Paula Godinho: “Resistir, do latim resistere, que vem de stare, significa manter-se de pé, contrariar a gravidade – ou seja, está na base da nossa própria história, enquanto humanos”



A conhecida antropóloga Paula Godinho editou com a Através Editora e Letra Livre O futuro é para sempre um livro focado no mundo rural galego e português. Na sua obra parte em busca de práticas possíveis, a partir das quais os seres humanos delineiam futuros, em situações de mudança.

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Paula Godinho é uma antropóloga portuguesa para a qual a Galiza é um foco recorrente das suas pesquisas e interesses, como é o caso de O Futuro é para Sempre. De onde nasce este afeição pelas cousas da Galiza?

Quando queremos perceber as nossas escolhas e por que razão se preferiu racionalmente um terreno de estudo, é melhor interrogarmo-nos sobre lados sensíveis. É fácil ganhar afeição quando se faz trabalho de campo na fronteira.

A Galiza entranhou-se-me pela via dos sentidos, como tantas vezes sucede, em vindas sucessivas de férias, desde o início dos anos 1980. Percorria o país galego e desfrutava-o, ia conhecendo gente, saboreava a comensalidade farta, as festas, a música, a literatura, e fruía o carinho dos amigos e amigas. Assim continua a ser, em trabalho, com vindas sucessivas, na militância em torno da memória antifranquista, mas também nos momentos em que estou de férias. Como as identificações são múltiplas, além de ser mulher, mãe, antropóloga, etc., também sou galega do sul, como costumo dizer.

 

Estamos perante um livro didático e erudito, não é apenas um estudo antropológico social mas um verdadeiro ensaio multifacetado com forte carga humanística e mundana, focado em questões de proximidade social que penso tem a capacidade de empatar e persuadir ao leitor… um manual de resistência, que cria um espaço de refúgio ao tempo que abre e descobre a realidade. O livro é uma antropologia da resistência, das resistências?

Há muito que trabalho sobre resistência, e, mais uma vez, foi a Galiza que abriu essa brecha no que era o meu estudo sobre reprodução social, ou seja, sobre o modo como as sociedades continuam a ser como são. Numa das aldeias da fronteira portuguesa, onde estive no final dos anos 1980, Cambedo da Raia, viria a saber que ali fora dado acolhimento a maquis galegos, a seguir à guerra.  Ou seja, fez-me perceber que além das continuidades, havia que compreender as rupturas, que podem ser desejadas ou que podem ter ocorrido sem que as quiséssemos. Como se lida com esses momentos de corte nas nossas vidas?

O livro actual retoma uma antropologia que se centra em três formatos de resistência, porque ela nos é constitutiva, enquanto humanos. Resistir, do latim resistere, que vem de stare, significa manter-se de pé, contrariar a gravidade – ou seja, está na base da nossa própria história, enquanto humanos.

 

Para além das realidades políticas modernas e nacionais (nacionalistas) o livro é um manual que descreve outras formas de confronto e contestação próprias do mundo rural, galego e português. Estão vivas essas formas? têm percurso como modelos e caminhos no ativismo atual? ou são vozes condenadas a esmorecer?

As formas de protesto que refiro são variadas, desde o escapismo, às «lutas imediatas (em que não se procura um responsável por um estado de coisas que esteja acima, e se considera como inimigo o que está ao lado e disputa, no quotidiano, bens ou favores), e até aos modos de acção colectiva.

Acompanhando todos estes modos de resistir, antes e depois de momentos mais acesos, recorre-se às «armas dos fracos», que podem ir do rumor, ao roubo, à lentidão no desempenho de tarefas. Estes modos de actuação não têm protagonistas, mas têm resultados. Como lembrava Immanuel Wallerstein, as pessoas resistem tão activamente como podem e tão passivamente como devem, no mundo rural como no urbano, nos locais de trabalho e nas universidades. Por vezes, mesmo dentro de casa, quando os formatos de dominação ali estão presentes.

