ABBAS CUCANIENSIS

Podes ver o que quigeres



– A “Notícia de fiadores”, datada arredor de 1175, está considerada como um dos primeiros textos que se conservam em galego. Durante vários séculos a nossa língua é utilizada na Galiza a todos os efeitos, mas também é valorizada noutros territórios, o que demostra o prestígio internacional de que gozava.

– Em 1479 conclui a Guerra de Sucessão de Castela. Isabel derrota a candidata apoiada pola nobreza galega, Joana. Começa a doma do Reino da Galiza.

No que acontece entre estas duas datas concordamos muitas pessoas. O que acontece deste ano em diante (também o anterior) pode-se ver de uma maneira… ou de outras.

Podes ver que Antonio de Nebrija publicou a Gramática castellana em 1492, e que o castelhano tem cinco séculos de vantagem na construção de um padrão culto sobre o galego… ou podes ver que em 1536 Fernão de Oliveira publica a Grammatica da lingoagem portuguesa. Só lendo o seu prefácio comprova-se que se pode considerar como a primeira gramática da língua galega, pois é um magnífico nexo entre a língua dos nossos cancioneiros medievais e o galego atual.

Podes ver que, na época dos descobrimentos, o galego foi uma língua cada vez mais relegada ao âmbito rural e familiar enquanto o castelhano era a língua das elites (e de qualquer tipo de expressão culta na Galiza) e que gozava de uma forte expansão internacional… ou podes ver que Portugal difundiu o galego por todos os continentes mesmo tornando-se em língua franca nas costas africanas ou no Índico.

Podes ver que entre o século XVI e o XIX estamos num período chamado séculos escuros, em que a nossa língua deixou de ter produção literária… ou podes ver que esta obscuridade era parcial, pois entre o Renascimento e o Iluminismo a nossa língua continuou o seu percurso em Portugal.

Podes ver que o chamado Ressurgimento do XIX é um movimento que certifica a separação definitiva entre a língua galega e a portuguesa… ou podes ver que, apesar de todas as adversidades de séculos passados, e do desconhecimento do que ocorria em Portugal, as obras literárias e as gramáticas feitas na Galiza não duvidárom em procurar no sul os remédios contra quase quatro séculos de poluição linguística.

Podes ver que o Estatuto de Autonomia da Galiza é um texto irrelevante, pois só se vão poder tomar decisões maciças o dia que se tenha um Estado próprio… ou podes ver que outras comunidades autónomas implementárom políticas linguísticas mais ambiciosas que estão a dar frutos.

Podes ver que a bandeira galega não desfilou nas cerimónias dos Jogos Olímpicos de Rio… ou podes ver que o galego foi a língua oficial do grande acontecimento global por excelência.

Podes ver que António Guterres é um português eleito secretário geral da ONU… ou podes ver que o secretário geral da ONU é um senhor que fala galego no exercício do seu cargo.

Cada pessoa vê o que quer, é uma questão de vontade, mas uma perspectiva mostrou-nos um percurso com menos futuro do que a outra. Tu decides.

 

Eliseu Mera

Eliseu Mera

(Ourense, 1976) Secretário da AGAL. Cantor lírico e professor de Música do IES de Valga. Acredito firmemente em que a boa música deve ser acessível para todos os públicos, sem exceção. Para este fim, experimento com um blogue:notas.gal
Eliseu Mera

PUBLICIDADE

  • Ernesto V. Souza

    Muito bem, caro … sempre gostei desse Fernando de Oliveira…gramático, historiador, pirata, espia, anticastelhano e construtor de barcos… 😉

    • Venâncio

      E, pelo meio disso tudo, padre católico. 😉

      • Ernesto V. Souza

        Pois… esqueci 😉

  • Venâncio

    A informação de que a «Notícia de fiadores» foi redigida em Galego há-de fazer rasgar vestes em Lisboa. Mas é uma boa notícia, e é muito melhor do que irem galegos a Lisboa dizendo ‘Amém, Amém’ aos mitos linguísticos portugueses.

    • http://www.notas.gal Eliseu Mera

      Interessante. Procurei as perspectivas que podemos ter na Galiza a este respeito, mas não pensara em qual pode ser a visão dominante em Portugal. Obrigado.

      • Venâncio

        Caro Eliseu,

        Dizer visão ‘dominante’ é dizer pouco. Em Portugal é, mesmo, a única.

        Na intimidade, ainda consegue ouvir-se um linguista português dizer-nos que, sim senhor, Português e Galego são a mesma língua. Mas, uma vez em público, nunca a tal se atrevem.

        Mas também uma coisa é verdade: Não é “porque queremos” que G e P são a mesma língua. E também não o são porque existem galegos que se exprimem em Português. Nem voluntarismo, nem raciocínios circulares.

        Por mim, afirmo que, hoje, brasileiros e portugueses se exprimem em Galego, e tento demonstrá-lo. É o único procedimento racional. Tento mostrar que utilizo as mesmas exactas estruturas lexicais e gramaticais (no sentido mais lato) que um falante de Galego. Como não sou fetichista da ortografia, insisto em que a demonstração vale perfeitamente para o Galego Normativo. Isto é: xeitiño é tanto a minha língua como jeitinho.

        Eu acho pena que os reintegracionistas não aceitem esta última extensão, mas compreendo que toda a ortodoxia tem os seus tabus.

