Pequeno tratado de regions demarcadas.



(Prontuário para amigos e iniciados de ambas margens do rio Minho)

A Região Demarcada do Douro foi criaçom do Marquês de Pombal para delimitar o mais prezado território do país de vinho de qualidade. Boa denominaçom esta para aludir á distribuiçom territorial de identidades com sabor próprio. Infelizmente, as regions demarcadas comportam fronteiras e estas, obstáculos á livre circulaçom.

Desculpem o exórdio; as regions a que eu queria aludir som as variedades que configuram o movimento reintegracionista, por ordem de idade: AGAL, AGLP, AEG.

Vem a conto este pequeno mapa por um recente debate no PGL em volta de umha breve crónica de José Carlos da Silva acerca da recusa de Angola a assinar o AO 90 por causa de discrepáncias com a sua formulaçom, por desatender particularidades e “exceções à regra” na variedade angolana do português. Achei significativa a recusa como aviso oportuno ao constrangimento da norma galega num modelo como o AO 90 relevante apenas para tentar abrandar o contencioso linguístico luso-brasileiro. A adopçom de novidades deveria temperar-se, penso eu, no respeito às especificidades das diversas variantes e as suas tradiçons.

Do meu ponto de vista nom há muitas vantagens em mudanças gráficas sobrevindas que nos afastem da imagem e raiz etimológica da língua usada embora respeite a opiniom de que estes escrúpulos podam proceder de umha discutível preferência da vista sobre o ouvido. Ou quem sabe se da discrepáncia entre um ouvido exigente frente a outro preguiçoso.

Em todo o caso, decidim expor-me à eventual polémica formulando a questom da possível pertinência da posiçom angolana para a o caso recorrente da normativa do galego. Como era previsível, a pergunta acabou desatando umha viva polémica com mais de oitenta intervençons[1], estimulantes e civilizadas as mais embora nom faltasse algumha de tonalidade mais desabrida ou condescendente, nom rara no confronto de preferências e identidades.

A amplitude e temperatura do debate demonstram, mais umha vez, o persistente interesse da questom linguística e das identidades grupais contendentes e, o mais confortante, o crescente interesse polo presente e o futuro do galego nos segmentos ilustrados mais atentos da sociedade portuguesa e brasileira. As opinions procedentes de Portugal, tanto as de um amigo habitual e esperto na matéria como Fernando Venâncio como as de um actor mais recente mas igualmente criterioso e informado, como Luís Trigo, nom defraudárom. Ambos com contributos cordiais e próximos ante o problema aberto — com menos equaçons do que incógnitas, infelizmente — da recuperaçom do galego em chave «nom secessionista», quer dizer, soberana quanto ao castelhano e coordenada ortográfica, morfossintática e lexicalmente com as variedades lusa e brasileira, em acertada formulaçom do Carlos Garrido.

Na minha opiniom, o teor argumental das intervençons de procedência portuguesa contribui a moderar o entusiasmo lusocêntrico que vigora em território reintegracionista. As pretensas virtudes coesivas do ditongo “-ão” — sentenciadas há anos num luminoso artigo de Fernando Venâncio — ou a imagem e miragem da lusofonia, desconstruídas com elegáncia dialéctica por Eduardo Lourenço, fam parte essencial para mim do esclarecimento intelectual da heterogénea constelaçom galaico-portuguesa. Em negativo fotográfico luzem irredutíveis os “–om” e “–am” da galegofonia secular, indissolúveis na miraculosa água régia do português internacional, de incerto significado.

Talvez nom seja inoportuno rever o mapa de regions demarcadas do reintegracionismo, sine ira et studio, diante do patente afastamento do horizonte ideal de culminaçom do empenho restaurador originário.

As regions demarcadas do reintegracionismo tenhem o inequívoco ar de família que lhes confere a comum procedência da AGAL, nascida em 1981 e consagrada precocemente no Estudo Crítico de 1983. A comum filiaçom virou em inesperada dispersom quer por fugida ao elísio português quer por volta ao compromisso com a Galiza como tarefa.

O progressivo afastamento da AGAL do seu propósito fundacional e a sua honrosa história, ponteada polos Estraviz e os Corredoira, os Souto Cabo e os Iriarte, como nos recordava esse atento espectador dos avatares reintegracionistas que é Fernando Venâncio, é um fenómeno sem explicaçom. Certamente, o objectivo originário foi-se afastando sem remédio, empurrado polo rechaço frontal das entidades gestoras do idioma comodamente acampadas nos pórticos do poder. E também e sobre todo, o esforço empenhado viu-se progressivamente desafiado pola imparável presença do português na rede, nas viagens, na música, no convívio. Frontal rechaço doméstico escrito em verba orçamentária frente a convite gratuito ao convívio internacional irreprochável. Nesta situaçom, a tentaçom de arrombar o galego no rincom das línguas mortas, sem remorso nem pudor, pode chegar a fazer-se irresistível. Mudar para quê se o português está aí ao alcance esperando pacientemente desde Rodrigues Lapa?

