O português como apoio no mercado das traduções



Acho que não estou a dizer uma tolice, mas um facto provado nas últimas décadas, que o galego, de seu, não tem a capacidade de traduzir todas as obras da literatura mundial. Se já carecemos de obras básicas da literatura universal, isto faz-se óbvio quando falamos de obras de atualidade. Os best sellers são consumidos pelo público galego em espanhol. Autores como Dan Brown, Ken Follett ou Jonas Jonasson, autores reconhecidos mundialmente, não são traduzidos à nossa língua ou, quando traduzidos, não têm as vias de distribuição da sua versão em espanhol: agora mesmo acabo de olhar na Internet e acabo de descobrir que O Código Da Vinci tem uma versão em galego ILG/RAG, um livro que não encontrei em nenhuma livraria em outra versão que não fosse a espanhola.

Não é incompetência dos nossos tradutores. De facto, nossos tradutores fazem esforços colossais para pôr o nosso idioma no mundo. Mas continuam a ser poucos em número. A isto se suma uma preocupante falta de mercado e produtores que, como vemos, dificulta a distribuição das obras, até o ponto de não conhecermos nem que existem. A realidade é esta: o galego precisa de um outro idioma para conhecer o mundo.

A solução maioritária para o público galego, por desgraça, é recorrer ao espanhol. Isto é um dos maiores perigos que existem para a nossa língua, pois cria a consciência de que o galego precisa do espanhol para poder interagir com o mundo. Esta classe de mentalidade e o que leva a muitos galego-falantes a não usar o idioma em âmbitos de prestígio, ou diante de estrangeiros, pois consideram que o espanhol é uma língua mais “internacional”, “universal” e “útil” do que o galego. É uma atitude que há que mudar quanto antes na sociedade, pois poderia levar rapidamente, não ao abandono do galego, mas à sua dialetalização absoluta, a retroceder dois séculos na luta por conquistar novos âmbitos, espaços e prestígio.

Outra solução poderia ser usar diretamente o inglês. Mas, tendo em conta o auge do inglês na Europa, e no mundo em geral, é perigoso. Poderia levar-nos facilmente a um novo tipo de colonialismo. Moreno Cabrera já advertia que é um perigo que os falantes de línguas minorizadas na Europa têm de aprender três línguas, só para poder levar uma “vida normal”. Um galego-falante tem de aprender espanhol e inglês só na escola, e depois não vai poder prescindir de nenhum dos três, ainda que seja nos currículos. Com certeza, se alguém tiver conhecimentos avançados de inglês podería usar esta vantagem para chegar à obra em original (se é uma obra anglógrafa, obviamente), mas o uso de três línguas na vida diária é algo que devemos reduzir, não ampliar. A sociedade, nesta classe de casos, costuma reduzir, e já sabemos qual é a parte débil a ser eliminada.

Desde a minha opinião, a solução é clara: o português. Com uma série de dicas que não chegam a ocupar uma página (ler “nh” como “ñ”, ler “lh” como “ll”, etc.), as únicas diferenças estão no léxico, que hoje em dia pode ser olhado num dicionário. É possível que há cinquenta anos alguém pudera dizer que não gostava do português porque “havia palavras que não entendia”, mas hoje em dia com o Priberam e o Estraviz solucionamos quase o 90% das dúvidas.

Por isso, já resulta ofensivo que a quase totalidade dos galegos, mesmo nacionalistas (inclusive independentistas) leiam Il nome della rosa, ou Fall of Giants em castelhano por “não haver tradução ao nosso idioma”. Se perceberem o português como uma variedade do nosso idioma, com certeza encontrariam uma outra tradução, numa língua muito mais semelhante. Que alguns, por desconhecimento ou simplesmente por seguir a norma, leiam a Saramago, Eça de Queiroz ou a Fernando Pessoa em espanhol, sabendo galego e ainda assim sem saber que poderia aceder ao original facilmente, é um crime, mas desgraçadamente social, não deve ser atribuído ao indivíduo, mas à falta de informação geral neste aspeto.

