Proposta : Português língua oficial da ONU



Brasília acolheu entre os dias 31 de outubro e 1 de novembro a XI Conferência de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

lusophone_worldNuma conferência de imprensa, o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, e o primeiro ministro do mesmo país, António Costa, anunciaram que durante a reunião foi aprovada por aclamação uma proposta oficial à Organização das Nações Unidas (ONU) a instauração do português como língua oficial da organização. A votação foi à iniciativa do presidente do Brasil Michel Temer.

Neste momento, as línguas oficiais da ONU são o espanhol, o inglês, o chinês mandarim, o russo, o francês e o árabe. De início só eram oficiais inglês e francês, que ainda continuam a ser as mais utilizadas dentro da organização. A última modificação a esta lista foi a inclusão do árabe, num lento processo que começou com a aprovação do seu uso como língua de trabalho na Assembleia Geral em 1973 e acabou em 1982 com a inclusão dentro das línguas de trabalho do Comité de Segurança.

Se esta medida for implementada, a relevância internacional do português ficará melhorada consideravelmente. Isto é importante, se tivermos em conta que, ainda que o português seja a quinta mais falada do planeta, a sua importância a nível geopolítico é menor. Espanhol e português, apesar de serem línguas com um número de falantes importante, têm a sorte de estar em países do “Terceiro Mundo”. Embora a situação de muitos destes países esteja a melhorar, ainda continuam a ser chamadas de “Países em desenvolvimento”, termo associado com pobreza, desigualdade social e instabilidade política. Esta imagem poderia ser alterada se a ONU, considerado o mais importante órgão internacional, adotasse o português como uma das suas línguas de uso oficial. Aliás, isto fará que a ONU precise de tradutores e trabalhadores que tenham conhecimentos de português, o que criará uma oferta de trabalho considerável, se tivermos em conta que a ONU é, segundo a sua própria página web, “um dos maiores empregadores de profissionais de línguas”.

Quais são as possibilidades reais de esta proposta ser aprovada?

antonio_guterres_2013Começando, o futuro secretário-geral da ONU, António Guterres, que entrará no cargo em 1 de janeiro do ano próximo, já manifestou que gostava da ideia. Se bem que o cargo de secretário-geral sempre tenha sido um cargo mais decorativo do que útil, a sua opinião sempre é ouvida pelos seus membros. A importância, ou antes, o prestígio de chegar até o posto prova-o o facto de a rádio espanhola não parar de repetir a situação de António Guterres como “político ibero” (primeira vez que o Reino de Espanha parece importar-se com o seu país vizinho) e do facto de ele saber “falar espanhol” (como se fosse requerimento para ser secretario-geral da ONU).

 

Ser o Brasil o principal promotor da medida é uma grande ajuda. O país é o sétimo quanto à contribuição que dá à ONU, sendo, além disso, a sétima potência económica por Produto Interno Bruto (PIB). Sendo uma potência emergente e parte do Grupo dos 77, a sua relevância internacional está a aumentar. Se os esforços diplomáticos do Brasil se focarem na aprovação do português como língua oficial, a medida poderá chegar a ser efetiva.

pib_nominal_fmi_weo_2015

Aliás, a presidência do Brasil tem bons motivos para conseguir este êxito internacional. O seu presidente, Michel Temer, entrou graças ao já infame Impeachment da anterior presidenta Dilma Rousseff. Num país que está à beira do colapso político (ou, melhor dito, que já colapsou), Temer necessita de algum avanço em qualquer matéria para poder legitimar-se como presidente, ao entrar no cargo sem eleições que o garanta (ainda que, como se viu com Dilma, ganhar umas eleições tampouco é garantia de nada) e com poucos apoios. Um êxito a nível internacional poderia dar prestígio a Temer, o que consolidaria a sua posição como presidente do Brasil, perante as ameaças de que sofra a mesma sorte que a sua predecessora. Por outras palavras, o Brasil tem os meios e os motivos para conseguir que o português seja oficial na ONU.

Porém, isto iniciaria um debate. Qual português seria o adotado pela ONU? Se bem que o Acordo Ortográfico tenha eliminado parte das diferenças entre português europeu e português brasileiro, é um facto que adotar soluções léxicas ou morfológicas próximas de uma ou outra fala vai levar a debates linguísticos, com uma boa dose de nacionalismo adicionado, entre especialistas brasileiros e portugueses, cada um deles com os seus argumentos. Poderia levar isto a um debate aberto entre o Brasil e Portugal? Ainda que o Brasil ultrapasse largamente a sua ex-metrópole em termos económicos, e tenha aproximadamente 80% dos falantes de português no mundo, Portugal vai ganhar nestes anos certo prestígio internacional com a entrada no cargo de secretário-geral da ONU do ex-primeiro-ministro de Portugal António Guterres. Esperemos que o novo secretário-geral tenha as habilidades diplomáticas tão badaladas pela imprensa portuguesa, e consiga fazer chegar a um entendimento aos dois países.