Passa o tempo, depois de um breve período preparatório nasce a Academia Galega da Língua Portuguesa, AGLP, em setembro de 2008. A surpreendente titulaçom académica do novo foro pode suscitar perplexidade mas nom deixa de ser um rito celebratório do triunfo definitivo do galego (im)possível em brilhante formato internacional. Umha espécie de AGAL instalada no ponto de fuga da ruda adversidade urgente de Pondal. Um brilhante salto com vara através da história e a geografia.

O tempo corre, convoca-se Assembleia da AGAL para o 24 de outubro de 2016; umha esmagadora maioria consagra o tránsito da norma original á lusográfica, eufemisticamente aludida como confluência normativa. Desta apressada fuga adiante nasce a Associaçom de Estudos Galegos, AEG, com a intençom de perseverar na norma reintegracionista original. A nova denominaçom tem a sua carga semántica também, o substantivo “estudo” que a individualiza remete para umha nova revista, a Kallaikia, na tradiçom de pensar a circunstáncia adversa em chave publicística: A nossa Terra (1916 – 1932), Nós (1920 – 1936), Grial (1963 em adiante). A Kallaikia aponta a um voluntarioso reinício com a moral de resistência como única garantia.

Nada melhor para compreender o cerne da inevitável cissom de 2016 que a dissoluçom imediata da veterana Comissom Linguística da AGAL — despossuída já de tarefa e de sentido — e a sua migraçom para a AEG. Membros históricos da extinta CL-AGAL passam a desempenhar a mesma funçom na AEG: Beatriz Bieites, Maurício Castro, Jorge Rodrigues, Carlos Garrido, José António Souto, Paulo Valério.

AGAL, AGLP, AEG: três regions demarcadas de desigual peso e origem comum pavimentam o acidentado caminho da reabilitaçom da língua galega em chave portuguesa. Superados os inevitáveis receios de toda separaçom truamática, nom falta camaradagem na república reintegracionista. O trabalho sobre o galego herdado (AEG) convive com a vocaçom diplomática na ecúmene portuguesa (AGLP) e com a decidida promoçom da escrita em português e o empenho futurista de incorporá-lo ao sistema educativo galego (AGAL). A proposta binormativista que tenta instrumentar a AGAL parece ceder de bom grado a gestom quotidiana da língua ao livre arbítrio da Junta de Galiza, com reserva de domínio sine die sobre a difussom educativa do português quando ela chegar. O desenvolvimento da Lei 1/2014, do 24 de março, que suporta a incorporaçom do português às salas de aulas galegas, — a Lei Paz-Andrade referendado no Parlamento Galego por empenho do activismo reintegracionista — vai com calma como corresponde ao irrefreável entusiasmo do partido de Manuel Fraga polo idioma vernáculo. Entretanto, as Escolas Semente, seguem abrindo-lhe passo à educaçom galega das crianças sem apoio nem desmaio com o afouto concurso da tribo reintegracionista. Regions demarcadas em traço ténue, sabores diversos, dissabores partilhados, tentativas provisórias ante um horizonte incerto.

Um sucinto questionário de perplexidades pode servir de convite a umha reflexom a futuro:

**Poderia existir algumha correlaçom entre extracçom urbana e preferência polo cosmopolitismo português versus experiência rural e adesom ao galego como herdança?

**É possível observar algum viés de preferência dos círculos independentistas — penso em meios como Novas da Galiza, por exemplo — por algumha das três regions demarcadas?

**Qual é o papel desempenhado polas Escolas Oficiais de Idiomas na evoluçom das três regions da república reintegracionista?

**Poderia ser previsível umha futura coordenaçom das três modalidades num foro cooperativo comum?

**Está condenado o reintegracionismo a desempenhar um papel residual nos espaços de de informaçom e opiniom digital e editorial?

**Será possível romper a côdea do nacionalismo banal e a razom de estado que obturam o reconhecimento da singularidade nacional e linguística da Galiza por parte da sociedade galega (e da portuguesa)?

** Podemos esperar um contexto político mais propício às teses reintegracionistas quando o domínio da direita na Galiza declinar e a tese plurinacional do Estado avançar como reclama a nova esquerda?

 

Nota:

[1] http://pgl.gal/retificar-ratificar-acordo-ortografico/

 

Joám Lopes Facal

Joám Lopes Facal

Nascim e vivim na aldeia até os quinze anos, Toba, ao pé da ria de Corcubiom, frente ao Pindo. Figem-me economista despois de engenheiro e aí desenvolvim a minha atividade profissional até o momento de me reformar. A economia é ademais um vício particular: ler atentamente e tentar compreender a informaçom económica cotidiana, ter sempre sobre a mesa um livro de economia.
Joám Lopes Facal

Latest posts by Joám Lopes Facal (see all)


PUBLICIDADE

  • Ernesto V. Souza

    Não seríamos galegos se não debatéssemos. E francamente sempre é útil ver como os outros enxergam, aquilo que fazemos e portanto questionam ou perfilam o que nós pensamos dizer ou ser.

    Mas, mais que debater vou respostar o teu questionário:

    **Poderia existir algumha correlaçom entre extracçom urbana e
    preferência polo cosmopolitismo português versus experiência rural e
    adesom ao galego como herdança?

