Proibição da leitura e traduções vernáculas da Bíblia (IV)



 

A repressão da leitura da Bíblia durante a época do iluminismo

No século XVII surge na Inglaterra um movimento intelectual progressista que teve o seu máximo apogeu na França do século XIX, que se vai converter no epicentro a partir do qual se vai irradiar por toda Europa. É um movimento que tem confiança na razão humana, uma razão legisladora na que não existem ideias inatas. Concede grande importância ao saber, especialmente ao saber científico, declara-se deísta, ou seja, manifesta a sua crença em Deus, mas rejeita as religiões positivas, entre elas o cristianismo, que ficam relegadas ao âmbito privado e concebe a natureza humana como autônoma, independente e imanente. Surgem também novos movimentos no seio da Igreja que oferecem uma nova interpretação dos textos bíblicos, da graça, do pecado, da liberdade e da predestinação, como é o jansenismo. A Igreja católica vai reagir condenando as novas ideias, ao tempo que renova as condenas antigas, como a da leitura e estudo dos livros sagrados, com o objetivo de controlar a consciência das pessoas.

A Constituição Dogmática, Unigénitus, emitida polo papa Clemente XI (1700-1721) condenou como erros em 1713 várias teses do sacerdote e teólogo jansenista  Pascasio Quesnel (1634-1718), defensor das correntes conciliaristas, ou seja, da superioridade do concílio sobre o papa, e galicanas, ou seja, a autonomia das igrejas locais face à igreja romana. No aspeto dogmático e moral as suas teses amostram parentesco com as doutrinas protestantes. Entre as proposições condenadas figuram as seguintes:

“-  É útil e necessário sempre, em todo lugar e para toda classe de pessoas, estudar e conhecer o espírito, a piedade, e os mistérios das Sagradas Escrituras.

            –  A leitura da Sagrada Escritura é para todos.

            – A sagrada obscuridade da Palavra de Deus não é razão para que os laicos se dispensem de lê-la.

            – O Dia do Senhor deve ser santificado polos cristãos com a leitura de obras pias e sobre todo das Sagradas Escrituras. É pernicioso para um cristão renunciar a esta leitura.

            –  É uma ilusão persuadir-se a si mesmo que o conhecimento dos mistérios da religião não devem ser comunicados às mulheres pola leitura das Sagradas Escrituras, não pola simplicidade das mulheres senão porque do vaidoso conhecimento dos homes surgiu o abuso das Escrituras e nasceram as heresias.

            –  Arrebatar das mãos dos cristãos o Novo Testamento, ou mantê-lo fechado contra eles sacando-lhe os meios de entendê-lo, é para cerrar para eles a boca de Cristo.

            –  Proibir-lhe aos cristãos ler a Sagrada Escritura, especialmente o Evangelho, é para proibir o uso da luz aos filhos da luz, e para fazer-lhe sofrer uma espécie de excomunhão1.

Podemos comprovar que este texto é uma justificação das limitações e impedimentos impostos pola Igreja à leitura da Bíblia, por parte dos destinatários, que são todos os fiéis cristãos, e assim mesmo justifica a misoginia ao basear a proibição da leitura ás mulheres na sua simplicidade. Confirma e justifica o abuso eclesial de retirar-lhe aos cristãos o Novo Testamento, que se continuou fazendo até meados do século XX.

