‘Portugal em Contexto’ – Crónica

Jornadas 16 a 19 de Outubro UdC



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Do dia 16 ao 19 de outubro sucederam na Corunha as palestras de “Portugal em contexto”, que tiveram lugar no centro Normal da Universidade Da Corunha (UDC).

Estas palestras tinham como objetivo promover o nosso país vizinho e tentar, mais uma vez, superar esse estranho muro que divide Portugal e Galiza e que, se bem não visível, é responsável de os dois países serem incapazes de ver-se o um ao outro.

As palestras foram organizadas pelo professorado da Faculdade de Filologia, e portanto a maioria das palestras tiveram como ponto de partida a linguística e a literatura. Porém, também sucederam palestras de diverso carácter. História, arquitetura e até pintura juntaram-se para dar uma imagem o mais real e complexa possível do país luso.

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O primeiro dia, a história e a política foram as protagonistas.

Carlos Quiroga fez um pequeno resumo do seu livro A imagem de Portugal na Galiza, mostrando exemplos tirados do próprio livro para definir as relações entre habitantes de aquém e além Minho. Considero que quem quiser estar melhor informado da relação social entre Portugal e Galiza a as imagens resultantes obterá melhores resultados lendo o próprio livro, ou A imagem da Galiza em Portugal, de Carlos Pazos-Justo, que talvez pode ser de maior interesse para o público galego.

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Pablo M. Rivera Búa: Eurocidade Chaves-Verín Isaac Lourido Hermida: Presidente da mesa (Reempraza a Ma José Martínez) Carlos Quiroga: A imagem de Portugal na Galiza Carlos Velasco Souto: Encontros e desencontros nas relações hispano-lusas

Carlos Velasco Souto definiu as linhas gerais que têm marcado as relações entre Espanha e Portugal desde a criação do Estado Português até os nossos dias. Relações dominadas pelo conflito, já não só pela proximidade territorial, mas por pertencerem historicamente estes países a alianças enfrentadas. Esta rivalidade não foi continua e em determinadas épocas os interesses políticos dos dois países convergiram (como por exemplo nos anos da “Aliança Ibérica” entre Salazar e Franco), ainda que este interesse comum nunca levou a relações culturais entre ambos. Prova disso é o escasso número de estudantes de português que há na Espanha. Esta briga foi, em grande medida, responsável do escurecimento das relações Galiza-Portugal, já que Galiza foi desde o princípio absorvida por Castela/Espanha e isso posicionou aos dois países como rivais. Velasco Souto define as relações entre ambos os lados do Minho como “nulas”, situação que não mudou nem com a aparição da Eurorregião Norte de Portugal/Galiza nem com a constituição do movimento reintegracionista, já que, segundo o historiador, faz falta criação de rede institucional para poder o reintegracionismo chegar à população. “É um movimento criativo, mas minoritário”. Quiroga acrescenta nesta última ideia que a última jogada política no âmbito reintegracionista foi a Lei Valentim Paz Andrade, lei que curiosamente chegou com o apoio de todas as forças políticas do Parlamento Galego, mas que neste momento está num impasse.

Passando da história à economia, Laura Otero Rúa falou das relações ligadas ao setor do trabalho e da imigração entre a Galiza e o Norte de Portugal, principalmente desde o ponto de vista da Eurorregião. A palestra centrou-se nas relações laborais nas últimas décadas e nos obstáculos que há para ir trabalhar a Portugal, e para os portugueses irem trabalhar à Galiza. Desta palestra destacou que nos últimos anos a população portuguesa na Galiza decresceu, enquanto a população espanhola no Norte de Portugal aumentou, seguramente devido a que o principal sector de trabalho dos imigrantes portugueses, a construção, sofreu uma caída importante.

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Pablo M. Riveira Búa informou, na última das palestras, do projeto de Eurocidade Chaves-Verim. A cidade portuguesa de Chaves e a cidade galega de Verim, nas últimas décadas, participaram num processo de integração com o objetivo de melhorar a qualidade de vida nas duas cidades formando uma Eurocidade. Graças a isto, os aproximadamente 60.000 habitantes desta região podem ter acesso a serviços que não poderiam ter no caso de estarem as duas vilas separadas. Se bem o projeto encontrou dificuldades administrativas e legais (como por exemplo o acesso a serviços que não dependem dos respetivos concelhos, como a sanidade), já formaram políticas comunitárias de mutuo benefício, como o financiamento duma rodovia para comunicar melhor a Eurocidade com o seu entorno ou um sistema turístico unificado, pelo que os turistas podem ser atendidos nos dois lados em português, espanhol e inglês, e ademais são animados a passar a fronteira política.

