Rafa Carvalho : “Eu fiz de tudo para não acabar escritor. Fracassei.”



O Portal Galego da Língua conversou extensamente com o poeta, escritor e multifacetado artista brasileiro, Rafa Carvalho, autor do livro de poemas “auto-mar”, finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2018, que agora lança “contas de mar”, nova publicação com histórias marítimas, que organizou por imersões realizadas à costa brasileira, em mergulhos por São Vicente – SP; Serra – ES; e Aracaju – SE; contando com apoio do Programa de Ação Cultural, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, no Brasil.

Com 15 anos de uma carreira tão inusitada quanto discreta, o jovem artista soma já passagens por 4 continentes e mais de 20 países, chamando a atenção dos olhares mais sensíveis, no cenário artístico mundial, pela urgência e inquietude criativa que apresenta, ao mesmo tempo que parece agir em tudo com essa calma artesanal, quase imprópria à nossa pós-modernidade. A forma como religa os conceitos artísticos aos sociais, é também uma característica importante em sua trajetória.

Na entrevista, Rafa nos fala dos processos criativos, o nascimento de seu filho, na literatura como expansão da convivência humana. Do projeto musical “nau frágil”, iniciado em 2014, e que em 2019 será registrado em disco. Tudo entre muitas correlações de temas e amarrações conceituais, que acabam por expressar a profundidade poética e filosófica, com que o sentimos viver. E que é tão marcante em sua obra literária.

Rafa Carvalho por Sabrina Sanfelice

Rafa Carvalho por Sabrina Sanfelice

Acompanhe abaixo os melhores momentos da entrevista:

Rafa, muitas vezes falar em “artista multifacetado” apesar da grandeza do adjetivo, pouco diz das suas atuações em literatura, música, circo, performance, artes visuais, educação e ativismo sociocultural. Mas, vamos falar das letras, como você coloca o escritor Rafa Carvalho, na atual cena literária do Brasil?

É curioso. Venho por um caminho que me faz acreditar em sermos artistas pelo simples fato de sermos humanos, potencialmente. Independente da profissão que exercemos. Esse mesmo caminho, também me trouxe a pensar que somos todas isso: multifacetadas. Diversas, múltiplas, várias. Dizer que sou um artista multifacetado realmente não explica nada. Nem especifica muito. Mas eu gosto da vida assim. De desencaixotar as coisas. Tenho a mania de arrancar os rótulos das garrafas que bebo.

Essa abertura em demasia, às vezes parece inimiga da prática. Claro que os nossos termos são todos muito contaminados por um sistema econômico anti-humano e fascista por fundamento, então, quando falamos “prática”, dizemos de uma “prática” exclusiva, subserviente a essa máquina. À parte disso, eu tive mesmo muita dificuldade para materializar as coisas. Sou feito de água e vento. A terra e o fogo me custaram muito. Tive que sentar e ouvir das árvores. Aprender delas o arvorecimento. Ou ao menos um início disso. Tive que pegar um tanto na enxada, abrir os caminhos que eu e outras pessoas passariam. Colher e torrar o café. Sentir e matar o peixe. Carregar pedras. Tudo isso por raízes, minérios. E um princípio de habilidade na forja, das ferramentas diárias às quais existimos, no nosso materialismo.

Eu me tornei escritor assim. Assimilando lento a matéria. Seus rótulos obedientes às dinâmicas que representam, a mim, a corrente a se remar contra. Processei as pragas que me rogavam as professoras desde as primeiras bases do ensino. Mordi a língua. Tentei entender vagamente o que é um objeto direto, um modernista, gêneros literários, classificações de arte, hash tags. E acho que fracassei em tudo isso. Como acho que o mundo fracassa em não estar aberto. Em não confiar no novo. Em fingir que vê cinema, ou lê livros. Acho que o mundo fracassa demais ao superestimar as etiquetas, sinopses, resenhas. Que a humanidade falha em gostar do que é dito: gostem. Comprem. De um escritor só valer quando recebe um prêmio. De uma escritora só valer quando o nosso machismo começa a ficar indisfarçável. De uma fotógrafa ou um pintor só valerem mesmo, quando morrem. Para que alguém lucre, com o fim de uma vida.

Outro vacilo lastimável da humanidade será: nós desdenhamos demais dos corações abertos. Essa é a nossa grande má-fé. Exaltamos o que já está soberbo. Empalhamos as feras que nós mesmos destruímos. E pisamos nas pequenas mudas de árvores que nascem pra serem gigantes. Causamos dor e traumas nas gerações mais novas. Compomos essa complexa engrenagem, onde todos precisam se machucar. E com seus peitos esmagados, viverem como bichos que de tão maltratados que foram, não conseguem mais conceber, qualquer possibilidade de carinho.

Tô dizendo tudo isso por conta da pergunta. A atual cena literária brasileira é igual a qualquer cena, de qualquer tempo, de qualquer lugar, de qualquer coisa. Há de haver muitas injustiças. Sempre. E há de haver algum resquício de sensatez, aqui e ali, na resistência. Vejam quem são os imortais da nossa Academia. E perceba quantos votos recebeu Conceição Evaristo nas últimas eleições, à mesma. Tirem suas próprias conclusões. Contem os pretos, mulheres, jovens. Aquelas que vieram de baixo. Que começaram na escola pública, na periferia, na escassez. Compare com o contingente de filhos de intelectuais, pós-doutores na universidade disso e daquilo, que tinham bibliotecas em casa, mordomo e jardins.

Sequer há uma cena literária brasileira. Falta Brasil em nossa literatura. Há uma cena de gueto, ainda. Por mais que avanços e transformações e pleitos importantes tenham acontecido. Nossa gente não lê. Como eu não li. O Brasil não lê. O mundo não lê. Não há tempo, nem oportunidade para ler. É generalizado. Países tidos como letrados têm parado com isso. A Escócia veio aprender com a gente, nas favelas aqui, do extremo leste de São Paulo, como conseguir incentivar à leitura entre crianças e adolescentes. Nosso velho mundo caduca. Muitos de meus amigos europeus não leem. Pois seus países esgotaram parte considerável do planeta e da população mundial com sua exploração, e agora, parar manter a besta alimentada, exploram – e colonizam – seus próprios jovens. Estamos no limite de entendermos o que realmente “come criancinhas” nessa Terra.