O papa Bento XIV (1740-1758), com data 9/07/1753, publica a constituição Sollicita ac provida na que regula o exame dos livros sagrados de cara à autorização da sua leitura e tradução. “Com uma vigilância solícita e prudente dos romanos pontífices predecessores nossos se cuidaram de afastar os féis cristãos da leitura de aqueles livros dos que os incautos e simples pudessem receber algum detrimento, e ser impregnados de opiniões e doutrinas que se opõem à integridade dos costumes ou aos dogmas da religião cristã. Pois para remitir-nos  ao antiquíssimo decreto do São Gelásio I, consideramos que ninguém ignora as cousas que foram executadas diligentemente polos nossos predecessores Pio IV, Pio V e Clemente VIII, para que recebida uma obra salubérrima polos Padres do Sínodo do Sacrossanto Tridentino, discutida sem demora, e conduzida quase ao seu fim, preparando um índice dos livros de leitura proibida e e espalhando-o, não só a terminaram e aperfeiçoaram, senão que a fortificaram também com sapientíssimos decretos e regras”2. O papa quer fazer frente às críticas que se vertiam contra os membros da congregação que decidia acerca da proibição dos livros. “Mas dado que descobrimos e exploramos que muitas proscrições dos livros, sobre tudo dos que os autores são católicos, se abduzem alguma vez para repreensão em querelas públicas e injustas, como se se trata-se aquela cousa temerária e superficialmente nos nossos tribunais, pensamos que vale a pena, propor por esta constituição, de valor perpétuo, certas e firmes regras de acordo com as quais se realize depois o exame e juízo dos livros; ainda que pode afirmar-se abertamente, que isto mesmo depois de longo tempo se fez constantemente por essa ou uma razão equivalente3.

Em plena eclosão do iluminismo, o O papa Pio VI (1775-1799) promulgou a Constitução Autorem Fidei no 1794, no período álgido da Revolução Francesa, na que ratifica a condena contra Pascasio Quesnel: “A doutrina de que «só a verdadeira impossibilidade» escusa da leitura das Sagradas Escrituras, e de que por si mesmo se delata o obscurecimento que do descuido deste preceito caiu sobre as verdades primárias da religião, é falsa, temerária, perturbadora da tranquilidade das almas, condenada noutro lugar do Quesnel4. Portanto, ainda que um possa ler as Escrituras, não passa nada se não o faz e não se produziu nenhum obscurecimento das verdades religiosas da desídia da leitura da Bíblia. A conclusão lógica é que Deus perdeu o tempo em inspirar uns livros que são totalmente prescindíveis.

 

Século XIX: incrementa-se a repressão contra a leitura e tradução da Bíblia

 

O século XIX vai estar dominado, no eido filosófico, polas correntes idealistas de tendência fortemente racionalista, que vão ser substituídas pola filosofia ateia marxista, a irracionalista e ateia de Nietzsche, a evolucionista de Darwim e Wallace, e a psicanalítica e ateia de Sigmund Freud. Surge também um movimento filosófico difuso que se conhece com o nome de modernismo, que vai atirar sobre si as condenas da Igreja. No eido religioso, vai surgir um movimento crítico de interpretação das Sagradas Escrituras, criam-se as sociedades bíblicas para a difusão das Sagradas Escrituras que vai concitar também sobre si as iras do Papado, que se opõe frontalmente a que a Bíblia esteja a disposição de todo o mundo, e surgem toda uma série de autores muito críticos com os dogmas eclesiásticos.