Agora, traduzir, ou melhor dito, “traduzir”, ao “galego”, obras em “português”, é uma das maiores perdas de tempo e recursos que se viram nunca. O ato faz mais mal do que bem, pois ao ver a obra traduzida, o galego meio pensa que já é um facto que o português é uma língua, já não só diferente, mas tão difícil, que é preferível comprar a tradução no lugar de lê-la em original. É uma tolice.

Pois está foi a minha reação quando vi, numa livraria da Corunha, uma versão “traduzida” a galego da obra Budapeste de Chico Buarque. O insulto foi enorme. Na livraria nem tinham versão em espanhol. O título já revela a intenção: aparentemente, “Budapeste” é um topónimo tão difícil de entender que o tradutor, num ato de genialidade, decidiu usar o topónimo em espanhol, “Budapest”, só por se havia dúvidas.

Tenho de dizer que esta poderia ser um material de base ótimo para uma recensão: olhar, com a obra original na outra mão, o que chamam de “tradução” no mundo editorial galego. A saber o que se passava pela cabeça do “tradutor”, do comité executivo da editorial, e de Deus-sabe-quem, para que todos eles decidiram que este é o momento propício para traduzir as últimas atualidades do romance brasileiro ao galego, e que os recursos dedicados à sua impressão não mereciam ir a outros âmbitos. Que digo eu, acaso não há romances publicados nos últimos cinco anos em francês, russo, chinês, árabe ou tailandês que mereceram, justificadamente, uma tradução?

Queridos editores galegos, se vocês quiserem aproximar o público galego do romance português, brasileiro e dos PALOP, não “traduzam”. No seu lugar, contratarem um camião, que vaia a qualquer livraria do norte de Portugal e que traça os mesmos livros em versão original, seria ótimo. De seguro mais barato que “traduzir” e imprimir cá uma versão sem “nhs” ou “lhs”.

O nosso idioma continua a ter dificuldades nesta banda do Minho. Continuamos baixo o risco de voltar a ser um dialeto do espanhol (esta vez, muito mais hibridizado mesmo que no passado), os nossos recursos são escassos e as nossas possibilidades, poucas.

O português é um aliado, não o inimigo a bater.

Alberto Paz Félix

Alberto Paz Félix

Alberto Paz Félix (Corunha, 1997) é estudante de Galego-Português na Universidade da Corunha (UDC). Criou-se na Costa da Morte, mas ao mudar a Corunha mudou de idioma ao castelhano, que falou durante parte da sua vida, recuperou o galego e a continuação começou a escrevê-lo na sua grafia internacional. Tenta conhecer cada vez mais de cultura portuguesa, brasileira e da África lusófona.
Alberto Paz Félix

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  • Venâncio

    Caro Alberto,

    O senhor informa-nos de que “O Código Da Vinci” está editado em tradução galega. Eu tenho gosto em informá-lo de que o mesmo livro existe em tradução portuguesa e, com um mercado bem mais extenso, em tradução brasileira.

    Este é também o caso de todos os outros romances de Dan Brown, de todos os outros romances de língua inglesa, de todos os outros romances de qualquer língua. Eles todos aparecem em tradução e edição feitas em Portugal e em tradução e edição feitas no Brasil.

    Se de facto, entre português e galego, a questão fosse, como o senhor diz, questão de LH e NH e de léxico, não se compreende como é que Brasil e Portugal têm duas indústrias de tradução como se a outra não existisse. É porque, mesmo entre essas duas normas da mesma língua, existe todo um mundo de gramática, de semântica, de fraseologia, de pragmática, ah, e de léxico também.

    Compreenda-me bem. Eu gostaria de que os galegos lessem muita lieratura em português, seja em que edição for. Mas é, parece-me, um tanto leviano reduzir as diferenças entre galego e português a uma questão de LH e NL e algum léxico.

