AS AULAS NO CINEMA

RAMÓN DE VALENZUELA, UM DIGNO MESTRE REPUBLICANO

(Vários documentários)



Em 18 de julho de 1936, faz hoje exatamente 82 anos, Franco, com os seus militares “comparsas”, deu um golpe de estado de tipo fascista, contra o governo legítimo da 2ª República, que provocou logo uma guerra civil de 3 anos, e, depois, uma ditadura infame de 40 anos, com Francisco Franco de chefe de estado ditador. Galiza sofreu este golpe de estado já desde o primeiro dia, sendo assassinados infinidade de galegos bons e generosos. Um dos que se salvou milagrosamente foi o republicano Ramón de Valenzuela, um mestre galego muito digno, pertencente ao Plano Profissional de 1931, que luitou contra o fascismo primeiro, e depois, já exilado na França, contra o nazismo. Depois de ter dedicado o depoimento anterior a Alberto Vilanova, o presente, que faz o nº 57 da série que estou a publicar sobre os grandes vultos da humanidade, que devem conhecer todos os escolares, está dedicado a Ramón de Valenzuela Otero (1914-1980). Que, ademais de importante mestre, foi um escritor, com quase que toda a sua obra escrita em idioma galego.

Ramón de Valenzuela tinha nascido no Paço da Vinha, em Manduas, Silheda (Ponte Vedra), da paróquia de Abades, a 3 de outubro de 1914, e falecido em São Genjo no dia 27 de outubro de 1980. O seu pai, José Valenzuela Ulhoa, era médico, e a sua mãe chamava-se Dolores Otero. Realizou os estudos primários no lugar do seu nascimento e chegou a tornar-se mais tarde num dos poucos narradores em língua galega que tentaram fazer uma crónica pessoal das experiências da guerra civil, o que levou a cabo, como representante da narrativa em galego no exílio depois desta guerra civil. Fez o liceu em Compostela, e no ano letivo 1931-32 matriculou-se para fazer o curso de Direito, passando no seguinte ano para a Faculdade de Filosofia e Letras da universidade compostelana. Em 1933 ingressou na Escola Normal de Ponte Vedra, para realizar os estudos de Magistério, dentro do denominado “Plano Profissional de 1931”, durante os 3 anos precetivos. Terminados estes estudos, é destinado a Vigo como mestre, embora, infelizmente, por culpa do início da guerra, não chegasse a exercer de docente de ensino primário. Desenvolveu naquela altura uma intensa atividade na vila de Bandeira, na qual, aliás, hoje o colégio público leva o seu nome na sua homenagem e lembrança. Em 1930 cria nesta localidade, numa pequena casa que pertencia a seu pai, conhecido com o nome familiar de “Pepe da Vinha”, uma escola para adultos, na que dá as suas aulas em língua galega. Tinha só dezasseis anos, porque de velho lhe vinha a sua vocação pedagógica e a sua inclinação galeguista. No verão de 1933 formou com outros jovens um grupo teatral, que chegou a representar algumas obras. E um pouco mais tarde criou “Ultreia”, uma organização galeguista, formada por jovens galeguistas, que ainda hoje se lembra com entusiasmo. Durante os anos 1934 e 35 dedicou-se a narrar, utilizando o pseudónimo de “Pepe dos Cestos”, contos populares em Rádio Ponte Vedra, jogos dramáticos, e mesmo, em alguma feira de Bandeira, tinham lugar estas atividades por ele organizadas, que deixou de fazer por considerar que, no lugar de contribuir para promover uma consciência galega, poderia dar uma visão ridícula do camponês galego, tanto da perspetiva linguística, quanto do ponto de vista da política galeguista em geral. De 1933 são os seus primeiros escritos: uma série de Cartas a Alfonso d´Outeiro, assinadas como “Ramón da Vinha”, aparecidas no jornal de Lalim Razón, dirigido pelo agrarista Jesus Iglésias Surribas. Neste jornal publica o seu primeiro conto intitulado “O bilhete de ida e volta”. Em novembro de 1934 atuou no Casino de Lalim, acompanhado pelo coral “Airinhos do Ulha”. Em 15 de agosto de 1933 participou na “Peregrinagem ao Candã”, uma festa de exaltação galega em homenagem ao 25 aniversário da Sociedade Filhos de Silheda, junto a Ramón Otero Pedraio, Vicente Risco, Ramón Suárez Picalho, Eduardo Blanco Amor e Antón Alonso Rios.