Pio VII (1800-1823), na Carta Magno e acerbo, ao arcebispo de Mohilev, o 3/09/1816, declara: “De grande e amarga dor consumimo-nos, quando soubemos o pernicioso desígnio, não faz muito tomado, de divulgar correntemente em qualquer língua vernácula os livros sacratíssimos da Bíblia, com interpretações novas e publicadas à margem das salubérrimas regras da Igreja, e essas astutamente torcidas em sentidos depravados5. O papa amostra um tom apocalíptico para tentar não perder o controlo da Bíblia e, portanto, das consciências. Se “os Sagrados Livros se permitem correntemente e em língua vulgar e sem discernimento, disso ha resultar mais dano que utilidade. Ora bem, a Igreja Romana que admite só a edição Vulgata, por prescrição bem notória do Concilio Tridentino, rejeita as versões das outras línguas e só permite aquelas que se publicam com anotações oportunamente tomadas dos escritos dos Padres e doutores católicos, a fim de que tão grande tesouro não esteja aberto às corruptelas das novidades e para que a Igreja, difundida por todo o orbe, seja «dum só lábio e das mesmas palavras» (Ge. 11. 1)6. Como vemos, o que pretende a Igreja católica é impor obsessivamente o pensamento e discurso únicos sob a sua reitoria. Alude a um suposto dano, mas sem precisar qual é, ao tempo que impõe o que sempre foi a obsessão da Igreja, o pensamento e discurso únicos, que se pretende impor não só aos católicos senão a toda a sociedade. “Em verdade, como na linguagem vernácula advertimos frequentíssimas vicissitudes, variedades e câmbios, não há dúvida que com a imoderada licença das versões se destruiria aquela imutabilidade que se refere com os testemunhos divinos, e a mesma fé vacilaria, sobre todo quando alguma vez se conhece a verdade dum dogma por razão duma só sílaba7. A interpretação da realidade por parte da instituição eclesial é frontalmente oposta à heraclitiano-nietzschiana, que concebe a realidade como radicalmente mutável e cambiante, conceição que sintoniza muito bem com o que nos diz a física dos nossos dias a respeito do constante movimento das partículas. A Igreja, como herdeira do idealismo platônico creia um mundo imutável de ideias abstratas para reger a nossa realidade, que fica reduzida a uma sombra imperfeita das ideias. Este argumento que aduz o Papa implicaria que tampouco os diferentes clérigos, muitas vezes ignorantes, poderiam pregar porque distorceriam essa unidade. Em última instância, somente poderia pregar o papa e em latim e os demais nem sequer deveriam pensar senão executar mecanicamente o que disser o Papa. “Ora bem, se nos doemos que homes muito conspícuos pola sua piedade e sabedoria falharam não raras vezes na interpretação das Escrituras, que não é de temer se estas são entregadas para ser livremente lidas, traduzidas a qualquer língua vulgar, em mãos do vulgo ignorante, que as mais das vezes não julga com discernimento algum senão levado de certa temeridade?8. Se homes muito formados falharam várias vezes na interpretação da Bíblia, quem nos garante que não falhem os hierarcas nomeados a dedo polo Papa e incluso o mesmo pontífice interpretem bem as Escrituras, que muitas  vezes o fazem em contra do critério de mui insignes professores que lecionam aulas desta matéria? Pio VII, para ratificar a validez da sua doutrina, recorre aos documentos repressivos da leitura dos seus antecessores. “São muito conhecidas as constituições não somente de Inocência III, que se acaba de mencionar, senão também de Pio IV, de Clemente VIII, e de Bento XIV nas que se alertava que, de estar a todos patente e ao descoberto a Escritura, quiçá se envileceria e estaria exposta ao desprezo ou, por ser mal entendida polos medíocres, induzisse a erro. Em fim, qual seja a mente da Igreja a respeito da leitura e interpretação da Escritura, a tua fraternidade encontrá-lo-á muito claramente na muito célebre constituição Unigenitus, de outro predecessor nosso, Clemente XI, na que expressamente se reprovam de maneira explícita aquelas doutrinas nas que se afirma que é útil e necessário em todo momento, em todo lugar e a toda classe de pessoas conhecer os mistérios da Sagrada Escritura da que se afirma que a leitura é para todo o mundo e que é nocivo apartar dela o povo cristão, que é incluso cerrar aos fiéis a boca de Cristo o quitar-lhe das mãos o Novo Testamento”9.

O papa Leão XII (1823-1829) promulgou o 5/05/1824, oito meses depois de ser nomeado papa,  a encíclica Ubi Primun, dirigida, como grande parte delas, a todos os patriarcas, primados, arcebispos e bispos, na que condena as sociedades bíblicas, surgidas, em 1804, com a fundação da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira (SBBE) em Londres, a esta altura em rápida expansão, que se propunham como objetivo a divulgação e conhecimento da Bíblia. Esta encíclica vai ser o prelúdio de documentos apocalípticos e integristas como as encíclicas de Gregório XVI, Mirari vos e Quanta cura, e o Sylhabus Errorum de Pio XII.

