relíquias



Muitas das religiões mantiveram culto a espaços, lugares, objetos de caráter cerimonial transcendidos em sagrado; e as mais delas também veneraram relíquias: objetos, livros, fragmentos da roupa, ou mesmo restos ou excrescências humanas que pertenceram ou foram parte dos antepassados, da gente venerável ou santificada da tribo ou da religião.

Talvez nenhuma tantas adorou, reconheceu e estabeleceu mercado com elas como o cristianismo em todas as suas manifestações, dos primeiros séculos até hoje.

Reliqiuae insignesnon insignesexiguae, a história das inúmeras, fantásticas, peregrinas e extraordinárias relíquias, dos deuses, santos, mártires, beatos e grandes padres, da concorrência pela sua legitimidade, o comércio delas, as peregrinações, as disputas, o colecionismo e as grandes falsificações tramadas para ou dentro das mais altas instâncias religiosas e políticas, ocuparia volumes inteiros com casos, tramas, anedotas e daria conta também do absurdo e da doidice que embala os mais altos poderes políticos, religiosos, económicos, que desde a origem desta era e antes adoitam estar misturados no mundo ocidental.

As relíquias estão imbuídas com poderes salvíficos, curatórios, com qualidades talismânicas, e muitas vezes para além da sorte e o sortilégio, misturam no cérebro do possuidor os elementos de veneração, prestígio e culto ao passado: bem em forma de culto dos ancestros, bem como forma de perpetuação da “memória” ou dessa forma de poder que supõe a legitimação que damos à continuidade com o passado e portanto a exibição como prestígio social.

Até tal ponto são veneradas as relíquias, que o seu culto, mesmo no caso das mais impossíveis e absurdas e até nas demonstradas falsificações substitui, suplanta ou desloca a ideia religiosa, ou o sentido central da Religião.

Dalgum jeito a ideia que temos da Língua, da língua com maiúscula, do objeto histórico identificado com a nação, adquire esse valor religioso icónico e portanto em elementos e aspetos concretos manifesta esse valor e sentido de relíquia.

A veneração pela língua, pela ortografia, pelas fórmulas, letras, pelo léxico, pelas crenças comuns reiteradas e tropos repetidos e imbuídos de uma noção de essencialidade, pode provocar resistências às mudanças e conflitos na hora de optar por opções modernizadoras ou estratégicas.

Para além do valor instrumental das línguas como ferramentas de comunicação, as línguas estatalizadas apresentam valores nacionais ou religiosos, nomeadamente desde o renascimento, em que renascem seguindo patrões comuns que permitirão aos estados criarem as literaturas nacionais à par das maquinarias da administração.

Nesse sentido é pior ainda no caso das línguas menorizadas, como é o caso do galego, em origem a língua antiga da que nascerá o português primeiro (que depois será reelaborado em ordem ao exposto e irá modificando no percorrer dos séculos). Línguas que mesmo quando não acompanharam o caminho da estatalização conservam, porém, sentido nacional ou religioso.

O paradoxo é esse (e é marcante num país que tem o Graal rodeado de cruzes por brasão, venera Santiago e reúne a mais grande quantidade de topónimos santificados e paróquias milenares e bimilenares da cristandade): no percurso dos séculos de destruição e submetimento ao castelhano, o galego antigo foi-se erodindo, perdendo corpo próprio, ganhando material alheio e fazendo-o fora da órbita evolutiva da Língua portuguesa.

Porém para os mais dos galegos e dentro deles os mais dos seus “sacerdotes” e cultores, os restos de “galego” são sagrados, são relíquias dos antergos imbuídas de poderes talismánicos e portanto a qualquer custe devem ser preservadas e veneradas.

Mas com o galego acontece como com os fragmentos da Santa Cruz, que havendo tantos como para ter constituído uma grande fraga, é difícil determinar quais são os autênticos. Mas os linguistas modernos e patrióticos da Galiza têm chegado à mesma conclusão que o bispo Paulino de Nola no século V: é óbvio que o galego, como a vera Cruz regenera-se miraculosamente de cada acha e cada racha que perde, para continuar incólume e eterno.

Chegados a este ponto deixo ao leitor amigo concluir por ele próprio e enquanto eu fico com aquele delicioso equívoco de pacotes com que Eça de Queiroz fecha A relíquia.

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza (Corunha, 1970). Formado como filólogo, especializou-se e publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. Colabora também no Novas da Galiza, é sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa. Trabalha, como bibliotecário na Universidade de Valhadolid (Espanha).

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  • abanhos

    delícia…que seja ela verdade sempre

  • Celso Alvarez Cáccamo

    Muito bom!