RAG modifica morfologia galega para «facilitar a aprendizagem»



estudoso-estudioso-rag-1Deve uma academia condicionar os seus critérios aos «usos» escritos, mesmo sendo incorretos? Deve-os condicionar, também, a supostas facilidades para a aprendizagem? Estas duas perguntas pairam sobre a insólita resposta que a Real Academia Galega (RAG) deu a umha consulente. Segundo se expom no blogue Madeira de Uz, umha cidadã contatou a entidade académica perguntado polas razons que levaram a RAG a substituir a forma «estudioso» pola criaçom *estudoso, inexistente em galego-português.

Do Seminário de Lexicografia da RAG afirmam que se decidiu «dar prioridade» à forma *estudoso para manter «unida» toda a família de derivados estudar-estudo-estudoso, o qual «facilita a aprendizagem», mesmo apesar de que isso signifique umha notável alteraçom da morfologia do galego. Um outro argumento da Real Academia é o facto de *estudoso ser umha forma que se vinha «observando nos usos escritos desde há tempo», numha «tendência à regularizaçom».

O responsável do blogue nom oculta, em declaraçons para o PGL, a sua «indignaçom» polos argumentos «social e filologicamente deploráveis» da entidade académica. «Em primeiro lugar», afirma, «a suposta regularizaçom fica quebrada quando ao mesmo tempo que proscreve estudioso, a RAG aceita a dualidade entre estúdio (oficina ou local de gravaçom) e estudo (investigaçom ou açom de estudar)». Além do mais, «se a regularizaçom para facilitar a aprendizagem é um critério, também devera proceder à regularizaçom doutras séries», e coloca como exemplo (em grafia ILG-RAG) as séries seita-sectario-sectarismo, que se converteriam em seita-seitario-seitarismo, ou estender-extenso-extensión, que seriam estender-estenso-estensión.

Apesar de que a resposta do Seminário de Lexicografia «nom representa um ditame nem umha decisom formal da Real Academia Galega» (como se indica no pé da resposta à consulente), o blogueiro lamenta que «o dano já está feito». Contudo, nom perde o humor: «deve ser a primeira vez que a RAG suprime como forma válida uma forma galega que era comum à Lusofonia (estudioso), com tanta aproximaçom às teses reintegracionistas já começava a pensar que triunfávamos».


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  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Estes já eram “filóloxos” e agora ascenderam a “estudosos”…

  • Nicolau

    Vaites! Cada vez que eu ouvia “estudoso” na TVG cuidava que erra um erro da redaçom, como quando soltam umha “influenza” sem estarem a falar da gripe.

  • Joám Lopes Facal

    O horror ao estrato culto (latino, grego) das palavras, a opçom polo seu aplanamento ao mínimo rústico, sempre torpe, revela a consideraçom do galego como fala aldeã inapropriada para registro registro culto.
    O desrespeito etimológico em vigor encerra na letra “X” do dicionário milhares de palavras orfas por decreto da sua filiaçom grega ou latina.
    Os que estudamos cálculo vectorial sabemos que todo vector admite a descomposiçom em componentes, excepto a RAG que o descompom em “compoñentes”.
    Puro menosprezo pola história da língua e o seu futuro em paridade com os grandes idiomas do mundo.
    Afinal, o ideal do bable interiorizado nalgum dos seus “compoñentes”..

  • Paulo Terra Nosolhos

    Esta escolha lembra-me o caso de “reloxo”, forma que prioriza a RAG (onde está claro que é um vulgarismo), em lugar de “reloxio”, que fica como opcional.

    Está claro que a forma correta é “relógio”, e igual modo que é “colégio” e não “colejo”.

    Está claro que os da RAG estão a matar a língua.

    • Venâncio

      Paulo,

      “Relojo” foi forma corrente em Portugal e ainda hoje podes ouvi-la popularmente no país inteiro. Eu próprio o digo quando calha. Estarei eu também a “matar a língua”?

      Um pouco mais de informação linguística, e menos catequese, fazia-vos bem, acredita.

      Certo é que, na Galiza, é forma muito corrente.

      http://ilg.usc.es/TILG/?tipo_busca=palabra&pescuda=reloxo&categoria=Todas&desde=1600&ate=2050

      • Venâncio

        De resto, suponho que várias formas populares galegas se difundiram nos últimos duzentos anos em Portugal. Tenho andado a fazer o levantamento (que não é fácil) dos nossos galeguismos de mais recente data, como: baril, jeitinho, faladura, léria e outros. Eles aparecem, sem transição geográfica, em Lisboa, o que significa que são verdadeiras importações.