        • http://www.notas.gal Eliseu Mera

          Caro Fernando,
          Também considero que a ortografia é uma ferramenta, não um fim. Sendo conscientes de que “se calhar” ou “se quadra” são formas próprias, não haveria problema em grafá-las como “se callar” ou “se cadra”. Eu próprio utilizei a norma ILG-RAG durante anos, mas decidim utilizar uma ortografia reintegracionista basicamente por dous motivos: um essencialista, pois gosto mais da sua filosofia, e outro prático, penso que ajuda a visualizar melhor a dimensão real do galego.
          Digo que gosto mais da sua filosofia, pois considero que a língua que se fala na Galiza é a mesma que a que se fala em qualquer país membro da CPLP, portanto o lógico seria escrevê-la com as mesmas normas. Também concordo com que o nome deveria ser “galego”, mas acho que devemos empregar as nossas poucas forças em fazer pedagogia na Galiza.
          O segundo motivo é o que me tornou finalmente em reintegracionista. Mesmo que o galego fosse uma língua falada por cinco mil pessoas, eu defenderia-a igual por ser a minha, e esta teria o mesmo direito à existência que qualquer outra. Infelizmente, a nossa língua foi perdendo falantes na Galiza fundamentalmente porque as últimas 2-3 gerações achárom que não era útil. Nestas circunstâncias, parece-me que a ortografia reintegracionista permite mostrar mais eficazmente essa conexão com mais de duzentos milhões de falantes. O problema das pessoas que nos instalámos na norma ILG-RAG, apesar de termos aprendido a língua através dos nossos pais, é que acabamos assumindo decalques castelhanos como fórmulas próprias, e acabamos utilizando “ao mellor” como expressão galega distanciando-nos das comentadas atrás. Agora é quando realmente estou a descobrir o grau de penetração do castelhano mesmo em falantes de galego preocupadas, aliás, é difícil que passe um dia sem dar-me conta de meia dúzia de palavras/construções que antes utilizava regularmente. De facto, mui provavelmente neste texto aparecessem vários casos. Felizmente não estou sozinho e cada vez são mais pessoas que se acrescentam.
          Agradeço a sua sensibilidade a respeito destes assuntos, apesar de que, como indica, não seja mui comum em Portugal.
          E desculpe por este longo texto que, “se quadra” (suponho que conhece bem esta expressão tão galega) é mais extenso do que o artigo original.

          • Venâncio

            Caro Eliseu,

            Destaco uma afirmação sua: a ortografia internacional «ajuda a visualizar melhor a dimensão real do galego». Eis uma formulação inteligente, porque dinâmica, e longe de essencialismos. Permita-me só dizer que a Norma Agal, a meu ver, também o consegue, e ajuda a localizar um texto como “galego”. Para fora e para dentro. Isto, tanto mais quanto brasileiros e os restantes utentes de português não se servem (cito-o) das «mesmas normas». Compreendo que para um galego não seja fácil, mas nós identificamos rapidamente um texto como “brasileiro”. Basta uma pequena marca sintáctica. E ele há-as em abundância.

            O problema dos «decalques do castelhano» é questão diferente. Sim, e como Vc escreve, neste artigo aparecem casos. 😉 Só para dar-lhe exemplos no início do texto: um português detecta como sombras do castelhano «está considerada», «a todos os efeitos», «conclui a Guerra» (para nós sempre transitivo). São coisinhas mínimas, longe de decalques que noutros autores encontramos, totalmente impenetráveis para o leitor brasileiro ou português. Simplesmente, julgo impossível a um bilingue de galego e castelhano evitá-los todos. Se até os próprios portugueses adoptaram dezenas e dezenas de idiomatismos inteiros do castelhano! Se até mesmo tradutores portugueses experimentados não evitam outros! Acho que as nossas relações, as de todos nós, com o castelhano têm de ser estudadas e observadas ponderadamente, sem histerismos e sem culpabilizações.

            Um abraço,
            Fernando

          • Ernesto V. Souza

            Eu sempre penso que isto em que nos andamos são simples preparações, nenhuma arte se domina sem prática, sem modelos e sem bons mestres…

            Para mim, como diz o Eliseu, a língua é uma sendo múltipla (a geografia, a história, as classes sociais…), mas no seu uso pelos galegos, é lógico que tenha hesitações e mesmo que se presente mais acanhada que orgulhosa…

            É difícil dizer o que é regionalismo, o que é vulgarismo, o que é um hiper-engenbrismo, um arcaísmo, um idiotismo particular de autor que teve sucesso e o que é interferência do castelhano. Muitos de nós aprendemos galego entre a rua e os livros, sem saber de contextos e de registros, passando anos depois com alguma orientação escolar e universitária (tão precária e desencaminhada como ainda em processo!!!) a tratar de aquilatar… e a peneirar – pois isso foi o que nos aprenderam – entre os mais desses erros também os Lusismos e portuguesismos: a fugir deles e a procurar um galego diferencialista, nacional e popular… são hábitos… É difícil também determinar quais interferências do castelhano são já parte ou têm rentabilidade… e merecem ser preservadas como parte do acervo e característica da língua Nacional.

            Confiar às distinções à ortografia, penso que não é avondo. É necessário criar uns espaços de prestígio, uns modelos de uso, uma “academia” de referencia que oriente ou alveje onde queremos ir.