Portanto, tento me colocar num lugar à vida. Um lugar de coerência. E é difícil. Erro muito.  Mas, a partir disso, vou fazendo o que posso, como posso. Na cena, não pleiteio lugar algum. Tenho sim a utopia de viver disso: contar histórias é a minha profissão de fé. Seja pela literatura, pela música, pela linguagem que for. Mas não sei. Apenas começo a materializar minha obra. Tudo é muito recente em meu processo, que sempre foi lento em termos práticos. Acabo de lançar meu segundo livro apenas, nunca lancei um disco. Não valho quase nada no mercado. Passei tempo demais sentindo nesse primeiro grande ciclo de minha vida. Esses 33 anos. Espero que tenha sido o suficiente, pelo menos, para eu ser uma pessoa um pouco melhor, desse trigésimo quarto em diante.

Gosto do silêncio. E preferia não ter um idioma excludente, embora ame a língua portuguesa. Na verdade, amo às línguas todas. Gosto de investigá-las, suas nuances e diversidades. Gosto das misturas. Dessa antropofagia geradora de vida. Avessa ao que nos mata. Gosto das coisas vira-latas. Como minha cor de pele confundindo o juízo das pessoas. Conviver nos faz fortes. Abraçar, permitir. E levo tudo isso à minha jornada como escritor. Pesquiso miudezas, abrangências e elementos. Sou desse deixar-se. Experimentar. Talvez isso conte um pouco sobre como eu possa ser considerado, na literatura.

Gosto da história de São Cristóvão. Ele atravessava as pessoas de um lado a outro num rio. Uma ponte encarnada. Fico feliz se puder ser essa espécie de ponte, sem ter que ser uma espécie de santo. Levar com minha arte, e aqui especificamente com a minha escrita, as pessoas que por qualquer razão precisem de um “lado de lá”. Ajudar em uma travessia segura. Revelar outros horizontes, novas possibilidades. Cristóvão deixou sua força a serviço da partilha. É isso que eu quero, com qualquer força que houver em mim. Eu sinto que posso contar histórias. Não é só de literatura, que digo. Digo de vida, oralidade, olhos. Sentar num bar, uma praça ou padaria. E bater-papo. E o curioso, lá do início, é isto: eu tenho certeza que Dorival Caymmi, Jorge Amado, Violeta Parra, e tantos nomes que venero muito, viveram assim também. Mas essas pessoas foram mestres. Enquanto eu, só comecei a andar. Não tenho mesmo nenhum documento pra mostrar, como Caetano em “Alegria, alegria”. Então, não há ainda um lugar. Há só: movimento.

Alguns serão Velosos. Outros, serão Tom Zé. E ainda tem mais. Tem tudo. E até nada. Com isso digo que existem padrões de reconhecimento artístico. E valorização do ser. Nesse mundo. Há quem seja ainda mais reconhecido que Caetano. E quem seja ainda bem menos que Tom Zé. Muitas possibilidades entre o tudo e o nada, que não dependem de qualidade artística, nem de potência criativa. Dependem sim de uma série de fatores outros, alheios, que interferem nessas definições.

Nos pequenos, pequenos mesmo, círculos onde circulo, venho tendo retornos bonitos, das pessoas, sobre as partilhas que nascem com essas histórias. Me sinto agraciado por isso. E também, embora a gente diga “minha” às vezes, sinto graça pela arte não ser minha de fato. E nem mesmo essas histórias, que conto. Nós, somos só o meio. Vai ver Cristóvão sabia que seu corpo, no fim, não era seu. Ser ponte é isso. Que bom seria se o Portal pudesse entrevistar o santo. Acho que ele era mais reto. Eu atravesso as coisas feito borboleta. Perdão por essas curvas todas.

Mas é isso. Basta lembrarmos que literatura é política. Como tudo. E que a corrupção é a grande aversão da consciência. Tenho contado minhas histórias. Tentado cuidar bem da minha vida, minhas relações. Proteger o amor como única esperança do mundo. E tenho tido bons retornos. Felizes. Claro que muitas lutas e tropeços também. Mas, ao mesmo tempo em que são pequenas essas circunferências que habito, já estive contando minhas histórias no Japão, por exemplo. O lugar mais longe do globo, a que um brasileiro possa ir. E o melhor: eu falava português, eles japonês, e nós nos entendíamos. Tenho até hoje devolutivas de histórias dos anos e anos passados, em muitos recantos do mundo. É uma sorte. E só faço mesmo agradecer, por tudo que pude viver até aqui.

Agora, que lugar na cena, não sei. Mas dito tudo isso, eu não estou entre as pessoas que mais precisam ser ouvidas, e de atenção, neste momento. Não tô à frente, na fila do pão. Vale mais a esse intercurso histórico, que outras pessoas tenham lugares de evidência, e de fala, acompanhada da escuta, à compreensão. O perdão, quem sabe. E os reparos todos fundamentais, que possam vir em consequência e melhoria, à nossa humanidade até hoje muito injusta, desigual, e sem qualquer respeito à cidadania e aos direitos humanos. Eu espero não atrapalhar em nada, ajudar como puder. Se puder. E sonho que essas coisas nossas, terrenas, humanas, possam ir se harmonizando mais, dessa maneira. Enquanto isso conto minhas histórias, ralo meu pão, meu vinho. Ralo também, agora, a vida de um filho. Um mundo possível pra ele. Botei minha semente na Terra. E é todo um novo tempo pra mim. Uma novidade, que vem muito acompanhada pela literatura. Eu nunca escrevi tanto, como atualmente.

Enfim, eu nasci ar, virei água. E a água sabe chegar onde precisa.

Vamos em frente, que a resposta já virou ensaio. E esse mundo é todo para-brisa.