        • Galego da área mindoniense

          Peró antes nom existiam? Quero dizer, essas formas nom fôrom originadas nos primórdios da língua e depois transportadas pro sul?

          • Venâncio

            Não, Galego Mindoniense, são formas historicamente recentes, criadas no teu país.

            Digo “formas”, pois alguns lexemas, ou vocábulos , como baroíl (tornado “baril”) e jeito, são de facto antigos.

            O mais provável é essas palavras terem sido trazidas pelos galegos que vinham trabalhar sobretudo para Lisboa. Trata-se, pois, de “galeguismos”.

            De resto, há bastantes galeguismos no castelhano, camuflados como “lusismos”. Publiquei recentemente um artigo, em castelhano ;-), sobre esta matéria.

          • Venâncio

            E, como sabes, a língua dos portugueses está cheiinha de autênticos e magníficos… galeguismos. Mas não digas aos portugueses, que eles zangam-se.

          • Galego da área mindoniense

            Zangades-vos por tudo? Se nom podemos falar de rem cos portugueses nem eles podem escutar as nossas ideias… começo a pensar que vos zangades por demasiadas cousas.

          • Venâncio

            Galego,

            Os portugueses vivem convencidos de que foram eles que inventaram o nosso idioma. Não foram, claro: foram os galegos.

            Mas o nosso fundamental nacionalismo não se conforma facilmente com tal realidade. E hão-de dizer-te que o português foi criado na véspera do dia da nossa independência, algures em 1143.

            A conexão estrita entre “língua” e “nacionalidade” faz parte da ideologia portuguesa. E é lixado ver galegos a confirmarem os portugueses nesta tremenda parvoíce.

          • Venâncio

            Recordo que o território-depois-português dentro da área de formação do idioma correspondeu a cerca de 1/10 do futuro Portugal. O português é, pois, para nós uma língua estrangeira na origem.

            Segundo o linguista Ivo Castro, que não tem papas na língua, nem pactua com as mitologias portuguesas, o nosso idioma está “de passagem” em Portugal. Foi formado fora dele, e o seu mais certo futuro está também fora dele.

          • Galego da área mindoniense

            Mais lembra que num 1/10 do atual Portugal sim que se desenvolveu a nossa língua. E, no resto, leva case um milênio sendo reconhecível (ou seja que, mesmo coas importantes mudanças que acontecérom, podemos dizer que a gente da Idade Média falava a mesma língua ca nós); feito nom moi usual nas outras 6000 línguas do mundo.
            Ora bem, até o galego é ũa língua estrangeira pros próprios galegos. Pois a nossa língua foi exterminada polos romãos, ò terem imposto o latim; e sobrevivendo apenas ũas cantas verbas. E, provavelmente, existissem ũa ou várias línguas antes do celta pré-romão; das que mal temos algum conhecimento.

            Muitos galegos estamos preocupados de que a nossa língua possa ser substituída por completo polo castelão na Galiza; mais essa língua nom é tam “nossa”, e tampouco seria a primeira vez que nos ocorre isso.

          • Venâncio

            Que confusão nessa cabeça, ó Galego!

            O nosso idioma foi criado nesse 1/10 do posterior Portugal, sim, e MAIS num território bem maior, chamado… Galiza.

            O meu idioma é um produto galego. Mas, a vós, falta-vos um bocadinho de orgulho nisso.

          • Galego da área mindoniense

            Pois já vai sendo moita hora pra deixardes de ser tam nacionalistas; e aceitar a realidade, a história.
            Estamos no 2018, nom sei se tendes pensado agardar até o 5469 pra eliminar esses mitos. Ou talvez queirades viver na vossa Matrix pra sempre.

            Nom é doado debater a sério com quem nom conhece a história, e menos se o outro nom tiver nengum interesse em conhecê-la. Pra ter ũa opiniom formada, fundamentada e bem argumentada; cómpre conhecer a história. E na maior cantidade possível. Por isso, desejo que tôdolos portugueses (e nom apenas ũa minoria) conheçades a história da nossa e da tamém vossa língua. Só assim poderedes comprender (melhor) o movimento reintegracionista. Depois poderedes decidir se gostades ou nom do reintegracionismo; peró só após terdes conhecido a história do galego e os porquês desta gente.