Opõe-se ao livre exame da Bíblia não só a nível individual, senão também grupal. “Certa seita, que leva em si uma espécie branda de piedade e liberalidade professa um tolerantismo (assim o chamam) ou indiferentismo e alça-se não só nas cousas civis, do que não tratamos, senão também no âmbito da religião, ensinando que foi feita por Deus uma ampla liberdade para cada qual, de modo que o que lle tiver convido a cada seita segundo o seu juízo ou opinião, pode abraçá-la e adotá-la cada um sem perigo da salvação (Contra isto aduz-se Rom. 16, 17ss)10.

Não se arreda o Pontífice de criticar mesmo a proliferação de livros religiosos que considera hostis à própria religião, o qual indica que está perdendo claramente o controlo da opinião pública. “… A iniquidade dos nossos inimigos chega a tanto que, afora o aluvião de livros perniciosos por si mesma hostil à religião, esforçam-se em traduzir em detrimento da religião as Sagradas Escrituras que nos foram dadas divinamente para edificação da mesma religião. Tendes observado uma sociedade, comummente chamada sociedade bíblica, espalhando-se ousadamente em todo o mundo. Rejeitando a tradição dos Santos Padres e infringindo o bem conhecido decreto do Concilio de Trento, trabalha com todos os meios para ter traduzida toda a Bíblia, ou melhor mal traduzida, às línguas ordinárias de cada nação. Há boas razões para temer que (como aconteceu nalgum dos seus comentários e noutros aspetos pola interpretação distorcida do evangelho de Cristo) produzirá um evangelho dos homes, ou o que é pior, um evangelho do demo!

            Para previr este dano, os nossos predecessores publicaram muitas constituições. Mais recentemente Pio VII escreveu duas cartas, uma a Ignácio, arcebispo de Gniezno, a outra a Estanislao, arcebispo de Mohileu, citando cuidadosamente e sabiamente muitas passagens dos sagrados escritos e da tradição para mostrar como é pernicioso para a fé e costumes este desprezível empreendimento.

            Em virtude do nosso dever apostólico, nós também exortamos procurar por todos os meios guardar a tua manada destes terríveis lugares de pastagem. Argui, rogai, instai oportuna e importunamente com toda paciência e doutrina (2 Tim. 4, 2)  para que os vossos fiéis aderidos com exatidão às regras da Congregação do nosso Índice, se persuadam que se se permite que a Sagrada Bíblia se traduz indiscriminadamente à língua vulgar causar-se-á por isso por culpa da precipitação humana mais mal que bem11. Como os comentários os fazem os homes, são estes quem, segundo o papa, creiam também o evangelho do demo. Creio que está mui claro o que expressa o Papa. Destaquemos o costume eclesial de tratar os seres humanos como rebanho ou manada de animais. Fixemo-nos também que se pretende justificar por textos bíblicos que não se devem traduzir os livros sagrados.

O 24/05/1829, o papa Pio VIII promulgou a encíclica Traditi Humilitati, dirigida a patriarcas, primados, arcebispos e bispos, na que delineia o programa para o seu papado, e nele ocupa um lugar importante a proibição de publicar bíblias sem autorização e as novas interpretações, muito mais racionais, das Sagradas Escrituras, mas isto opõe-se frontalmente ao monopólico interpretativo da Igreja, que significa dos hierarcas vaticanistas, que reagem como uma instituição atacada e de ai a sua obsessão em defendê-lo compulsivamente em contra de toda sensatez. A partir de Trento a Igreja católica obriga a acompanhar as traduções com comentários dos Padres, concebidos como uma elite monolítica no seu pensamento, em realidade inexistente. “Nós devemos ser desconfiados desses que publicam a Bíblia com novas interpretações contrárias às leis da Igreja. Eles distorcem habilmente o sentido com as sua própria interpretação. Imprimem a Bíblia na língua vernácula e, absorvendo um gasto incrível, oferecem-nas grátis inclusive aos não educados. Ademais, as Bíblias estão raramente sem perversas inserções breves para segurar que o leitor assimile o veneno letal em vez da auga redentora da salvação. Faz tempo a Sede Apostólica admoestou sobre este sério perigo para a fé e amostrou a lista destes perigosos conceitos. As regras do Índice foram publicadas polo Concilio de Trento; o decreto requereu que a tradução da Bíblia às línguas vernáculas não seriam permitidas sem a aprovação da Sê Apostólica e ademais exigiu que fossem publicadas com os comentários dos Padres. O Sagrado Sínodo de Trento decretou, para reprimir as personagens impudentes, que ninguém, confiando na sua própria prudência em matérias de fé e de conduta que se relaciona com a doutrina cristã, possa retorcer a Sagradas Escrituras à sua própria opinião, ou a uma opinião contrária à da Igreja ou os papas. Ainda que tales maquinações contra a fé católica foram atacadas muito depois por estas proscrições canônicas, os nossos predecessores recentes fizeram um esforço especial para censurar estes estendidos perigos. Com estas armas vós tendes também que combater as batalhas do Senhor que põem em perigo as ensinanças sagradas, para que este vírus mortal não se estenda á vossa manada”12.  Ou seja, que um não pode seguir a sua própria opinião, o qual representa a negação da liberdade de pensamento e expressão. O colmo do dislate! Além de impedir um direito humano fundamental como é o de poder traduzir e ler o que um considera conveniente, sem interferências alheias, o Papa não se arreda de formular qualificativos de grosso calibre contra os discrepantes. Insiste na incapacidade alheia para interpretar a Bíblia, oferecendo como saída a adesão á interpretação dos vaticanistas.

