Carneiro, alma mater da Berxa, é a de um incombustível: autodidata, ativista societário na emigração, boxeador, militante republicano, alcalde de Messia, fugido, colaborador da guerrilha, preso político e, ainda, o que hoje chamaríamos ‘empreendedor’ e cooperativista. A sua vida permite a Manuel Pazos percorrer boa parte da história local de Messia e da comarca de Ordes durante o século XX, do agrarismo às tentativas de reorganização do comunismo na década de 1950.

A memória da potência

“Os setores populares apenas descobrem
as suas potências ao desenvolvê-las”

Raúl Zibechi

Há uns anos, gabeando polo muro do castro de Bouça Longa, refúgio ocasional do guerrilheiro Dourado Xaneiro, Rubén Calvo refletiva sobre a focagem dominante nos movimentos de recuperação da memória histórica: “falamos demasiado de repressão e mortos e mui pouco de alegria republicana. Havia que fazer mais festas”. A República da Berxa espelha bem a efervescência política e social de aqueles anos anteriores ao fascismo: enquanto as elites tradicionais de Messia se disfarçavam de republicanas com as roupas da CEDA, o povo auto-organizava-se em agrupações locais do Partido Republicano Radical Socialista, do Partido Radical Demócrata, da Unión Republicana (união dos dous anteriores), ou de Izquierda Republicana. Quanto ao sindicalismo labrego e operário, nascem então a Sociedade Agraria de Villamayor, Olas y Parroquias Limítrofes, a Sociedad Unión de Campesinos Labradores de Olas y Parroquias Inmediatas, a Federación Agraria del Partido de Órdenes, e o anarquista Sindicato de Agricultores y Oficios Varios de Juanceda.

Apesar da política de terra queimada da direita local, as corporações locais de Messia com Carneiro à frente (em 1933 e 1936) tiveram tempo de demonstrar como se podiam fazer as cousas de outra maneira. Os plenários municipais da Frente Popular aprovaram antes do golpe a construção de uma escola em Lançá, outra nas Travessas em parceria com os concelhos de Carral e Avegondo (e que desfrutariam as crianças do Hospital de Bruma), e uma outra na futura casa do concelho de Messia. E é que Carneiro iniciou-se como ativista, à volta de Buenos Aires, como comissionado da Unión Galaico Americana para criar uma escola e uma biblioteca em Gonçar, no seu concelho natal do Pino.

Fabricantes de luz

“Seica foi pouco à escola, mas aprendeu no cárcere”, recorda uma pessoa que conhecera Carneiro. De novo o encerro como skholé das classes populares, educadas a si mesmas com muito esforço e auto-organização. Para além do ativismo político, Antonio Gómez Carneiro destacou pola sua inteligência empreendedora. Junto com Encarnación Gómez aproveita os pagamentos em farinha que obtinham dos moinhos da Berxa para montar uma pequena padaria. Também construiriam um asserradoiro e uma granja avícola. Quando nos primeiros anos da década de 1940 ainda não chegara a eletricidade à zona, completam o pequeno complexo industrial da Berxa com uma fábrica de luz, que continuará a melhorar com indicações que envia nas cartas escritas no cárcere do Dueso. O anexo “Antonio Gómez Carneiro, o industrial: dos cereais á enerxía eléctrica”, redigido polo engenheiro e ativista ordense Gonzalo Veiras Carneiro, explica polo miúdo o projeto da Berxa que, a partir da indústria hidráulica tradicional, encetou a eletrificação da zona. No começo dos anos 70, quando a elétrica da Berxa se une com outras distribuidoras da zona na UDESA, os moinhos da Berxa já moíam luz para várias paróquias da comarca: São Cristovo de Messia, Olas, Abelhã, Meros, Vila Maior, Buscás…

Num tempo de crise energética e decrescimento forçoso, trabalhos como o de Gonzalo Veiras são especialmente interessantes. A rápida absorção das pequenas fábricas da luz por multinacionais como a FENOSA também acarretou a extinção, na memória coletiva, duma eletrificação mais ou menos comunitária, descentralizada e ecológica, que começou pola mão de pequenas empresas locais ou mesmo através do concelho aberto. Uma eletrificação ‘por baixo’ dum povo que ainda sabia dotar-se a si mesmo de serviços, apesar da pobreza, sem esperar polo Estado.

A micro-história

Neste livro Manuel Pazos fornece novos dados para estudar a Casa Grande de Xanceda, um desses lugares que parecem condensar a história dum país. Hoje reconhecida exploração agropecuária, a Casa Grande de Xanceda tanto foi domicílio social da CNT como objeto de ferozes desputas pola localização da casa do concelho de Messia. Na década de 60 compra-a, não sem conflitos vicinais, o casal formado pola jornalista e política María Victoria Fernández-España e Felipe Fernández Armesto, mais conhecido como Augusto Assia: cronista –e espião– da II Guerra Mundial em Londres e membro do galeguismo de direitas. A sua vida em Xanceda inspira alguns dos seus artigos en La Vanguardia, onde chega a defender o galego como língua de pleno direito. Nessa época transformam a Casa Grande numa moderna exploração leiteira, origen da atual. Com a Transição e a construção da Autonomia a Casa Grande de Xanceda foi, segundo as crónicas jornalísticas da época e o folclore local, um importante centro de operações políticas na reconfiguração do poder pós-franquista na Galiza: articulação da AP galega de Fraga e Albor, desenho disso que agora chamamos Cultura da Autonomia, pacto ortográfico incluido, e, segundo recolhia recentemente Afonso Eiré, possível centro de operações contra um movimiento nacional-popular que desbordava os limites desse galeguismo que se estava a configurar. Um cenário perfeito para um thriller político.

Manuel Pazos Gómez

Como o próprio autor assinala na introdução do livro, a investigação da história da comarca de Ordes é trabalho da cultura de base, posto que “por desinterese ou por falta de compromiso as institucións e os que teñen formación, coñecementos e medios para investigar ou fomentar a investigación non o fan”. O historiador de Marçoa há anos que escreve e documenta a história da comarca, centrando-se especialmente na II República, a resistência guerrilheira e a repressão franquista. Pertencente a uma geração de ativistas que se formou na comarca à volta da Associaçom Reintegracionista de Ordes (ARO), dirige desde 1996 a A. C. Obradoiro da História, agente decisivo na recuperação da memória história da comarca. Da sua bibliografia, que se pode consultar na íntegra em www.manuelpazos.info, destacam pola sua relação com o presente livro: A resistencia antifranquista na comarca de Ordes. Manuel Ponte Pedreira (1997), Achegamento á Segunda República en Ordes. Domentos (2001) e A Guerra Silenciada. Mortes violentas na comarca de Ordes 1936-1952 (2011). Também o livro de relatos Despois da Guerra (2003), que inclui “A filha do Roxo”, baseado na vida da família de Gómez Carneiro.

  • PAZOS GOMEZ, Manuel. A República da Berxa. Antonio Gómez Carneiro e o seu tempo (1899-1979). Ordes, A. C. Obradoiro da História, 2014.

 

 

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
Carlos C. Varela

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  • Ernesto V. Souza

    Sempre, abrindo grades… a ver quando um dia podes abrir sulcos e sementar livre na Terra.

  • ranhadoiro

    o que vales ghichinho… imos todos apreender contigo, pena não possas estar livre e escutar-te mais de perto e abraçar-te e conhecer-te, e conhecer assim a um bom galego e boa pessoa