É possível umha política binormativista na Galiza?



 

Convívio de normas ou “binormativismo”?

Na AGAL há tempo que olhamos com muito interesse para outros países da Europa ocidental onde, como na Galiza, convivem diferentes normas para umha mesma língua histórica. Esta situaçom é muito mais comum do que as pessoas pensam, e até poderíamos dizer que é quase inevitável nos territórios onde se fala umha variedade minorizada ou menos potente de umha língua histórica que ao mesmo tempo é a oficial no estado vizinho.

Dentro deste quadro geral, o mais comum é darem-se duas circunstâncias diferentes:

  1. O convívio de normas sem paridade legal. É o nosso caso ou o da Alsácia francesa. Na Galiza, umha norma local da língua galego-portuguesa é a oficial, sendo a norma internacional, por sua vez, considerada língua estrangeira polas instituições. Porém, dentro do convívio de normas sem paridade legal, o mais comum costuma ser o contrário: a norma local é só usada a nível literário ou familiar, em convívio com a norma considerada culta, que é a que conta com verdadeiro reconhecimento no próprio território e também é a oficial no Estado vizinho. Seria o caso do alsaciano, umha variedade alemânica mais ou menos interferida polo francês falada no território em que estám sediadas as instituições europeias de Estrasburgo. Para que se entenda aqui, seria como se na Galiza a norma ensinada fosse a do português “padrão” e a norma do galego oficial só se usasse no âmbito familiar e no literário.
  2. O binormativismo. Dá-se quando as duas normas, a local e a convergente com o Estado vizinho, som oficiais. Seria o caso, por exemplo, do norueguês, do que havemos de falar a seguir e que é o modelo que mais nos inspira para ser tido em conta entre nós.

Binormativismo

O binormativismo é a coexistência, em paridade legal, de dous modelos gráficos para representar umha mesma língua: um modelo mais local e outro compartilhado com o estado vizinho. Os usos correspondentes a ambos os modelos nom têm de ser simétricos, mas é importante que ambos contem com reconhecimento legal.

Esta proposta define umha política linguística destinada a aproveitar em favor de toda a populaçom as diferentes posturas que existem em relaçom à codificaçom de umha língua, porque todas têm vantagens. Ela já é aplicada em países muito avançados em termos de desenvolvimento humano, como o Luxemburgo, onde a forma local, umha  variedade frâncica da língua histórica germânica que também se fala dentro do estado alemám, partilha oficialidade com o alemám standard desde 1986. Temos também a Noruega, leitmotiv deste Festagal, onde tanto a forma bokmål  do norueguês, mais próxima do dinamarquês, como a nynorsk, mais afastada, som ensinadas nas escolas. A bokmål seria, no contexto galego, um português galeguizado. A nynorsk, construída a partir dos dialetos falados, seria o galego “oficial”.

Um modelo parecido permitiria aos galegos e galegas usarem, para a língua escrita, o português “padrão” (com as suas variantes) ou o galego “oficial” atual, segundo qual fosse a sua conveniência.

Converter as fraquezas em fortalezas

Nom há mal que por bem nom venha. O “binormativismo” seria umha forma original de resolver o que parecia um conflito irredutível, tornando-o até benéfico para o galego e para todas as pessoas. No fundo, nom é mais do que umha proposta para a colaboraçom de ambas as posturas normativas (a autonomista e a reintegracionista), salientando o que de melhor têm ambas.

As vantagens da opçom autonomista (a que assenta na ortografia castelhana) estám situadas no plano da forte indentificaçom dos galegos com esta, produto de umha história literária de dous séculos e do grande esforço feito polos seus autores e autoras por levar à escrita as falas galegas vivas.

As vantagens da opçom reintegracionista (a que assenta na ortografia portuguesa) estám situadas noutro plano: o da projeçom comunicativa. Põe o acento na língua como ferramenta de trabalho e de comunicaçom, dando ao galego umha estabilidade formal difícil de atingir sem cooperaçom com estados soberanos. Por sua vez, valoriza a história e a geografia da língua no seu conjunto, remontando a quando a fronteira do Minho ainda nom existia e tendo em conta todos os países lusófonos.

Descartar a combinaçom de todas estas fortalezas para o futuro é, polo menos, arriscado. Nom temos a certeza de quais serám as prioridades dos utentes daqui a uns anos e seria interessante prepararmos a língua para todas as eventualidades. Dito por outras palavras: derrotar umha fortaleza é derrotar umha oportunidade.