Como foi o processo criativo de “contas de mar”. E também, como a gravidez “mexeu” com esse processo?

Sou um poeta que se identifica no silêncio. Por mais prolixo que eu seja, no dia a dia. Por mais que ame as línguas e a palavra. O paladar disso na boca. A textura dos sons. Por mais paradoxal que soe, tudo isso. Acho que o processo começa aí. De uns tempos pra cá, minha escrita, especificamente minha prosa, tomou essa forma. Tendo a preferir minúsculas, por achar que é assim a nossa vida. É preciso se encontrar nesse tamanho. Escrevi “contas de mar” assim, como quem reúne grãos de areia. Desimportâncias aparentes. Conchinhas ínfimas, que talvez, surpreendam a alma de tudo.

Uso os pontos como pontos. São apoios. Pausas. Que também são música. O descanso do pé, num pedaço molhado à areia que queima. Uma nuvem que passa ligeira, sombreando o Sol num instante. E encho cada ponto desses de silêncio. Entrelinhas. Entrepalavras, entressons. Vazios para quem lê desenhar livre. Malhas que aconcheguem – e respeitem – o espírito das histórias, que não são minhas, e que existem por si. Além disso, não gosto de regras, quando elas não servem pra algo que realmente importe. Não assinei nenhum acordo ortográfico e minha idéia, por exemplo, vai ter sempre acento. Regras não nos ajudam a comunicar. Não nos fazem compreendermos mais, umas às outras. Elas até atrapalham, muitas vezes. E na verdade mais segregam, que incluem. O que ajuda mesmo é o peito aberto, a sensibilidade atenta. E a vontade de conviver à partilha.

Isso tudo é técnica. Escolhas, experimentos. Jeitos de fazer. Tem também uma relação sinestésica minha com as palavras. Escrever, para mim, é um exercício de sensualidade. É transar o pensamento com a emoção e o mundo. É um jeito de fazer o que o brasileiro por baixo sempre fez: dar um jeito. De improviso. Inovar. Comunicar pela escrita é se virar com os limites paupérrimos de um idioma humano, seja ele qual for, para traduzir os impossíveis mais reais do absoluto. A vida é infinitamente foda. Obviamente, nós não damos conta disso. Tanto assim. Nem nossas línguas. Mas gosto desse flerte, utópico. De tentar, platônico, o amor por todas as vias. Inclusive, pelo texto.

Agora, do processo deste livro em si: “contas de mar” é um livro com 17 histórias que se apoiam numa mesma. Como 17 pérolas. 17 contas de um colar sagrado. Cada conto é uma conta. Todas elas dão no mar. Essas histórias. Como a canção de Caymmi. Como a jornada humana, na Terra. Todas elas permeiam o fundamento profundo do amor. Todas elas carregam essa potência de cura. Pérolas, como eu disse. Cicatrizes de agressões e violências que se dão na vida. Possíveis de transformar em coisas preciosas. É um livro de invisíveis e miudezas. Desimportâncias, como digo, que escondem as respostas do mundo. Ostracismos diversos. Cada qual, seu mistério. Mas, tudo ao mesmo tempo disponível. É um livro de vida, sem dúvidas. Que dói tanto quanto a vida pode doer. Pleno de ironias, como o viver. E espera, tanto quanto dá pra se manter a esperança, no existir.

O livro mistura cenários marinhos e caiçaras de minhas vidas pelas beiras. Mas foi escrito fundamentalmente em três imersões criativas, de uma semana cada. Comecei em São Vicente, cidade primeira do Brasil, parte da serra paulista, que é minha terra natal. Depois Serra, no Espírito Santo. Mais especificamente aos recônditos bucólicos de uma comunidade, e da praia da Bicanga, fora duma temporada. E por fim, Aracaju. No Nordeste chão de meu coração. No sertão virando mar, às minhas raízes.

Quando cheguei em Aracaju, era uma noite de sábado à lua cheia. Fui pra beira da praia de Atalaia, pra saudar o mar em minha chegada. Agradecer. E num assalto entre areia e água, tive por primeira vez na vida, uma arma de fogo apontando contra mim. E disparada. O tiro não acertou. E lembrando de como meu coração ficou na madrugada que seguiu, quando tentei dormir, após tomar duas garrafas inteiras de vinho, contando uns 11 anos de vida pra uma velha amiga que me recebia, tem algo mais sobre a criação desse livro, que devo dizer: escrevi “contas de mar” como quem toca um tambor.

O ritmo passou a ser, com o tempo, minha grande pesquisa linguística. Intuitiva e cotidiana. Passei a me aconselhar com os espíritos das histórias do livro, como faço com os tambores sagrados. Entendi que tanto como escritor, quanto feito batuqueiro, somos médiuns. O máximo que podemos fazer é atrapalhar, com uma vaidade desvairada. A força toda da história – como a do instrumento – já está lá. Escrevi assim o “contas de mar”, para que cada pessoa o interprete no seu beat. Cada qual no próprio pulso. Conforme a sua lua, o seu vento. E às marés. Um livro vivo. Filho do mar. Histórias de irmãos, irmãs e nós.

E no meio disso tudo, a gravidez. Essa benção. Em São Vicente ela não havia ainda. No Espírito Santo já, mas não sabíamos. E em Aracaju, quando aquela arma disparava, tudo era o meu filho. A gravidez mexeu com isso. Com tudo. Como se uma segunda lua apontasse no céu. Súbita crescente. E todo mar se fosse, reaprendendo a ser a partir dela. Tive frio na barriga. Mareei como há tempos não fazia. Mas me fez todo sentido plantar essa semente. Não há perfume melhor, pra se ofertar ao mar, que o cheirinho dum recém-nascido, que concordamos receber com amor, como um presente. Dispostos a criar pela cura, num tempo de tanta doença. Pela abundância, num tempo de tanta escassez. Pela alegria, em tempos onde há tanta tristeza. De abraço, onde tudo é ecrã tátil. E de mar, onde tudo ainda é pedra.