            O que nom acabo d’entender mui bem é como podem seguir vivos esses preconceitos nos tempos hodiernos. Pode-se saber que estudam os rapazes nas aulas de língua galega (ou portuguesa, como vós lhe chamades)? Que lhes ensinam os professores?

          • Venâncio

            É exactamente isso que escrevo nos meus artigos sobre o galego e o português!

            Ide dizer isso a outros portugueses. Porque é que não o fazeis?

            Porque é que, por exemplo, o PGL não abre uma linha de diálogo com portugueses?

          • Galego da área mindoniense

            Nom sei, eu apenas sou um simples comentarista deste blogue. Desconheço cal é o seu funcionamento. Seguramente, o Ernesto Souza che responderá melhor.
            Mais nom me parece que o PGL vaia sobrado de recursos, nem que os seus autores e colaboradores tenham tanto tempo livre. Ora bem, reconheço que a ideia é boa. Apenas há que ter gente com tempo, que nom tenha nada melhor que fazer.

          • Venâncio

            A minha pergunta foi retórica. Não faço ideia do que implicaria essa “linha de diálogo” no PGL com portugueses.

            O que eu sei é que, nos 15 anos que por aqui ando, já vi passarem dezenas de portugueses, que se vão embora e não voltam. E com alguns tive, enquanto aqui estiveram, um bom contacto.

            Será, talvez, por causa das redes sociais. De facto, no Facebook, existem vários pontos de contacto entre galegos e portugueses. Devo, sim, dizer que são, dum modo geral, muito pobres em verdadeiro, e informado, debate.

          • Venâncio

            Para quem não conhecer, aqui está um texto no Facebook com quase 2700 leituras. Alguns de vós já o conhecereis.

            https://www.facebook.com/notes/fernando-ven%C3%A2ncio/o-passado-galego-do-portugu%C3%AAs/912226775493082/

          • José Ramom Pichel

            Muito interessante, como sempre, o que comentas Fernando da história da língua. Chamou-me a atenção o assunto do galeguismo “jeitinho”, porque numa entrevista o professor Henrique Monteagudo, membro da RAG e do ILG, falava de “jeitinho” como palavra própria do Brasil ante a pergunta: “Uma palavra do galego e uma do português brasileiro. Agarimo, jeitinho”. Podes afirmar que com efeito “jeitinho” é galeguismo que mesmo viaja ao Brasil? Obrigado https://quilombonoroeste.wordpress.com/tag/henrique-monteagudo/

          • Venâncio

            José Ramom,

            Eu suponho que esses “galeguismos historicamente recentes” (como lhes chamo) se tenham estabelecido em português no século XVIII. (Mais uma vez: trata-se aqui da forma “jetinho”, não do vocábulo “jeito”, que é antiquíssimo). É, pois, fácil que tenha chegado ao Brasil, nas imensas levas de portugueses que para lá foram no século XIX.

            O que há de especial em “jeitinho” no Brasil é o seu valor social: a cultura do “jeitinho brasilleiro”, que o dicionário Houaiss (como sabes, o melhor dos nossos) descreve do modo seguinte: «maneira hábil, esperta, astuciosa de conseguir algo, especialmente algo que à maioria das pessoas se afigura como particularmente difícil».

          • Venâncio

            Repare-se que, em galego, “jeitinho” é documentado desde 1820, o que pode significar que era corrente tempos antes.

            E é uma pena imensa que o galego tenha sido tão pouco escrito em séculos anteriores. Digo “pouco escrito” porque há documentação (preciosíssima, claro) de todos esses séculos. E não só no valiosíssimo Sarmiento.

            http://ilg.usc.es/TILG/?tipo_busca=palabra&pescuda=xeiti%F1o&categoria=Todas&desde=1600&ate=2050

          • Ernesto V. Souza

            Jeitinho… o uso no Brasil é mesmo retranqueiro e constante… eu a primeira vez que ouvi, assim usado, por brasileiros, não precisei qualquer explicação… Achei tão nítido, como se dissesse qualquer paisano numa aldeia…

            Agarimo, porém, para mim é uma palavra literária, nunca ouvi, fora de poesia, cantigas folques e ambientes galeguistas…

      • Paulo Terra Nosolhos

        Eu não digo que “relojo” não seja utilizado, mas digo que é uma forma popular e que deveria ser prioritária a forma “relógio”, pelo menos na escrita.
        Por certo, se falamos de formas correntes deveríamos começar a introduzir no galego oficial: ahora, bueno, gracias… eu pido que os galegos tenha acesso a um galego culto, acho que não é muito pedir, ou?
        Obrigado, como sempre, pelos seus contributos.

