AS AULAS NO CINEMA

RECUPERAR A FILOSOFIA PARA ENSINAR A PENSAR

Filme: Os últimos dias de Emmanuel Kant



Aos políticos medíocres que tanto abundam nos atuais governos, está claro que não interessa ter cidadãos que pensem. Para isso nada melhor que aproveitar as infames leis educativas que se promulgaram, para ir tirando espaço e tempo nos currículos escolares à disciplina de Filosofia. O que tem acontecido já em alguns anos da secundária, com o desterro nas suas aulas da história do pensamento. Por esta razão, nos últimos tempos, sob o lema #FilosofiaSi, um amplo grupo de docentes de estabelecimentos de ensino deste nível se organizaram adequadamente para conseguir assinaturas entre os cidadãos galegos, com o fim de solicitar que se recupere para o currículo educativo a disciplina de Filosofia e a da História do pensamento filosófico. Porque pensar não estorva, embora muitos dos que mandam (e alguns deles corruptos ou consentidores da corrupção), assim o pensem. Mas, na formação dos nossos jovens é fundamental que aprendam a pensar e refletir, com o pensamento desenvolvido ao longo dos tempos desde Sócrates (e já antes), Platão, Aristóteles, Locke, Descartes, Hume, Kant, Husserl, Schopenhauer, Camus, Sartre, até os últimos pensadores, como Habermas, Marcuse, Sami Naïr, Mario Bunge ou Popper.

Seguindo a série que estou dedicando a grandes vultos da humanidade, nada melhor para o tema que escolher o filósofo germano Emmanuel Kant, que faz o número 11 da série. Ademais é também uma figura ideal para comemorar o Dia Internacional da Democracia, celebrado em todo o mundo em 15 de setembro. Democracia hoje tão ameaçada e com um nível tão baixo em numerosos lugares do Planeta Terra. Pois, sem o desenvolvimento do pensamento através do estudo da filosofia nas aulas, sem apoiar a educação muito mais, e também a cultura, é muito difícil que exista uma democracia de qualidade. E todos sabemos que, por desgraça, em numerosos países da terra, onde existem governos neoconservadores e neoliberais, ademais de reduzir os orçamentos em saúde, de forma infame também o estão a fazer no campo da educação, como é por exemplo o caso dos EUA, França, Índia e o Estado Espanhol, entre outros. Fazendo todo o contrário do que teria que fazer-se.

Immanuel Kant nasceu em Königsberg, na Prússia Oriental, no dia 22 de abril de 1724. Foi o quarto de nove filhos do casal Johann Georg Kant, fabricante de arreios para cavalgaduras, e Anna Regina Kant. Viveu uma vida modesta e devota ao luteranismo. Estudou no “Colégio Fredericianum” antes de ir para a Universidade de Königsberg. Assim, após passar a adolescência estudando num colégio protestante, vai para a Universidade de Königsberg, em 1740. Ali, será livre-docente conferencista associado somente em 1755, quando se doutorou em filosofia, estudando também física e matemática, além de lecionar Ciências Naturais. Em 1770, assume a Cátedra de Lógica e Metafísica na Universidade de Königsberg. Nesse momento, termina a chamada fase pré-crítica Kantiana, na qual predomina a filosofia dogmática. Seus textos mais emblemáticos dessa época foram A História Universal da Natureza e Teoria do Céu, de 1775.

Na segunda fase do autor, é superada a “letargia dogmática” a partir do choque sofrido pela leitura dos escritos do filósofo Hume. Nessa fase, Kant irá escrever A Crítica da Razão Pura (1781) e Crítica da Razão Prática (1788). Ademais, foi contemporâneo da Independência Americana e da Revolução Francesa, tendo visto pessoalmente Napoleão Bonaparte conquistar a Prússia. Kant, um homem metódico e de saúde frágil, foi professor de Física, Antropologia, Geografia, Lógica, Metafísica, etc. Além disso, escreveu alguns ensaios sobre história e política. Morreu aos 80 anos, em Königsberg, no dia 12 de fevereiro de 1804.