Por fim, o livro foi dedicado a todas as pessoas que já magoei. E a meu filho. Que é uma forma da transmutação, decerto. Naquele tiro eu soube. Que “sereinha” seria o conto de fechamento do “contas”. Precisamos honrar a vida. Precisamos honrar as crianças que vivem.  Meu livro já servia pra isso antes. Mas naquela hora, eu tive certeza: “contas de mar” foi o melhor que pude fazer, literariamente, nesse momento de vida, pra tentar honrar esse presente, que é viver.

Preciso dizer ainda, que o livro teve seu projeto de criação aprovado pelo Proac, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, que viabilizou as imersões, além de todo trabalho editorial e a tiragem dessa primeira edição, no Brasil. Sua contemplação foi crucial. Um apoio decisivo ao lançamento dessas “contas”. E sua oferta ao mundo.

 

Como esse livro de contos se relaciona com o “auto-mar”, de poesia, e com o espetáculo musical “nau frágil”? É uma trilogia das águas?

Certamente é uma trilogia das águas. Mas não só. Esse número tende a aumentar pra “logias” maiores. Tenho projetos em múltiplas linguagens, para com o mar. E em línguas também, como um de poemas em que tenho escrito diretamente em língua inglesa. Essa escrita aliás, nasceu durante meu tempo na ilha de Creta, Grécia. Lembro que estive lá em 2017, a convite do projeto ResidenceSEA, para essa residência artística em que criei “Thalassoporos: ou pelos poros do mar”, uma concepção de site specific art envolvendo língua portuguesa, o idioma grego, poesia e contação de histórias, cultura popular e participação direta do público, dança, canção, percussão, performance, videoarte, fotografia e teatro. Essa obra em si já seria a quarta peça de uma quadrilogia, por exemplo. Além de ter inspirado a criação de um espetáculo que possa circular por outros sítios. Também tem a exposição fotográfica “coleção de quintais”, que fiz por lá. O próprio “nau frágil”, que se desdobra em muitas vertentes distintas, enquanto se prepara para finalmente virar disco, este ano. Enfim, é muito mar. Pra pouco eu.

Muita obra pra fazer. Por mais que me mexa, sobra. Eu fiz de tudo para não acabar escritor. Fracassei. Agora, me resta falar do que fascina, me ensina, me assusta, me assanha, me embala e aconchega. Resta falar do que me cura, dá prazer e esperança nesse mundo. Na vida. E em tudo isso, há mar. Pra mim. Água. Preciso falar dessa forma. Devo ainda produzir sobre muitas outras coisas, de repente. Que também me interessem. Mas sinto que água e mar, são mesmo o meu tema, na Terra. Pelo mar eu chego aonde quero. Pelo mar, o que quero me chega. Pelo mar eu tenho mãe, tenho casa, tenho tudo o que um homem precisa, pra começar a viver sua dignidade. Traçar suas rotas. Riscar os seus mapas. Num dos contos do “contas de mar”, falo de meu primeiro encontro com ele – que com o perdão da língua portuguesa: é muito mais ela, que qualquer outra coisa. E vem sendo assim, desde então. O mar tem me salvado. Como se eu fosse uma baleia encalhada, numa era que não é minha. Numa frequência de escuta que não me ouve nos meus cantos. E o pouquinho de água e de sal que me banham. Umas poucas mãos em concha que me afagam, nessa memória marinha, me mantêm assim. Vivo, possível.

É uma canção de Caymmi, como disse. Eu andei um bom bocado já, nessa vida. Embora não seja ainda tão velho. E até aqui, todo caminho deu mesmo no mar. É como se eu nunca mais tivesse saído de dentro. É engraçado, pois sempre me vi muito em Caymmi – não quanto ao talento ou genialidade – mas no nosso molejo humano de ser, que sinto. Daí li, esses dias, uma carta dele ao Jorge Amado, e então tive certeza: Caymmi e eu temos algum avô antigo, ou avó antepassada, em comum. Só pode ser. Como dois e dois são o que são. E pronto. Das duas uma: ou nossas ancestrais foram sempre baianas – é que eu procuro, procuro, procuro e não encontro quem foi o primeiro não-baiano de casa a pisar na Bahia; ou elas vieram de fora, de algum lugar mágico desse mundo, ou de outro. Só que, como seja, em algum momento a banda da família que pariu Caymmi deve ter ficado mesmo à costa. Ali, próxima à baía de todos os santos. E a banda que pariu a mim, foi sertão. Caatinga. Essas coisas tantas. Que nasci ao som da sanfona 8-baixo de meu pai. No meio da serra úmida, da garoa paulista e do sereno, mas também da memória poeirenta e enfarinhada mais agreste. Migrante. E eu amo tudo isso.  Essa terra toda. Sou grato a essas raízes. Choro essa seca, essa miséria, esses desequilíbrios do mundo, evidentemente. Tento inclusive viver para amenizar um pouco os cataclismas, se eu puder ajudar assim, sendo tão esse pouco que sou. Utópico como baleia encalhada, que sobrevive sempre por um fio. Mas amo a cultura nordestina sertaneja, árida e semi. E quando me vejo assim, virando mar de repente, sinto a benção de Antônio Conselheiro e Padim Ciço. Como se algumas das mãos em concha a me aliviarem fossem deles.

Aí eu vejo Lampião, Maria Bonita. Vejo minha vó Dalva, mulher forte caatingueira tida como louca. Vejo as crianças que peguei no colo em Benguela, nos possíveis areais onde meus avós se amavam faceiros, antes do navio negreiro aportar. Vejo a senhora japonesa que passou meses ensaiando algum inglês pra vir falar comigo ao por do Sol em Kushikino, sobre nosso possível amor em comum pelo mar. Vejo muita coisa. E o mar fica ainda mais imenso. Uma chance de completude. De fechar uma conta. Assimilar um ciclo. Banhar a existência, da pureza salobra, marinha. E seguir a um recomeço.