Fácil de implementar

Como na Noruega, nas escolas galegas seria bem fácil de estender o conhecimento, ao lado do galego comum, do galego internacional ou português. Se fosse aproveitada como é devido, a Lei Paz Andrade, aprovada por unanimidade no Parlamento galego em 2014, seria umha ferramenta excelente para o conseguir. A seguir, bastariam pequenas reformas legislativas para que ambas as normas contassem com algum grau de cooficialidade.

Ao contrário do Luxemburgo e de forma mais acentuada que no caso noruguês, na Galiza a intercompreensom é plena entre os utentes das duas normas, o que ainda torna mais fáceis as cousas na hora de implementar umha política binormativista. Bastaria que os cidadãos conhecessem as duas normas de forma passiva para que depois cada pessoa ou cada Administraçom decidisse fazer uso ativo daquela que entendesse mais conveniente, em todos os casos ou segundo o contexto. Na prática, as instituições assegurariam o conhecimento passivo de ambas as normas, mas nom interfeririam nas preferências das pessoas para usarem umha ou outra. No caso das Administrações públicas (concelhos, deputações, etc.), em caso de dúvida, poderia priorizar-se a norma local, a única oficial no momento atual, mas a mais débil do ponto de vista comunicativo.

Quem ganha com a proposta binormativista?

Com umha política binormativista só se ganha, seja qual for a nossa posiçom linguística inicial. O primeiro ganhador é o próprio galego, que passaria a ter duas normas complementares que se reforçariam mutuamente de forma a ganharem estabilidade formal em relaçom ao espanhol. Ganhariam, portanto, todas as pessoas partidárias da normalizaçom linguística, que ainda que fossem utentes de umha ou outra, por conhecerem as duas, teriam oportunidade de reforçar o seu léxico e estruturas num sentido ou noutro. Além disso, trabalhariam num clima de maior colaboraçom, ficando alheias à conflituosidade que costuma acompanhar as “guerras” normativas. Mas nom só a língua e as partidárias e partidários do galego teriam algo a ganhar; também todas as pessoas, mesmo as mais reticentes à normalizaçom, poderiam aproximar-se do galego do ponto de vista mais motivador para elas: quer por motivos estritamente culturais quer por motivos económicos ou laborais. É provável que a nova situaçom vinhesse a ser vista como umha oportunidade pessoal e laboral polas pessoas que na atualidade som mais reticentes à normalizaçom linguística.

 

 

 

Texto publicado no FestAGAL 2018.

Eduardo S. Maragoto

Eduardo S. Maragoto

(Barqueiro, Galiza, 1976) Estudou Filologia Portuguesa em Santiago de Compostela, cidade onde participou no sindicalismo estudantil e na fundaçom do Movimento de Defesa da Língua (MDL) através da Assembleia Reintegracionista Bonaval. Entre 2001 e 2006 trabalhou na Escola Oficial de Idiomas (EOI) de Valência, onde participou na constituição de Veu Pròpria (associaçom de novos e novas falantes de catalám) e da plataforma Nunca Mais. Na atualidade trabalha como professor de português na EOI de Compostela. Desde 2006 até 2010 pertenceu ao conselho de redaçom do jornal Novas da Galiza, jornal onde coordenou os trabalhos de correçom e a secçom de Além Minho. Também pertence à Gentalha do Pichel e à AGAL, associaçom que preside na atualidade. É autor do livro Como Ser Reintegracionista sem que a Familia Saiba e co-autor do Manual Galego de Língua e Estilo e dos documentários Entre Línguas, Em Companhia da Morte e A Fronteira Será Escrita.
Eduardo S. Maragoto

 


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  • Ernesto V. Souza

    O verdadeiro problema, hoje, não é de norma… O galego, como língua social desapareceu. Fomos derrotados. Todos. Todos os grupos. Esta ideia, as sementes, a imprensa, os livros, chegam tarde.

    O que empreguemos nos nossos clubes e nas reservas os velhos ou os teimosos activistas e irrelevante, um culturalismo.

    Nesta situação, compre pensar noutras coordenadas. Na de reservas locais, espaços de minoria e produtos para consumo interno de grupo.

    O galego como língua social da Galiza acabou-se. Fica como ideia, como símbolo identitário, capaz talvez de servir como aglutinante simbólico em espaços, clubes, nos que abrolhe uma ideia política da Galiza.