            Mas para ter isto são precisos falantes de prestígio, escritores de prestígio, espaços que canalizem e divulguem estes modelos: jornais, sites de internet, publicações, média…

            Estamos muito longe disto tudo, e francamente não sei se um dia chegaremos… porém, imos tendo espaços que vão conformando uma língua e nos que nos formamos…

            Obrigado Eliseu, grande voz a tua 😉

          • http://www.notas.gal Eliseu Mera

            Obrigado, Ernesto. Muitas vezes (como neste caso) o valor da seção de opinião do PGL não está tanto nos artigos quanto nos comentários com que os completades gente como tu, Fernando, Facal, Gê, Isabel, Luís e muitas outras. Eu também não sei se imos chegar, mas sempre é mais provável conseguí-lo se imos preparando os caminhos 😉

          • http://www.notas.gal Eliseu Mera

            Caro Fernando,
            Obrigado polas suas palavras. Concordo também com que a Norma Agal seria uma ferramenta igualmente válida. O por quê de seguir uma orientação ortográfica reintegracionista ou outra poderia ser o objeto doutro diálogo, aliás, confesso às vezes ter dúvidas ao respeito.
            Um abraço,
            Eliseu

  • Jlvalinha Jlvalinha

    Bom artigo para galegos lerem…

  • Manuel Meixide Fernandes

    Muito bom artigo. Gostei muito. Para aprendermos que a Galiza é muito mais grande do que os Galegos pensamos, muito mais grande do que as quatro províncias espanholas.

    Grande aperta

    • Venâncio

      Manuel Meixide Fernandes: Posso perguntar em que sentido (a não ser mítico…) a Galiza é muito maior do que pensais? É que nós, portugueses, estamos fartos, fartinhos, de discursos de grandezas. Mas vós, possivelmente, não.

      E há outra coisa. Os portugueses, eles que já nem concebem que a sua língua seja Galego, muito menos receptivos hão-de ser a um qualquer irredentismo (mesmo se metafórico!!!) por parte da Galiza.

      O Reintegracionismo galego criará, inevitavelmente, conflitos com um Portugal que se acha linguisticamente o “país perfeito”, sem fugas… Mas porque haveríeis vós de agudizar os conflitos?

      Do mesmo modo, vale a pergunta: porque haveríeis vós de evitar, servilmente, todos os conflitos com o Portugal real?

      E uma pergunta mais geral: Estas coisas são alguma vez debatidas entre vós? E em que contextos?

      • Heitor Rodal

        Fernando, não se preocupe: a Galiza não vai criar conflito nenhum nem com Portugal, nem com a Espanha.

        Outra cousa é o que cada quem acha que é e o que realmente é. E aí acho que ninguém leva vantagem sobre outrem.

        Saúdos.

        • Venâncio

          Heitor, receio que te tenha escapado o meu ponto de vista. Direi por outras palavras.

          O Reintegracionismo galego traz, já no seu cerne, uma série de conflitos com a forte e pouco flexível auto-imagem portuguesa. Por isso, um Reintegracionismo que evite qualquer conflito com essa realidade está a ser infiel a si mesmo.

          Compreendeu-se agora?

          • Heitor Rodal

            Compreendeu-se.

            Mas, em verdade, eu não me preocuparia muito com o conflito que possam causar os galegos nenhures.

            Saúdos.

          • Venâncio

            Heitor:

            Eu não falei dos “galegos”, não falei da “Galiza”, como pões nas minhas palavras. Falei do Reintegracionismo galego.

            És muito bom a chutar para canto.

          • Heitor Rodal

            Não é problema, Fernando, corrijo:

            não me preocuparia lá muito com o conflito que possam causar os galegos -reintegracionistas ou não- nenhures.

          • Venâncio

            Por vezes, sois tremendamente superficiais.

          • Heitor Rodal

            Nada a dizer. É uma opinião tão válida como a contrária.

            Saúdos.

          • Venâncio

            O Reintegracionismo não deve reger-se por “opiniões”, mas por um programa e por opções de futuro. Só que isso, concedo, deverá ser matéria secreta.

          • Ernesto V. Souza

            Pois se pensa isso, Fernando, vai muito desencaminhado… depois de tantos anos e não é capaz de acreditar que na Galiza cada qual vai ao seu…

          • Venâncio

            Às vezes penso, Ernesto, como seria eu se fosse galego… Quero crer que seria um inadaptado, um não integrável.

            Acabo de ler, na “Praza”, o texto e comentários da última crónica do Joám Lopes Facal. E percebo que eu seria esmigalhado num mundo assim.

          • Ernesto V. Souza

            Provavelmente…é o desporto nacional, esmigalharmo-nos…

          • Luis Trigo

            Caro Venâncio
            Não estaria tão certo quanto ao termos ultrapassado a mania das grandezas – veja-se a CPLP e casos como o da Guiné Equatorial. Aliás, esta Guerra de Sucessão de Castela é um dos episódios que põe em confronto duas visões da península – a da Espanha de matriz galega ou portuguesa e a da Espanha de matriz castelhana.
            Temos ainda hoje vestígios desta Espanha galega em Portugal. O Arcebispo de Braga preserva o título de Primaz das Espanhas. A mudança do rito de Braga patrocinada por Afonso Henriques pode ter sido um dos factores para o reconhecimento do novo reino pelo papa. Deve ainda considerar-se que o conceito de Espanha teve bastantes adeptos em Portugal tanto em 1383 como em 1580.
            Esta visão que desdenha o conceito de Espanha, porque não é portuguesa, pela generalidade dos portugueses faz-me lembrar a “Raposa e as uvas” do Bocage.