O mar é por onde chegou muita dor. Constatei isso em Angola, lançando meu livro de poemas por lá. Pelo mar chegou a escravidão, a separação, a morte, o estupro. E com o Brasil foi o mesmo, embora exaltemos tanto esse lugar. Pelo mar navegou a ganância. Transportou-se a terra morta. Arrancada. Prata, ouro e diamantes de sangue. Pelo mar se venerou corsários e impérios terríveis. E desonrou-se piratas, que talvez fossem muito mais dignos, íntegros e legítimos, apesar da roupa suja e da demagogia, fatalmente bem menor. Pelo mar chegou o baré do índio, dos pais de minha bisavó Ana Luiza, que ganhou nome branco, lindo, mas branco. Que esqueceu seu nome índio. E hoje, os índios, que moravam em toda a terra, quase não têm terra pra morar.

Tudo isso, pelo mar.

Fora as pescas destrutivas, insustentáveis. A caça às baleias. Os tráficos e contrabandos marinhos. Os lixos nucleares e hospitalares que os países ditos desenvolvidos, e ocupando as principais cadeiras e diretorias de comissões da ONU, despejam clandestinamente no mar da Somália e do Chifre da África.

No mar tem muita dor. Muito sangue. Tem muito choro de criança, de mãe e mulher pelo mar. Muito choro de homem escondido. Tem muito sofrimento no profundo das águas, onde nem o Sol se atreve a chegar. Eu não sou o primeiro, e não serei o último a falar do mar. Por tudo que há de mais sagrado nessa Terra. Eu vivo por um outro mundo, onde a vida não encalhe. Eu vivo por um outro mundo, onde as pessoas se escutem, aceitem e amem. Eu vivo pelo mundo a que viveu Galeano e Frida Kahlo. Eu me mantenho vivo, por acreditar que ainda temos cura. E eu tenho certeza, que essa cura vem do mar. Dessas águas que se bebe aos goles. E às metáforas aquíferas. Se virar mar o sertão do coração dos homens.

Mas agora eu acho que não respondi à pergunta. Se fosse uma prova de vestibular, apagaria tudo e recomeçaria. Como não é, acreditando nas conchas das mãos, vou emendar aqui:

“nau frágil” é o início dessa organização marinha de minha obra. Seu processo começou em 2014, ironicamente em Goiânia, no meio de um cerrado seco, a mais de mil quilômetros do litoral. No entanto choveu, no dia de estréia. A água – o mar – estava lá. Era um projeto principalmente musical, mas sempre houve uma pesquisa maior envolvida. Ainda naquele ano, segui para Cuba, uma ilha. Depois vivi a Bahia costeira, praiana. A Pedra da Sereia, o Rio Vermelho, o 2 de Fevereiro e os terreiros tantos de São Salvador.  Complementei uma pesquisa ancestral, de matriz e cultura, de rítmica, temática e de musicalidade, quando lancei o meu livro em Angola. Pesquisando sobretudo a Luanda e Benguela, banhadas de mar. Essa polirritmia litorânea afro-baiana-caribenha foi a base do trabalho musical. Às canções trazendo histórias diversas. Das famílias pescadoras de Bacunao, vizinhas do Guantânamo, na ilha cubana. Aos meus ancestrais angolanos e o casal que se ama espraiado, nas areias do mar da Bahia.

Já “auto-mar”, esse livro que lancei também em Angola, de poemas e minha primeira publicação impressa, foi um passo fundamental. Eu sempre tive essa dificuldade muita, em materializar as coisas, como disse, no sentido convencional do mundo. Nos pragmatismos e métodos dos sistemas que regem nossas sociedades. Mas o artista desse mundo precisa, minimamente, lidar com esse mundo. O artista também tem de ir aonde o povo está, como dizem Milton e Brant, na canção. Por isso eu passei um tempo assim, fazendo arte e literatura com o povo. Que muito do povo daqui, por onde cresci e em geral, não lê livros. Não ouve discos. Daí veio a importância de desenvolver uma poética diária, de falar poesia e de fazer samba nos bares. Mas era importante também lançar um livro. Circular entre círculos concorrentes. Como um símbolo do infinito. Fazer pontes. É o que eu sentia, quando fui dar aula também numa escola privada, para crianças filhas de ruralistas muito ricos, em uma cidade próxima. Alguns amigos marxistas criticavam. Mas pra mim, era importante estar em toda parte. Em tudo havia carência. Formas diferentes da falta. Fontes de desarmonia. Era importante essa dialética. E era importante o amor. Marxistas e Cristãos devem entender melhor desses conceitos, respectivamente. Mas eu, que nunca soube do Marx se dizer marxista, nem Cristo declarando-se cristão, achava – e acho – valer a pena ir tentando essas misturas. Com essas pontes e às encruzilhadas.

Lançar um livro era parte disso, pra mim. Não tinha idéia de como fazê-lo, contudo. De como conceber, ou estruturar um livro. Minhas produções eram todas muito urgentes, autônomas e livres. Sou muito grato à Editora Patuá, que confiou em mim inteiramente. E que me ajudou a dar esse passo. Sentei na areia da praia. E saí sete dias depois com o livro pronto e o corpo ardendo. Hoje eu o considero um livro-delírio. Uma tiragem física do kaos em mim. Vejo o “auto-mar” como uma garrafa trazendo uma mensagem. Um S.O.S., mayday. Esse pedido de socorro. Quase me afoguei em mim, pra trazer aquele deságue à tona. E sinto que ele vai se complementando aos poucos, de agora em diante, com as próximas materializações, dos meus trabalhos. “auto-mar” foi a obra que me salvou a vida. Agora espero, com as demais, fazer com que isso tenha valido mesmo a pena. Pra mim e pro mundo.

E em relação a tudo isso, o “contas de mar” é um avanço. Um passinho a mais nessa jornada imensa, que vem apenas começando. Como Cervantes, passo para a prosa na esperança de que as pessoas leiam poesia.  E chego mais perto com esse livro – talvez  já um pouco mais maduro – da minha verdadeira sina, que sempre foi contar histórias. Com poemas, canções, performances, o circo e todo o mais, o que eu sempre fiz, foi contar histórias. Parte da relação deles é essa: são histórias – ora poemas, ora canções; e ora contos – do mar.