    Não, o galego é, no nosso idioma, uma variedade mais marcada ainda do que sejam a brasileira e a portuguesa europeia.

    E só lembro que, sintacticamente, o português europeu está mais próximo do galego que do brasileiro. 😉

    • Venâncio

      P.S.

      A sua mensagem implícita (ou nem tanto) é a de que as edições em galego de literatura estrangeira são completamente dispensáveis.

      Claro que um mercado tão relativamente pequeno não pode absorver tantas obras como outros mercados maiores. E, por exemplo em matéria de ensaio, um utente brasileiro tem mais à sua disposição do que o utente português.

      Mas o que não compreendo é ver um galego a apelar para se dispensarem traduções para galego. Como se elas não tivessem a vantagem de estarem mais perto do utente galego e da língua que se deseja para ele.

      • Alberto Paz Félix

        Olá, Venâncio.

        Em primeiro lugar, obrigado pela atenção e por dedicares o teu tempo a comentar duma maneira construtiva o meu artigo.

        Em segundo lugar, quero desculpar-me, já que obviamente não se entendeu o significado do meu artigo. Se alguém tem de ser culpado por isto, sou eu. Tive de escrever o artigo em pouco tempo e talvez a brevidade levou a má interpretações.

        Quero, portanto, nesta resposta, responder e aclarar os teus comentários duma maneira estruturada:

        1) Não estou a dizer que não faça falta uma indústria independente de traduções ao galego. O título do artigo é “O português como apoio no mercado das traduções”, não “A inutilidade do galego para o mercado das traduções”. Isto quer dizer, não estou a dizer que traduzir à norma galega seja um delito, mas estou a dizer um facto que acho que qualquer galego já sabe: não temos agentes, mercado, recursos e tempo para traduzirmos à nossa variedade muitas obras básicas da literatura universal. Quando chegamos a determinados campos, como obras especializadas ou best sellers, isto já é um abismo. A minha recomendação, neste caso, foi dizer que, tendo uma tradução ao espanhol e uma tradução ao português lado a lado, o leitor galego deveria de ser consciencializado de que a versão portuguesa, com algumas diferenças, será muito mais próxima à sua língua que a versão espanhola.

        2) Sou consciente de que a diferença entre português de Portugal e português da Galiza/galego não é só “lh” e “nh”, ou léxico. É verdade que há variações na morfologia e noutros campos. Mas, hoje em dia, com Internet, o 99% destas diferenças podem procurar-se. Há cinquenta anos, um galego podia precisar de dicionários e gramáticas para entender ao 100% um texto em português. Mas, hoje em dia, há conjugadores em-linha, há dicionários (desde os mais formais até o Dicionário Informal brasileiro, que até oferece informação de termos coloquiais). Se hoje em dia um galego não é capaz de compreender na sua totalidade um texto em português, é porque não quer. Por isso, acho um absurdo “traduzir” (as aspas são irônicas, já que a melhor palavra seria “adaptar”) ao galego um romance em língua portuguesa, podendo aceder ao original sem quase trabalho. Se eu entender que a única diferença entre galego e português fosse a ortografia, nesse caso não teria recomendado realizar estudos sobre estas “traduções” para observar o que se está a fazer exatamente. A minha experiência, de ouvir reclamações devido às legendas da série “Morangos sem açúcar” na TVG e outros textos em português legendados ou “traduzidos” ao galego, mostram-me que quando um tradutor galego “traduze” a uma autor português, a sua tendência é castelhanizar o texto, mesmo quando o elemento a traduzir é comum nas duas línguas/variedades: um exemplo, foi quando na série já mencionada, um usuário de Twitter denunciou que quando o diálogo dizia:
        “-É português? -É”
        A legenda diz:
        “É portugués? -Si”
        Ao final, quando um tradutor tenta “traduzir” do português ao galego, o que costuma ser a norma é afastar o máximo possível o nosso idioma do português, mesmo chegando a eliminar traços próprios em favor de características do castelhano, como o exemplo já exposto.