            Contam que certa raposa,
            Andando muito esfaimada,
            Viu roxos, maduros cachos
            Pendentes de alta latada.

            De bom grado os trincaria,
            Mas sem lhes poder chegar,
            Disse: “Estão verdes, não prestam,
            Só os cães os podem tragar!”

            Eis cai uma parra, quando
            Prosseguia seu caminho,
            E, crendo que era algum bago,
            Volta depressa o focinho.

            Não sei bem como devemos lidar com a nossa forte auto-imagem na verdade. É verdade que não há muito mal que algum galego possa causar a Portugal como diz o Heitor Rodal. Também não sei se será muito útil para a Galiza como defende o Fernando Venâncio. Mas também não sei se não poderá ter efeitos positivos na auto-imagem de Portugal (por nos confrontar com o que nos podia ter acontecido) – ou talvez seja demais para quem já teve uma guerra colonial recente.

            Um abraço

          • Venâncio

            Caro Luís,

            Fez bem em lembrar a CPLP, um clube geriátrico (digo-o eu, que sou velhinho), clube que estava em morte clínica quando apareceu o Lula com sonhos de petróleo, que apanharam em cheio outro destravado, o nosso José Sócrates.

            É no que dá a mania das grandezas, sabendo-se que, dos 8 países da CPLP, só em dois (!) o Português é língua maioritária: Brasil e Portugal.

            Claro que a pertença da Galiza ao dito clube teria um efeito colateral imensamente interessante: dar visibilidade à Galiza, confrontando sobretudo os portugueses com uma realidade social e linguística que lhes passa, desde há séculos, ao lado. E então talvez, aos poucos, se fosse percebendo que Você e eu nos exprimimos, hoje, e desde sempre, em Galego.

            Isso sim, seria revolucionário. Muito mais revolucionário do que essa receita gelatinosa do “Português da Galiza”.

            Um abraço,
            Fernando

          • Luis Trigo

            Pois, embora concordando com o Fernando Venâncio na terminologia, tenho mais dúvidas que certezas quanto às estratégias…

          • Venâncio

            Luís,

            A CPLP desperta nos portugueses um interesse residual, e estou em crer que, no seu caso e no meu, nenhum. Mas, para a Galiza, éche o que hai…

            (Sá de Miranda, o nosso último grande poeta ‘galego’, escrevia por 1550 “E assi che vai?”. E ainda no século XVII as formas patrimoniais “hai” ou “ha i” eram correntes em Portugal).

            Pois bem: sendo companhia longe de recomendável, a CPLP é, para a Galiza, um pé fora.

            Eu detesto a realpolitik. Mas tem de dizer-se que, no caso, qualquer pretexto será bom.

          • Luis Trigo

            Caro Venâncio,
            A minha perplexidade é muito maior. Se a norma culta é usualmente urbana e se se tem como objectivo integrar a CPLPortuguesa, não é descabido o Português da Galiza, porque nas cidades galegas a utilização do galego é uma realidade recente/marginal – mas em Portugal fala-se galego (logo, galego é mais adequado)… Sei que o Venâncio está mais interessado na perenidade e rigor dos conceitos – mas para que servem os conceitos se não são utilizados – nem sequer são temporários desta maneira. Sei que a visão (estratégica) de alguns conceitos como temporários até se atingir algo rigoroso também pode ser contra-producente. Muitas vezes o temporário transforma-se em permanente…
            Por outro lado, também é verdade que será mais interessante para Portugal (talvez não para as suas elites) esse rigor… Mas isto é a minha visão egoísta. E percebo a utilização do “Português da Galiza” pelos galegos como uma forma de não ferir susceptibilidades portuguesas…
            Pode ser uma questão de tempo, mais dados ou informação para eu ter uma posição mais sólida. Por isso também agradeço os contributos tanto do Fernando Venâncio como dos galegos que por aqui escrevem.
            Um abraço

          • Venâncio

            Caro Luís,

            Os nomes dados às línguas são ‘políticos’. Chamamos “língua portuguesa” a esta em que aqui me exprimo porque, quando se lhe deu nome (por volta de 1450, portanto 300 anos depois de surgir o Reino de Portugal!), a memória duma língua comum com a Galiza estava perdida.

            Ainda hoje a classe linguística portuguesa, e os portugueses em geral, tem dificuldade em admitir essa passada comunidade de idioma, Foi preciso, por volta de 1900, uma senhora alemã (a dra. Carolina Michaëlis) cunhar a designação «galego-português» para a língua medieval. Nenhum português teria ousado essa conotação com o galego.

            Vc escreve: «Percebo a utilização do “Português da Galiza” pelos galegos como uma forma de não ferir susceptibilidades portuguesas…»

            E eu também percebo. Mas considero a última abjecção, a última sabujice, a última indignidade, ver galegos renunciarem a chamar ao nosso idioma o que ele é, o que ele foi sempre: Galego.

            Para não ferirem “susceptibilidades portuguesas”… Que indizível vergonha!

            *

            Louvores a ELISEU MERA, que, desde a primeira à última linha deste seu texto, chama ao nosso idioma o seu primeiro e mais verdadeiro nome.

          • Heitor Rodal

            “Abjecção”, “sabujice”, “indignidade”, … (?!).

            Fernando, a sério, essa grandiloquência pode ser portuguesa ou castelhana, mas diz nada aos galegos.

            Saúde.

          • Venâncio

            Heitor, usemos então outra eloquência.