Essa segunda resposta também não serviria pro vestibular, ou uma prova qualquer, pois dei essa viajada em Cristo e no Marx. Mas espero que para a entrevista valha. Sigamos.

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O Sarau da Dalva já deixou de ser um projeto cultural, para ser um espaço cultural consolidado. Poucos Saraus no Brasil (principalmente nas periferias urbanas) conseguem levar mais de 300 pessoas por edição. Conte como surgiu o Sarau da Dalva e como você o vê atualmente?

O Sarau da Dalva é um farol. Um oriente pra nós, essa luz de esperança mesmo. De um destino possível. Um porto. Que representa uma constelação, nessa perspectiva celeste. De Vênus e amor. Numa onda vibracional de constelação familiar sistêmica, que se expande à família comunitária e social que formamos. E que incide da luz de cada pessoa. Junta de outras pessoas. Defendendo que gente é pra brilhar, como diz Caetano. Não pra morrer de fome. Mas indo além no sentido de entender que esse brilho é conjunto. Cada qual à sua luz própria, sim. Mas em favor de desenhos complexos, que nos reúnam. Deixando essas luzes mais fortes, mais significantes. E nutrindo amplamente a essa existência, nossa, comum. Considerando que estamos todos num mesmo barco: este planeta.

E num sentido terreno, Dalva representa a encruzilhada. Essa chã das escolhas. De rota, rumo e possibilidades. Pelos dois vieses, a chance de sermos protagonistas de nossa própria história. De contarmo-la, a gente mesma. E de a escrevermos também. Inscrevermo-nos na História. Que só existiu até hoje, na supressão de muitas versões pertinentes. Nossas versões são pertinentes. E viemos dizê-la.

Dizem muito de mim, por aí, como dizem de tudo. Mas eu mesmo vim desapegando dos termos, conceitos – que quase sempre ficam sendo pré-conceitos, na limitação humana. Não falo tanto de marxismo, cristianismo, veganismo, modernismo, surrealismo, anarquia e outras abstrações dessas, ou: empacotamentos. Nesse ponto, sinto que a vida é prática. É no dia a dia que somos ou não coerentes. Que erramos com certeza. Humanos. E apresentamos ou não humildade, pra reconhecermos isso. Pro espelho primeiro. E depois, pra quem seja necessário. É aqui que temos dignidade ou não, pra seguirmos com a vida pelo melhor, apesar dos desvios que fazemos. É no corriqueiro que seremos hipócritas, ou salvos, de nós mesmos.

O Sarau da Dalva é isso. Um espaço prático, destinado à poesia. E a muitas derivações – do que, para mim, é a poesia – que tanta gente chamaria de: utópicas. É um lugar de erro. E de errância comunitária. Tentamos transformar. A nós mesmos. À comunidade em que estamos. E ao mundo em que está a nossa comunidade.

Faço isso na periferia onde cresci. No bairro da escola onde estudei, que tinha uma biblioteca trancada e inacessível. Faço isso ali, por achar importância nesse reconhecimento da aldeia. Como Tolstói. Como Oxóssi. Serei sempre dali. Mas como sou também do mundo inteiro – e cada vez mais assim – o espaço é para todas. Gentes de outras cidades, estados, países, vieram, vêm e virão. É um lugar não fronteiriço, de irmandade. Onde tentamos aprender a conviver, respeitar e o amor. E da mesma forma que eu, quero que as pessoas de lá se sintam do mundo também. Nós merecemos. E não é por meritocracia nenhuma. É por sermos humanos, terráqueas. Comumente isso.

Somos já reconhecidos como um Ponto de Cultura, pelo Brasil: a Encruzilhada Estrela Dalva. E ao Sarau, nesse complexo trabalho, se integram a Roda de Samba, o Clube de Cinema e tantas outras atividades, festas populares, ações culturais e educativas. A comporem essa, cada vez maior, constelação.

A quantidade de jovens hoje ganhando o mundo. Fazendo universidade, viajando, trocando com outros cantos, acessando diversidades, culturas. O contingente de jovens querendo fazer arte e conseguindo. Multiplicando as pontes. Os trabalhos de atenção com o próximo, com o bairro, com os nossos locais de convivência. Tudo isso vem aumentando, não sem luta. E é muito aliviante sentir a relação de tudo isso com esses anos de trabalho com o Sarau. Assim como com todas as atividades que desenvolvemos.

Todo esse trabalho nasceu de esperanças minhas que neguei tomar por utopias. Quis tudo isso ali, tópico, e bem no nosso cantinho, na simplicidade daquele lugar. Com tudo de bonito e de feio que ele tem. Que a gente tem. Pra ser de verdade. Delicioso e doído como a vida deve ser. Pelo menos por um tempo. E ele logo se juntou às esperanças de outras gentes. Nunca foi um projeto pessoal. Sempre foi um projeto constelacional. E assim ele tem sido. O nome “Dalva” é uma reverência à minha avó, essa mulher baiana, sertaneja e agreste de quem contei aqui, um pouco. Forte, alegre e protagonista. Como as mulheres não tinham – e muitas vezes ainda não têm – permissão para ser. Que foi dita louca, incompreendida, e que sem acolhimento ou interlocução propícia, se afundou nisso, passando pelos manicômios brasileiros e seus maus tratos, distratos; prisões. É Dalva por querer mais desse feminino matriarcal, aqui. Por querer menos do que o machismo deformou em mim e no mundo. É Dalva pela sensibilidade. Pela resistência do sonho, da dança, das cores, do verso e da alegria. É Dalva pela poesia ser a nossa loucura. Junto à esperança de que um novo mundo, outro, ainda nasça desse.