Kant revela que o espírito ou razão, modela e coordena as sensações, das quais as impressões dos sentidos externos são apenas matéria-prima para o conhecimento. O julgamento estético e teleológico unem nossos julgamentos morais e empíricos, de modo a unificar o seu sistema. Vale citar que Kant foi um entusiasta do Iluminismo europeu e estadunidense, donde publicou a obra O que é o Iluminismo? (1784). Nessa obra, ele sintetiza a possibilidade de o homem seguir sua própria razão, o qual seria, ao mesmo tempo, a saída do homem de sua menoridade. Essa é definida como a incapacidade do homem de fazer uso do seu próprio entendimento. Ou seja, o fato de não ousar pensar, por motivos de covardia e a preguiça, principais motivos para permanecerem os seres humanos na menoridade.

FICHA TÉCNICA DO FILME:

Título original: Les derniers jours d´Emmanuel Kant (Os últimos dias de Emmanuel Kant)kant-cartaz-do-filme-os-ultimos-dias

Diretor: Philippe Collin (França, 1994, 70 min., cor).

Roteiro: Philippe Colin e André Scala. Fotografia: Jacques Bouquin.

Nota: Pode ver-se entrando em: https://papodeagora.wordpress.com/2017/04/25/filme-completo-os-ultimos-dias-de-immanuel-kant/

Atores: David Warrilow, Roland Amstutz, André Wilms, Emmanuelle Clove e Hélène Janin.

Argumento: Emmanuel Kant, o célebre filósofo, aproxima-se do final da sua vida. A sua existência está sincronizada completamente pelos hábitos adquiridos ao longo dos anos. A partida do seu mordomo vai sacudir esta vida tão bem planeada…

A FILOSOFIA POLÍTICA DE KANT

kant-desenho-1Kant não escreveu nunca uma grande obra sobre filosofia política, ao estilo das três Críticas, senão o que se considerou sempre “obras menores” nas quais, com frequência, não se quis ver uma filosofia política, como Ideias para uma história universal de um ponto de vista cosmopolita (de 1784), A paz perpétua, um esboço filosófico (de 1795), e Metafísica dos costumes (de 1797), entre outras. E tudo isso apesar de que com o seu escrito de 1784 O que é o Iluminismo?, ficou fortemente associado aos ideais políticos e emancipatórios do Iluminismo, conhecedor já da declaração de Independência dos Estados Unidos de 1776, e a quem se apresenta com frequência, ademais, como um firme defensor dos ideais da Revolução Francesa de 1789, seguindo as opiniões de Heine, primeiro, e de Marx e Engels, depois.

O pensamento político de Kant está dominado, em efeito, pelos ideais de liberdade, igualdade e valorização do individuo, próprios de um Iluminismo ao qual Kant se junta e defende nos seus escritos políticos. Ao igual que na ética, – onde se confere ao indivíduo, enquanto sujeito moral, a capacidade de converter-se em legislador da moral, a partir da sua autonomia -, na política o indivíduo será considerado também, enquanto cidadão, o sujeito criador do campo da atividade pública comum.

A capacidade legislativa do ser humano funda-se no carácter formal com que Kant concebe a ética, e que se expressa no imperativo categórico. Este imperativo, como princípio formal da razão prática, ampliar-se-á a todos os campos de aplicação desta, ademais da atividade política. Assim, não admira que Kant tenha proposto três definições do imperativo categórico, sublinhando já o carácter universal da norma moral, já o valor intrínseco do individuo como fim em si mesmo, dada a sua natureza racional e a sua autonomia.

A política, enquanto espaço público do exercício da liberdade, está ligada à noção de direito, fazendo-a possível. Em consonância com o carácter formal da moralidade, o direito não se concebe como um sistema normativo de regulação da convivência, mas como o quadro formal em que se estabelecem as condições e os limites da ação no campo da convivência, do exercício da liberdade. A lei jurídica há de ter, portanto, ao igual que a moral, um carácter universal e a priori; porém, enquanto a lei moral se impõe ao individuo, a lei jurídica se lhe impõe mediante uma coação externa.