            Chamardes “Português” ao Galego é igualzinho a chamarem os portugueses “Brasileiro” àquilo que falam, a partir do momento (que há-de seguramente chegar!) em que o Brasil assim denominar o idioma lá.

            Que valentia a desses portugueses, não é?

          • Heitor Rodal

            Fernando, isso depende do que se tenha por valentia.

            Mas acho que em verdade a sua incompreensão aqui provém de não entender que na Galiza não há qualquer cousa parecida a uma “valentia”, “honra” e “orgulho” nacionais galegos que defender, mas apenas “honras”, “orgulhos” ou “valentias” pessoais e familiares/clânicas a terem que ser defendidas.

            Para bem ou para mal, ficámos nesse estádio pré-nacional ou pré-estatal e acho que já não vamos ir além disso. E nada adianta bater contra o muro ou fazer apelos a conceitos que não manejamos e que são inexistentes para nós.

          • Venâncio

            Caro Heitor:

            Se é certo os malvados castelhanos terem quebrado o orgulho galego, é justo lembrar que também os galegos lhes facilitaram a tarefa. Digo-o com amargura.

            Abraços.

          • Heitor Rodal

            Pois. Repare em que a única observação que posso acrescentar ao seu comentário é a dúvida de se tal orgulho -na sua dimensão nacional, tal como é entendido alhures- terá existido nalgum tempo fora dalguns círculos muito restritos.

            Abraço.

          • Venâncio

            A crer no historiador reintegracionista José Manuel Barbosa, esse orgulho teve de existir. Antes de Castela, foi a Galiza que alimentou um projecto imperialista de dominação da Península.

            Por mim, avento que o emergente Portugal decidiu ficar a bom recato de quaisquer botas (ou mesmo sandálias) imperiais. 😉

          • Ernesto V. Souza

            Muito se poderia falar do orgulho dos galegos… mas já falaram Gondomar, Feijó, Sarmiento, Murguia, Besteiro Torres, Otero, Castelao, Luis Seoane… e tantos e tantos… sobram personagens e feitos… 😉

            O emergente Portugal, “meu probe”… se tem a honra de ser o inventor do Colonialismo, ensenhorando mares e escravos, aí é nada… por muito que depois os holandeses e ingleses imitaram e melhoraram …

            p.s. é tema interessante este dos modelos estruturais na base nacionalista da Inglaterra, Galiza e Portugal… tão divergentes como concorrentes com esse nacionalismo da França que importou modernamente Castela…

          • Venâncio

            Tens toneladas de razão. Por isso me fiquei pelo “emergente Portugal”.

          • Heitor Rodal

            Fernando, acho que na noção de “imperialismo” vai implícita a noção de “superioridade” e diria que esta última é desconhecida entre nós.

            A prepotência é uma caraterística muito pouco valorada. E tampouco temos lá muitos problemas em nos miscigenar com quem for lá onde formos.

          • Venâncio

            Heitor: quem falou em antigos sonhos imperiais galegos sobre a Península foi J.M. Barbosa. Entende-te com ele. 😉

          • Heitor Rodal

            Fernando, eu não tenho nada que me entender com o José Manuel porque já estamos entendidos. Ele escreveu um livro, eu publiquei. Não deveria tomar esses vieiros. E ainda menos com o José Manuel, que se ajusta muito bem ao que escrevi na mensagem anterior.

          • Venâncio

            Heitor: o Barbosa expôs nitidamente o que eu reproduzi por palavras minhas, num artigo a que, de momento, não tenho acesso (estou em mudanças). Não tem nada a ver com o livro que (sei muito bem) lhe editaste.

            Como te disse já algures acima, continuas a chutar para canto. Ou, como dizemos também, a desconversar.

          • Heitor Rodal

            Pois quando tenha esse artigo, se quiser, comentamos.

          • Heitor Rodal

            Fernando,

            voltando sobre o falado, acho que não entendeu o fio do meu argumentário.

            Se, tal como já disse, podemos falar de “imperialismo” nestes termos, não é só que o José Manuel Barbosa tenha apontado esses sonhos “imperiais” galegos sobre a Península, senão que esses sonhos “imperiais” se têm materializado.

            Porque, que forom e que são, senão, a Espanha e Portugal?

          • Venâncio

            Heitor, respondo abaixo.

  • Joám Lopes Facal

    A história perdida pede a recuperada. O quê fazer?

    • http://www.notas.gal Eliseu Mera

      Bom dilema. A minha reflexão ia no sentido de que, apesar de não termos todas as armas (em sentido figurado) necessárias para luitar pola sobrevivência da língua, cumpre o aproveitamento das que (ainda) há. Talvez andemos perto da última bala da recâmara, por isso é necessário reagir aginha.

  • Venâncio

    Heitor,

    Escreves que os sonhos medievais dum Império galego se concretizaram em Espanha e em Portugal. Parece-me uma afirmação de tipo demasiado, como dizer, visionário.

    O facto é que (segundo José Manuel Barbosa) a Galiza quis realmente (e isso ainda antes de Portugal existir!) tornar-se cabeça dum Império ibérico, e não o conseguiu.

    E depois: ver os impérios espanhol e português como “realizações” dum Império galego frustado é, desculpa, da ordem da cabalística.

    Abraço.

    • Heitor Rodal

      Fernando, veja como quiser, mas é que esse é o ponto.