    • Ernesto V. Souza

      O curioso, penso eu, é que em dois séculos passamos de ter uma elite cultural galeguista que escrevia castelhano e pretendia conectar com uma massa social maiormente analfabeta e galego falante… A hoje, em que os descendentes direitos ou intelectuais dessa mesma minoria cultural, maciçamente galego falantes e escreventes, continuam a tratar de conectar com a população, já alfabétiada pelo Estado em castelhano e de menos em menos falante dos seus diversos dialectos…

      A questão está talvez no papel das elites económicas e políticas dominantes, profundamente desligadas da cultural intelectual e fazendo para próprio medrar o jogo ao estado… Por meio a gente do comum, que cansa de ser piões de uns e outros vai ao seu e passa de tudo…

  • Mário J. Herrero Valeiro

    Política, não. Convívio, talvez. De facto, já o fazemos todos os dias. O importante é o escrito polo Ernesto. O demais são formas de disfarçar mal a derrota.

    • Ernesto V. Souza

      Isso e a proverbial generosidade do reintegracionismo, capaz de enxergar, com tudo, algum futuro comum e único espaço independente que esta a fazer os deveres, convertendo-se já no motor e guiero… E abrindo as portas que tantos fecharam e fecham.

    • abanhos

      Debate velho
      Na lista yahoo da Agal entre os anos 2002 e 2007 houve muito de interesse sobre o tema
      https://br.groups.yahoo.com/neo/groups/agal/search/messages?p=Binormativismo+

      Além de que o modelo de língua regional imposto polo estado foi uma operação do franquismo e epigonos ( vide V. Vaqueiro e Nicolás Xamardo, Da Identidade à Norma, ed. laiovento). O que sim é certo, é que não se pode negar a realidade, e logicamente o reintegracionismo respeitamos e sempre o figemos todas as opções escritas, porém o respeito das pessoas não é aceitar como normal e projeto de futuro fazendo um reconhecimento ‘institucional’, e isso sem se produzir esse reconhecimento das instituições para nós e nossas opções. Pois isso enfraquece o nosso projeto e legitima a operação- cheia de sucesso- ( e que também retrata Ernesto) do regionalismo tardo franquista.

  • luiz

    não esqueçam não haverá derrota enquanto existir Portugal e uma comunidade soberanista na Galiza. Temos ambas cousaa.

    uma comunidade quer ” recuperar-se “quando se vê de fora de si própria.
    isto estuda-se nas teorias da descolonizaçao. só as pessoas já colonizadas ( educadas pola elite e cultura dos poderosos) e que podem olhar-se desde fora e querer construir um outro roteiro diferente ao desenhado pela elite colonial. não é questão de fé, mas de esperança..

    já agora o galego oficial n tem 2 seculos, tem 60 anos.
    isso é um erro muito grave do texto manifesto.

    muita da produçao escrita antes da guerra usa formas do português G,J Ç etc….

    nos temos “esperança e o nosso povo terá futuro connosco e as nossas posiçoes….
    o manifesto de lugo de 1918 foi assinado por… 64 pessoas
    Ânimo malta!

  • Venâncio

    Caro Eduardo,

    Li atentamente esta tua proposta, como leio sempre atentamente tudo o que propões. E talvez te admire o que vou dizer, mas sou inteiramente sincero: não percebo aonde queres chegar. Explicarei porquê.

    É de todo indiscernível o que concretamente propões. Umas vezes parece que se trata da coexistência de duas Normas no sentido mais abrangente (duas morfologias, duas sintaxes, dois léxicos, duas pragmáticas, duas ortografias e, não esquecer, duas semânticas). E outras vezes torna-se claro que a única tolerância visada é de ordem… ortográfica. Com efeito, defines as duas opções com «a que assenta na ortografia castelhana» e «a que assenta na ortografia portuguesa».

    O cúmulo da ambiguidade da tua posição atinge-se quando propões que os galegos usassem, como alternativa (na escrita) à proposta-RAG, «o português “padrão” (com as suas variantes)».

    Esta última proposta implica o renegar da Norma AGAL como opção para os galegos, em favor das “variantes” do português-padrão. Mas significaria, também, que os galegos, que desde há séculos se exprimem numa sintaxe praticamente coincidente com a do português europeu (nada de estranho, pois nós herdámo-la do galego), poderiam passar a exprimir-se alternativamente (mas porquê?) numa sintaxe brasileira.