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A literatura foi o tema estabelecido para o segundo dia de conferências.

María Pilar García Negro expôs as suas considerações sobre o Galego-Português e as necessidades que o idioma tem hoje em dia. Apesar das novas tecnologias e do suposto desaparecimento das fronteiras, as relações com Portugal hoje em dia são piores que há quarenta anos. Em verdade, o português tem mais promoção na Extremadura que na Galiza, que nem sequer tem a relação mínima por motivo da fronteira política com Portugal. García Negro defende a ideia do português como “galego modernizado”, e rejeita o tópico da desconexão dos escritores galegos no XIX com o passado comum. Na altura faltava a prova material, as cantigas, mas sim havia consciência. Até Menéndez Pidal defendeu a unidade linguística galego-portuguesa. Esta unidade ficaria seriamente danada no processo politizado de normativização do galego nos anos 70 do passado século. Porém, a declaração do galego como parte da Lusofonia, indica García Negro, se não tiver consequências políticas, volta inútil. O português, hoje em dia, é preciso para poder des-espanholizar o galego e ajudar com o processo de desinstitucionalização que sofreu o galego. Logo, deveríamos falar duma dupla reintegração. Uma reintegração de falantes de castelhano no galego, e uma reintegração do galego no sistema português, se bem matiza que esta última deve estar sustentada em bases “pragmáticas”. Não podemos cair num “Sebastianismo” à galega.

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María Pilar García Negro: Galego-portugués, evidencias e necesidades á altura actual Mercedes Regueiro Diehl: Presidenta da mesa. María Felisa Rodríguez Prado: Língua portuguesa com letras africanas em Portugal

Cilha Lourenço Módia perguntou se a integração do português no ensino deveria ser mediante a inclusão do português nas matérias de Língua e Literatura Galegas, ou se é preferível o modelo atual de criar cursos de Português como língua estrangeira. García Negro responde que o português deveria ser incluído nas matérias de galego, se bem “não deveria de resultar numa união”. Para explicar esta aparente contradição, García Negro compara a reintegração do galego no português com a luta pelos direitos da mulher nos últimos séculos: “Considerar-se mulher não é transvestir-se em masculino”. Além disso a escritora galega criticou a lei Valentim Paz Andrade por faltar de uma base prática (orçamentos, aplicações, etc.).

A situação da literatura africana em Portugal é o objetivo da investigação de Felisa Rodríguez Prado. Membro do Grupo Galabra de investigação nos países lusófonos, analisa a relação entre a literatura dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e Portugal, que fica evidente pelo facto de Portugal ser o principal lugar de produção e promoção destas obras, por não terem os PALOP uma base o suficientemente rígida. Isto, por suposto, leva a que se promovam autores e repertórios próximos ao leitor português. Não resulta estranho descobrir que a maioria dos escritores dos PALOP mais conhecidos são de pele branca, é dizer, descendentes de colonos. Editoriais como Caminho ou Edições Esgotadas, autores como Luandino Vieira, Eduardo Agualusa ou Ondjaki e coleções como “África minha” são nomeados numa larga lista de obras, autores e agentes que explicam a posição que os PALOP e sua literatura ocupam no espaço lusófono das letras.

Pintura, literatura e política misturam-se como afluentes do mesmo rio na palestra de Burghard Baltrusch. O objeto de estudo são as ilustrações de Graça Morais realizadas para acompanhar ao poemário de José Saramago O Ano de 1993. Poemas que descrevem a ocupação duma cidade por uma força tecnologicamente superior e o processo que acompanha a invasão e repressão dos seus habitantes, uma denúncia contra a violência e o totalitarismo escrita durante os anos finais do Estado Novo e primeiros anos da democracia. Baltrusch lamenta que esta edição, que para ele ilustra muito bem a “arte política”, não seja renovada e que no seu lugar se utilizem ou bem outras ilustrações ou bem não se acompanham as letras. Um total de dez ilustrações que acompanham os trinta poemas do livro. A obra defende uma versão de arte política, que não se limita a informar sobre o estado das coisas, mas volta-se um agente ativo transformador da sociedade, que tem um papel na história.

 

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Terceiro dia, e terceiro tema: linguística

A ordem das palestras original foi alterada, por conseguinte a primeira foi a da professora Cilha Lourenço Módia sobre a aprendizagem de português na Galiza. Num powerpoint dirigido a alunos ainda não interessados no português (ou que se estão interessados, não têm a suficiente informação), Cilha Lourenço esquematiza os principais motivos para aprender a língua portuguesa, estratégias de aprendizagem do português (onde devemos destacar o seu uso como veículo para conhecer o mundo e a produção cultural estrangeira, no lugar do espanhol) e materiais para aprender português, como dicionários e aulas de língua, além de mencionar sites e projetos sociais que ajudam nas relações culturais com Portugal.