Já em 1936 era militante do partido galeguista (de Castelão e outros), e colaborador do Seminário de Estudos Galegos (SEG). Aos poucos dias do golpe de estado franquista é detido em Bandeira, junto com o seu primo Carnero, conduzido e encarcerado no rés-do-chão do que hoje é a casa do concelho de Silheda. Ao dia seguinte é transportado por um pelotão de soldados ao cárcere de Compostela, onde, por sorte, os bons ofícios dum familiar conseguem a sua saída do cárcere, salvando-se de ser fuzilado. Porém, perante a insegurança de andar como fugido, decide militarizar-se como voluntário no exército do bando fascista e franquista, salvando a sua vida que corria grande perigo. Destinado em 8 de dezembro de 1937 a Cáceres, Ramón de Valenzuela, escapou e passou-se ao exército republicano, dentro do qual luitou até que terminou a guerra. A divisão a que pertenceu estava ao mando de Henrique Líster.

Em 1935 incorpora-se às Mocidades Galeguistas, e neste mesmo ano, a IVª Assembleia do Partido Galeguista, celebrada em Compostela, escolhe-o como conselheiro em representação da comarca de Lalim-Estrada. A partir deste momento empreendeu a sua atividade política para reorganizar o partido: visita os grupos já constituídos e promove uma campanha de propaganda para criar novos. O seu projeto de reorganização aparece em A Nossa Terra, e consistia numa estrutura baseada em células paroquiais de cinco membros, que enviariam um representante à Assembleia Comarcal. Intervêm nos comícios do Partido Galeguista da comarca: no de Lalim, em 1 de setembro de 1935, junto com Castelão (a primeira aparição deste, depois do exílio forçado em Badajoz); no da Estrada, em janeiro de 1936, com Vítor Casas e Castelão. Participa ativamente na Campanha do Estatuto. Colabora também com o SEG (Seminário de Estudos Galegos) na sua seção de Etnografia e Folclore.

Em Barcelona colaborou com os galegos da zona republicana, unindo-se à Solidariedade Galega Antifascista, da qual vai ser Secretário de Informação e Imprensa. Desempenha vários cargos no Partido Galeguista, entre eles o de secretário-geral e secretário de organização. Escreve no jornal Nova Galícia.

FICHAS TÉCNICAS DOS VÍDEOS:

1. Ramón de Valenzuela: as olhadas da esperança.

Duração: 19 minutos. Produtor e roteirista: João Leira.

Nota: Realizado com motivo do centenário do nascimento, em 2014.

2. Ramón de Valenzuela.

Duração: 6 minutos.

Biografia em vídeo com intervenção e recital dos escolares do CEIP de Bandeira, que leva o

nome de Ramón de Valenzuela.

3. Festa do Magusto no CEIP R. de Valenzuela (Bandeira).

Duração: 4 minutos. Ano 2016.

4. A 2ª República Espanhola.

Duração: 67 minutos. Ano 2015.

EXÍLIO NA FRANÇA E NA ARGENTINA:

Terminada a guerra, desde Catalunha, em 1939, exila-se na França, com os restos do exército republicano. Internado no campo de concentração de Argelès, recebe ajuda da Sociedade Pro Escolas em Bandeira de Buenos Aires. Já em liberdade, colabora com o 2º Bureau do exército francês como oficial republicano. Ali conhece a que depois ia ser sua esposa, Mª Vitória, filha do deputado Elpídio Villaverde. Com o início da 2ª Guerra Mundial, a família Villaverde parte para a Argentina, embora Ramón de Valenzuela permaneça na França, para continuar a luita contra o fascismo e o nazismo. Com a ocupação alemã, a “Gestapo” detém-no e entrega-o à polícia política espanhola. Julgam-no em Ávila e condenam-no a 20 anos e um dia, que começa a cumprir no mesmo cárcere de Ávila. Em 1944, sai da prisão em liberdade vigiada e inabilitado para exercer a docência. Instala-se em Vila Garcia de Arouça, onde trabalha como agente comercial e dirige uma exploração de argila. Em janeiro de 1945 casa-se com Mª Vitória, o mesmo ano em que retoma os estudos universitários. Em 1947 licencia-se em Filosofia e Letras, especialidade de História. Em 1949, depois de conseguir o indulto que o liberta do regime de prisão atenuada, parte para o exílio em Buenos Aires com a sua família.ramon-de-valenzuela-capa-livro-era-tempo-de-apandar-0

Na capital argentina trabalha em atividades comerciais e entrega-se ao labor político e cultural. Colabora como secretário de Castelão e participa com ele na Irmandade Galega. Pronuncia múltiplas conferências em instituições galegas da Argentina e do Uruguai. Colabora na revista La Gaceta Literaria, suplemento dominical de La Gaceta de Tucumán, e em Galícia Emigrante, a revista de Luís Seoane. Também na audição de igual nome em Rádio Libertad. É membro da Agrupação Galega de Universitários, Escritores e Artistas (AGUEA), na qual dá aulas de geografia galega. O seu primeiro romance Não aguardarei por ninguém publica-se em Buenos Aires em 1957. Nele relata os acontecimentos de 1936 até a sua passagem para a zona republicana. Dirige o Ateneu Curros Enríquez, da Federação de Sociedades Galegas, num último esforço por conseguir uma escola de teatro estável que siga com as diretrizes do Teatro Popular Galego de Eduardo Blanco Amor. Ademais de participar como ator, traduz para o galego La camisa de Lauro Olmo e The Tinker’s Wedding de John M. Synge. A sua única peça teatral As bágoas do demo, estreia-se em 1964, dirigida por Blanco Amor. Em 1962 ingressa no PCE, sem abandoar o ideal galeguista, que sempre manteve firme.

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Retorna ao seu país em 1966, instalando-se em Madrid, onde trabalha como mestre no Colégio Cisneros e ensina Geografia e História da Galiza no Círculo de Estudos Galegos, que funcionava no Clube Amigos da Unesco. Em 1974 aparece o seu livro de relatos O Naranxo, editado pelo grupo Brais Pinto. Pronuncia numerosas conferências sobre temas galegos. A ditada em 1976 na Faculdade de Económicas de Compostela, que já citámos antes, acende um vivo debate e desata uma forte polémica na imprensa galega. Depois seria publicada em livro pela editora Akal, com o título de História do Galeguismo Político. Nas eleições gerais de 1979, apresenta-se como candidato pelo PCE.

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Em 1980 publica-se o seu livro Era tempo de apandar, em que conta as suas vicissitudes depois da guerra civil. Esse ano descobre-se no seu corpo um cancro do pulmão, que o vai levar à morte em 27 de outubro em Adina, São Genjo. O colégio público de Bandeira (CEIP) leva o seu nome.

A SUA OBRA LITERÁRIA EM GALEGO:

É em 1949, depois de conseguir o indulto que o libertava de cumprir o regime de prisão atenuada, quando chega a Buenos Aires e a Sociedade Pró-Escolas de Bandeira avaliza a sua entrada na Argentina. Ali colabora em várias publicações periódicas e, ao mesmo tempo, chegou a publicar narrações curtas, das quais escolmou algumas para escrever o livro de relatos O Naranxo (1974). Neste livro joga com as perspetivas do são e do louco, contrapondo-as, na procura de uma reflexão filosófica, tingida de carinho e humanidade. Nesta altura, na AGUEA, coletivo a que pertenceu, ministrou aulas de Geografia Galega durante três anos, etapa em que existe uma anedota do entusiasmo que se vivia, que mesmo chegou à rua. Trata-se de que Valenzuela levava consigo quando ia num táxi o famoso mapa da Galiza de Fontám, para as suas aulas de geografia, indo acompanhado pelo engenheiro argentino Diego Diaz. Era tanto o entusiasmo que tinha posto no elogio do autor do mapa, que o taxista, quando se dispunha a pagar-lhe o serviço, lhe diz: “Perdoem. No auto que eu conduzo não paga o mapa da minha Terra, nem os que o tratam com tanto amor”.