O papa, Gregorio XVI (1831-1846), publica o 8/05/1844, a encíclica Inter paecipuas, na que condena as sociedades bíblicas. Nela começa informando das supostas intrigas ou maquinações que sempre vêem os papas por todas partes, e a elas opõem a sua suposta sensatez e ponderação, para, a seguir, condenar as sociedades bíblicas por dedicar-se a traduzir e espalhar as Sagradas Escrituras:

1. Entre as intrigas especiais com as que os não-católicos maquinam contra os aderentes da verdade católica para desviar as suas mentes da fé, são proeminentes as sociedades bíblicas. Foram estabelecidas por primeira vez em Inglaterra e divulgaram-se e estenderam-se tanto que agora nós vemo-las como um exército em marcha, conspirando para publicar em grande número de cópias os livros da Escritura divina. Estas são traduzidas a todas classes de línguas vernáculas sem discriminação entre cristãos e infiéis. Por conseguinte, as sociedades bíblicas convidam a todos a lê-las sem guia. Assim é exatamente como Jerome se lamentava no seu dia: eles fizeram a arte de incompreensão das Escrituras «comum a velhas linguareiras, velhos loucos e sofistas loquazes», e para todos os que podem ler, sem interessar o seu status. Em verdade, o que é inclusive mais absurdo, e quase sem precedentes, não excluem a gente vulgar dos infiéis de compartir esta classe de conhecimento13. Como vemos, não se trata só de que não se impulsasse a leitura da Bíblia, senão que houve uma teimosa campanha organizada desde a  Igreja para que não se lesse. Estabelece também o Papa nesta Encíclica a defesa da hierarquia lingüística, e a discriminação em direitos dos seres humanos em função da classe social e a formação, destacando especialmente a animadversão papal com a gente chamada «vulgar». Considera o Pontífice que a tradução da Bíblia não pode ser igual para os crentes e os infiéis, os mais e os menos formados, e a solução para estes últimos não é que façam caminho ao andar, senão que não andem.