    *

    Facto é que o próprio problema ortográfico tem implicações em que, suponho, nunca atentaste. Vê a seguinte série de substantivos. A lista é bastante maior, mas estes chegarão.

    aristocracia, asfixia, bigamia, demogogia, diplomacia, epidemia, etnia, euforia, fobia, histeria, heterodoxia, leucemia, maquinaria, periferia, tecnocracia, terapia

    Já percebeste. Todos estas palavras, e muitas mais, são em galego tonicamente acentuadas como em espanhol, enquanto o português as acentua todas no i final. Como proceder em ambiente de aula?

    Dou mais um exemplo. Agora é a série (em si muito mais longa)

    alivio, anuncio, cambio, contrario, divorcio, incendio, premio, principio, silencio // angustia, copia, denuncia, evidencia, influencia, pronuncia, renuncia

    Todas estas palavras são em galego, tal como em espanhol, um sunstantivo + uma forma verbal. Em português são só forma verbal, sendo o substantivo acentuado na sílaba anterior. Exemplificando: alívio, câmbio, prémio [bras. prêmio], influência, pronúncia, etc. Como proceder em ambiente de aula?

    Os casos de divergência ortográfica e prosódica são estes e muitos mais, igualmente complexos. Entretanto, não existe nenhuma proposta pedagógica para resolvê-los.

    *

    A minha proposta para responder à tua “vantagem comunicativa” foi, e é, outra. Uma de teor lexical. Trata-se de estimular nos usos galegos aqueles materiais coincidentes com o português.

    A minha proposta, que foi pública, não obteve nenhum eco em qualquer círculo galego. Eis a razão por que não a desenvolvi. Mas mantenho a convicção de que ela conseguiria aproximar de tal modo galego e português, que daria frutos imediatos.

    Um abraço.

    • Venâncio

      Mas ele existe, Eduardo, outra questão ainda mais fundamental. Esta: para quê toda essa ingente operação de introdução na Galiza duma nova norma, a portuguesa, que já será a terceira, depois da galega e da castelhana? Tudo isso para quê? Ah, porque procurais comunicar connosco…

      Mas, Santo Deus. Para isso, todos aqueles de vós que quiserdes comunicar connosco ides aprender português. É óptimo, até para o desenvolvimento pessoal. Assim comunicaremos por escrito sem intermediários. E até publicais os vossos contos, os vossos poemas, os vossos ensaios, e eles serão difundidos nos países de língua portuguesa. Para um galego, para qualquer galego, é facílimo aprender a escrever e a ler português. Avante com o ensino do português na Galiza!

      Porque aprender a falar português… um galego nem precisa de fazê-lo. Da Urtigueira a Faro, entendemo-nos sem a menor dificuldade e, onde ela surgisse, seríamos capazes de desfazer qualquer mal-entendido.

      Não, não há necessidade de introduzir na vida social da Galiza essa terceira norma linguística, quando duas vos causam já tanta dificuldade. Sim, já tendes tantos problemas com manter uma diglossia. Quantos não ireis acumular com uma triglossia?

      • Eduardo Maragoto

        Para definir bem o debate, seria interessante distinguir entre o “conhecimento passivo” que poderiam promover as instituições de ambas as normas e o “uso ativo” das mesmas por parte de pessoas e entidades. Em relaçom ao primeiro poderá discutir-se que norma do português vai ser dada a conhecer nas escolas (português padrão como língua estrangeira parece o mais razoável em princípio, desenvolvendo a Lei Paz Andrade) mas, quanto ao segundo, na minha opiniom as instituições poderiam admitir como possíveis os diferentes usos do português da Galiza (incluídos os que até há pouco prescrevia a Norma da AGAL, recolhidos agora na Ortografia Galega Moderna).

    • Eduardo Maragoto

      Olá Fernando,

      Obrigado polo interesse! Na minha opiniom, este debate deve conduzir-nos, nom exatamente aonde o reintegracionismo queira chegar, mas aonde o conjunto da sociedade galega queira chegar. O reintegracionismo nom deve dedicar muito tempo àquelas propostas que nom conseguem ultrapassar os estreitos limites do seu movimento. Quer dizer, eu poderei ter a minha ideia, e outras pessoas outras, mas todas elas serám irrelevantes se nom forem aceites polo conjunto da sociedade galega. A plasmaçom da proposta binormativista, se for considerada interessante, deve portanto ser consensual entre TODAS as pessoas interessadas no futuro do galego, primordialmente, e entre os galegos no seu conjunto. Quer dizer, a concreçom que pedes pode ser útil para as pessoas visualizarem o resultado de umha proposta assim, mas será inútil se fai intuir que é umha proposta fechada. Seja como for, neste vídeo tento concretizar o máximo possível:

      https://www.youtube.com/watch?v=TCyPgV0O8fo&t=17s

      Quanto à pedagogia, com todas as cautelas, já que, insisto, nom me parece o momento de concretizar, podo dizer-che que nom me pareceria praticável que ambos os modelos normativos partilhassem ambiente de aulas: deveriam lecionar-se em aulas separadas, galego e português. Sei que isto pode causar receios entre muitos reintegracionistas que nom desejam renunciar ao nome galego para o seu modelo normativo, mas penso que o contrário nos levaria a umha eterna guerra de legitimidades.