        3) Sei que há traduções que se fazem por separado em Portugal e no Brasil. Compreendo que isto é para fazer mais cômoda a leitura do texto. Só posso responder dizendo que isto é ótimo! Oxalá nos tivéssemos a mesma sorte na Galiza, um mercado dinâmico que permitisse a tradução quase imediata de qualquer texto, literário ou especializado, à nossa fala! Mesmo em normativa ILG/RAG, tanto tem! Mas o problema é que não é assim. Temos défices. Apesar dos enormes trabalhos realizados, o número de tradutores é baixo, as editoriais são poucas, e os recursos que elas têm é também pequeno. Eu só afirmei que a melhor maneira de preencher esses défices era usar a língua portuguesa. É bastante singelo, acho. Não somos os únicos que o fazemos: seguramente o Inglês americano e o Inglês britânico têm capacidade para ser competitivos no mercado das traduções, mas não acho o mesmo de outras variedades mais pequenas de inglês, sobretudo as locadas na África. Traduzir a “Inglês do Sudão” pode ser competitivo nalguns âmbitos, mas não acredito que as obras especializadas nas universidades sudanesas utilizem outra variedade senão o Inglês britânico/americano para os textos especializados. Quando não temos a capacidade para ser Atlas, é bom apoiar-se nas variedades/línguas do seu mesmo sistema linguístico.

        4) Se bem a indústria de traduções brasileira e portuguesa atuam por separado, não estou eu tão seguro que elas se traduzam mutuamente, como o caso explicado com o romance “Budapeste”. Com certeza, algumas obras com demasiados termos coloquiais precisam de adaptação, mas não acho que este seja o caso com este romance. Eu, no meu caso, tenho o romance editado pela Editorial D. Quixote, em Portugal. Não há apontamentos de que nenhum “tradutor” tenha adaptado o texto para o mercado português. De facto, só ao abrir uma página ao azar encontrei: “Eu lhe levaria um campanhe, se encontrasse o garçom” (Pág. 86). Não semelha um léxico muito português… e como já disse, foi editada em Portugal. Um leitor português foi capaz de ler o anterior, procurar “garçom” e “campanhe” no dicionário, e não bateu no chão ao encontrar um pronome anteposto ao verbo. Por que não pode um galego?

        Portanto, explicados os meus pontos, acho que a minha mensagem não é uma crítica aos tradutores galegos, nem a dizer que abandonemos a tradução em galego. Estou a dizer que a nossa indústria de tradução não tem a capacidade para que o público galego possa “viver” em galego, isto é, sem recorrer ao espanhol cada vez que quer ler o último livro do autor estadounidense X, ou quando precisa do analista alemão Z, que tem uma obra precisa para um trabalho de sócio-linguística.

        Espero ter aclarado as tuas dúvidas.

        Cumprimentos.

        • Venâncio

          Caro Alberto,

          Muito obrigado pelos teus esclarecimentos. Assim ficou-me muito mais nítido o teu exacto ponto de vista.

          Deixa-me pegar por uma ponta do teu comentário. Dizes que certas traduções para o galego insistem em léxico coincidente com o espanhol. Acredito. Mas é exactamente o mesmo que se dá em traduções, ou adaptações ;-), de livros galegos para português. Como mostrei há anos, num artigo na revista Viceversa, de Vigo, todo o léxico próprio do galego aparece traduzido em léxico que o português condivide com o espanhol… Um fenómeno curioso, não é?

          Dizes que actualmente dispomos de meios técnicos que permitem compreender num texto aquilo que não nos é claro. Assim é. Mas imaginas-te a ler um romance sentado ao ar livre, na praia, no campo, num parque… e procurar o significado duma palavra? Mesmo que estejas cercadinho de wi-fi, vês-te a ir consultar um dicionário? Uma vez ou outra fá-lo-ias. Mas tu queres antes de mais uma leitura descontraída, não é? Por isso pegaste num romance.