Especialmente condenável para o papa é que se leiam as bíblias em reuniões secretas porque, deste modo, escapam ao controlo eclesial, a leitura por parte dos hereges e as feitas em reuniões da laicos e mulheres. Como vão poder aceder estas ao conhecimento da Bíblia! “4. Ademais, a respeito da tradução da Bíblia à língua vernácula, inclusive muitas centúrias antes os bispos em vários lugares a vezes exerceram a maior vigilância quando devieram conhecedores de que tais traduções estavam sendo lidas em reuniões secretas ou eram distribuídas a hereges. Inocêncio III emitiu admoestações a respeito das reuniões de laicos e mulheres, sob o pretexto de piedade, para a leitura da Escritura na diocese de Metz. Havia também uma proibição especial de traduções da Escritura tanto na Gália um pouco mais tarde como na Espanha antes de 150014. A seguir, trai a colação o Papa a acentuação da campanha quando os luteranos e calvinistas começaram a difundir a Bíblia nas línguas vernáculas e a proibição sob Pio IV, no Concilio de Trento “no que nas normas escritas polos pais escolhidos polo Concilio de Trento, aprovadas por Pio IV, e colocadas no Índice de livros proibidos, lemos o decreto declarando que as bíblias vernáculas estão proibidas salvo as de aqueles dos que se julgou que a leitura contribuiria «ao incremento da fé e piedade15. Estas normas foram limitadas e suplementadas por Bento XIV: “Para o futuro, as únicas traduções vernáculas que podem ser lidas são aquelas que «foram aprovadas pola Sê Apostólica» ou polo menos foram publicadas com anotações tomadas dos Santos Padres da Igreja, ou dos autores instruídos e católicos16. O papa volve condenar de novo as sociedades bíblicas: “Nós de novo condenamos todas as sociedades bíblicas acima mencionadas que os nossos predecessores desaprovaram. Além disso, confirmamos e renovamos pola nossa autoridade apostólica as proposições registadas e publicadas antigamente a respeito da publicação, difusão, leitura e possessão de traduções vernáculas das Sagradas Escrituras17. “Em particular, vigiai cuidadosamente sobre aqueles aos que se lhe assignou fazer leituras públicas da Santa Escritura, de tal modo que atuem diligentemente no seu ofício dentro da compreensão da audiência; baixo nenhum pretexto seja qual for ousarão explicar e interpretar os divinos escritos contrariamente á tradição dos Padres ou a interpretação da Igreja Católica18.

O papa Pio IX(1846-1878), quiçá o papa mais anti todo da história, na encíclica Qui pluribus, arremete contra as sociedades bíblicas, contra a leitura da Bíblia principalmente por parte dos não formados e contra o livre exame: “Este é o objetivo das astutas sociedades bíblicas, que renovam a velha habilidade dos hereges e incessantemente impõem à gente de todas classes, inclusive os não formados, ofertas da Bíblia. Publicam estas em grande número e com grande custo, em traduções vernáculas, o que infringe as santas regras da Igreja. Os comentários que se incluem contêm frequentemente explicações perversas; assim, tendo rejeitado a tradição divina, a doutrina dos Padres e a autoridade da Igreja Católica, eles todos interpretam as palavras do Senhor consoante ao seu juízo privado, pervertendo o seu sentido. Como resultado, caem em grandes erros. Gregório XVI, de feliz memória, o nosso último predecessor, seguiu a guia dos seus próprios predecessores ao rejeitar estas sociedades nas suas letras apostólicas. É a nossa vontade condená-las igualmente19.

Na Alocução Quibus quantisque, de 20/04/1849, num momento de perda do poder temporal da Igreja, o papa Pio IX ataca as doutrinas perversas que semeiam os inimigos da Igreja interpretando a Bíblia segundo o seu juízo próprio e criminal, pervertendo com interpretações desviadas o seu sentido autêntico, que seria o da Igreja : “E para chegar mais facilmente aos fins que se propõem, para excitar mais sedições e desencadear mais tempestades, marchando sobre o passo dos hereges, e anunciando o desprezo mais absoluto pola autoridade soberana da Igreja, não temem invocar, interpretar, perverter e desviar do seu sentido verdadeiro as palavras, testemunhos e declarações das santas Escrituras, para aplicá-las ao seu sentido privado e criminal, e, em exercício da sua impiedade, não retrocedem ante o abuso sacrílego do muito santo nome de Jesus Cristo20. Em dezembro deste mesmo ano, 1949, volve a empreendê-la contra as sociedades bíblicas. “Os astutos inimigos da Igreja e sociedade humana, intentam seduzir as gentes de diversas maneiras. Um dos seus principais métodos é o abuso das novas técnicas de produção de livros. Estão totalmente absorvidos na incessante e diária publicação e proliferação de panfletos ímpios, jornais e folhetos que estão cheios de mentiras, calunias e sedução. Ademais, sob a proteção das Sociedades Bíblicas que foram desde faz muito tempo condenadas por esta Santa Sê, distribuem ao fiel sob pretexto de religião, a santa Bíblia em traduções vernáculas. Desde essa altura estes infringem as normas da Igreja, são consequentemente subvertidas e muito ousadamente retorcidas para  consentir um sentido vil21.