    – No meu caso sou urbanita e cosmopolita… Porém, pesno que essa ideia é mito. Neste PGL temos publicado uma quantidade boa de entrevistas (vid. AGAL HOJE) que demonstram o contrário… 😉

    **É possível observar algum viés de preferência dos círculos independentistas — penso em meios como Novas da Galiza, por exemplo — por algumha das três regions demarcadas?

    Depende da gente neles…

    **Qual é o papel desempenhado polas Escolas Oficiais de Idiomas na evoluçom das três regions da república reintegracionista?

    Acho que – as galegas- são um elemento muito negativo para a orientação do conjunto e da filosofia de re-construção da língua. Especialmente quando se tomam não como um elemento mais vitamínico, senão como modelo final.

    **Poderia ser previsível umha futura coordenaçom das três modalidades num foro cooperativo comum?

    Não. Tratar de procurar unidade de volta nisso é um absurdo cansativo e suicida. A cooperação, com respeito e tolerância para as ideias e as práticas doutros, das entidades e das pessoas é o que há que procurar.

    **Está condenado o reintegracionismo a desempenhar um papel residual nos espaços de de informaçom e opiniom digital e editorial?

    Não, é evidente que vai crescendo e ocupando espaços.

    **Será possível romper a côdea do nacionalismo banal e a
    razom de estado que obturam o reconhecimento da singularidade nacional e
    linguística da Galiza por parte da sociedade galega (e da portuguesa)?

    Com o modelo de nacionalismo galego atual: Impossível.

    ** Podemos esperar um contexto político mais propício às teses
    reintegracionistas quando o domínio da direita na Galiza declinar e a
    tese plurinacional do Estado avançar como reclama a nova esquerda?

    Duvido-o francamente. Acho que nesse sentido a Direita é mais favorável, na prática, ao reintegracionismo e especialmente a respeito do Português.

    • Celso Alvarez Cáccamo

      Concordo num 95%, Ernesto. Sim concordo com a penúltima, mas não com a final, que vão unidas: o nacionalismo atual não faz jogo com o reintegracionismo (como as roupas, vamos), mas o declínio da direita correlacionaria (logicamente) com o ascenso dum independentismo que sim que faz jogo com o reintegracionismo.

      • Ernesto V. Souza

        Na teoria, mas na atual correlação de forças o Independentismo é menos que o reintegracionismo (ou até parte do reintegracionismo)… a Direita, nem tudo é PP nem fascismo. Há um conservadorismo regionalista que pode ser perfeitamente proa do reintegracionismo na Sociedade galega…

    • Alberto Paz Félix

      Eu acho que a última declaração merece um matiz: “a Direita é mais favorável, na prática, ao reintegracionismo e especialmente a respeito do Português”.

      A “Direita” na Galiza tem um nome claro: PP (pois o resto de partidos de direita não têm representação). Até onde eu sei, o PP até o de agora só falou de teoria. Feijoo apoio “em teoria” o reintegracionismo em Intereconomía. O PP “em teoria” aprovou a Lei Valentim Paz Andrade. Está claro que o PP vê no português um interesse econômico, e um capital político que poderiam colocar no seu “medalheiro”.

      Mas, na prática, mostram o contrário. Nunca cortaram completamente os laços com Galicia Bilingüe, um grupo abertamente anti-reintegracionista (https://www.elcorreogallego.es/tendencias/ecg/galicia-bilingue-denuncia-al-conservatorio-de-santiago-por-utilizar-el-portugues-en-lugar-del-gallego/idEdicion-2014-04-05/idNoticia-861922/). A Lei Valentim Paz Andrade continua sem ser aplicada, e as vagas de professor de português ocupadas por professores de galego sem experiência.

      Eu acho que chegou o momento de encarar a realidade: o PP queria uma vitória política, e uma possibilidade de mercado em Portugal. Uma vez descobriram que, aprovada a lei, não se lhes pedia nada mais (além dum pequeno grupo de “lusistas” que, à hora de votar, são poucos), abandonaram o projeto. Até onde eu sei, desde a aprovação da lei no ano 2014, não há novidades que permitam perceber o contrário. De ser assim, peço novas relativas à introdução do português na Galiza nos últimos quatro anos que mostre um autêntico interesse por estudar e fazer uso ativo do português na Galiza.

  • Ângelo Cristóvão

    Lamento não ter podido seguir o debate, o fio de comentários sobre a crónica de José Carlos da Silva sobre a posição angolana em relação ao Acordo Ortográfico. Artigo que, para ter dado uma informação mais completa, deveria ter ocupado um número de páginas mais elevado. Mesmo assim, há dados e considerações que poderiam ter-se citado, como o facto de Angola ter financiado os trabalhos de elaboração do Vocabulário Ortográfico Comum, decorrente da aplicação desse tratado internacional, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Detalhe que parece ir em sentido inverso ao do pronunciamento da Academia angolana.

