O padrom galego reintegracionista: após trinta anos, cheio de vida, pleno de potencialidades



A Comissom Lingüística da Associaçom de Estudos Galegos (CL-AEG) acaba de lançar (no passado 25 de julho) um Compêndio Atualizado das Normas Ortográficas e Morfológicas do Galego-Português da Galiza, contributo codificador que reúne as prescriçons da escrita histórico-etimológica da variedade galega do galego-português (até agora, dispersas em vários documentos), simplifica algumhas duplicidades e acrescenta um pequeno número de novas disposiçons, as quais incrementam a coerência e a eficácia desta proposta normativa de caráter reintegracionista.

Continuadora desde 2016 da Comissom Lingüística da AGAL, a CL-AEG é o organismo académico incumbido de regular o padrom galego reintegracionista, cujos fundamentos fôrom estabelecidos no decénio de 1980 por um elenco de conceituados filólogos através da elaboraçom e publicaçom do Estudo Crítico (das normas ortográficas e morfológicas da RAG e do ILG), em 1983 (1.ª ed.) e 1989 (2.ª ed.), do Prontuário Ortográfico Galego, em 1985, e do Guia Prático de Verbos Galegos Conjugados, em 1988[1]. A esses textos normativos basilares, a Comissom Lingüística (constituída em 1982) viria a acrescentar, com o decorrer do tempo, novos documentos codificadores, como, principalmente, a Atualizaçom Normativa do ano 2010, que aplica ao galego o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, de harmonia com o seu calendário de implementaçom em Portugal e no Brasil, e O Modelo Lexical Galego, de 2012, que define de modo eficaz e económico as linhas-mestras da padronizaçom lexical do galego-português da Galiza.

A proposta normativa da Comissom Lingüística, até agora focalizada sobretodo nos domínios da ortografia, da morfologia e do léxico, insere de modo efetivo o galego no tronco galego-português, preservando-lhe, ao mesmo tempo, os legítimos carateres peculiares que o individualizam no seio da Lusofonia, em concorrência com as variedades lusitana e brasileira da nossa língua. Inspirada na longa tradiçom teórica do reintegracionismo, a qual já pode rastejar-se nas reflexons lingüísticas dos padres Feijó e Sarmiento e que se entranha no galeguismo cultural e político desde as suas origens (Murguia e o seu discurso fundacional da RAG; Eduardo Pondal e a suas referências a Camões e aos irmaos lusos; Biqueira, Vilar Ponte, Geraçom Nós, com Castelao e Risco à cabeça, Guerra da Cal…), a codificaçom idiomática da Comissom Lingüística apresenta como antecedentes mais próximos, acabados e conseqüentes, por um lado, as Directrices para a Reintegración Lingüística Galego-Portuguesa (1979), do filólogo José Martinho Monteiro Santalha, as quais representam a primeira formulaçom sistemática de umhas normas ortográficas e morfológicas cabalmente reintegracionistas (empreendimento codificador, aliás, que em 1976 fora firmemente encorajado nas páginas da revista Grial polo grande filólogo catalám Joan Coromines), e, por outro lado, a coletánea de ensaios Problemas da Língua Galega, de 1981, o primeiro livro galego escrito com ortografia —e, em boa medida, também léxico— plenamente reintegracionista, obra dada à estampa, a convite de Manuel Rodrigues Lapa, na coleçom «Noroeste» da editora lisboeta Sá da Costa por Ricardo Carvalho Calero, na esteira de um artigo definitório que o erudito ferrolano publicara em 1979 na revista Grial («Sobre a nosa lingua»).

Cerca de trinta anos tem hoje, por conseguinte, a codificaçom da Comissom Lingüística, o padrom galego reintegracionista. Ao longo desses trinta anos, o padrom galego reintegracionista tem convivido na Galiza com o padrom lusitano, seu irmao —utilizado também por reintegracionistas galegos e agora promovido pola Academia Galega da Língua Portuguesa—, com os chamados «mínimos reintegracionistas» propostos pola AS-PG —formalmente extintos em 2003— e com o padrom galego isolacionista, definido pola RAG e polo ILG e em larga medida subordinado ao castelhano. Durante esse período, de modo flagrantemente injusto, antidemocrático e lesivo para a normalizaçom da língua autóctone da Galiza, o padrom galego isolacionista —que também pode designar-se, em relaçom à tradiçom galego-portuguesa encarnada polo lusitano e polo brasileiro, como secessionista— tem sido promovido pola administraçom autonómica com a exclusom absoluta, com a discriminaçom, e, mesmo, com a perseguiçom dos usos e dos utentes das normas reintegracionistas, o que, porém, felizmente, graças ao compromisso inabalável do movimento reintegracionista, nom tem acarretado a morte, nem o esmorecimento efetivo, do padrom da Comissom Lingüística.

