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Resulta interessante considerar como a noção que hoje temos a respeito do que é a Literatura é aplicada a todas as manifestações das escritas antepassadas. Fazemos com tudo, é verdade, interpretando e dando sentido ao passado, a cada vez, em função de cada presente e dos contextos formativos, ideológicos, religiosos, culturais. Talvez há aspectos nos que não é tão evidente, mas avonda uma olhada à imprensa, revistas literárias, livros de texto, manuais de literatura, aos espaços ocupados por livros nas bibliotecas e catálogos das editoras, para entender o que hoje consideramos, o que é, e não é, literário.

Podemos sintetizar que a prosa de autor: o romance, sem importância do idioma (mas com epicentro das modas no espaço norte-americano), ou do subgénero (mas com predomínio do best-seller de entretenimento) conforma o corpo central do “literário”; seguido pelo ensaio pessoal e por diversas manifestações, não poucas interferidas com o romance de “escritas do eu” multiplicadas pelos hábitos das redes sociais: memórias, correspondências, recompilações de artigos estilísticos de imprensa, escritos pessoais, e clássicos resgatados em função dos critérios antes ditos, ocupam depois a maior parte das prateleiras.

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Poesia e teatro foram perdendo as posições no espaço literário e nas bibliotecas pessoais que outrora, e não há tanto, ocuparam. Sem perder, nomeadamente a primeira, o seu prestígio e comunicação individual na elite cultural. Tendo perdido a segunda, (após um revival coincidente com o fulgor popular anticolonialista, o Vaticano II e o desafio da cultura popular das esquerdas nos anos 20-30 e 50-80 do século XX) desocupada gradualmente dos palcos e do favor e consumo das massas, por outros sistemas e produtos tecnológicos.

Poderíamos dizer, sem ter nunca sido capazes de definir o “literário” que a “literatura” é algo popular, que como tantos objetos de consumo se nos apresenta perfeitamente envasada, publicitada e codificada para pronto uso. Um produto de relax pessoal, com denominação de origem, explicações e instruções claras para o seu uso e interpretação.

Porem, se consultamos as classificações e enumerações nos tratados bibliográficos, nas vendas de bibliotecas pessoais e nos inventários de livrarias anteriores ao século XVIII poderíamos chegar a advertir que ambas, o romance em prosa e a lírica de autor, ocupam não apenas um espaço marginal, quanto que também a sua classificação e qualificação entra nos espaços da bagatela, do pernicioso, do prescindível, do pouco sério. Um algo assim como trataríamos hoje o best seller rosa, a banda desenhada, o romance de detetives, do faroeste, a pornografia, e outros impressos de literatura popular em mal papel.

Isto que apontamos, obviamente, tem uma importância capital à hora de entendermos não apenas o que é a leitura, quanto os textos do passado que lemos – por incorporação ao cânone que estudamos e que configura a nossa tradição – mas que talvez não interpretamos corretamente, privados como estamos de contextos, sentidos e intenções originais, em favor dos nossos próprios contextos, tradição elaborada e aceitação do aprendido no sistema educativo, filosófico, político e cultural promovidos pelos Estados.

Um dos aspectos mais interessantes nesse sentido é a funcionalidade original de muita da produção que posteriormente temos assimilado a valores modernos como “originalidade”, “rotura/continuidade”, “voz autorial”, “fama”, “género”, “período histórico e/ou literário” e “literaturas nacionais”. Conceitos que antes da sua fixação no Romantismo e dentro da sua codificação de valores, dificilmente podemos empregar.

Antes do século XVIII dificilmente existem fronteiras nacionais, nem genéricas estritamente categorizadas, no literário, também existem raramente “autores” e “textos individualizados”, não poucos foram resgatados, reconstruidos e individualizados no decurso da novidade da construção do autor genial e da pessoalidade romântica, do texto artístico e da ideia das literaturas nacionais.

Antes existia o texto bem ou mal escrito, o texto formativo e o de entretenimento, o texto doutrinal e filosófico e os brinquedos literários. Existiam as autoridades e os textos de prestígio. Existiam géneros ou estilos, identificados ou derivados de transmissões romances musicadas. Existia o Latim, como língua de cultura e transcendência universal; e algum romance ou vulgar, latinizado, escrito a sério (normalmente em código e dirigido a algum público grupal concreto) e não universal;  existia o romance intranscendente, para consumo imediato e leitura pública e também a lírica “de autor”, não poucas vezes classificada como um tipo de pornografia, de desnudo sedutor da alma ou da pessoa.

Também não pouca da literatura antes do século XVIII (como depois e é hoje) é propaganda a serviço de uma causa ou produções panfletárias ou satíricas contra outras. A serviço de um Senhor ou Senhora, da ideologia ou grupo em que se significa, a que se dedica. Não se trata do simples mecenato, para prestígio e propaganda da figura pagadora. Isso também, mas em não poucos casos os textos jogam um papel político, propagandístico, formativo, satírico, propagador, quase bélico diríamos, no complexo jogo de dissimulo, conflito e luta pelo poder entre facções nas diversas cortes europeias, nas que umas elites internacionalizadas circulam arredor dos reis, das dinastias, das grandes casas com linhagem, mercantis e bancárias. Neste sentido tanto a literatura trovadoresca galega, quanto as manifestações artúricas, tanto a poesia e prosa barroca espanhola, quanto a poesia e o Teatro isabelino e estuardino inglês, são testemunho e evidenciam a tumultuosa política, grupos e facções das suas épocas.

00_wyeth_ladieshomejournal_1922_03_coverA aparição da imprensa e a sua popularização, foi não apenas uma fissura digital, quanto uma divisão de magnitudes continentais. A divisão em classes dos letrados, dos semi-letrados e dos iletrados, e por tanto do público, de umas tipologias hierarquizadas e separadas de público, definia também os produtos de consumo possíveis.

O romance, e a poesia em língua vulgar, não serão universais e comuns até que as grandes urbes, a tecnologia e a ideia da alfabetização maciça (elevadas sobre a ideia reformista e negócio da Bíblia em vulgar, para leitura própria e consumo pessoal da livre interpretação) permitam a aparição do público de massas e, primeiro a imprensa e depois o mundo editorial, sejam percebidos como negócio.

Talvez é pertinente destacar que fomos desenvolvendo a atual noção e  modelo de consumo de Literatura, e da leitura como conquista e ato individual, a partir do século XVIII, e que foi se configurando em paralelo à construção do nacionalismo (na ideia ridícula da existência ab ovo e eterna de nações e de literaturas nacionais) e do Capitalismo (essa religião com as suas máximas sacrossantas de individualismo, sucesso pessoal, consumo, catálogo, stock e vendas maciças).

 

Publicado em A VIAGEM DOS ARGONAUTAS/ /


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  • Ângelo Cristóvão

    Excelente!

  • abanhos

    ÉS UM VERDADEIRO PROFESSOR E AO ESCREVERES EXERCES SEMPRE COMO TAL, PARA APROVEITAMENTOS DOS TEU LEITORES/ALUNOS.
    É bem triste termos um país onde os verdadeiros professores não estão onde tinham que estar, nas suas universidades