    Ou não. Acontece que também em Angola a posição em relação ao AO não é unânime. Achamos aqui um relativo parecido com os galegos. Não era uniforme no anterior governo, em que se registava uma diferente posição entre ministérios. De facto, o de Exteriores sempre manteve, nesta matéria, posições concordantes com a aplicação do AO, ou não beligerantes, na CPLP. Polo menos no período do Embaixador Hélder Moura Lucas, representante na CPLP. E acho que com o atual, Luís Fonseca, nada mudou. Existe um relatório com explicação dos “constrangimentos” que supostamente o AO causa a Angola (a AGLP dispõe dele, posso enviá-lo a quem o pedir), endereçado ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa, enviado durante o período de mandato do Diretor Executivo Gilvan Muller de Oliveira, e que foi respondido (mais claramente, contestado), polo resto dos representantes de países membros do IILP. O “problema” que coloca esse posicionamento angolano poderia resumir-se na questão da transcrição de vocábulos de línguas nacionais angolanas, como é o caso de “kwanza”. Opinam alguns em Luanda que a escrita “Cuanza” não reflete bem o que é essa moeda. O que me faz lembrar até que ponto “Coello”, “Galiña” e “non/nom” refletem a essência galega, enquanto “Coelho” e “Galinha” e “não” parecem ser outras palavras. Em 12 de outubro de 1990 o representante de Angola assinou o AO junto dos outros representantes, em presença da Delegação de Observadores da Galiza, como se indica no mesmo texto publicado no Diário da República de Portugal. Enfim…

    Resumidamente, pretendem alguns em Angola uma reforma do Acordo Ortográfico para incluir grafias e grupos consonânticos de uso em outras línguas. Fico por aqui porque o assunto não tem maior substância nem merece maior comentário. Os angolanos deveriam resolver em casa assuntos internos como este que, sem substância nem conteúdo, não merecem mais de 5 minutos de discussão. Ponto e final.

  • Ângelo Cristóvão

    Quanto ao artigo do caro Joám, acho certa contradição entre uma aparente disposição ao diálogo e a persistência no erro, ao afirmar, outra vez também, uma proveniência comum (“o inequívoco ar de família que lhes confere a comum procedência da AGAL, nascida em 1981”), como se nunca tivessem existido a Associação de Amizade Galiza-Portugal, as Irmandades da Fala da Galiza e Portugal, ou a Comissão Galega do Acordo Ortográfico de 1986 e 1990, por exemplo, de que a AGAL esteve insistente e reiteradamente afastada. Também não parece perseguir o mesmo objetivo de diálogo colocar os outros numa órbita excêntrica, como em “progressivo afastamento da AGAL do seu propósito fundacional”.

    • Ernesto V. Souza

      E não apenas… para que a contabilidade quadre bem, cumpriria também fazer menção da gente que entrou na cena do reintegracionismo, na AGAL (ou não na AGAL), a fins dos anos 90 e 2000:

      – alguma que fazia parte de escolas concretas e menores locais ou autodidatas e críticos vários.
      – outra que provinha dos mínimos ou ILG e que terminou aderindo – em função do grupo – as diversas escolas reintegratas com as suas práticas…

      É dizer, há relativamente bastante gente, eu próprio, que nunca aderimos, nem empregamos a norma AGAL, que tardamos muito em vencer as nossas reticências e suspicácias ante um reintegracionismo, maçador, debatente, cansativo e sem projeto real, quitando matizes.

      Para mim, por uma questão de lógica e pragmatismo, nunca achei boa a proposta AGAL, o esquema . É dizer. Para diferencialismos gráficos com apoio, já está o ILG-RAG, pode-se trabalhar dentro dele para irmos corrigindo em achega procurada de reintegração. Para diferencialismos léxicos e morfológicos, a contrário, parece mais útil uma norma portuguesa, que tem também formalização institucional e a escrita tem também aceitação.

      Eu, andei sempre nas beiras, por amizades e por lógica também, mas não integrei plenamente o reintegracionismo até o 2005, e nessa decisão pesaram dous fatores: a mudança de pessoal na AGAL, que já era um projeto mais social, mais aberto e mais prático, menos debatente e a crescente corrente que escrevia em português, e que sim me resultava mais atrativa.

      Por outra banda. Até que ponto o diferencialismo ortográfico é uma barreira contra a lusitanização? eu não vejo isso, desde logo, acho quanto a léxico, às pausas, o ritmo, a formalização uma evidente imitação em exagero – que a mim me parece snobista, classista e ridículo – do português moderno e ao uso em muitos dos mais destacados defensores da norma AGAL.

      • Ângelo Cristóvão

        Bom, o número de entidades reintegracionistas de âmbito local foi crescendo na década de 90, e citá-las todas não é facil. Até porque o caráter reintegracionista é dificilmente identificável só polo uso de uma ortografia.
        Estamos num momento interessante, esse em que já não há ninguém imprescindível, porque o movimento pró-lusófono acaba sendo de aceitação geral nos âmbitos da cultura galega, como também no plano da políltica institucional. Poderia dizer-se que a questão da integração da Galiza no espaço lusófono (a CPLP é um claro exemplo), e o reconhecimento da unidade da língua passou das margens ao centro. Entrou na agenda de todos os partidos políticos o multidiscurso de aceitação do português como variedade do galego (para uns a forma legítima, para outros só uma norma útil), que mais cedo ou mais tarde levará os poderes públicos a tomar decisões concretas. Um instrumento para avançar é a lei Paz-Andrade, que o Governo galego, em termos gerais, não cumpre. Continua a pedir tempo para aplicá-la.