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Ana Gravata Ramos: Presidenta da mesa (também é palestrante no seguinte dia) Xosé Henrique Costas González: Contacto lingüístico nas fronteiras: crónica da nivelación e da glotofaxia.

A situação das línguas portuguesa e leonesa na fronteira entre a Espanha e Portugal é o objeto da palestra de Xosé Henrique Costas. Começou com um relatório sobre a situação nos concelhos espanhóis com forte presença do português, bem por serem antigos territórios de Portugal (Olivença) ou por imigrações posteriores. O português está desprotegido, sendo as únicas políticas a este respeito da Comunidade Autónoma de Extremadura centradas nos imigrantes e descendentes de imigrantes portugueses, e não nas antigas comunidades de falantes de português que ficaram na parte espanhola por mudanças na fronteira. Quase todas as situações em Olivença e outros concelhos com população portuguesa (com algumas exceções) é a mesma: falantes nativos só na terceira idade, tópicos e imagens desprestigiadoras do português e de Portugal, situações de diglóssia entre os bilingues espanhol/português, falta de apoio institucional por parte tanto da Espanha como de Portugal (não sei vocês, mas eu tenho um sentimento a déjà vu em todo isto). Ainda pior é a situação do mirandês (parte do sistema linguístico do leonês). Ainda que em Portugal e na Espanha é comum ouvir que a língua tem o estatuto de “co-oficial”, isso não é no absoluto verdade. Nas leis portuguesas a única menção ao idioma é o apartado 3 do artigo número 11 da Constituição Portuguesa: “A língua oficial é o Português” (https://www.parlamento.pt/ArquivoDocumentacao/Documents/CRPVIIrevisao.pdf). Nem sequer há, como na constituição espanhola, espaço aberto a políticas de carácter regional para as línguas não-nacionais. Toda a política de promoção do mirandês é uma classe à semana que ademais precisa de ser reservada com anterioridade, já que o financiamento depende de Lisboa e pode não ter lugar.

 

Por último, foi projetado o documentário “Porta para o exterior” .

Último dia, reservado para as conferências difíceis de colocar nas secções anteriores.

María Carreiro Otero e Candido López González relacionaram paisagem, sociedade e arte para caracterizar a arquitetura a ambos os lados do Minho. A grande concentração de população no oeste litoral e a existência de zonas híbridas entre o rural e o urbano, ademais do clima da nossa terra, são algumas das causas que provocam uma série de características na nossa arquitetura, que tem muito mais desenvolvimento ao sul do Minho que na Galiza (só na Corunha há estudos de arquitetura), permitindo que no país luso se fizeram numerosos estudos de arquitetura no século XX. Para definir melhor estes aspectos, utilizam-se exemplos nos territórios galego e português.

-Afonso Becerra de Becerreá: Escenario galego-português -Xoán López Viñas: Presidente da mesa -Cándido López González: Arquitectura no noroeste peninsular transfronteirizo (palestra conjunta com María Carreiro Otero)

-Afonso Becerra de Becerreá: Escenario galego-português
-Xoán López Viñas: Presidente da mesa
-Cándido López González: Arquitectura no noroeste peninsular transfronteirizo (palestra conjunta
com María Carreiro Otero)

O teatro na Galiza e no Portugal é o tema a tratar por Afonso Becerra de Becerreá. Como assistente assíduo de teatro no Portugal, Afonso Becerra considera que o teatro português é mais arriscado do que o galego, entre outras coisas pelo maior público e a falta de tradição das companhias galegas. Os atores galegos, pelo medo a não serem contratados, preferem obras mais tradicionais e conservadoras. Exemplo deste teatro mais arriscado é a Companhia Olga Roliz, que decidiram representar a crise dos refugiados através duma dança entre cascotes, O teatro português, segundo o dramaturgo, tem tanta história como o Estado português, e não padece da “esquizofrenia linguística” que há na Galiza. Destacam também os esforços das instituições portugueses, como por exemplo a Câmara Municipal de Porto e a sua reabilitação de antigos teatros. A importância do teatro português fica clara com o “Festival Shakespeare” feito na cidade de Guimarães quando foi escolhida Capital Europeia da Cultura no ano 2012. Se falamos das relações entre os teatros galego e português, os exemplos são relativamente poucos. Das noventa obras representadas pelo Centro Dramático Galego, só dez têm relações de qualquer tipo. Muitos dos projetos são bilingues, sem se considerar a unidade linguística entre galego e português. De especial destaque são, por exemplo, a obra “Não de amores” de 1995, baseada em obras de Gil Vicente e com colaboração do Centro Dramático Galego, ou “Mar Revolto” de Roberto Vidal Bolaño, onde se conta desde o ponto de vista de passageiros de terceira classe o sequestro do Transatlântico Santa Maria por revolucionários galegos e portugueses durante o Estado Novo. A maioria de colaborações, mas que ser obras conjuntas, são participações individuais de técnicos ou dramaturgos. Fica claro que não há sistematização nas relações culturais entre Galiza e Portugal.