      Em relaçom à Norma AGAL, a minha opiniom está neste vídeo:

      https://www.youtube.com/watch?v=5ClffbG2I7s&t=13s

      Um abraço

      • Venâncio

        Caro Eduardo,

        Muito agradeço a circunstanciada resposta aos meus comentários. Já também conhecia o segundo vídeo.

        Fazes muito bem em “dar a cara”. Com isso, aceitas ser responsabilizado por aquilo que afirmas e pelo como como o afirmas. Eis a melhor atitude de quem, como tu, aceitou um período de destacado serviço numa organização da sociedade civil.

        Quero deixar isso claro. Terei de fazer algumas reservas ao que acima afirmas, mas não esqueço esse teu procedimento exemplar.

        Dizes no primeiro vídeo que “É necessário explicar bem estas propostas para que sejam entendidas”. Eu não podia estar mais de acordo. Mas acontece que o meu ponto principal foi exactamente a imprecisão e mesmo a ambiguidade do teu texto de partida, acima. Elas repetem-se nos teus vídeos.

        No primeiro falas, de novo, e claramente, em duas opções gráficas. Tudo indica, pois, que, ao falares de “normativas” estás a falar de ortografias. O mesmo acontece no segundo vídeo. Quando dás exemplos de diferenças entre o “português-padrão” e a Norma Agal, esses exemplos são de ortografia e de algumas “desinências verbais”, quando, mesmo em matéria de formas verbais, essas questão vai mais bem longe que as desinências.

        Eu compreendo que tu queiras convencer as pessoas de que um binormativismo não é propriamente complicado. Dizes que não há pressa. Dizes que “as questões técnicas são muito fáceis de resolver”.

        Mas, ó Eduardo, vós viveis já hoje numa situação de bilinguismo altamente desequilibrado, com uma norma RAG socialmente precária, e agora vens dizer às pessoas que poderão optar ainda por mais uma norma, a AGAL, e por mais uma, o “português-padrão”, que ponho entre aspas porque ele só existe nas vossas cabeças, já que o português tem pelo menos dois padrões fortes, o brasileiro e o europeu. A vossa proposta deixou de ser séria.

        Meu caro amigo: vós não tendes quem vos guie, não tendes entre vós um linguista (repito-o, repito-o sempre), alguém que sabe como os idiomas funcionam. Vós, está prefeitamente provado, não no sabeis. E por isso nunca conseguireis nada que tenha consistência e futuro.

        Um abraço amigo.

        • Eduardo Maragoto

          Caro Fernando,

          penso que tens um erro de perspetiva quando exiges ao reintegracionismo cousas que ele nom pode oferecer. Nós nom podemos, nem queremos, armar-nos em gramáticos… Simplesmente seguimos o modelo gráfico e morfológico (e em diferentes graus também o gramatical, lexical…) do português para reforçar o galego, mas para isso nom é preciso ser-se gramático nem estar orientados por gramáticos (se assim fosse, a nossa proposta estaria dirigida a minorias estudiosas do idioma). Como muito, os linguistas poderám escrever umhas normas ortográficas iniciais (por isso falamos de opções gráficas), mas a partir daí pouco mais que poda interessar ao desenvolvimento da comunidade linguística que, segundo crês, assistem.

          Ao reintegracionismo, basta-lhe apagar a fronteira mental (gerada principalmente pola ortografia) que temos com o português e comunicar abertamente com o mundo lusófono. Mas a língua já está feita. Nom precisa de gramáticos que a prescrevam, senom de professores que a ensinem. Se tu pertences ao tipo de linguistas que ainda acreditam que som os linguistas a construir a língua em todas as dimensões de que falas (para além da ortográfica), acho que é normal que o reintegracionismo te desiluda. Em definitivo, falamos de cousas diferentes. Nós de política linguística, de língua em geral… tu de gramática, de acentos, de grupos cultos, de prosódia, de sintaxe. Do que tu falas é das questões técnicas que eu quero deixar para o futuro e que nom gostaria que nos entretivessem até lá chegarmos.