          Talvez gostasses de ler o meu texto, no Velho PGL, “O galego pasteurizado”, acerca da edição portuguesa dum romance do Carlos Quiroga. Espero que consigas encontrá-lo.

          Um abraço.

        • Nicolau

          Sobre Morangos com Açúcar, eu também constatei a “qualidade das legendas”:

          Pt: “Quem foi o engraçado?” / legenda: “Quen foi o desgrazado?”

          Pt: “Onde pouso isto?” / legenda: “Onde poño isto?”

          Pt: “Divertiram-se?” / legenda: “Divertídesvos”? (em presente)

          E assi por diante.

          Ainda, eu aprendim na escola que “morango” era palavra galega e que devia substituir o castelhanismo, ainda hoje comum, “fresa”. Mas um bom dia, no galego standard oficialista o morango transformou-se em amorodo (palavra também galega para designar a mesma fruta). Se procurarem “morango” no dicionário da RAG na internet, verám que aparece riscada (si: um dicionário onde aparecem palavras riscadas). Também desaparecêrom do galego standard as ESPINAFRES que o Popeye da TVG comia e o sumo (çume) de ANANÁS que o Magnum bebia. Curioso…

  • Ernesto V. Souza

    A mim pessoalmente o que me parece que mais condiciona a duplicidade de traduções brasileiras e portuguesas não é a existência de duas normas. Inclino-me mais a pensar que a existência de duas normas vem condicionada por uma questão de existência de dous mercados, um relativamente pequeno e tradicional pensado para auto-consumo, na UE, outro maior e mais diversificado, mas também condicionado por uma ideia de produção local e não exportação e fora da UE.

    Isto, questões aduaneiras e por ser ambos os mercados (e circulação de intelectuais e académicos) fechados, diferenciados quanto a consumidores e protecionistas. Logicamente existem uns condicionantes históricos que explicam porque o mercado editorial em língua portuguesa de ambos os países é tão independente e tão autónomo… mas acho que é nas condições do mercado, nos custes, problemas e falta de objetivos pensados na importação/exportação em que radicam as causas de existirem normas, não na “norma”.

    Das traduções galegas nem vou falar… quando minimamente tragáveis são um produto de luxo e artista. Não entram na categoria comercial.

    • Venâncio

      Eu sei, Ernesto. A existência de duas normas do português foi sempre um tema menor (quando foi sequer tema…) para o Reintegracionismo. Nada a fazer.

      • Ernesto V. Souza

        Bom… sinceramente… é que eu – e não apenas eu – defendo que para os galegos essa questão deve ser tomada como um tema menor e algo contextual e atual, não definitório ou característico da língua portuguesa.

        Tanto pela conta que nos trai, como porque para nós não sendo Portugueses nem Brasileiros é um tema no que não devemos tomar partido.

        Eu pessoalmente considero que é absolutamente legítimo defender que o reintegracionismo deve – objetivamente – promover um discurso a contrário e a favor da noção do Acordo. Mas de qualquer jeito: passar do tema é muito mais beneficioso que não entrar num jogo no que não nos jogamos nada e no que temos tudo a perder.

        Saúde,

        • Luis Trigo

          Caro Ernesto,
          o fulcro não se coloca no acordo. Mesmo considerando o texto com o acordo aplicado, PB e PE são tratados autonomamente, não só no mercado da edição, mas também nas ferramentas computacionais de processamento de linguagem natural. A começar pelas diferenças lexicais (e.g. ônibus – autocarro), terminológicas (demanda – procura), semânticas (camisa (t-shirt) – camisa (de botões)), sintáticas (colocação do clítico pronominal), os utentes das diferentes normas podem compreender-se mutuamente, mas preferem´e sentem-se mais seguros com a sua própria norma – até para evitar pequenos mal entendidos que podem ficar ocultos durante bastante tempo devido a essa grande proximidade linguística. É de referir ainda que a inter-compreensão não é simétrica, porque os portugueses estão muito mais expostos à norma brasileira.
          Um abraço!