A lei jurídica, seguindo o imperativo categórico, há de adaptar-se à natureza racional do ser humano, pelo que Kant afirmará a existência de direitos naturais (próprios de tal natureza racional), que serão o limite da ação do Estado. As relações entre os indivíduos e, portanto, a organização da convivência, tem uma natureza racional, pelo que a lei jurídica não pode atuar contra essa natureza. A filosofia política kantiana entronca assim com a filosofia política moderna do Estado natural e das teorias do contrato. Há uma natureza, anterior à organização política dos seres humanos, que é a fonte de direitos universais contra os quais não se pode legislar, e que atuam por si mesmos como princípios de organização da vida política, que deveria tender a uma República universal. Ademais dos direitos naturais, o legislador, em função das necessidades históricas, poderá desenvolver leis (o direito positivo) que correspondam ao desenvolvimento da sociedade civil.

No Estado de natureza, os seres humanos encontram-se numa situação de constante insegurança, devido às ameaças de outros que, por direito natural, seguem a sua própria vontade sem ter em conta a vontade dos demais. Vivendo em família ou em pequenas comunidades, os seres humanos se encontram expostos às violências de outros seres humanos alheios à sua comunidade. No interior do grupo há normas de convivência e uma autoridade que sanciona o seu incumprimento. Porém, não há uma autoridade que se imponha a todos os grupos dispersos, pelo que não há segurança. O Estado civil, instaurado mediante o contrato, supõe a dependência de uma autoridade comum, pelo que passa a ser o terreno da segurança e do direito. Nesse passo do Estado natural ao Estado civil não há rutura, para Kant, mas continuidade: mediante a imposição de uma autoridade comum, os direitos naturais, que já se tinham no Estado natural, podem ser exercidos realmente com segurança.

Kant concebe o contrato social como a condição que faz possível a instauração do direito público, pelo que ficam garantidos os direitos naturais. Na realidade, Kant admite um só direito natural: o de liberdade, do que derivam todos os demais, os direitos civis de igualdade e de autonomia. O direito de liberdade, ao tempo que garantido, fica limitado pelo direito dos demais, segundo o acordo tomado pela vontade pública. A ideia de vontade pública é claramente de corte rousseauniano, embora em Rousseau a vontade geral represente o interesse comum, enquanto que em Kant representa a garantia da liberdade individual, quer dizer, estabelece-se como um vínculo jurídico formal entre os cidadãos, em que se funda o Estado. Pelo demais, para Kant o contrato não teve nunca lugar, não é um facto histórico, mas uma categoria ou princípio racional que opera como um eixo de referência na construção do político e do Estado.

Comprovamos, pois, como Kant intenta reduzir a uma única síntese os dois elementos fundantes procedentes: 1) das teorias liberais (os direitos individuais de liberdade) e 2) das teorias democráticas (a soberania da vontade coletiva), que ainda segue inspirando na atualidade autores como J. Rawls e J. Habermas, nas suas tentativas por fundamentar as suas respetivas teorias do consenso.

AS SUAS IDEIAS EDUCATIVAS:

Para Kant, a educação era da maior importância. Por meio da educação, fazemo-nos verdadeiramente humanos e criamos padrões de civilização. Devemos educar com vistas ao futuro, pois o homem evolui e leva dentro de si o princípio da perfeição. Ao educar a criança, devemos assegurar a salvaguarda da sua independência. Ao mesmo tempo, a criança deve ser educada numa forma genuinamente moral. A moralização significa “adquirir o tipo de mente que só escolhe os bons fins”.

Para alcançar este objeto, Kant não aprovava a educação do estado e se opunha também ao controlo por parte dos príncipes. Filósofos e educadores deviam combinar-se para realizar os ideais dum novo sistema escolar baseado na lei moral e na dignidade do individuo. O pensamento pedagógico de Kant dá importância especial à disciplina. E, por isso, diz: “A disciplina e a instrução transformam a natureza animal em natureza humana”. Segundo ele, as crianças necessitam de um controlo: “A disciplina submete o homem às leis da humanidade e o faz sentir coartado. No entanto, isto deve acontecer desde cedo. Assim, ao início, mandam-se as crianças à escola, não tanto para aprender, como para que se acostumem a estar sentadas e quietas, e a obedecer imediatamente o que se lhes mande, com o fim de que mais tarde, na vida, não sigam instantaneamente todos os seus impulsos”.