E é reconfortante sentir o quanto outras vós personificaram já esse sarau. Quantas mães, avôs e pais. Filhos e filhas, famílias inteiras, consanguíneas e não só. Laços de alma, enlaces de história, destinos cruzados nessa encruzilhada. Dalva, aí, vira estrela, planeta, Vênus, amor. E nesse nome, cabem as histórias de todas nós. Avós, e as vozes, de todas. É um processo lento. De construção, e tantas vezes desconstrução, muito lentas. É sofrido, muitas vezes. Cansa. Mas é também um prazer imenso. Uma satisfação.

Fizemos um filme recentemente. Um documentário média-metragem, que talvez transformemos em curta, ou logo um longa, que foi exibido em sessão única na comunidade. E agora passa por ajustes finais para ser disponibilizado na internet, inclusive com algumas opções legendadas, para aumentar às possibilidades de partilha. Esperamos com isso levar mais dessas pessoas pro mundo. E trazer mais o mundo pra essa gente, nossa comunidade.

Mas é isso. O Sarau nasceu dessa vontade, do artista estar com o povo. Da poesia estar com o povo, aonde o povo está. E do povo poder ser artista. Fazer e partilhar sua arte. Viver e reunir poesia. Um encalhadouro de baleias. Metaforicamente sentindo. Onde a gente protege os amigos. E a poesia é uma prece, pelo fim dos fascismos. A poesia é uma pressa. Até qualquer um ser amigo. Toda hora ser hora. E cada lugar, um lugar.

Quais são os seus planos para 2019? Depois de viajar pelos 4 cantos do Mundo, já tem alguma viagem agendada?

Quem me dera fossem só quatro cantos, esses cantos do mundo. Ainda tenho muito para viajar, digo, para conhecer. E uma saudade absurda de tudo que já vi. Sou todo demanda de reconhecimentos. Vontade de reconhecer lugares novos, as caras dos amigos de outros continentes, passadas dos anos, vontade de aprender mais de nós. E de novo. Mas infelizmente, ou felizmente, não sou eu quem agenda as viagens. As viagens sempre me agendaram. Nunca imaginei morar na Dinamarca, quando vi, estava em Hiroshima tocando canções do Lennon e de Harrison com uns amigos japoneses que encontrei. Dali colhendo café no Peru, numa mina de sal da Colômbia, fazendo circo pela Argentina ou rodando, aos rincões tão queridos do Uruguai. Bebendo com uns mendigos eslovacos na estação de trens isolada pele neve, dormindo num buraco de gelo, que eu mesmo cavei na Noruega. Pescando com Chichi e o seu primo, em Cuba, chorando por coisas que nem  sei o nome, ouvindo os flamencos das tendas comunistas nas pequenas “ferias” andaluzas, à terra de minha bisa Dolores. E de seus pais espanhóis. Sou grato por tudo que pude fazer até hoje. E sigo disponível para os ventos. E aos eventos desse mundo. Convites humanos e institucionais também são bem-vindos. Sempre.

Mas a grande idéia de 2019 é ser pai. Espero meu primeiro filho. E isso não é um projeto. É uma dádiva, com obrigação, que deve me ocupar por um bom tempo este ano. E na vida inteira. Depois disso, meu projeto principal é melhorar na sinuca. Cresci num bar, um boteco, como dizemos aqui no Brasil. E uma das minhas poucas obrigações morais nessa vida, era ser bom na sinuca. O problema é que eu dormi na mesa por anos, ao invés de jogar. Agora, quero começar a reparar isso. Ao mesmo tempo em que evito a sina de ter um bar eu mesmo, para não transmitir essa responsabilidade ao meu filho.

Sem deixar o bom humor de lado, espero continuar sobrevivendo em 2019. A política no Brasil não anda bem, vocês sabem. Mas vem sendo assim nos últimos 519 anos. À exceção de uma ou outra carreira, de pessoas que começam bem e não se corrompem no meio do processo – como faz a maioria das que já não entram corruptas. Mas essas infelizmente acabam presas, torturadas, exiladas ou mortas. E a mudança, se vier, não virá de nada em que não haja base. Então, como artista a idéia é seguir indo com a gente. Indo aonde o povo está, que é onde eu cresci, brinquei, briguei, e fiz tudo o que afinal eu fiz, na minha infância, adolescência e juventude inteiras. Decifrando esses mistérios aos poucos. Ainda. Mesmo se isso me custar não ser aceito como artista pela crítica especializada, que vê tudo isso de algum lugar lá fora. Como artista meio outsider, de pequeno porte, independente. E agora pai de família, sem renda fixa e sem medo do que há de ser: é isso.

Em termos descritivos, este ano é de trabalhar às circulações do livro, o “contas de mar”. Que a alma dessas histórias alcancem os seus lugares de destino. Que eu seja um bom timoneiro, naquilo que me caiba. Ano de gravar o disco, oxalá. Que as dificuldades que barraram todos os anos anteriores, não nos barrem neste. E de seguir todo o trabalho com a comunidade, que me é o mais importante. Isso e conseguir partilhas reais, com os leitores, os ouvintes, às pessoas.

Continuar estudando sempre.

E, já em termos práticos, é o seguinte. Foi curioso eu ter usado aqui a metáfora da baleia. Nunca me chamei assim, metaforicamente e adulto, até poucos dias atrás. Mas fui chamado desse modo a minha infância e adolescência inteiras, por ser obeso. Daí, essa metáfora me apareceu ao escrever os agradecimentos deste livro, o “contas”. E agora aqui, nesta entrevista.

Quando deixam, eu falo muito. Como vocês podem ver, por estas cinco perguntinhas. Mas eu cresci com a sensação de falar sem ser ouvido. Talvez por isso eu tenha rejeitado a idéia de ser escritor, a princípio. Minhas professoras diziam desse jeito meu, para a escrita. Mas, fora da obrigação da escola, não me sentia ouvido. Aí, tudo o que escrevia, era precioso e, também, para ser secreto. Era como se eu escrevesse em códigos, que ninguém entenderia. Talvez daí venha a minha descrença em idiomas. Era como se eu nunca me fizesse sentir. Talvez por escrever mal, falar mal, exprimir mal. Talvez minhas professoras só quisessem amenizar um pouco os efeitos das musiquinhas preconceituosas, das brincadeiras excludentes e dos xingamentos que eu levava.