Cilha Lourenço Módia interveio para explicar que, desde a sua visão, o motivo das falhas do teatro galego é porque “Não há teatro bom porque não se demanda, e não se demanda porque não se vê teatro bom”. Ademais, critica as salas multiusos que agora mesmo também estão a ser utilizadas para representar teatro, mas não convêm por não estarem propriamente adaptadas para o teatro. Candido López responde que quando os arquitetos trabalham nas salas multiusos, não pensam que um desses usos vaia a ser a representação de peças teatrais. Segundo Afonso Becerra “O teatro é um reflexo duma cultura, pelas obras e pelo espaço onde se representam”.

Por último projetaram-se duas curto-metragens em português:

-“Deus não quis”: Baseada na canção popular portuguesa “Laurindinha” (para quem quiser, há em Youtube uma versão muito boa da Dulce Pontes), uma história de muitas outras de quem foi a lutar às guerras coloniais durante os anos do Estado Novo em Portugal (https://vimeo.com/8224524).

-“O voo da papoila”: Uma maneira de interpretar desde a atualidade os sucessos do 25 de abril de 1974 (https://vimeo.com/19567526).

Conclusões

As palestras ajudaram para a melhor compreensão da realidade cultural portuguesa. Pessoalmente, considero que se o público assistente era fundamentalmente da Faculdade de Filologia, certas das palestras menos centradas no âmbito cultural e linguístico podiam ou bem ter sido trocadas por outras de interesse mais especializado, ou bem ter sido eliminadas para assim dotar de mais tempo as palestras restantes. Ademais, acho que o público objetivo era alunado dos primeiros anos do percurso universitário, e ao melhor alguma das exposições precisava dum nível de especialização demasiado alto para esse público que era introduzido (desgraçadamente, algum deles pela primeira vez) a Portugal e ao português.

Para um ciclo de conferências de só dez horas, eu acho que o nível de contidos foi ótimo e que em geral as exposições dos professores foram as adequadas. Porém, não deixo de pensar que sendo as palestras sobre Portugal, o facto de não haver palestras sobre literatura portuguesa e sim sobre a produção de literatura africana em Portugal é um pouco intrigante, mas com certeza neste tipo de ocasiões a disponibilização de professorado especializado deixa mais de uma pergunta na mente dos assistentes.

Achei ótimo sobre tudo a reprodução do documentário “Porta ao exterior” e as curto-metragens portuguesas. “Porta ao exterior” faz que ao galego meio se lhe levante uma pergunta sobre como consideramos e deveríamos considerar o nosso idioma, e essas perguntas às vezes ficam apagadas, às vezes levantam mais outras perguntas e acabam por tombar algum tópico e estereótipo, que é o objetivo deste tipo de conferências. No particular, as curto-metragens portuguesas foram significativas já que o acesso ao cinema português na Galiza é mínimo.

 

N.B. Agradecemos a Cilha Lourenço Módia por proporcionar grande parte das fotografias utilizadas no artigo, e dar a sua autorização para usá-las no nosso site.

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Alberto Paz Félix

Alberto Paz Félix

Alberto Paz Félix (Corunha, 1997) é estudante de Galego-Português na Universidade da Corunha (UDC). Criou-se na Costa da Morte, mas ao mudar a Corunha mudou de idioma ao castelhano, que falou durante parte da sua vida, recuperou o galego e a continuação começou a escrevê-lo na sua grafia internacional. Tenta conhecer cada vez mais de cultura portuguesa, brasileira e da África lusófona.
Alberto Paz Félix

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  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Que boa crónica.

    Fico com isto: “Porta ao exterior” faz que ao galego meio se lhe levante uma pergunta sobre como consideramos e deveríamos considerar o nosso idioma, e essas perguntas às vezes ficam apagadas”

    Demasiadas vezes ficam apagadas. Se as jornadas valeram para falar sobre isso, então foram um raio de esperança…

  • abanhos

    Tudo o que for trabalhar no relacionamento com Portugal e a nossa miscigenação com eles, tal e como sonhava Castelão, vai ser muito bom…pois esse é o único caminho certo que temos de sobrevivermos na Galiza, sendo nós mesmos, nós próprios.

  • Henrique Salles da Fonseca

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