          • Ernesto V. Souza

            Imos ver se podemos nos entender…

            Eu não falo no Acordo… e menos em relação a este texto… o de mentar a bicha é em relação a resposta a Fernando.

            Eu o que digo é que essas normas, nas que tão cómodos estão uns e outros e que eu não nego, senão que observo existem e são marcantes… são um produto de uma História concreta e nomeadamente de factos comerciais e aduaneiros e também do facto de que a língua portuguesa, sendo multicontinental e pluri estatal, não fosse – até a internet – uma língua verdadeiramente internacional, como o inglês… (ou como o francês e o castelhano pensam ser).

            Existem hoje… diferenças… mas sao tantas, tão pertinentes…? não acontece no inglês que é uma língua com a vocação de estândar e de neo-latim? É a existência dessas normas algo que seja caracterizador, intrínseco da língua portuguesa ou pelo que houvesse que começar de escrevermos uma história ou uma gramática da Língua Portuguesa?

            Este é um tópico atual. Nos 70 e antes não era assim, algo tão popular, tão determinante…

            A insistência, uma e outra e outra vez venha ou não a conto, por parte de portugueses e de brasileiros (não de todos mas sim cansativa e propagandisticamente por parte de muitos) na realidade tangível e omnipresente de duas normas, obedece a um contexto presente.

            Esse contexto atual podia ter derivado numa fragmentação, e com os estados a tv se consolidar. Porém, a internet parece pedir o contrário. Quem sabe… mas se mudarem as condições e os objetivos comerciais das empresas produtoras de textos e as ideias de mercado… esta realidade de hoje poderia mudar.

            De qualquer jeito. Eu não vou comprar esse discurso das normas. Não me interessa, como galego, ressaltar esse tópico como justo o contrário: que o português é uma língua de uso internacional, que apresenta variantes geográficas, entre outras, ok… mas com isso? se a mim o que me interessa é que também pode ser usado como elemento intercomunicativo e como língua internacional, de cultura, ciência e comunicação por utentes não nativos.

          • Venâncio

            Estás inteiramente enganado, Ernesto. As duas Normas brasileira e europeia são fenómenos históricos e recuados.

            Tal como galego e português se separaram, um conservando características que o outro perdeu, ou criando separadamente características próprias… do mesmo modo aconteceu com o português brasileiro e o português europeu.

            Já por 1850 havia portugueses levianos que punham a ridículo particularidades gramaticais brasileiras. Já por essa altura, escritores brasileiros introduziam na sua escrita particularidades próprias.

            Que pena que a História da Língua seja tão pouco conhecida entre os reintegracionistas.

          • Ernesto V. Souza

            O galego e o português separaram-se… ? daquela serão duas línguas independentes hoje, já… depois de tanto tempo…

          • Venâncio

            Para mim, galego, português brasileiro e português europeu são três Normas do mesmo idioma.

            Os reintegracionistas não pensam assim, os galegos autonomistas não pensam assim. Nem uns nem outros fazem nada para mostrá-lo. Paciência.

          • Ernesto V. Souza

            Fernando… não é preciso mostrar: é algo evidente aos olhos…

            A cousa é que os galegos vivemos num reino que nos esmaga, e que quer destruir o uso público e privado da nossa variante da língua, para assim ter fechado um processo de construção nacional baseado na homogenização linguística e cultural.

            Preocupam-nos mais outras cousas. Francamente.

          • Luis Trigo

            Sim, eu compreendo que dada a lacuna de material próprio no galego-galego, nomeadamente no que concerne a material técnico-científico, se opte por material pt ou br. Aconteceu durante bastante tempo o mesmo com os portugueses a recorrer a material brasileiro. Mas curiosamente, a edição portuguesa tornou-se bastante mais auto-suficiente depois dos anos 90, isto é, depois do surgimento do AO e da internet. Ao contrário da TV, a internet é muito menos homogeneizadora – constitui mesmo uma oportunidade de publicação mais diferenciada, dando até mais espaço a regionalismos e outro tipo de especificidades.