        Do ponto de vista institucional de Portugal e, em geral, dos países de língua oficial portuguesa, o problema e o campo de jogo está bem identificado há muito tempo. Corresponde aos galegos dar os passos oportunos e demonstrar com atuações concretas que realmente querem incorporar-se ao espaço Lusófono.

        No caminho sempre existem ricsos. Um deles é que oportunistas e falsos amigos, ou amigos falsos do reintegracionismo galego desviem a atenção e queiram instituir-se em árbitros. Outro, não menos grave, é o intento de apresentar a escrita e o percurso do isolacionismo galego como “lusófono”, sem mudar um milímetro o uso da ortografia castelhana, as atitudes beligerantes contra o reintegracionismo e as políticas de exclusão institucionalizada. Ironicamente, diria que podemos preparar-nos para aceitar que todos podem chamar-se de “lusófonos”, mesmo os que não usam o português nem querem saber nada dele. Lusófonos de toda-la-vida.

  • Venâncio

    Com atraso, mas ainda a tempo, e sobretudo com proveito, leio o artigo do Joám. Com proveito, porque o Joám possui, e põe à disposição de todos, uma invejável capacidade de conjugar visão de conjunto e clareza de referências.

    Na minha perspectiva, o abandono (explícito ou encapotado) da Norma AGAL como proposta e como projecto foi uma fuga em frente e sem critérios. Sem critérios, porque o sector reintegracionista que promoveu essa fuga em frente não consegue produzi-los. Não dispõe de conhecimentos suficientes sobre a realidade do idioma, seja no atinente à sua diversidade de normas (consequência da muito específica história de difusão do Português), seja na sua mera materialidade linguística.

    Não, no seu conjunto, o reintegracionismo não brilha pelo interesse, menos ainda pela curiosidade, pelo idioma como produto histórico (e, para começar, produto galego!) e como fruto de processos em contínua gestação. Vive numa concepção tranquilamente a-histórica e atemporal do idioma.

    O Ernesto tem razão em denunciar a prossecução dum “modelo lusitanizante”. Sim, ele só poderia produzir uma linguagem caricatural, como aconteceria a um português que se pusesse a servir-se da gramática ou dos tiques de linguagem brasileiros (e vice-versa).

    Só me pergunto por que sois tão parcos na gramática e nos tiques de linguagem… galegos. O Português que criais é, quase sempre, uma língua em que não ‘ouvimos’ os falantes.

    • Ernesto V. Souza

      Fernando… as cousas levam tempo… e mais tempo quando não se dispõe de recursos e de profissionais. Paciência.

      Contrariamente o que a gente acredita a estratégia central do lobby isolacionista não foi laminar e exterminar a oposição reintegrata, foi comprar cérebros e profissionais: escritores, intelectuais, professores de Universidade… o PP (e nomeadamente Filgueira e Fraga), soube como fazer as cousas e o resto de Partidos e elementos institucionais seguiram… e a gente não é parva (especialmente a que não é parva) e d’algo há que viver.

      Isto, por outra banda explica, que haja muito cripto-lusista e não menos de reintegraCinistas…

      As cousas estão a mudar… a crise geral que vivemos é um momento de mudanças e viradas… e quem sabe por onde na Galiza vai apostar o Capital… Portugal, Brasil… e francamente… vivemos tempos surpreendentes… nada sabemos e menos podemos saber.

  • Venâncio

    Joám,

    A propósito da posição angolana: o Acordo Ortográfico de 1990 tem uma contradição profunda, e insanável, que já expus num artigo no Público.

    Por um lado, torna a Pronúncia de cada país o primeiro critério para a grafia (e eu sou a favor dessa opção). Por outro, não cuida de criar “espaço” para essa prioridade, uniformizando aqui, mas desuniformizando acolá.

    O AO90 é um produto mal feito de raiz. Não foi por acaso que todas as universidades portuguesas deram, na altura, pareceres negativos, explicitando os desacertos. O AO90 é um produto não da ciência, mas da vontade. Um produto ideológico, e não linguístico.

    E onde o ideológico mais se denuncia é no facto de todos os grandes promotores portugueses do AO90 (Casteleiro, Reis, Cristóvão, Laborinho) serem, também, grandes e explícitos admiradores da ‘Hispanidad’. Sonharam e sonham com um Português que consiga igualar o Espanhol em uniformidade universal.

    Eu gostaria de saber como encaram isso os seus promotores galegos.

    • Ernesto V. Souza

      Fernando… Fernando… os galegos… ai, os galegos… que mal mos entende 😉

      Os galegos não desafiam, se tal parece é que estão de brincadeira… garanto… são mais temíveis quando aparentam que deixam fazer… e fazem depois…

      Se os chineses aguardaram dous séculos para começar a cobrar a dívidas das guerras do ópio…

      • Venâncio

        Eu não falava dos galegos, mas dos promotores galegos do AO90… Não te ponhas a desconversar.

        • Ernesto V. Souza

          A mim, Fernando, como me vai chocar isso? se eu moro em Valhadolid, em pleno centro, e vejo dia e dia os rastos dos galegos conformando essa Hispanidade… ab ovo…

          • Venâncio

            Continuas, Ernesto, a desviar a cara do assunto. Não é de galegos nem dos galegos que falo… Mas pronto, às vezes uma não-resposta é também uma resposta. E até eloquente.