No ano 1957, na editora Citânia de Buenos Aires, pertencente a Luís Seoane, sai o primeiro romance de Valenzuela, com o título de Non agardei por ninguén (Não aguardei por ninguém). Escrito, de uma perspetiva republicana na Galiza, em que se pode observar a resenha autobiográfica do autor, aparecendo no romance com o pseudónimo de D. Gonçalo Ozores de Ulhoa. No romance, Valenzuela recria-se na Galiza do levantamento militar fascista de 1936, onde o protagonista escapa da repressão com companheiros do mesmo ideal, passando-se para o bando republicano. Do ponto de vista da editorial, este romance surge com a intenção de juntar o trabalho intelectual e artístico dos galegos em Buenos Aires, com o propósito de universalizar a nossa cultura. Em 1989 edições Xerais de Vigo fez uma reedição do romance, ao cuidado de Modesto Hermida Garcia. E já antes, em 1976, este mesmo romance foi reeditado pela Akal de Madrid.

No ano 1980, pela mesma editora Akal, publica-se Era tempo de apandar, segundo romance de Valenzuela, com o qual completa os aspetos mais romanescos da sua biografia. Em ambos os romances o cenário é fundamentalmente trasdeção, assim como, quase que todos os protagonistas são da área de Bandeira, e merecedores de ser estudados. Em 1997 a editorial galega A Nosa Terra volta a editar este romance.

Já em 1976, também a Akal lhe publica História do Galeguismo Político, que antes, no mesmo ano, foi uma sua polémica conferência pronunciada por ele na Faculdade de Económicas de Compostela. Segundo Valenzuela, tal como comenta no livro, foram os galegos e não os estrangeiros que liquidaram a cultura e a personalidade galegas. Chegou a dizer a propósito: “Eu nego que essa Galiza dessangrada na heroica revolução social do século XV fosse assovalhada por Castela… Galiza foi assovalhada, económica e culturalmente, pelos próprios galegos chamados nobres”.

Em 1964 publicou a sua única peça teatral, com o título de As bágoas do demo, publicada de novo em 1996 pela editora de O Castro-Sada. Esta obra fora dirigida por Blanco Amor e representada no Teatro Castelão de Centro Galego da capital argentina. Mostra ao espectador emigrante galego uma Galiza tangível e reconhecível, visualizada nas Terras do Trás-Deça. O mundo rural, com a sua própria dinâmica, pouco esperançoso para mudanças sociais, impõe a sua própria lei. As personagens são tiradas também dessa realidade. O Louco, o Cacique, o Demo, a Meiga e o Povo, que é testemunha passiva no transcorrer dos acontecimentos. Esta peça fica como uma obra teatral significativa do teatro da emigração. Fornece uma visão do mundo rural, com as suas contradições no confronto com as aspirações do próprio autor, com um ponto de vista existencial e cultural, construído a partir da luita e da emigração.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar a forma (linguagem fílmica) e o fundo (conteúdos e mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Ramón de Valenzuela, a sua vida, a sua obra, as suas ideias, a sua prática educativa e as suas publicações. Na mesma, além de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Desenvolveremos um Livro-fórum em que participem todos os escolares e docentes. O livro mais adequado para ler é a sua História do galeguismo político, editado em 1976 pela editora Akal de Madrid. Antes fora uma sua conferência pronunciada na Faculdade de Económicas de Compostela no mesmo ano, que chegou a provocar uma grande polémica e um vivo debate. Ademais de numerosos artigos e comentários na imprensa galega.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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