reintegracionismo 3.0



As línguas de cultura são cousa frágil, condicionadas por catástrofes, sucessos, azares, acasos políticos, invasões, migrações, expulsões, genocídios, mudanças dinásticas, económicas e  sociais; por inventos, descobertas, modas; sujeitas ao capricho, às vontades, teimas higienistas, restauradoras, historicistas, ou reformistas das elites; condicionadas pelo isolamento ou pela sua internacionalização em diversas épocas, pelo seu papel como língua franca de comércio ou das diplomacias, como principal de impérios ou como língua de periferia nos reinos e estados.

Como as religiões, as línguas, com as suas gramáticas e as ortografias, têm muito de rito, de convenção e não pouco de ilusão coletiva assumida. Têm muito também de capas, reformas e fases de ortodoxia, abertura, contato, regularização, autarquia e heterodoxia. Nesse sentido as ortografias são simplesmente umas convenções marcadamente epocais e submetidas à política, às técnicas de escrita e impressão e às modas culturais. Se procuramos na sua história ou na lógica das suas estruturas e sentido das exceções, logo advertimos a modernidade do eterno, as razões concretas que motivaram o que tomamos como tradição e, facilmente, começam emergir as incoerências.

Isto acontece em todas as línguas. Nenhum sistema é perfeito e lógico, senão composto por capas, camadas e níveis, cujo controlo e aprendizagem em não poucos casos revela marcação de status, de origem ou de classe. Entre as línguas mais próximas, algumas têm, como o castelhano, por causa da sua história, uma profunda construção regularizadora e simplificadora com aproximação entre escrita e oralidade (ou com condicionamento da oralidade a uma escrita imposta desde um centro), sobreposta a fases mais antigas de também refação, regularização e simplificação. Outras, como o francês, apresentam uma evolução diversa entre o oral e o escrito, com um pouso diverso e fases, re-estruturadas por um forte centralismo cultural e um destacado conservacionismo historicista definido por uma elite.

O português, como sabemos, é policêntrico e polimórfico, com uma tradição escrita escapista das origens galegas e da tradição castelhana, depois re-adequada às preferências do Hinterland lisboeta e da corte, internacionalizada, re-latinizada e posteriormente simplificada e modernizada, em processos diversos a respeito dos Estados e das sociedades que a hoje apropriam e dizem sua.

Todas as grandes fases de construção das línguas de Ocidente: a primeira medieval (arredor do Rei e da administração), a renascentista (na fase da grande gramaticalização humanística e a imprensa), a ilustrada (regularizadora e neoclássica) e a contemporânea (definida pela alfabetização maciça, o público e a imprensa de massas) foram de sistematização, e a sistematização é sempre uma oportunidade para a regularização, o ajuste e a coerência.

A questão da língua escrita na Galiza é bem interessante. Não apenas pela sua história, quanto porque dista muito de estar fechada uma base consensualizada. Rota uma continuidade de construção culta em fins da Idade Média, perdeu o renascimento e o iluminismo, e apenas com o nacionalismo do século XIX retomou uma construção e fixação culta, que, porém em grande medida foi feita depender do castelhano e nas asas do processo de escolarização e alfabetização em castelhano do Estado espanhol moderno.

Houve vozes, já sabemos, que ao longo do século XIX e já no XX, se declararam continuadoras da tradição culta, em formulação mais técnica, da desenvolvida como prática e programa por Martim Sarmiento, e continuada pelos Precursores e algum dos mestres, a Cova Céltica, Biqueira, Irmandades, Nós, Geração do 25, Guerra da Cal, Carvalho Calero, Marinhas del Valle.

Porém, o reintegracionismo moderno, organizado nos anos 8o do século XX como reação às propostas Institucionalistas para a fixação do Galego, já no seu dia e nomeadamente no decurso dos seus trabalhos de fixação, entendeu (dentro do esquema restaurador) que tinha de se achegar no possível da tradição escrita do Português moderno; e iniciou uma readaptação em coerência progressiva para reintegrar a tradição antes dita.

Neste sentido cumpre atender um pouco à história próxima para entendermos a evolução, na procura (ou nas asas) da coerência, do movimento reintegracionista galego moderno. Entendermos esta evolução é fundamental para compreender como a rápida mudança em discursos, posições, estratégias e imagens, ocasiona que a sua percepção resulte complicada, até para os mesmos protagonistas.

Em conflito com o modelo de tradição popularizante-castelhanista que as instituições escolheram e que desenvolveram ILG e RAG, o modelo reintegracionista, foi ganhando coerência e achegando-se mais do que nunca antes à moderna tradição escrita do Português.

Isto foi derivando numas novas bifurcações, causadas polos limites da aproximação e motivadas pelas velocidades na aproximação. Aquilatamento léxico, achegamento sintático, aproximação morfológica, deriva cara modelos literários e estilísticos portugueses, brasileiros, africanos. Mas não homogêneas (havendo quem defende um lusismo lexical, fraseológico e sintático combinado com um nacionalismo ortográfico e morfológico; e a contrario, quem apanha a ortografia dos padrões portugueses, brasileiros ou do Acordo e promove um diferencialismo lexical e fraseológico caracterizador; entre ambas todas as possibilidades combinatórias propositadas e as interferidas).