          • Ernesto V. Souza

            Fernando, mas eu não posso afirmar o que não sei. Se o senhor considera não apenas provado quanto pertinente que os acordantes galegos têm o cérebro espanholizado… Que lhe imos fazer… Eu só digo que se tal fosse a realidade… Nem me importaria, nem me preocuparia… Porque seria o mais lógico para um galego.

            E se para um português é algo estranho… Pois bote-lhe sucre..

          • Venâncio

            Ernesto,

            O mínimo que eu poderia pedir-te é que me lesses bem. Não escrevi, nem nada parecido, que «os acordantes galegos têm o cérebro espanholizado».

            Escrevi outra coisa. Que os pro-mo-to-res galegos do AO90 dão objectivamente o seu apoio. e com que entusiasmo o fazem, a um produto que é promovido, em Portugal, por notórios entusiastas do Espanhol, da Espanha e da Hispanidad.

            Já aqui reproduzi os apelos de Ana Paula Laborinho e de Malaca Casteleiro (este feito em Ourense, numa cerimónia da AGLP) a uma colaboração internacional das duas línguas, Espanhol e Português. E Carlos Reis, a quem muito admiro, tem uma alta, e merecida, condecoração espanhola.

            Que nada disto te faça pensar, eis o que aceito, mas muito me maravilha.

          • Ernesto V. Souza

            Somos pobres… E num sabemos mais… O nosso é o pão só chanza…

            A mim todos esses que destaca parecem-me da mesma raça, que os Casares, Villares, Barreiros, Freixanes, Freixeiros e Monteagudos.. por nomear alguns exemplos já aposentados ou com um pé no estribo…

          • Venâncio

            Mas, Ernesto, esses que citei são a fina-flor do AO e da Lusofonia, em Portugal.

          • Venâncio

            Não sei se falais com eles sobre a Galiza. Mas, se o fizerdes, ouvireis que a Galiza é Espanha, e ponto final. Dar-vos-ão a gaita, se estiverem em boa maré.

          • Ernesto V. Souza

            Mas é que isso há de uma vez que começar a dizer e com orgulho: a Galiza é a Espanha e Castela em boa medida não é mais que a mascara de Guerra da Galiza. Do mesmo jeito que Portugal é a nossa Suíça, o nosso banco para guardar e salvar a língua.

            O discurso político e linguístico do nacionalismo galego até é um erro maiúsculo, por imitação a vascos e catalães, bem intencionado, mas que nem nos serve, bem nos aproveita e menos espelha o que fomos, somos e pudéssemos ser.

            O problema acordo, disfarçado de identidade e nacionalismo, é assunto aduaneiro, afeta as indústrias editoriais e ao comércio do livro… E aos intelectuais portugueses e brasileiros… A nós, não. A nós nos favorece toda possibilidade de livre circulação e a ideia de um acordo.

          • Venâncio

            Ernesto, não retorças de novo o que escrevi.

            Não estou a falar do que tu achas que é a Galiza, mas do que posso garantir-te que esses gurus portugueses que visitam a AGLP acham dela. Eles só a concebem como entidade firmemente ancorada do Estado Espanhol. O seu interesse pela Galiza é primário, é marginal, é folclórico. Isso vê-se por aquilo que dizem e por aquilo que deixam de dizer.

            Mas agora tenho de perguntar-te: porque é que os vossos contactos públicos portugueses hão-de ser tão sistematicamente com as forças que não se interessam pela problemática galega?

          • Ernesto V. Souza

            Ah… E quais se interessam? diga para eu saber…

          • Venâncio

            A sério? Não sabes? Então tenta alguma coisa de ANTÓNIO MEDEIROS.

            — Rio de memórias e de esquecimentos. Nacionalismos e antropologias na Galiza e em Portugal, Lisboa, ISCTE, 2002

            — «Discurso nacionalista e imagens de Portugal na Galiza», Etnográfica, Vol. VII (2), 2003, pp. 321-349 [tb em http://ceas.iscte.pt/etnografica/docs/vol_07/N2/Vol_vii_N2_321-350.pdf%5D

            — «O lugar onde os cantos são ceives. Discurso nacionalista e imagens de Portugal na Galiza», Etnográfica, ISCTE, Lisboa, [2004], 7-2, [tb em http://www.galiza.indymedia.org]

            — Dois lados de um rio. Nacionalismos e etnografias na Galiza e em Portugal, Lisboa, Instituto de Ciências Sociais, 2006

          • Venâncio

            E também:

            IVO CASTRO, «Galicia no espazo cultural e simbólico da Lusofonía» [2008], in Sociedades plurilingües: da identidade á diversidade, Santiago de Compostela, Consello da Cultura Galega, 2009, pp. 219-252
            Tb em: A Estrada de Cintra. Estudos de linguística portuguesa, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2017

            [consellodacultura.org/files/2008/06/ivo_castro_texto.pdf]

          • Venâncio

            E também:

            Fernando Venâncio, «A questão galega e o público português. Uma experiência na Internet (1998-2001)», in Elias Torres (org.), Actas do VIII Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas (Santiago, 2005), vol. I, 2008, pp. 557-570

          • Ernesto V. Souza

            O senhor lê alguma cousa das que eu escrevo a sério…
            ou apenas em diagonal estas marginalias a comentário que por sport fazemos ambos… ?