          • Eduardo Maragoto

            Isso nom quer dizer que eu nom goste de falar dessas cousas nos meus tempos livres: adoro falar de grupos cultos, da acentuaçom dos helenismos, do léxico que deveria ser promovido, da história da norma da AGAL, mas nom é começando por esses pormenores que vamos resolver o tema que nos ocupa na Galiza (já agora, quando vinheres à Galiza, nom deveria faltar um ou dous cafés para conversarmos toda a tarde dessas teimas). Ora, voltando à proposta binormativista, na Galiza há dous modelos gráficos (que nom som apenas gráficos, isso já se sabe, só que a ortografia arrasta os outros: gramática, léxico); som esses que têm que acabar por conviver: o modelo português e o modelo independente/castelhano. As normas som formas populares de chamar a esses modelos (Norma da AGAL, português padrão, AO), já que som o seu ponto de partida, mas som o menos importante aqui. Na Galiza, poucas pessoas sabem que escrevem segundo as normas ortográficas que recolhe o NOMIGA, mas toda a gente sabe que usa, mais ou menos, a ortografia do espanhol e nom a do português.

          • Venâncio

            Eduardo,

            Os linguistas não constroem a língua… Descrevem-na, e mostram como ela funciona.

            E, para um linguista, são nítidos, na tua visão do “binormativismo”, duas falhas graves.

            1. Não há um uso coerente nos conceitos que manejas, confundindo continuamente “norma” e “ortografia”, ou falando da ortografia como se de algo essencial se tratasse,

            2. Pareces não te dares conta das implicações linguísticas das tuas próprias propostas no real contexto do idioma galego hoje.

            Nada que me estranhe. Foi sempre patente, na AGAL, um défice de conhecimentos técnicos da língua. Sois, e fostes sempre, um clube de activistas. O vosso entusiasmo com o idioma só tem paralelo na deficiência no conhecimento do funcionamento dele.

            Sim, dá dó ver um projecto com o alcance e a exigência desse “binormativismo” assentar em tão precárias bases. E continua claro, pelo que dizes, que é o activismo que vos move.

            Repara: eu guio carro, mas não tenho qualquer noção do funcionamento dele. Qualquer explicação que receba, ela supera a minha compreensão. Não sou, pois, a pessoa indicada para dar sugestões de eficiência nessa matéria. Sou um activista da mobilidade. 😉

            Como linguista, sou, pois, sensível à leviandade do teu discurso. Manejas conceitos, mas não sabes como eles se articulam, em vista duma maior eficiência.

            Dito um bocado à bruta: de ortografia percebes tu, acredito que de pedagogia também, mas de como o idioma funciona tens ainda muito que aprender. A tua concreta proposta de “binormativismo” põe isso impiedosamente em evidência.

          • Venâncio

            E repara que eu valorizo, em si mesma, essa proposta do “binormativismo”. Considero-a linguisticamente impraticável, mas ela mostra da parte da AGAL uma abertura que desde os tempos de Bernardo Penabade não se via.

          • Eduardo Maragoto

            Fernando, está claro que nem sequer pretendemos conduzir o mesmo carro. Tu manejas um brinquedo e nós um carro a sério. Tu entretés-te com os amigos a falar de grupos cultos, nós fazemos propostas abrangentes ao conjunto da sociedade galega. É outra liga, com todo o carinho.

          • Venâncio

            Não, Eduardo. O que a AGAL não tem é pessoas que, além de se interessarem pelos grupos cultos, tenham noção daquilo que, em matéria de idioma, é alcançável e daquilo que não é. E vós claramente não tendes essas pessoas. E, se as tendes, estão muito caladas.

            Podereis ser enérgicos e abnegados, e eu sei que sois, mas falais do idioma sem saberdes de que falais. E é muito triste ver-vos lançados numa carreira, e a investir nela esforços, quando é, já à partida, absolutamente claro que isso não conduzirá a nada, por mais que lhes chames “propostas abrangentes ao conjunto da sociedade galega”. São propostas de mesa de café, amigo. Nada mais do que isso.

            Acredita. Se eu vos quisesse mal, deixava-vos nos vossos sonhos destrambelhados. Como vês, não é o que eu faço.

  • Ernesto V. Souza

    Acho que nunca foi mais necessário este discurso do Eduardo e da AGAL. Reunir os restos, juntar e se possível liderar os sobreviventes. Insisto. O cenário é nestes momentos outro: O galego está deixando de existir como língua oral, como língua social.