A diversidade não está definida, na realidade, estritamente pelos grupos e associações que se formaram, ou por marcadas tendências e estratégias; senão que se define em função das escolhas individuais, preferências e do jeito de aproximação e aprendizagem da língua portuguesa:  se este foi académico (EOI, Universidades, estudos em Portugal ou Brasil) ou se foi autodidata; e ambas podem ser modificadas em função se esta aprendizagem foi feita a partir do galego oral familiar, do castelhano galego ambiente, desde uma forte base oral, sem ela, com um conhecimento entusiasta pela tradição literária galega escrita; desconhecendo-a ou achando-a rural, imperfeita, obsoleta, repudiando-a; e também a respeito do valor, papel e função que o utente dá a esse pouso como elemento conformante – ou de descarte – do seu neo-português galego.

Os resultados são, pois, hoje, diversos, e os resultados estão em processo, combinatórios, diferenciados, interferidos, aparentemente categorizados por escolas, aprendizagens, magistérios, sistematizações de grupo, tendências, espaços de escrita.

Porém, o interessante é que se trata em conjunto de um realinhamento dialetal, relativamente coerente, definido em função dos elementos e do processo de reintegração. Pois uma vez rota a barreira do antilusismo que era própria da tradição (que definia que todos os textos que na Galiza, não estando escritos em castelhano ou latim e não queriam ser confundidos com Português, eram galego) é difícil determinar os limites do processo de reintegração. Limites que ficam definidos, em ausência de uma invenção coletiva assumida, mais pela coerência que se queira dar ao sistema (volvam ler o parágrafo primeiro) e pelas crenças e barreiras mentais auto-impostas ou entendidas como tradição.

 

* Publicado em A Viagem dos Argonautas

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza (Corunha, 1970). Formado como filólogo, publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. É sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa; atualmente é o Diretor do Portal Galego da Língua.
Ernesto V. Souza

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  • Ângelo Cristóvão

    Há uma frase que têm dito vários escritores galegos, quando chegava a altura de decidir o caminho para a língua escrita. Aproximadamente era assim: E que faço agora com as minhas publicações anteriores (com ortografia do castelhano)? O que revela uma filosofia e uma forma de estar na sociedade.

  • Joám Lopes Facal

    Ernesto, nesse labirinto sincrónico e diacrónico, formal e informal, regulado e individual, estilístico ou descaracterizado, surgem modelos aceitados por colectividades de utentes.

    Em óptica histórica, os modelos socialmente mais aptos devem ser claros, económicos, proximos e facilmente acessíveis aos utentes.

    É neste banco de provas —historicamente determinado— onde os modelos ham de medir-se. No anfiteatro da política e dos usos comunicativos, em definitivo.

    • Ernesto V. Souza

      Caro, modelos há… mas o problema reside no consenso, na ilusão coletiva (tal como o Mário Herrero destacava, mas em positivo) na fição inventada, assumida, consagrada, ritualizada, mantida e cultivada por um conjunto amplo da sociedade… sem ele … enfim… Acontece como com a política e a necessidade de um movimento nacional… há modelos, há coletividades, mas são fragmentos hoje enfrontados e que se desgastam.

      No momento atual não há qualquer possibilidade de consenso. Para que perder a voz, o fôlego e o tempo? A Ilusão normativa, com apoio institucional e político, fracassou duplamente. Primeiro por não ter conseguido se impor como um modelo socialmente válido, segundo por não se ter imposto como um modelo central de convergência.

      Para além, a discriminação ao reintegracionismo provocou neste uma deriva inesperada, um maior afastamento de qualquer ideia de convergência ou de correção do modelo institucional, e um, de mais em mais, projeto de construto independente, que potenciou (que está a potenciar) internet e o consumo de produtos em língua portuguesa como nunca antes.

      Dentro do reintegracionismo, também não existe, nem existirá uma ilusão coletiva, uma invenção nacional, por enquanto não abandonemos a pretensão de criar ou estabelecer um modelo único.

      Para mim, fica claro que o futuro da língua galega passa pelo reintegracionismo como espaço central e que o resultado virá definido não por modelos pre-estabelecidos, senão a contrário por modelos pos-coordenados. Não por modelos puros e consequentes, antes bem por modelos mestiços e multicapa. Quanto mais variedade, mais rico o caldo… Tempo ao tempo.

  • Celso Alvarez Cáccamo

    Muito bom texto. De leitura obrigada em qualquer curso universitário que quiser abordar seriamente a Questione della lingua na Galiza. Um texto aberto — como a situação normativa atual —, não polarizador. A diagnose é muito boa, e a prognose também, exceto que não incorpora um fator determinante, que é a própria ausência de língua, o seu apavorante declínio. Claro que o campo que já é (somos) de galego-escreventes habituais poderá continuar e auto-reproduzir-se, não creio que isso esteja em perigo por enquanto. Mas resignar-nos a isso só não é um ideal muito saudável. Sem escola própria há pouco a fazer.

    • Ernesto V. Souza

      Ah… não é mérito meu… é que topei bons mestres e companheiros/as de caminho… eu limito-me a fazer-lhes síntese e resumos didático-populares.

      O declínio deveu acontecer, seguindo a lógica do ILG e de Constantino Garcia, porque falhou a “vontade do povo e dos falantes”…

      https://youtu.be/1rht1jv42Hw

  • abanhos

    Mais uma pequena peça mestra na obra bem esclarecedora que o Ernesto nos vai dando.
    Cada texto deste homem é um belo lustre afastando as tebras pra bem nos podermos movimentar.

    http://estraviz.org/Lustre