      As ânsias de domínio galegas, tanto internamente quanto externamente, forom canalizadas através da Espanha e Portugal, que foram, ambos os dous, criações de galegos.

      Ainda posteriormente forom inúmeros os galegos que ao longo da História se ofereceram e trabalharam a réu para os estender e sustentar. De facto, ainda há uma cheia deles que trabalham(os?), quer para um, quer para o outro, mália fazê-lo sem benefício ou, por melhor dizer, antes com prejuízo próprio e mália o desprezo que recebem habitualmente esses galegos e os seus trabalhos e esforços por parte dos seus beneficiários últimos, isto é: espanhóis e portugueses.

      Por isso é que não faz sentido falar em “imperialismo” ou “orgulho” exclusivamente nacionais galegos tal como eles são entendidos habitualmente, porque nunca tal houve e porque esses orgulhos “nacionais” e esses azos “imperiais” galegos sempre foram e, previsivelmente, continuarão a ser identificados com e canalizados através da Espanha e Portugal.

      Saúdos.

      • Venâncio

        Heitor:

        Tenho, francamente, de desistir. Desde o primeiro momento, eu disse-te que me referia a uma perspectiva galega, a do historiador José Manuel Barbosa, sobre os planos medievais galegos duma dominação da Península.

        Mas, sempre, sempre, tu fazes como se eu é que tivesse afirmado isso. Assim não tem graça, amigo.

        Só que, mais uma vez, alguns galegos se revelam sistematicamente empenhados em rebaixar a Galiza (“falta-nos isto, falta-nos aquilo”), em rebaixar o seu idioma (são “falas galegas”, não é?), em rebaixar as suas capacidades humanas. Nunca sabem dizer uma coisa boa, realmente, indubitavelmente boa, a respeito do seu país.

        Que estas coisas deprimentes tenham de chegar-nos, habitualmente, através de reintegracionistas, eis o que supera o meu entendimento. E prefiro não pensar que, nisso, pode haver uma lógica perversa.

        • Heitor Rodal

          Fernando,

          para além de que, tal como já expliquei, essas ânsias de dominação vingaram, é que o seu erro é considerar “galega” apenas uma dessas perspetivas – a que você escolhe(u)-, sendo galegas todas elas.

          Nada disse tampouco eu para rebaixar ou desprezar a capacidade dos galegos. Antes ao contrário, o que eu apontei é que essas capacidades não forom empregadas em benefício exclusivo próprio, mas em pretenso benefício comum daqueles com os que acreditamos compartilhar um acervo comum linguístico, cultural ou histórico. Quer dizer, mais uma vez: espanhóis e portugueses. E veja que em prol desse presumido bem comum com uns e com outros, somos capazes até de renunciar a cousas inconcebíveis para vocês: do nome da língua, à própria língua e ao esquecimento e marginação da própria história. Porque, de facto, a nossa identificação emocional e sentimental, antes de que com esses conceitos, é com pessoas e com gentes.

          Mais uma vez, a “honra”, o “orgulho” e a “vinculação” pessoal ou familiar/clânica que vai da família à nação (real ou imaginada) e em que esses elementos compartilhados não são a base do relacionamento, mas a simples consequência e expressão dele.

          Sobre a bondade, a maldade ou o deprimente que possa ser isso, acho muito esclarecedor o artigo do Ernesto sobre a última vitória eleitoral de Alberto Núñez Feijóo e deixo que cada quem tire daí as suas conclusões e considerações pessoais, sem que isso mude nem um ponto do que aí é descrito:

          http://pgl.gal/triunfo-do-capitao-hook/

          Saúdos.

          • Venâncio

            Heitor,

            Acho curioso esse papel histórico dos galegos na formação dos reinos ibéricos bem-sucedidos (ou com mais sorte…). Parece-me, contudo, inadequada a sugestão duma certa “essência galega” (a designação é por minha conta) que teria penetrado e condicionado a existência desses reinos.

            Lembro-me de, há anos, certa reintegracionista (de resto, pessoa simpatiquíssima) dizer que os Descobrimentos portugueses tinham sido, “vendo bem”, obra de galegos. Isto, porque havia galegos participantes nesses empreendimentos, alguns com lugar destacado. Certo, mas também os havia genoveses e doutras proveniências.

            Essa tendência a sugerir que “vendo bem” a cultura portuguesa é galega, “vendo bem” as qualidades anímicas dos portugueses são galegas… é um daqueles discursos que possivelmente vos enchem de brios, mas não passam de retórica para animar a malta. Nada de errado, desde que guardeis isso para vós.

            Não, não existe nada parecido com uma qualquer “essência” galega, como não existe, nem jamais existiu, nenhuma “essência” portuguesa. O mal é que, com a crença nas essências nacionais, vêm as reivindicações, e com elas muita desgraça.

            A Galiza tem vindo a produzir uma elite direitista espanhola de topo, como acentua o Ernesto? É verdade. Mas a ‘leitura’ desse facto não devia nunca ser lisonjeira, e antes exactamente motivo de preocupação.

            Que tudo quanto era galego se tenha ‘diluído’ nos países vizinhos é puro lirismo. Mas afirmar que os galegos sacrificaram a sua autonomia e as suas vantagens próprias no altar do engrandecimento alheio, eis o que já toca os terrenos do delírio.

            Abraço.

          • Venâncio

            P.S.