Os modos de acção dependem da densidade da rede social em que cada uma se integra, que a torna mais forte ou mais fraca, e, por outro lado, de conjunturas políticas, económicas e sociais que propiciam o protesto aberto ou sugerem formas mais subtis.

 

O futuro é para sempre é um livro para ler de seguido, para ler por capítulos, ou simplesmente para petiscar. Um dos grandes méritos do livro é a língua e essa narrativa sedutora. A forma é procurada ou nasce da sequência de afetos, memória coletiva e experiências que envolve os leitores?

Engraçado, quando fala das modalidades de leitura do livro, lembrou-me o Córtazar e a Rayuela. Não tinha pensado nisso quando escrevi O futuro é para sempre, mas tem alguma razão de ser. Há três etnografias distintas, que podem ser lidas por separado, pois creio que cada uma faz sentido por si, mas o livro tem um problema geral, ao qual respondo através do que aprendi sobre o Couto Misto, as costureiras galegas e as mulheres e homens do Couço, no sul de Portugal. A forma tem uma história que sai de uma personagem de papel, a partir de Almudena Grandes e El corazón helado, como demonstro na conclusão. Tudo se entrelaça, porque somos seres totais, cientistas sociais que gostam de literatura, de gente e da vida.

A história do velho que planta uma árvore para os netos receberem os frutos é oriental, é africana, e na Literatura Galega há mesmo uma versão de Manuel Lugris Freire, publicada em forma de conto, “A Nogueira”, a fins do século XIX. Esta “coincidência” de valores, identidades e resistências evidenciam um fator universal das culturas camponesas ou têm uma transmissão readaptada do culto no popular?

O meu vizinho João, de Casares, em Vinhais, ajudou-me a perceber que a ausência de esperança não é natural. Vivemos um tempo de presentismo, em que nos foram dizendo que a história chegou ao fim, e que o futuro seria improvável. Plantar castanheiros, sabendo que não se provarão os frutos, ajuda-nos a ver, de modo simples, que o futuro é para sempre.

 

Pasolini foi dos primeiros em chamar a atenção e descrever a destruição da Itália camponesa tradicional e da sua língua, ritmos, identidade e cultura dos anos 60-70. O capitalismo, a industrialização e o consumismo parece que varrem com tudo. Essa descrição da Itália é o que está a acontecer hoje na Galiza e em Portugal, com 20, 30 anos de demora e mais rapidamente?

Há movimentos inversos e gente que, em sentido contrário, procura novas formas de viver a ruralidade, e aí reencantar o mundo. Não o fazem necessariamente em fuga em relação às cidades, mas iluminados por vontades de fazer coisas diferentes.

O «mundo velho» agrícola não era propriamente o paraíso, e convém não ser idealizado. Quem o reinventa hoje, quem integra os velhos que estão nesse mesmo mundo rural, tecendo comunidades mais harmoniosas e felizes, está a construir o devir. Nas cidades há também quem o vá tentando. E isso é o que importa.

 

  • Texto Publicado em Festagal!, 8, 25-VII-2017, p. 22-23

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza (Corunha, 1970). Formado como filólogo, especializou-se e publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. Colabora também no Novas da Galiza, é sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa. Trabalha, como bibliotecário na Universidade de Valhadolid (Espanha).

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  • Galego da área mindoniense

    Case fala máis o entrevistador cá entrevistada…

    Bom, agora a sério; grande entrevista, das melhores que vi no Portal da Língua Galega. Cousa bem difícil de lograr, porque atopar ũa entrevista “nom boa” no PGL nom é doado.

    O nível das entrevistas adoita ser bom, peró seguirdes melhorando e subindo o nível… isso si que tem mérito. O reintegracionismo será um movimento menor, peró já quigera o isolacionismo contar coa sua calidade. Isse é o caminho a seguir. Aginha nos am ter em conta, nom lhes vai quedar outra.

  • abanhos

    Linda entrevista, maravilhosa entrevistada, e muito bom livro de leituras gorentosas