            Medeiros para mim está superado. Estava bem para o discurso nacional e AGAL dos 80 90… Venho de citar e dizer em Pangaleguismo…

          • Venâncio

            Eu leio sempre com atenção o que escreves.

            Pediste-me o que escreveram os outros (não os gurus portugueses da AGLP) sobre a Galiza. Dei-te sobre isso a informação que tenho aqui disponível. E, caramba, “Dois lados de um rio”, de 2006, já está “superado”…

            Tu citas e tratas do Pangaleguismo. Certo. Ele faz agora 100 anos… Mas ainda não está superado? Não é, ele, simples embora importante “História”?

          • Ernesto V. Souza

            Não pedi escritores, pedi as forças, os movimentos, os grupos as grandes figuras que em Portugal se interessam pela Galiza…

            História? Algo que não aconteceu?

            A questão e que nos últimos anos a análise da identidade galega foi transformado o reintegracionismo e a ideia de lingua. Os marcos não são mais estaticos e não são os que eram… Há quem quer fixar demarcações… Necessita e explica para a análise e a proposta identitária e há quem se situa numa ideia ecumenica da língua e da Galiza…

          • Venâncio

            Tu pediste “os outros”, e só agora específicas… Como podía eu concretizar, se tu mesmo não concretizas?

            Ora bem, os outros são muito poucos: esses que apontei, mais o Marco Neves, o MIL e alguns investigadores universitários. De resto, escasseiam em Portugal escritores, forças, movimentos, grupos, grandes figuras (estou a citar-te) para quem a Galiza é objecto de interesse ou pública referência cultural.

            Só tenho a acrescentar que o teu último parágrafo abre perspectivas interessantes… Pena que não sejas mais explícito.

          • Venâncio

            E outra coisa: não percebo que chames “escritores” a Ivo Castro, a António Medeiros ou a mim. Poderias explicar?

          • Ernesto V. Souza

            E logo que somos, Fernando, eles, o senhor eu… somos empresários, políticos, filósofos?

          • Venâncio

            O Ivo Castro é historiador da língua, tal como eu. O Madeiros é antropólogo. Assim nos podes tranquilamente considerar.

          • Ernesto V. Souza

            ah, de acordo. Terei em conta… A mim pode tratar-me por escritor, ou melhor por narrador itinerante … outra cousa não sou…

          • Ernesto V. Souza

            As suas palavras foram:

            “Mas agora tenho de perguntar-te: porque é que os vossos contactos públicos portugueses hão-de ser tão sistematicamente com as forças que não se interessam pela problemática galega?”

            Daí a minha surpresa:

            “Ah… E quais [forças] se interessam? diga para eu saber…

          • Venâncio

            Chamei “forças” a a académicos e a burocratas tipo CPLP.

            Já muitas vezes aqui vos sugeri contactos com a Opinião: jornalistas, investigadores, professores, etc. em Portugal. Esses, sim, podem influir em atitudes mais vastas.

          • Ernesto V. Souza

            Esses… passam de nós… acha que não tentamos? acha que somos idiotas?

            Sorte se não nos tratam como espanhóis fascistas e loucos ou como possíveis imigrantes e até como galegos… tenho ainda frescos os desprezos de jornalistas, académicos e intelectuais com algo de peso, no facebook e por outras vias.

            E, francamente e depois de 4 anos a escrever na Viagem dos argonautas, de tratar com pessoal do MIL… tenho clara qual é a interação possível com os mais dos portugueses, mesmo de esquerda e abertos para a Galiza… nenhuma…

      • Joám Lopes Facal

        “Pérfidos galegos” a começar por Afonso Enruques, Ernesto.

        https://gl.wikipedia.org/wiki/Afonso_I_de_Portugal

    • Carlos

      Mas, Venâncio, como bem sabemos todos, e muito especialmente os galegos sensibilizados com a questom do idioma, as escolhas e decisons que se tomam à volta da língua nunca som inocentes nem fortuitas. Acho que é evidente que o elemento «ideológico», como você refere, sempre se manifesta, tornando-se, dependendo do caso, mais ou menos explícito. O exemplo do galego (o galego de aquém-Minho, claro), com umha secular história de conflito, é paradigmático nesse sentido.
      No respeitante ao AO, ainda sem conhecer todos os motivos que podem impelir um falante de português a ser crítico com ele, podo intuir que, para além de aspetos puramente lingüísticos, também haverá questons extralingüísticas que exacerbem a crítica realizada. Naturalmente, pressuponho e assumo que as razons apresentadas para reprovar o conteúdo do AO som variadas.

      No atinente a esse fascínio que exerce a ideia da Hispanidade entre algumhas figuras da língua e cultura portuguesas, reconheço-lhe que fico com vontade de saber. Há em Portugal certa «inveja» pola sólida unidade existente, neste caso no ámbito lingüístico, entre o conjunto de países que se exprimem em espanhol? A seu ver, a realidade lingüística do castelhano foi um ideal que exerceu influência sobre o espírito com que nasceu o AO?