            Concedamos que, em matéria de delírios nacionais, os portugueses são grandes heróis. Basta pensar no «Quinto Império» de António Vieira, de Fernando Pessoa, de Agostinho da Silva, império destinado a reinar sobre o Universo. 😉

          • Heitor Rodal

            Eu nada falei em essências, Fernando. Até porque afinal a “essência” galega – se tal existir – seja precisamente não ter essência imutável e afazer-se e acomodar-se ao que houver em cada momento. Veja lá que já mudámos no mínimo uma vez de língua própria e vamos caminho de mudar uma segunda. E o sol continuará a sair polo Leste e a se pôr polo Oeste.

            (e contudo, não deixa de ser chocante que lhe arrepie essa teórica essência galega a você, que reivindica que a sua língua é galega 😉 ).

            Porém, do que sim falei foi da origem galega desses reinos e de que os esforços galegos forom e são desenvolvidos lá e não no desenvolvimento da própria Galiza. Poderá dizer que é jogo retórico e delírio, mas há inúmeros exemplos atuais e passados disto.

            Porque, não, não é delírio, Fernando: é o pão nosso de cada dia.
            E porque talvez o orgulho dos galegos seja esse: não o que fazemos por/para nós, mas o que fazemos por outros.
            Somos-lhe assim, que lhe quer.

            Abraço.

          • Ernesto V. Souza

            É mesmo… existe uma longa tradição galega, a dizer isso mesmo que tu dizes, à nossa maneira, aparentemente descuidada ou como dizia o conde de Gondomar lá em 1614:

            … otro portugués mejor informado que fray Bernardo de Brito,
            decia que los gallegos tenian tanta honra y tan sobrada,
            que ellos mismos la arrastraban en las cosas de poca
            importancia, haciendo donaire de algunos cuentos de si
            mismos.

            e para que dizer mais de honras e orgulhos, se como dizia a minha avoa… sempre val mais um pouco de feito que muito de bem dito… 😉

          • Heitor Rodal

            Pois.

            Mas o certo, Ernesto, é que nos escritos, feitos e agir dos galegos percebo sempre a ideia subjazente de que a honra e o orgulho para os galegos não são o resultado das cousas realizadas e conseguidas para si próprios, mas para outros. E mesmo apesar de que esses outros talvez nem tenham reclamado isso, nem o valorizem, nem – vai lá saber – o precisem 😀 .

            Porque, por exemplo, quando os escritores galegos (Rosalia, Castelao, etc… e mesmo também escritores pretensamente “nacionalistas” ou “independentistas” atuais) se queixam amargamente do trato recebido da Espanha, eu mais que um alegado anti-espanhol, vejo a queixa e a dor por um amor não correspondido.

            E provavelmente outro tanto se pode dizer também dos reintegracionistas em particular a respeito de Portugal e dos portugueses. :DD

          • Venâncio

            Heitor: no meu Galego, não vejo nada de caracteristicamente galego. 😉

          • Heitor Rodal

            Tudo bem, Fernando. O café descafeinado continua a manter o gosto. 😉

          • Ernesto V. Souza

            Fernando… A ideia Galega ainda era possível em 1485. A ideia de uma Hespanha atlântica, com o trigo e as ovelhas castelhanas, do Ebro até o Guadalquivir ambas mesetas por meio e com os Portos do Cantábrico e Atlântico de Biscaia até Murcia, acho que essa ideia seduzia (e se procurava com continuados casamentos dinásticos) também os Portugueses e perdurou bem nos Avis…

            (Com capital em Lisboa, é claro… )

            Apenas a fugida dos Aragoneses do espaço Francês e a política mediterrânea e pro-Navarra dos Trastámaras castelhanos e aragoneses (com os Borja e Santillana por meio) trastocou [ou simplesmente demorou até uns 500 anos, permita-me a piada 😉 ] os planos galegos (que eram o dos principais portugueses e castelhanos até daquela) … desta mundança… com a evolução da língua e a literatura, as leis e mesmo a estratégia política e naval de todo o continente Europeu…

          • Venâncio

            Ernesto:

            E digamos que Portugal também não colaborou… Ou que os seus planos eram outros. Ainda por 1645 António Vieira S.J. andou por Madrid em missões secretas para reunir de novo as coroas. Sob um rei português, é claro.

          • Ernesto V. Souza

            Sob um rei português… essa é a chave… a questão é que os mais dos reis castelhanos eram meio portugueses (por parte de mãe) e vice-versa… e foram até que Portugal entrou na órbita Inglesa …

            Eu estou plenamente convencido de que a mudança de proporções geológicas, por tanto afetar o eixo, que aconteceu em ambas as políticas e histórias, com as suas línguas, leis e mesmo percurso do mundo depois, foi a mudança do par Castela-Portugal, pelo par Castela-Aragão… rompeu o baralho tradicional e extraviou o “jogo galego”…

  • Manuel Meixide Fernandes

    Caro Venâncio, eu estou a falar simplesmente da cultura comum, do lar comum. Acho que você não interpretou bem as minhas palavras. Não vou agora pegar em qualquer polémica histórica. É absurdo. Eu estou a falar de fraternidade, e você sente-se ofendido. E ainda mais absurdo. A Galiza e a sua cutura existem muito além das quatro províncias espanholas. O que quer você?. Que o gallego só exista na Espanha?. Eis o sentido da minha frase. Suponho que se você visita sites como o PGL será porque não é isolacionista. Ora bem, também posso mudar a minha frase e dizer Portugal e a sua cultura existem muito além das fronteiras portuguesas, ou se calhar o Brasil e a sua cultura existem muito além das fronteiras brasileiras… Mas como sou Galego escolho o nome do meu País, e ninguém deve sentir-se ofendido. Eu não me ofendo se alguém diz alguma das frases acima. Cá ninguém está por cima de outrem. Quando leio a palavra cousa num poema de Camões, palavra de uso comum na Galiza e hoje arcaísmo em português moderno, decato-me da profunda união que nos envolve. E quando um Português olha como um Galego escolhe escrever a língua comum, tornando-se livre do imperialismo espanhol, deveria sentir-se mais português do que nunca e apoiar com coragem a causa galega, que também é portuguesa.