Quanto à Galiza? Obviamente, que o português seja escolhido língua oficial na ONU será um outro bom momento para voltar a introduzir na sociedade o debate reintegracionista na Galiza. Se bem teremos as respostas dos “mesmos de sempre”, é uma boa ocasião para nos dar a conhecer a um público que cada vez está mais desconectado da cultura galega, e, portanto, cada vez desconhece mais o que é o reintegracionismo. Aliás, parece que a situação da Xunta respeito ao reintegracionismo tem melhorado. A aprovação da lei Valentín Paz-Andrade e a defesa inesperada de Feijoo da proximidade entre galego e português em Intereconomia parece contrastar com a política de diminuir subvenções e apoiar a substituição linguística na Galiza.

Resumindo, a aprovação do português como língua oficial da ONU poderá trazer tensões à diplomacia dos países lusófonos, mas para o caso galego dará uma outra nova oportunidade para levar à sociedade a questão linguística. Em qualquer caso, não podemos senão aplaudir a decisão da CPLP de apresentar o português a língua oficial da ONU. Esperamos grandes coisas de este processo. Porém, ainda há que esperar, já que a declaração só é, neste momento, uma votação interior da CPLP.

Fontes

Diário de Notícias

Jornal de Notícias

Web Oficial da ONU

ASK ONU

Web Oficial da CPLP

 

Wikipédia

https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_portuguesa

https://pt.wikipedia.org/wiki/Comunidade_dos_Pa%C3%ADses_de_L%C3%ADngua_Portuguesa

https://pt.wikipedia.org/wiki/Organiza%C3%A7%C3%A3o_das_Na%C3%A7%C3%B5es_Unidas

 

Youtube

 

Alberto Paz Félix

Alberto Paz Félix

Alberto Paz Félix (Corunha, 1997) é estudante de Galego-Português na Universidade da Corunha (UDC). Criou-se na Costa da Morte, mas ao mudar a Corunha mudou de idioma ao castelhano, que falou durante parte da sua vida, recuperou o galego e a continuação começou a escrevê-lo na sua grafia internacional. Tenta conhecer cada vez mais de cultura portuguesa, brasileira e da África lusófona.
Alberto Paz Félix

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  • potanonimomain

    Tenho uma ideia pra solucionar os problemas entre Brasil e Portugal: que adotem a norma da Angola (https://dicionarioegramatica.com.br/publicacoes-fixas/palavras-de-angola/)
    É que parece que a Angola e Moçambique não contem…

  • potanonimomain

    Então, que norma do castelão usam? A da Espanha? A do México? A da Argentina?
    E no inglês? A norma seguida é a dos Estados Unidos? Ou a da Inglaterra? E a da Austrália? E os países africanos de língua inglesa? E que passa co resto da Commonwealh?

    • potanonimomain

      Se a ONU pôde solucionar estes problemas, por que não ia poder co português?
      As diferenças gramaticais e lexicais entre as variantes da nossa língua não são mais ca miudezas. Bem se podem solucionar. Algums documentos escreverão-se na variante brasileira, outros na portuguesa, outros na angolana, outras na moçambicana… Digo eu que assim farão nas outras línguas.

  • potanonimomain
  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Está bem. Mas às vezes dá certo pavor ter de defender a nossa língua com personagens como o Sr. Fora Temer e o Sr. Feijão. Se bem em ambos os dous a vontade de anotar-se uma vitória política é clara (e, como bem diz o autor do artigo, necessária, pelo menos para um deles), no primeiro pode confiar-se na autenticidade do amor ou necessidade da língua portuguesa, porém, no segundo, sabemos que de amor nada e a necessidade será a de apertar com mais um tentáculo o pescoço dos galegos díscolos que amam Portugal e querem a oficialidade da língua portuguesa para a Galiza.
    Se o Feijão é tão lusófono quanto o Fora Temer, por que é que não implementa a Lei Paz-Andrade?

    • Luis Trigo

      Acredito que a Isabel deve merecer a defesa da sua língua 🙂

      • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

        A minha língua está bem, como a sua, em casa húmida e quente, com um céu no paladar e um esgoto para alimentação, rodeada de uma muralha de 32 peças dentais. O que já não anda tão bem é a NOSSA língua. Não sei se me faço entender.

        • Luis Trigo

          😀 Pois, só queria dizer que a Isabel devia ser motivo suficiente para a defesa da NOSSA língua. É dar demasiada importância ao Feijão e ao Fora Temer fazer depender deles esse ânimo.

          • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

            O que você quiser.

          • Luis Trigo

            Peço desculpa, compreendo que a nossa língua tenha mais garantias para mim do que para si… Seria ridículo essa urgência na defesa da língua para o castelhano ou o francês, mas veja-se o que aconteceu às outras línguas com que co-habitavam. Tendo como analogia o que os belgas dizem de França, ainda terá vontade de dizer “Portugal é o país mais bonito do Mundo, só é pena os portugueses”. Dependendo do dia, até poderei concordar. Boa defesa cara Isabel, nem me atrevo a meter a língua fora da muralha. Força!

          • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

            É claro que a defesa da NOSSA língua deve fazer-se naqueles lugares e territórios em que está comprometida a sua saúde e normalidade. Neste caso é Galiza, isto é uma página galega, eu sou galega. Nessa defesa da NOSSA língua o senhor, como português(?), tem a sua parte de responsabilidade, porque a língua que defendemos também é a sua.

            PS:
            Meter dentro > da muralha
            Sacar fora > da muralha

            A fábula do beija-flor nos ensina que cada quem tem de fazer a sua parte. Seja beija-flor e defenda a sua língua além das fronteiras de Portugal.

          • Luis Trigo

            Pode definir-me como português ou como quiser, há quem questione isso porque não gosto de bacalhau. Até pode definir-me como galego. Também gosto muito da Galiza e desejo-lhe o melhor. Em alguma coisa que eu possa ajudar… Mas prezo a nossa língua como a senhora, e tenho o mesmo direito de a viver à minha maneira – talvez outras circunstâncias me garantam melhor esse direito. Acredito por isso que o Luís Trigo mereça a defesa da sua língua, que estão para além da sua utilização pelo Fora Temer.
            As desculpas e a força foram sinceras. Uma pessoa que defende os seus direitos, defende também os meus. Por isso tem o meu apreço. Outra das vantagens que tem falar a mesma língua é podermos desentender-nos melhor.

            PS: obrigado pela correcção

          • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

            Lembre que os direitos nunca são individuais, mas coletivos, e por isso não justificam o individualismo nem a falta de empatia ou compromisso social. Agradeço o seu apreço. Saúde.

          • Luis Trigo

            Não querendo ser chato, alguns direitos são individuais, mas dependem claramente dos colectivos, para o melhor e para o pior – percebo bem isso. Claramente, não vou fazer depender as minhas opções de determinados indivíduos. Não quero com isto defender a atomização do social, pelo contrário, até porque me incomodou que pudesse ter transparecido alguma falta de empatia ou compromisso social. Saúde!

    • potanonimomain

      Feijão?

      • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

        É o nome atualizado do antigo Feijoo.

        • potanonimomain

          O antigo tamém é legítimo. E máis ainda nos nomes. E, falando das verbas comuns, podem constituir um recurso pra dotar de mais riqueza léxica às obras literarias. Debem-se usar quantos máis sinónimos melhor. Por isso, é legítimo usar arcaísmos coma outo, vegada, xena, xinea, zevron… https://estensiondogalego.wordpress.com/2016/10/30/lista-de-arcaismos-galegos/
          Não che parece, Sabela?

          • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

            O que me parece é que deves cuidar os teus acentos…

  • Heitor Rodal

    Eu do que gostaria é de conhecer qual a posição dos outros blocos linguísticos mundiais cara à oficialização do português nas Nações Unidas e, nomeadamente, a posição dos países de língua oficial castelhana.

    • Ângelo Cristóvão

      Havendo vontade politica dos peticionários, suspeito que o problema está mais no reparto dos curtos económicos.

      • Heitor Rodal

        Ok. Acho contudo que quando há quem começa a falar da integração dos países de língua oficial portuguesa numa supracomunidade “iberófona”, a posição dos países de língua oficial castelhana neste assunto pode dar uma ideia de qual a vontade real de colaboração leal e recíproca neste aspecto.

        Saúdos.

        • potanonimomain

          A posiçom dos catalães está bem clara.

          • Heitor Rodal

            Atualmente não há nada claro por nenhuma parte.

            Saúde.

        • Ângelo Cristóvão

          A reciprocidade da parte hispanófona é esperada, mas não se vê. Ou eu não a vejo, mais exatamente. Ora, não pode aguardar-se uma resposta geral ou global porque também não existe uma governaça global da política linguística dum lado nem do outro. Sim parece possível essa colaboração recíproca a nível local. Refiro-me a uma reciprocidade de países com fronteira comum. Há alguma experiência entre o Brasil e o Uruguai, com algum sucesso. Dessas experiências poderia tirar-se alguma aprendizagem, algum conselho, alguma lição.
          Recentemente têm organizado conferências ou seminários sob a ideia dos três espaços linguísticos (português, francês, espanhol) em conferências da CPLP em França. Mais recentemente, em Cáceres, em novembro de 2016. É possível que isso avance num futuro próximo. Ora, no meu escasso conhecimento do tema tiro uma conclusão. É que faltam os instrumentos “inteletuais” em termos de projetos concretizáveis, e o acordo político entre os estados promotores. Não é fácil.

  • Heitor Rodal

    Já no que diz respeito à notícia, fiquei curioso com o mapa que a acompanha. Para além dos países de Língua oficial portuguesa marcados em cor verde, o que é que significam os pontinhos de cor cinzenta? Comunidades significativas de falantes de galego-português?

    Obrigado.