Talvez daí tenha vindo a escolha dos silêncios. Que fizeram pessoas pensar que talvez eu fosse autista. Em partes consideráveis da infância. Talvez daí tenha vindo a facilidade para morar no Japão sem falar a língua. De passar semanas inteiras em silêncio quando aspirante a monge tântrico. Talvez daí tenha vindo tanto mais, de tudo isso.

Aí, um dia, eu ouvi sobre a baleia que canta em outra frequência, que as outras todas. E que, por isso, ela nunca é ouvida. Depois de chorar muito por ela, senti que talvez as pessoas sejam assim também. Algumas. Mas de vez em quando nos achamos. Hoje, com as redes, ficou muito mais fácil se perder. Mas também é mais possível se encontrar, em meio a tanto mundo. Tanta gente. Há essa ressonância que nos atrai. Eu sempre encontrei as reverberações que precisava, para continuar vivo. Elas nunca foram abundantes, em quantidade. Mas jamais me faltou o imprescindível. Eu tenho encontrado razões pra cantar. Insistir. Esses dias, duas irmãs, adolescentes, moradoras desse bairro onde cresci, vieram me contar que amam uma canção que fiz, que foi importante pra elas se amarem sendo como são. Uma vez uns músicos gringos se emocionaram ao saber que eu era o compositor de “Beta”, e depois de “Moça do Ônibus”, junto com um parceiro. Uma vez um cartão postal da Índia chegou, de alguém que eu não conhecia dizendo que a história do carteiro era tão linda. A mulher que faz faxina ouvindo um vídeo no Youtube, com fragmentos do show de “nau frágil”, em looping. Nós botamos esse vídeo no ar, pra tentar ganhar um edital de gravação do disco, que perdemos. O vídeo ficou lá perdido, ela achou, e sentia energia e felicidade pra limpar sua casa, com isso. Uma mãe veio me procurar no Facebook, pra contar que a filha dela pedia pra me ouvir, na hora de dormir. E que só dormia fácil assim. São coisas muito pequenas, mas que como eu disse, mantiveram esse baleia vivo até agora.

Talvez seja qualidade mesmo. Uma má qualidade no que eu faço. Talvez seja isso, das frequências. Talvez seja só a vida, como ela é. E o tempo, que é rei. Como for, o plano pra 2019 é seguir cantando. Enquanto vou encostando meus ouvidos na barriga de Sabrina. Tentando aprender a entender o meu filho desde já. Aprendendo já muito com ele. E se ele nascer assim também, que só se sinta só, quando isso não for sinal de falta, mas sim, de uma própria existência. É isso, de repente, depois de 33 anos: eu aprendi a existir. Todo o resto é pouco demais, pra gente desperdiçar momentos. Que o mundo gire. Vou continuar produzindo, tentando lidar melhor com a matéria. Tem uns vídeos perdidos por aí, os livros. Quem quiser pode me chamar prum intercâmbio, residência, pra ser professor ou estudante temporário em bons fazeres, mandar uma carta, me encontrar de chinelo a caminho da padoca, ou na praça, brincando com meu filho. Pode me chamar prum café, aparecer aqui com uma torta. Ou me desafiar, pra sinuca.

Pra terminar, essa história que resume tudo: uma vez eu fui parar com o circo na Suíça, às beiras do lago Léman. E em Vevey, quando vi, estava visitando o túmulo do Chaplin. Um cemiteriozinho, simpático, mas muito discreto. Ele usou umas moedas de franco suíço, que lhe haviam ofertado ali, em totens, pra me pagar uma garrafa de vinho, que saí pra comprar. E quando já de volta, bebendo em seu agradecimento, sob uma garoa mansa, um sereno vespertino melancólico e cinza. Perguntei pra ele por que ser artista? Por que viver como artista, tornar-se uma celebridade, ser famoso, rico, compor “Smile” e depois morrer e ser enterrado num lugar tão pequenino, escondido, recôndito. Justo quando as multidões de visitas, de fotos e assédios, não incomodariam tanto. O que aquele objetivo de morte, teria a ver com seus objetivos de vida? Infelizmente não dá pra expressar o que ele me disse aqui, com as palavras, pois tudo aconteceu em mímica. Mas foi importante lembrar disso hoje. Um dia tudo isso acaba. Van Gogh não levou nada que dizemos dele hoje. Glórias. E nenhum centavo dos leilões. Joana d’Arc não teve suas cinzas restabelecidas como corpo em vida, depois de ser reabilitada e beatificada, pela mesma igreja que a queimou. Vincent levou suas cartas para o irmão amado, suas doses, prazerosas de absinto e os tesouros da pobreza. Joana, a paz de não se omitir, diante das lutas a se lutar. Então esse é plano: enquanto vivo, viver mesmo. Escrevendo, nem que seja como quem escreve cartas a uma única pessoa. Sentindo os matizes que vem do céu e expressando-os. Algo sobre fadas, etéreo, onírico. A simplicidade, às coisas da terra. E a luta, enquanto houver a causa. Levar o meu filho no colo, fazendo com que ele acredite que tudo isso é brincadeira. Até ele ter o tamanho, de andar seu próprio caminho. E seguir. Se ele fizer isso, e ainda continuar brincando, o plano então terá sido um sucesso.

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Quero muito agradecer ao Portal Galego da Língua, pelo espaço, paciência e simpatia. Mandar um abraço caloroso a toda Galícia, que aprendi a amar por histórias, fotos e canções. E agradecer, incansavelmente, aos três leitores que, oxalá, terão tido a generosidade de me acompanhar até aqui, nessa torta travessia. Sobrevivemos.

 

José Carlos da Silva

Desde 2008, José Carlos da Silva é correspondente do PGL no Brasil. Residente em Campinas (São Paulo), é produtor cultural e periodista. Como produtor cultural trabalha pela difusão da cultura caipira, que tem na viola de 10 cordas, sua maior expressão.

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