Quarteto UFG: Goiás em Compostela



Com os primeiros frios do outono, perturbados pela mudança climática, chegou o verão a Compostela em forma de música brasileira. Vindo de Goiás, recebemos no Conservatório o excelente Quarteto UFG (Universidade Federal de Goiás) que em dia 8 de novembro de 2017 nos honrou com um concerto maravilhoso de música brasileira, portuguesa e galega. Como diz uma amiga, é a tecer que se constrói a teia da cultura, veste que nos protege do ermo da guerra. Protegeu Oliver Messiaen nos campos de concentração nazistas e agora protege Galiza da devastação incendiária e da incompreensão organizada. Tecer com música  reforça o corpo e o espírito, e este concerto tem sido isso, um grande abraço brasileiro.

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O conjunto ofereceu um programa variado onde se ouviram duos de violino e piano, flauta e piano, piano a quatro mãos, quarteto de duas flautas, violino e piano. Andréa Luísa Teixeira (piano e flauta), Anderson Rocha (violino), Robervaldo Linhares Rosa (piano) e Luís Carlos Vasconcelos Furtado (flauta) interpretaram música clássica europeia realizada por músicos vindos da Europa como Sigismund Neukomm ou Marcos Portugal. Aliás, o mesmo Neukomm que aparecia no manuscrito novecentista para viola descoberto por Manuel Morais no Funchal, ilha da Madeira. A Andréa tocou aqui uma aveludada flauta-travessa. Logo a seguir soou o popular Tavares de Amorim e depois apareceu a música galega. Uma obra para piano da viguesa Maria Luísa Sanjurjo, intitulada Miña Terra, que conhecemos graças à generosidade do nosso amigo Alejo Amoedo. O facto de tocar música galega num conservatório galego é algo extraordinário, ainda mais se interpretada por professorado doutro país, mas o verdadeiro presente foi que o Anderson Rocha, violinista e musicólogo, realizou um arranjo para violino e piano desta obra, que a Andréa acompanhou. Eles fizeram sua a Terra da Maria Luísa Sanjurjo que agora passa, com todo o direito, a se chamar Minha Terra. Assim, a nossa ainda desconhecida pianista e compositora tem já, e com ela todas nós, um fio brasileiro tecido no século XXI.

A seguir veio o Tango do Ronaldo Miranda para piano às quatro mãos do Robervaldo e, de novo, a Andréa. Um tango brasileiro que encheu de modernidade o salão do auditório compostelano. E depois as obras de Villani-Cortês, Callado e Gonzaga, belezas brasileiras nunca antes ouvidas, especialmente a maravilhosa interpretação e explicação do Luís Furtado sobre Joaquim Callado, extraordinário virtuoso da flauta e homem negro que conquistou para [email protected] um espaço de liberdade musical quando o racismo dominava a vida no Brasil. Finalmente, o concerto encerrou com a suite de danças brasileiras do Chiquinha Gonzaga, Corta-Jaca, na transcrição do Robervaldo Linhares, pianista, poeta e pesquisador do nobre ofício de pianeiro, que logo em dias a seguir explicaria em conferência na Universidade do Minho.

Agora o Quarteto UFG está em Lisboa porque toca, no dia 14, no Museu Nacional da Música. Na sua gira atlântico-europeia, o quarteto pousou as suas asas nas antigas Compostela, Braga e Lisboa. Como num passo de dança magistral, a teia da cultura que nos une tocou três pontos-chaves da nossa história. O carinho atlântico é mais do que necessário nestes tempos em que a negra sombra de Rosalia torna a nos fazer mofa. Enquanto na Espanha livram a enésima batalha de bandeiras, caladinha, a prudente Galiza aciona o tear do seu futuro.

 

Programa interpretado o 8 de novembro de 2017 no Conservatório Profissional de Música de Santiago de Compostela.

1 – Luís Álvares Pinto – Divertimentos Harmónicos, (transcrição para duas flautas, violino e piano)

2 – Sigismund Neukomm – A Emília (transcrição para duas flautas, violino e piano)

3 – Sigismund Neukomm – Addio  (transcrição para duas flautas, violino e piano)

4 – Marcos Portugal  – Minuetes (piano a quarto mãos)

5 – José Tavares de Amorim – Mandacaru (transcrição: Anderson Rocha)

6 – José Tavares de Amorim – Galope de Cavalhada (transcrição: Anderson Rocha)

7 – Maria Luisa Sanjurjo – Miña Terra (piano e violino)

8 – Ronaldo Miranda – Tango (piano quarto mãos)

9 – Edmundo Villani-Côrtes – Miniaturas

10 – Joaquim Callado – Linguagem do Coração (transcrição: Robervaldo Linhares)

11 – Chiquinha Gonzaga – Corta-Jaca (transcrição: Robervaldo Linhares)

Produção: Andréa Luísa Teixeira

Isabel Rei Samartim

Isabel Rei Samartim

Mulher, música guitarrista, galega. Pensa que a amizade é uma das cousas mais importantes da vida. Aprendeu a sobreviver sem o imprescindível. Aguarda, sem muita esperança, o retorno do amor. Entanto isso não acontece, toca e escrevinha sob a chuva compostelana.
Isabel Rei Samartim

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  • Maria Dovigo

    Que crónica bonita! De facto há sempre mais do que uma história a acontecer-nos, pessoal e coletivamente, ao mesmo tempo. Às galegas acontece-nos a história do exílio, da resistência, mas também acontece-nos sempre a maravilhosa e dramática história da beleza, da criação, da música que nos convoca e nos liga. Bem hajam os músicos que fiam o fio mais brilhante, e resistente, da nossa teia. Abraço, cara.

  • http://www.notas.gal Eliseu Mera

    Magnífica proposta, Isabel!