      Abraços!

      • Venâncio

        Carlos,

        O fascínio dos portugueses pela Espanha é uma constante da nossa História. Em matéria linguística, isso é evidente desde 1450. Existe uma perene admiração por esse idioma poderoso. Sobre isso escrevi vários trabalhos. Mesmo quando se toma distâncias, vê-se que é por correcção política…

        Amanhã continuo.

        • Venâncio

          Os portugueses começaram a virar-se para Castela quando, a meados do séc. XV, assinaram a paz. A partir desse momento, Toledo era, para o português com posses, a “civilização”. Ali se ia vestir, ali se ia informar do que havia no Mundo, ali queria ser visto. E com esses portugeses voltavam as modas castelhanas, os seus ‘valores culturais’, as suas criações, a sua poesia.

          Sobre isso, e muito mais, publiquei o artigo:

          «Atitudes portuguesas face ao castelhano», in Eva Guggenberger / Henrique Monteagudo / Gabriel Rei-Doval (eds.), Contacto de linguas, hibrididade, cambio: contextos, procesos e consecuencias, Santiago de Compostela, Consello da Cultura Galega / Instituto da Lingua Galega, 2013, págs. 315-326

          Expus a relação dos portugueses com a língua espanhola nestoutro artigo:

          «O castelhano como vernáculo português», Limite. Revista de Estudios Portugueses y de la Lusofonía, nº 8, Universidad de Extremadura (Cáceres), 2014, 127-146

          Julgo que, se procurares aqui no PGL, encontrarás alguma coisa do que escrevi sobre estas matérias.

          Abraços.

          • Venâncio

            Mais alguns dados esparsos.

            Os primeiros 8 livros impressos em Portugal foram traduzidos do castelhano. Isto mostra quão intensa era a dependência cultural frente a Castela já em finais do século XV.

            O primeiro dicionário publicado em Portugal, o de Jerónimo Cardoso, por volta de 1560-70, é uma adaptação do dicionário castelhano mais importante na época, o de Nebrija.

            Entre 1640 (ano da Restauração!) e 1720, cantaram-se nas mais importantes igrejas de Portugal numerosos vilancicos. Durante todo esse período, 80% deles eram em castelhano. Estão todos publicados e descarregáveis da BNP (purl.pt).

          • Joám Lopes Facal

            A Fastiginia, um bom exemplo do fascínio espanhol (para nós o substantivo é problemático) sobre o imaginário português no tempo em que se redigia o Quixote

          • Joám Lopes Facal

            …Dom Quixote, dizíamos, quando Espanha começou a descrer de si mesma e dos livros da cavalaria…

          • abanhos
          • Venâncio

            Sim, Alexandre. magnífico testemunho de como, em Portugal, o Castelhano era parte integrante da cultura de massas, além de ser da da elite.

            O autor lembra alguns diálogos em português em peças de teatro espanhola. Posso garantir-te que foram poucos, curtos e num péssimo português, cheio de hiperlusismos… aquilo que se pensa que seja “português”.

            Em contrapartida havia CENTENAS de peças em castelhano de autores portugueses… para representar para portugueses. No artigo citam-se os principais desses, mas falta ainda o mais importante, Simão Machado.

            E assim continuou depois da Restauração. As companhias de teatro espanholas percorriam Portugal. Assim entraram no português tantos vocábulos de feição popular espanhola. Pelos livros e docentes espanhóis, entravam os de carácter culto.

            Só acrescento que por cada lusismo em uso no espanhol existem no português pelo menos 60 castelhanismos. O amor, o interesse e a admiração foram sempre unilaterais. 😉

            Lê aqui no PGL o meu artigo “O português diverte-se em espanhol”.

          • Venâncio

            Como mostrei num artigo recente, uma boa parte dos “lusismos” em castelhano são, na realidade, galeguismos. É importante que alguém o diga.

          • Joám Lopes Facal

            Lamento nom ser capaz de entrar na net para recuperar o artigo.
            Sou coleccionista veterano de artigos do nosso amigo galeguista Fernando Venâncio

          • Venâncio

            Se te referes a este último artigo, ele não está na Net. Eu envio-to por mail. Abraço, meu colecccionista. 😉

          • Joám Lopes Facal

            Agradeço de coraçom, se for possível gostaria tambén de “O português diverte-se em espanhol” de tam gozoso título como tortuosa localizaçom.
            Por falar nisso, enquanto esperamos pola obra prometida, que tal umha colectánea de artigos esparsos com umha boa introduçom contextualizadora?

          • Venâncio

            Muito grato pela sugestão, Joám. Já pensei nessa fórmula, mas iria reunir material demasiado díspar.

            Continuo a trabalhar num livro de médias proporções sobre a origem galega do português (geralmente aceite pela linguística portuguesa), em que mostrarei (e isso é novo) que, quando surge Portugal, o idioma está, na realidade, “pronto”, isto é, que as principais estruturas dele, válidas até hoje, já se constituíram em “norma línguística” complexa e estável.

            Abraço.