No Silabo,  de 8/12/1864, compêndio de oito encabeçados sobre erros atuais, que afeta a todas as ordens; no IV encabeçado, condena o “Socialismo, comunismo, sociedades secretas, sociedades bíblicas, sociedades clérico-liberais”. Estas pestilentes doutrinas foram muitas vezes condenadas e com as mais graves palavras na carta Encíclica Qui pluribus, de 9/12/1846; na alocução Quis quantisque, de 20/04/1849; na carta Encíclica Nostis et Nobiscum; de 8/12/1849; na alocução Singulari quadam, de 9/12/1854; na carta Encíclica Quanto conficiamur moerore, de 10/08/186322.

 

Notas

  1. Denzinger, 1429-1435.

  2. BENEDICTUS XI, – Sollicita ac Provida [1753-07-09], www.documentacatholicaomnia.eu/…/z_1753-07-09__SS_Bened…

  3. BENEDICTUS XI, – Sollicita ac Provida [1753-07-09], § 2, www.documentacatholicaomnia.eu/…/z_1753-07-09__SS_Bened…

  4. Denzinger, 1567.

  5. Denzinger, 1602.

  6. Denzinger, 1603.

  7. Denzinger, 1604.

  8. Denzinger, 1604.

  9. Denzinger, 1606.

  10. Denzinger, 2720, http://catho.org/9.php?d=byf (3 of 11)2006-08-16 22:34:50

  11. LEÃÓ XII, Ubi Primum, Papal Encyclicals Online www.papalencyclicals.net/Leo12/l12ubipr.htm?. Cf. Denzinger, 1607-1608.

  12. Pio VIII, Traditi humilitati, Papal Encyclicals Online www.papalencyclicals.net/Pius08/p8tradit.htm?, nº. 5

  13. GREGÓRIO XVI, Inter Praecipuas, Papal Encyclicals Onlinewww.papalencyclicals.net/alh.htm, 1.

  14. GREGÓRIO XVI, Inter Praecipuas, Papal Encyclicals Onlinewww.papalencyclicals.net/alh.htm, 4.

  15. GREGÓRIO XVI, Inter Praecipuas, Papal Encyclicals Onlinewww.papalencyclicals.net/alh.htm, 4.

  16. GREGÓRIO XVI, Inter Praecipuas, Papal Encyclicals Onlinewww.papalencyclicals.net/alh.htm, 4.

  17. GREGÓRIO XVI, Inter Praecipuas, Papal Encyclicals Onlinewww.papalencyclicals.net/alh.htm, 11.

  18. GREGÓRIO XVI, Inter Praecipuas, Papal Encyclicals Onlinewww.papalencyclicals.net/alh.htm, 12.

  19. Pio IX, Qui pluribus, Papal Encyclicals Onlinewww.papalencyclicals.net/alh.htm,14.

  20. Pio IX, Alocução Quibus Quantisque,, www.virgo-maria.org/…/1849-04-20_SS_PIUS_IX,,

  21. Pio IX, Nostis e Nobiscum, Papal Encyclicals Onlinewww.papalencyclicals.net/alh.htm, 14.

  22. Denzinger, 1718.

 

Ramom Varela Punhal

Ramom Varela Punhal

Nascido em Carvalho em 1942. Estudoi Teologia na Universidade Pontifícia de Salamanca, e Liturgia no Instituto Superior de Pastoral, em Madrid; Filosofia na Universidade de Pamplona e Filosofia, Psicologia e Organização do Trabalho na Universidade de Lovaina, Bélgica. Doutor em Filosofia pela Universidade de Santiago. Catedrático de Filosofia reformado.
Ramom Varela Punhal

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