    É um facto. Irreversível nestes momentos com a realidade social, educativa e institucional. Uma realidade perceptível e dolorosa nos ouvidos… nem nas cidades, nem nas vilas, nem no agro… não existe mais o galego, fora dos velhos e dos patriotas.

    Constantino Garcia, linguista, estabeleceu (e seguindo ele o ILG até hoje) num discurso que a esquerda nacional tomou também – por outras causas como axiomas – que norma do Galego tinha que ser fiel a fala do povo. Porque ele o preservara por cinco séculos e que o galego existiria e perduraria – na sua predição para sempre – enquanto a vontade do povo o conservasse e se mantivesse fiel.

    vid. 8:45… em diante

    https://youtu.be/1rht1jv42Hw

    O provir… Em 2019 podemos assegurar – com tristura imensa – que o povo não se mantém fiel ou não tem essa vontade de o manter.

    Sem termos uma língua social, fixar uma norma, dispor de uma ortografia comum carece de sentido. Não vai passar de modelo teórico que não reflete nem se ajusta a realidade: Uma língua de velhos que se extingue com eles e uma língua simbólica referencial das instituições e aqueles usos internos nos espaços dos clubes de ativistas. Isso é já o galego.

    E para que uma norma comum. Para qual sociedade? quem a demanda? cada grupo de utentes tem o que precisa e as instituições também. Cada espaço ativista estabeleceu um repertório identificador, como marca de grupo e barreira. É dar um olho em revistas académicas, culturais e de divulgação… ortografia, léxico, items… são marcos e marcas de grupos fechados.

    O cenário é muito diferente do que era nos 80 e nos 90.

    Neste podemos fazer três cousas:

    – perder o tempo acusando uns e outros e procurando culpáveis

    – perder o tempo tratando de convencer as instituições, os velhos, os ativistas e os grupos para estabelecer uma norma comum

    – esforçar-se em reunir os restos do naufrágio e ver que se pode fazer com eles

    Eu acho que a AGAL hoje entendeu que o único que pode fazer-se é o que está a fazer. Tratar de reunir os restos e os sobreviventes do naufrágio arredor de algum lume, sem condições e ver de pô-los em andamento… mas já numa situação de gaelização, de reservas e minorias… o demais importa pouco, nada ou menos…

  • Paulo Gamalho

    Gostei muito do artigo. Parabéns, Eduardo! De facto, estava a preparar um texto muito semelhante. Vou tentar rescrever para fazer um anexo ao teu 😉

  • Ricard Gil

    O galego é muito parecido com o português. De facto se a Galiza fizesse parte de Portugal as duas línguas teriam o mesmo nome .

    Tore Janson no livro Lingo

  • Ricard Gil

    Chamavam-lhe linguagem, que significava simplesmente ‘não latim’. Mas, se a língua de Afonso Henriques algum nome pudesse ter tido, era só este: galego.

    Fernando Venâncio Originalidades da língua portuguesa

    • Venâncio

      Caro Ricardo,

      Uma coisa que nunca entendi, e provavelmente nunca entenderei, no discurso reintegracionista é essa ausência de lembrança aos compatriotas de que, sem a Galiza, sem o empenho de séculos de galegos num idioma, nunca Portugal teria o idioma que tem. Sim, eu estou a exprimir-me na minha variedade de Galego.

      Venho-o lembrando também a portugueses: Ainda que Portugal nunca tivesse existido, esta língua existiria. Isto repugna à ultra-identidade de que os portugueses sofrem, mas é a pura verdade. E o que certos galegos andam a fazer é confirmar os portugueses na sua mitologia.

      Não, o Português não é (ao contrário da infeliz afirmação de Rodrigues Lapa, há 45 anos) aquilo em que o Galego se tornaria se lho tivessem deixado. O Português é um galego descorado (toda a linguística portuguesa usa o termo “desgaleguização”) e que em toda a sua existência, mas sobretudo de 1450 a 1730, se castelhanizou. Vós falais, e com razão, na actual influência do Castelhano sobre o a língua da Galiza, mas não vos passa pela cabeça quanto “castelhano” entrou e ficou para sempre no Português.

      Além disso, hoje “o Português” são dois. O Português Brasileiro e o Português Europeu afastam-se a cada dia que passa, tanto no léxico diário e técnico, como na morfologia e na sintaxe. Portugal (muito diferentemente da Espanha) nunca teve uma política linguística exterior ao seu território. Por isso não existem traduções “luso-brasileiras” nem de literatura nem de instruções para a máquina-de-lavar.