    Grande aperta para todos

    • Venâncio

      Senhor Manuel Meixide Fernandes:

      Teria sido bom que, passados quatro dias, Vc tivesse lembrado, pelo menos resumidamente, o meu ponto de vista. Teria tornado claro que de modo nenhum me senti «ofendido» pelo que Vc escreveu.

      Mas vamos ao que escreve agora.

      Tenho a dizer-lhe que não existe nenhuma «cultura comum», nenhuma «fraternidade», nenhuma «profunda união», entre a Galiza de hoje e o Portugal de hoje. Une-nos o idioma (mas isso quase nenhum português o sabe) e podem unir-nos um grande amizade e um grande interesse mútuo. É tudo e, na perspectiva da generalidade dos portugueses, já é demais. A Galiza (repito-o as vezes que for necessário) não tem lugar nenhum no actual imaginário português.

      A sua linguagem animista («a causa galega, que também é portuguesa») é inteiramente estranha para Portugal. Mas ela foi, há uns vinte anos, a de certa Extrema-Direita portuguesa, entretanto desaparecida. Foi ela que produziu o detestável e vergonhoso livro “Galiza e Portugal, uma só nação”, em que alguns galegos, decerto bem-intencionados, colaboraram, e onde abusivamente se incluiu um texto do então já falecido Manuel Rodrigues Lapa.

      Por favor: reveja essa linguagem, e não crie problemas em Portugal a gente que, como eu, procura um relacionamento saudável com a Galiza.

      Uma excelente tarefa do Reintegracionismo galego (já várias vezes vo-lo lembrei) seria definir, com base em realidades e não em impressionismo e retórica, o que podem, hoje, a Galiza e Portugal significar um para o outro.

      Um abraço.

      • Ernesto V. Souza

        Fernando, um dia você também nos define que é o que entende por “um relacionamento saudável” …

        • Venâncio

          Caro Ernesto:

          Um “relacionamento saudável” é, em primeiro lugar, um… relacionamento. Explicitamente assumido, com continuidade, dinâmico. Com “dinâmico” quero dizer: com dinâmicas próprias, que se vão desenvolvendo e acumulando com naturalidade em novos sectores da convivência e da cultura.

          Existem hoje, decerto, bons relacionamentos, mas (afora os de tipo universitário ou económico) não estão enquadrados em estruturas sólidas e num mútuo empenhamento.

          Um relacionamento “saudável” implica transparência ideológica e abertura a sectores da sociedade diversificados. Sabemos que sobretudo na Galiza isso é um problema, pois existem sectores afins que, por princípio, mutuamente se excluem. Isto gera, nos intervenientes portugueses, não pouca frustração.

          Suponho que uma série de contactos exploratórios alargados seria um bom começo.

          Espero que me tenha feito entender. E, como vês, não adiei a resposta até “um dia”. 😉

          Abraços.

          • Ernesto V. Souza

            Mas Fernando… Portugal é um estado, tem interlocutores oficiais, que falam e têm relacionamentos com os parceiros de outros estados.

            A Galiza não é um Estado. Mas tem também interlocutores oficiais que falam e têm relacionamentos com os parceiros de outros espaços regionais/administrativos análogos ou inferiores às competências atribuídas aos estado, nos que se permite e é possível o relacionamento.

            Há instituições galegas que têm também bons relacionamentos com iguais, parecidos ou equivalentes de Portugal.

            Neste sentido as cámaras municipais e as universidades têm mesmo acordos, especialmente no espaço da Euro região Norte, como Portugal tem também na do Sul.

            Há iniciativas culturais em Galiza e Portugal, ou em parte de Portugal que facilitam também relacionamentos inúmeros e muito saudáveis.

            Há pessoas, de muito ou algum peso, no mundo cultural, educacional, literário… e também particulares que têm relacionamentos assim saudáveis…

            O reintegracionismo galego, atravês das suas Instituições, associações, projetos e pessoas diretamente só pode se relacionar nestes dous últimos espaços. Nos outros muito de esguelho e de jeito não direito.

            Os contatos com Portugal cada vez mais frequentes e normais, alargando-se aos âmbitos institucionais, acho, foram aumentando em paralelo ao aumento – com todo o contexto de limitação – de presença do reintegracionismo nas instituições e na própria Sociedade galega. Pode ser uma casualidade.

          • Venâncio

            Ernesto,

            Tudo isso que contas é verdade. Eu só chamei a atenção para a necessidade de, no nosso relacionamento, estabelecer estruturas e assegurar continuidade, de modo a tornar a Galiza, no contexto cultural português, uma referência, também a nível do estudo e da opinião.

            Só o conseguiremos pelo debate aberto e franco entre galegos e portugueses empenhados.

            Abraços.

  • abanhos

    que simples as cousas e todo dito bem aperfeiçoado e esclarecedor
    muito bom