        • Venâncio

          Caro Paulo,

          Importa distinguir entre linguagem informal corrente (a que pertence o gal. “relojo”) e os castelhanismos que aduzes. São duas categorias muito diferentes. Não as mistures.

          Importa também não ficar obcecado pela linguagem “culta”. Foi essa atitude que levou os portugueses a, durante três séculos, adoptarem centenas e centenas de formas castelhanas (hoje já tornadas correntes em português) por elas serem tão “cultas” aos olhos deles, e isso em detrimento das formas galegas, achadas “populares”.

          Esse grave precedente histórico português deveria ser um contínuo aviso aos galegos de hoje.

          • Paulo Terra Nosolhos

            Compreendo, terei em conta as suas palavras, mas acho que, como dizia Carvalho Calero e outros profissionais da língua, devemos conseguir um modelo de língua culta para o galego (isto atinge também ao léxico).

            Estejamos atentos aos cultismos para não cairmos nos erros do português, mas tamém ao excesso de popularismos para conseguirmos uma língua de qualidade (lembre que aqui a língua foi mantida só pelas classes populares e , por tanto, perdimos com isto parte da nossa língua, a mais culta).

            Obrigado como sempre pelas suas palavras, que não serão desperdiciadas. Saudações.

  • Ernesto V. Souza

    Cada ano que passa mais me impressionam “Os afilhados do demo” de Evaristo Martelo Pauman… pensar que aquelas sátiras em verso de 1885 estão plenamente vigentes…

  • Venâncio

    Boa! Finalmente um tema estritamente linguístico.

    Só não sei donde vos vem tamanha admiração. A forma ESTUDOSO está desde há muito dicionarizada em Galego e há vasta documentação do seu consistente uso, desde os anos 1920.

    Ora veja-se:

    http://sli.uvigo.es/ddd/ddd_pescuda.php?pescuda=estudoso&tipo_busca=lema

    http://ilg.usc.es/TILG/?tipo_busca=palabra&pescuda=estudosos&categoria=Todas&desde=1600&ate=2050

    • Ernesto V. Souza

      Na realidade o problema não é a harmonização de um ou outro caso. É a resposta, as maneiras da resposta… das respostas, das explicações.

      Todas as línguas são “incoerentes” pois nelas convivem soluções, algumas dentro da mesma família léxica, de diferentes camadas históricas. Existe simplesmente uma impossibilidade de fixar de um dia para outro o que leva séculos em qualquer língua. A RAG não tem critérios fixos. Improvisa, vai para adiante, para atrás…

      Não se pode pretender construir o galego com critérios umas vezes modernos em base à fala popular (castelhanizada e pidgin) e outros restaurando formas medievais. E isso sim, esquecendo que entre um e outro está a língua portuguesa que evoluiu pela sua conta e incorporando vozes e estruturas africanas, árabes, do oriente, da frança e dos países anglo-saxões, quanto da própria amalgama popular e modernidade.

      A RAG tem um natural penelopismo… um passo adiante e outro atrás… mas está combinado com a urgência institucional de fechar um modelo conciliador na Espanha, não conflituoso com as autoridades espanholas e com a ideia regionalista das classes dominantes galegas; e combinado também com a teima do ILG em fixar um modelo “doado” pensando numa escola e cultura predominantemente em castelhano.

      Isto provocou que a RAG cada vez mais identificada com o ILG ganhasse uma imagem de autoritarismo idiota com os de abaixo e de medo a se sair do guião regionalista cara os de arriba. E a RAG tinha de ser um modelo institucional, o referente, a casa comum, um símbolo maior da Nação… a autoridade.

      Mas isso tudo seria irrelevante, se na Galiza houvesse tempo. Se a Galiza fosse uma nação próspera, com população nova, energia e com uma maioria social galego falante conscientizada apoiando e sendo apoiada por uma elite social e económica empenhada e embarcada no projeto de restaurar e construir a língua.

      A obra supera a RAG e o ILG. Mesmo que tivesse o apoio – apoio que por outra parte não quer, rejeita – de todos nós.

      É mais, a obra – como venho dizendo há muitos anos – supera o Reintegracionismo tradicional. Não se pode re-construir uma língua com os materiais que há. Levaria um tempo, energia, debates e recursos que não temos.