      Tudo isto são realidades do Português sobre as quais aqui no PGL nunca se fala nada, nem vejo reintegracionistas falarem nelas. Para mim, é imensamente frustrante ver como o Reintegracionsmo galego instaurou, e alimenta, temas tabu.

      Fica bem.

      • Venâncio

        O meu artigo “O passado galego do português”, que conheces, teve já milhares de leituras de portugueses, e também muitas de brasileiros e de galegos, inclusive reintegracionistas.

        https://www.facebook.com/notes/fernando-ven%C3%A2ncio/o-passado-galego-do-portugu%C3%AAs/912226775493082/

        • Ernesto V. Souza

          Mas todo esse discurso e exemplos necessários para a construção ou para as bases de um modelo estruturado melhorado não é do que falamos aqui. Uma e outra vez, Fernando: Nós, não estamos a falar nisso.

          Se estivéssemos teríamos que lhe dar em boa medida a razão e aproveitaríamos extraordinariamente os seus conselhos e trabalhos. Mas é que não andamos nisso.

          E não andamos, porque nestes momentos temos outras prioridades, outros objetivos (sarar a ferida no galeguismo causada pelo apartheid institucional isolacionista e pelo nacionalismo espanhol fraguiano, e por tanto os nossos mais valiosos recursos estão metidos nisso e em formar uma massa crítica no espaço reintegracionista) e também porque ninguém está a trabalhar continuada e dentro de uma equipa nisso que o senhor gostaria…

          Lamento. Mas não podemos, não temos energia, nem capacidades, nem dinheiros, nem poder. Carecemos de objetivos, de espaço de ação e de competência.

          Porque um projeto desse teor apenas seria possível num marco institucional, potente (com recursos humanos, económicos e poder político) e reconhecido e valorizado, não dentro da minoria ridícula do galeguismo e na minúscula do reintegracionismo, senão entendido como necessário pela gente e pelo povo.

          Por outra banda o discurso sobre o nome da língua também não é o tema. Se fosse não poderíamos tentar explicar nem com lógica nem com linguística, senão com documentos e cronologia.

          No tempo em que por vez primeira houve necessidade de nomear o romance como a língua do Reino o importante era a identidade com o Rei e com o Reino. Por isso o seu nome
          foi Português.

          No tempo em que por primeira vez houve necessidade de nomear a língua do povo o importante era a identidade com
          os cidadãos e com a nação reivindicada. Por isso aparece, na altura, como nome da língua Galego, substituindo o significado anterior de língua dos galegos (dos rústicos, dos galegos rústicos como ainda aparece na joia linguística que é a aurora do projeto restaurador nacional e a tentativa de escrever conscientemente e dentro do discurso da era das nações a língua dos galegos como Galego (diferenciada por primeira vez e autónoma de castelhano e português): “O Coloquio dos 24 gallegos rústicos” (1746)).

          https://academia.gal/destaque-libro/-/asset_publisher/Dm2F/content/coloquio-de-24-gallegos-rusticos-1746?redirect=http%253A%252F%252Fwww.realacademiagalega.org%252Fdestaque-libro%253Fp_p_id%253D101_INSTANCE_Dm2F%2526p_p_lifecycle%253D0%2526p_p_state%253Dnormal%2526p_p_mode%253Dview%2526p_p_col_id%253Dcolumn-1%2526p_p_col_pos%253D1%2526p_p_col_count%253D2

  • Ricard Gil

    Eu nom acho nada de errado falarmos à brasileira ou à portuguesa desde que saibamos galego.
    E HÁ MUITO galego(é por galego falo naturalmente em português Ou em sistema linguístico galaico–portugues) na norma Rag é muito na norma Agal e por isso infelizmente não calhou no povo porque ele tem não sei bem um ódio a qualquer norma que se aproxime do português Ou que invente mas aos seus ouvidos não seja espanhol .
    Vou colocar um caso problemático das formas verbais e uso de pronomes .
    Um espanhol falará sem dúvida :
    Llevadlo(cast)
    Um brasileiro falará:
    Levem ele
    Ou ainda
    Levem -no
    Um português:
    Levai-no ou levem-no
    Mas e um galego ?? Pois tem todas estas possibilidades:
    Levádeo( norma Rag)
    Levai-no (variante popular)
    Levai-o ( variante portuguesa)
    Levem ele (variante brasileira popular)
    Levem -no (v bras culta)

    Admito tudo como galego ???