        • Venâncio

          Caro Ernesto,

          Não se trata de os galegos “tomarem partido” entre portugueses e brasileiros. É que não existe conflito nenhum. Para brasileiros e portugueses, o facto de serem, uns e outros, utentes da normas diferentes é. desde há muito tempo, e ainda bem, questão absolutamente pacífica.

          Mas é o teu apelo ao “Acordo” o que denuncia o teu ponto de vista, que é e foi sempre o da ortografia. O Acordo de 1990 é estritamente ortográfico. Mesmo que fosse linguisticamente um bom produto (e não é), o seu alcance será sempre imensamente limitado.

          Quando brasileiros e portugueses constatam que se exprimem em diferentes Normas, eles querem dizer que são diferentes a sua gramática (morfologia e sintaxe), o seu léxico e a sua semântica, a sua fraseologia, a sua fonologia. Comparada com isto, a ortografia é pura superficialidade.

          Que o Reintegracionismo não tenha ninguém que vos inicie nas fundamentais diferenças das Normas brasileira e portuguesa, eis uma falha grave. Por isso, podeis viver e raciocinar como se elas não existissem. Como se houvesse um português uno e universalmente válido. Ele só existe nos vossos sonhos.

          Mas, pá, eu não quero acordar-vos. Corrijo: eu já não quero acordar-vos. Sois felizes assim. Continuai, pois.

          Abraço.

          • Venâncio

            [Escrevi este comentário antes de ler o do Luís Trigo, que expõe os factos com imensa clareza].

          • Ernesto V. Souza

            Contestei o Trigo… Acho que a resposta, vale para ambos.

            Acho que todos nos conhecemos sobradamente e temos confiança suficiente para entender que nesta questão não concordamos.

            Eu não nego a realidade. Agora, não acho interessante gastar tempo em estudar as diferentes normas da língua nem menos na critica técnica às ortografias e acordos. Essas realidades e questões, para os projetos galegos de restauração da língua, de conquista de espaço social e para a propaganda da ideia reintegracionismo não é pertinente. Digo, clara, aberta e explicitamente.

            Temos as ferramentas que temos. Não temos tempo – nem necessidade de produzir uma gramatica galega – quando nem temos corpus para a alimentar (pois o que temos é mais que suspeito). Temos de generar antes o corpus.

            Eu n

          • Venâncio

            Ninguém vos pede que escrevais uma gramática galega. Ela já existe. E a melhor de todas é a de Xosé Ramón Freixeiro Mato.

          • Ernesto V. Souza

            Pois, é a que eu tenho de referente…

          • Venâncio

            A sério? Podes dar-me exemplos naquilo que escreves?

          • Ernesto V. Souza

            Homem… é o galego que eu sempre tomei como referente e no que escrevo… se não é evidente…

          • Venâncio

            Então, se eu (um uma máquina…) passar à ortografia RAG o que tu escreves, obtenho galego como o concebe o Freixeiro? Ou percebi muito mal?

          • Ernesto V. Souza

            Penso, sinceramente, que (com uma minimissima adaptação de variantes morfológicas verbais e um algo de compreensão para idiotismos estilísticos) se alguém, homem, máquina ou criatura do averno apanha o que eu escrevo e coloca em Ortografia ILG-RAG (ou em qualquer outra) apareceria o galego tal e como o defendem Freixeiro e todos os da escola da Crunha na que eu me formei…

          • Ernesto V. Souza

            Passei, por comprovar, este trecho pelo Opentrad:

            Penso, sinceramente, que (cunha minimissima adaptación de variantes morfolóxicas verbais e un algo de comprensión para idiotismos estilísticos) se alguén, home, máquina ou criatura do averno colle o que eu escribo e coloca en Ortografia ILG-RAG (ou en calquera outra) aparecería o galego tal e como o defenden Freixeiro e todos os da escola da Crunha na que eu me formei..