      É inassumível, nas atuais condições. É por isto que – para mim – a solução portuguesa, desbastar o português, procurando nele o que há ou semelha mais galego e incorporar nesta base o que nos resta, é que me resulta a solução mais rápida, barata e simples… possível.

      • Ernesto V. Souza

        Seria importantíssimo Fernando um debate, sine ira, aberto, com paciência e respeito… de todas as tendências no galeguismo. Não as rejeitando e negando, não as laminando e combatendo. Um debate entre iguais, sem ambições, sem miras postas em carreiras académicas, políticas ou prebendas, posições, espaços nas editoras, imprensa…

        Isso é o que teria que ser a RAG e para o que se criou…. uma reunião de pessoas (eruditos, literatos, estudosos, líderes…) capazes de se juntar para debater, coordenar, guiar para fixar um dicionario e uma gramática… desde 1906 já choveu, e verdadeiramente que não poucas décadas choveu sangue… mas desde 1982… sempre que penso na RAG e no ILG lembro, com tristura, a cantiga de Airas Nunes:

        Porque no mundo mengou a verdade…

        http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=878&pv=sim

        • Venâncio

          Ernesto,

          Assinalas, e bem, uma questão que vejo pouco incluída no discurso reintegracionista: a muito problemática convivência de Galego e Castelhano no mesmo espaço físico, no mesmo espaço social, no interior das vossas próprias mentes.

          Parece-me que o Reintegracionismo sempre minimizou essa matéria, ou sempre a encarou com atitude negativa. Que eu saiba, nunca houve nenhuma proposta reintegracionista convictamente realista neste campo: como conviver linguisticamente com um idioma poderoso, atraente e intrometido?

          A receita reintegracionista tem sido sempre o refúgio no Português. Numa palavra, a fuga ao problema, Ora (e o “ora’ português não é, como o galego, “adversativo”), até hoje a Galiza encontrou recursos de convivência, precários decerto, mas inteligentes, para o perigo à vossa porta. Contemporizando aqui, ali afastando-se através dum diferencialismo, além adoptando soluções antigas, populares ou portuguesas.

          Para quem julga o Português-em-bloco a “solução”, todos esses recursos (que a RAG assume e propõe) são sistematicamente deficientes. Eis o teor deste mesmo artigo e das reacções a ele. O Reintegracionismo imagina-se, linguisticamente, num mundo ideal. Sim, é bom sonhardes, mas alguns de vós sonhais francamente a vida inteira.

          Venho insistido convosco em duas coisas:

          1. que o debate baseado na identidade de Galego e Portruguês é simplesmente bizantino: ninguém nos próximos tempos conseguirá demonstrar que sim ou que não,

          2. que a convivência de Português e Castelhano numa mesma comunidade, mormente em clima de dominação política daquele segundo idioma, é, para o Português, uma opção suicidária: dentro de uma geração, o Português está definitivamente inutilizável, eficientemente triturado pela maquinaria semântica (a pior delas, mas outras há) do Castelhano.

          Venho dizendo também, caro Ernesto, que estas duas questões nunca tiveram qualquer atenção no pensamento reintegracionista. Tu és realmente o único que ousa falar nestas matérias.

          • Venâncio

            P.S.

            Eu compreendo o vosso ressentimento, a vossa indignação, e até a vossa fúria. Mas um estado contínuo de revolta só acrescenta mais desordem e frustração.

            Estes assuntos não se compadecem do combate ao milímetro, ou da abordagem impressionista, menos ainda da ideologia exclamativa. Eles requerem visão larga e, mais que tudo, informada.

            Deveríeis investir mais no conhecimento histórico e gramatical do idioma, dois pontos em que, após a morte de Carvalho Calero, os estudiosos reintegracionistas não têm brilhado.

          • Ernesto V. Souza

            Fernando, tem razão seria importante. Mas acho que hoje por hoje o reintegracionismo faz já mais do que pode. A máquina vai mais que forçada. Temos de reconhecer que não temos nem recursos, nem gente veterana preparada capaz de se por com isso, nem como investir em gente nova para que se ponha à tarefa.

            Eu pessoalmente não tenho raiva acumulada, eu chegando a constatação da impotência (a impossibilidade de ação, de reação, de justiça ou vingança) a um ponto de rotura, simplesmente desisto, abandono e procuro outros espaços, vias de trabalho. Acho mais prático. Afinal sou um melancólico. A minha única maldade, digamos, consiste simplesmente em não teimar em participar onde sei que não me querem.