Ao contrário de Rousseau, com quem coincide em muitas opiniões, considera a civilização como requisito prévio e indispensável para a educação: “O homem deve acostumar-se cedo a submeter-se aos ditados da razão. (…) O erro comum na educação dos grandes é que, por estarem destinados a governar, não encontram oposição na sua infância”.

A cultura é de primeira importância para Kant: “A cultura compreende a disciplina e a instrução. O homem só se faz homem por meio da educação, ao contrário dos animais. Não é nada além daquilo que a educação faz dele. Devemos notar que o homem é educado só por seres humanos que foram, por sua vez, educados”.

A educação para Kant envolve um melhoramento constante: “Existem no homem muitas forças sem desenvolver, e a nossa missão é explorar esses valores na devida proporção, desenvolver a humanidade em estado embrionário e levar o homem à realização do seu destino. (…) A educação é uma arte suprema, cuja prática só pode fazer-se perfeita através de muitas gerações. Cada geração, equipada com o saber da precedente, está cada vez mais em condições de dar uma educação que desenvolva os valores naturais do homem na devida proporção e em relação com os fins, e fazer assim avançar toda a raça humana para o seu destino”.

Kant ensinava que o homem deve desenvolver o seu sentido moral: “A Providência não pôs no ser humano uma bondade completamente formada, senão somente capacidades sem distinção moral. O dever do homem é aperfeiçoar-se: cultivar o seu espírito e, quando é mau, desenvolver a sua personalidade moral. Pensando-o, encontraremos que isto é muito difícil. Daí que a educação seja o maior e mais difícil problema a que o homem pode dedicar-se”.

O sistema pedagógico que propiciava Kant era o seguinte: “ O homem pode ser domado, adestrado e ensinado de forma mecânica, ou bem realmente educado. Domam-se os cavalos e os cães e o homem também pode domar-se; embora seja sumamente importante que aprenda a pensar. Isto nos leva ao princípio do qual procedem todas as transações. Vemos assim que uma educação real envolve muitas coisas. Porém, pelo geral, na educação privada se descuida demasiado o quarto ponto, que é o mais importante, pois, substancialmente, educa-se as crianças de maneira que se deixa o ensino moral aos predicadores. E, no entanto, quão importante é ensinar às crianças desde a infância a detestar o vício, porque em si mesmo é detestável”.

Kant acreditava nas Escolas Experimentais, que: “devem ser criadas antes de criar escolas normais. A educação e a instrução não devem ser puramente mecânicas; devem basear-se em princípios fixos. Contudo, a educação não deve ser inteiramente teórica, senão, ao mesmo tempo, em certo sentido, mecânica. As pessoas pensam comumente que os experimentos não são necessários na educação e que, com a nossa razão, podemos julgar se algo é bom ou não. Porém, isto é um grande erro, e a experiência ensina-nos que os resultados dos nossos experimentos são amiúde diferentes do que esperávamos. Comprovamos, portanto, que dado que deve guiar-se por experimentos, nenhuma geração pode traçar um plano completo de educação”.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Servindo-se da técnica do Cinema-fórum, analisar e debater sobre a forma e o fundo do filme antes resenhado, realizado por Philippe Collin.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Emmanuel Kant, ao seu pensamento, à sua vida e à sua obra, que podemos ampliar à Filosofia em geral, centrando-nos especialmente nos momento e vultos mais importantes do pensamento filosófico ao longo da história. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos levar a cabo no nosso estabelecimento de ensino uma magna tertúlia ou debate-papo, convidando para participar no mesmo filósofos e professores de filosofia da localidade. O tema a debater teria que ser o da importância social da filosofia e o seu ensino. Dando alternativas e fazendo propostas para que volte a recuperar-se para o currículo oficial da nossa educação e do nosso sistema educativo.

 

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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  • Galego da área mindoniense

    Inmanuel Kant, ũu dos melhores filósofos dos últimos séculos e de toda a istória. É ũa mágoa que nem Königsberg (a cidade natal do Kant e tam importante pro avanço da umanidade, como foi a resoluçom do probrema das suas 7 pontes) nem a Prússia Oriental existam oje em dia.