            Uma única mudança (irrelevante): Apanha > Colle…

          • Ernesto V. Souza

            Por verificar passei também por um googletrad… a “tradução” é bem pior, mais robótica… mas em substância fica reduzida a uma escolha de palavras possíveis num mesmo campo lêxico…

            Não muda uma única estrutura, uma ordenação sintáctica… e se fizesse seria apenas por ser possível ou por não respeitar eu (assim barroco na escola de Otero Pedrayo e Ferrin) uma estrutura simplificada de parágrafos…

          • Venâncio

            Muitíssimo interessante. Isto explica por que portugueses que se confrontam pela primeira vez com um texto em galego autóctone experimentam uma surpreendente e agradável proximidade.

            [Esta experiência foi já descrita por vários portugueses, por exemplo aqueles que, entre 1997 e 2002, dialogaram com galegos no primeiro grande debate havido entre uns e outros, e que eu analisei numa comunicação num congresso de Lusitanistas, em Santiago, e 2005].

          • Ernesto V. Souza

            Essa proximidade agradável… é o único que eu defendo… o que trato de destacar… 😉

  • Nicolau

    Ola, Alberto.

    Parabéns polo artigo. Concordo 100%. E destaco este parágrafo: “A solução maioritária para o público galego, por desgraça, é recorrer ao espanhol. Isto é um dos maiores perigos que existem para a nossa língua, pois cria a consciência de que o galego precisa do espanhol para poder interagir com o mundo.”. Essa é, efetivamente, a consciência geral: o galego é um apêndice do espanhol, prescindível mesmo tal qual o apêndice cecal caso de causar problemas.

    Este grau de dependência do espanhol, por vezes, apresenta-se-nos mesmo disfarçado em forma de traduções ruins da versom castelhana em lugar da da língua original. Tenho eu algumha traduçom com buracos por onde saem artigos “la” ou sufixos “-era” e já nem falo das transparências desse disfarce por onde se pode ver a sintaxe ou o vocabulário do espanhol. Por sorte, outras traduções a galego estám bem feitas.

    Quero falar agora da proximidade a que aludem vários comentaristas neste foro. E vou-me referir ao português falado. Graças à internet, as crianças podem desfrutar de amplo material audiovisual de qualidade que oferece um interessante reforço ao galego falado, e dou fé. Mas devo insistir no termo “reforço”, que nom “substitutivo”, pois que o reforço só fai sentido se existe algo a ser reforçado. E o “galenhol” pentavocálico ou castelhano disfarçado de galego nom pode ser reforçado polo português. O galego com pronúncia genuína, si. Ponho por caso, se umha criança pequena galega aprende a pronunciar “pé” ou “terra” corretamente, a sua pronúncia há-se ver reforçada ouvindo continuamente essas palavras em português. Mais ainda tendo em conta que por outro lado ouvirá do galenhol “pê” ou “têrra”. O mesmo ocorre com “olho” ou “trabalhar” (que nom “oyo” ou “trabayar”). É triste e duro dizê-lo, mas necessitamos o português para reforçar a pronúncia do galego. A gente com pronúncia genuína galega está a desaparecer.

    Eu assito diariamente desenhos animados em PE ou PB com os filhos. E quando tropeçamos com o mesmo vídeo em inglês ou em espanhol, muitas vezes as crianças pedem-me para ouvi-lo “em galego”. E já logo procuro a versom em PE/PB, que é o que realmente me estám a solicitar. Eu nunca lhes dixem que isso que estám a ouvir fosse galego. Foi deduçom sua. É o “galego dos desenhos”, mas galego. Em que outra língua se di “vagalume”, “minhoca”, “castelo”, “joaninha”, “lua”, etc.?

    Minha conclusom caseira, por chegar a ela na casa ouvindo diariamente PE e PB: se juntarmos a gramática do PE com a pronúncia do PB (ao menos a mais standard) obtemos… o galego. Ou algo mui mui mui próximo. Que aconteceu aí? Somos o elo perdido?