Ao invés, apesar dos enormes entraves levantados polo oficialismo, e apesar da contínua perda de falantes de galego —o que nom parece preocupar muito a atual Administraçom—, pode dizer-se que, durante estes últimos trinta anos, os usos reintegracionistas do galego, em geral, e os do padrom galego reintegracionista, em particular, se tenhem diversificado grandemente, e que hoje eles apresentam umha considerável vitalidade. Assim, num levantamento forçosamente parcial (e, porventura, injusto nas suas omissons), podemos apreciar a vitalidade do padrom galego reintegracionista durante este período de trinta anos reparando em marcos como os seguintes: som numerosos os centros sociais que, em vilas e cidades espalhadas por toda a Galiza, tenhem promovido atividades culturais, formativas e de lezer desenvolvidas preferentemente no código reintegracionista; no campo da expressom artística, da literatura, o padrom da Comissom Lingüística, embora com produçom quantitativamente modesta, nunca deixou, até agora, de desfrutar de cultivo, seguindo o exemplo de um Ricardo Carvalho Calero ou de um Jenaro Marinhas del Valle (ou, em padrom lusitano, de um Ernesto Guerra da Cal), os quais, durante o decénio de 1980, legárom obras de grande qualidade compostas no código reintegracionista (o primeiro, poesia [p. ex., Reticências…], romance [Scórpio] e ensaio [p. ex., Do Galego e da Galiza)]; o segundo, sobretodo, peças teatrais, contos [p. ex., A Vida Escura] e ensaios); no campo da terminologia e da prosa científicas, estám disponíveis em padrom galego reintegracionista, por exemplo, um completo Manual de Galego Científico (cujo coautor, passe a imodéstia!, é quem aqui escreve) e diversos glossários, ensaios e traduçons de textos didáticos e divulgadores; em considerável medida, publicaçons como as resenhadas, e muitas outras, tenhem sido possíveis mercê da atividade editorial das associaçons reintegracionistas (sobretodo, da AGAL, agora como Através) e da existência de editoras independentes de vocaçom reintegracionista ou de editoras independentes que nom exercem discriminaçom normativa (como, sobretodo, a Laiovento); no campo da banda desenhada, é de justiça destacarmos a instrutiva História da Língua em Banda Desenhada, de Beatriz Árias, José Maria Aldeia, Xavier Paz e o coletivo Pestinho, recentemente reeditada pola Através; no campo da comunicaçom social, deve salientar-se a ediçom do Manual Galego de Língua e Estilo, livro de estilo jornalístico de Beatriz Bieites, Maurício Castro e Eduardo Maragoto, e o facto de existirem hoje alguns meios veiculados de modo preferente no padrom galego reintegracionista, como o Novas da Galiza, impresso, ou o Diário Liberdade, internético, enquanto que, naquelas publicaçons que nom exercem censura normativa (como Galicia Confidencial, Praza Pública e Sermos Galiza), as colaboraçons escritas nos padrons reintegracionistas som habituais; enfim, quanto a revistas culturais, som compostas em galego-português, entre outras, a Agália, da AGAL, e a Kallaikia, da AEG[2].

Viçosos frutos, por conseguinte, os encarnados e nutridos durante os últimos trinta anos, apesar dos enormes entraves, polo padrom galego reintegracionista, estabelecido pola Comissom Lingüística e agora renovado e completado através da recente publicaçom do Compêndio Atualizado da CL-AEG[3]. Fagamos votos, entom, para que, em prol da nossa língua e da decência democrática, a administraçom autonómica e diversas instáncias privadas da Galiza cessem a sua imoral discriminaçom dos usos e dos utentes reintegracionistas e para que, assim, sem censura e com liberdade intelectual, o reintegracionismo poda colaborar em plenitude na regeneraçom formal e funcional do galego, tornando em ato as suas imensas potencialidades comunicativas.

 

Notas

[1] Integrantes da Comissom Lingüística da AGAL no decénio de 1980 fôrom os filólogos Isaac Afonso Estraviz, Joám José Costa Casas, Joám Dias Garcia, Maria José Dias Pinheiro, Júlio Diegues Gonçalves, José G. Feijó Cide, Alberto Garcia Vessada, António Gil Hernández, Luís Gonçalves Blasco, Maria do Carmo Henriques Salido, José Martinho Monteiro Santalha, Manuel Portas Fernandes, Joám Carlos Rábade Castinheira (Secretário da Comissom aquando da publicaçom do Prontuário Ortográfico Galego), Henrique Rabunhal Corgo, José Luís Rodrigues Fernandes (Presidente da Comissom no período 2005–2009), Felisindo Rodrigues Vilarinho, António Santamarinha Delgado, José António Souto Cabo (Secretário da Comissom aquando da publicaçom da 2.ª ed. do Estudo Crítico), Elvira Souto Presedo e Paulo Valério Árias. José António Souto e Paulo Valério ainda fam parte hoje em dia da Comissom Lingüística da AEG.

[2] Ainda que, agora, esteja escrito no padrom lusitano (e concebido para ele), também merece ser destacado aqui, enquanto marco do reintegracionismo, o dicionário internético de Isaac A. Estraviz, o e-Estraviz.

[3] As pessoas interessadas podem pôr-se em contacto com a Comissom Lingüística da Associaçom de Estudos Galegos, a qual responde consultas lingüísticas no serviço «Qual a Dúvida?» (www.aeg.gal), mediante o correio-e ([email protected]).

 

Carlos Garrido

Carlos Garrido

Estudioso da língua especializada, lexicógrafo e tradutor científico, Carlos Garrido (Ourense, 1967) é professor titular de traduçom técnico-científica na Universidade de Vigo e autor, entre outras obras, do Manual de Galego Científico (2000 e 2011) e de Léxico Galego: Degradaçom e Regeneraçom (2011). Desde 2009 é presidente da Comissom Lingüística da AGAL.
Carlos Garrido

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  • abanhos

    O artigo é um bom contributo a história do caminho reintegrador na Galiza, da que o padrão linguístico é bandeira.
    Caminho que não fica nunca encerrado como padrão galego autónomo, nas propostas padronizadas publicadas até agora, e imagino que algo assim acabara passando com o padrão agora sistematizado e publicado pola AEG.
    Sei que esse padrão tem funcionalidades inegáveis na ação político-social, e é bom essa sistematização, quando é seguido por não pouca gente. A proposta da AEG é totalmente integrável no modelo AGAL de língua, o qual faz que o seu aproveitamento possa ser ótimo.

    Ao artigo, só colocaria uma chata. Carlos Garrido faz um acrescentamento de grande interesse com a relação dos membros (filólogos) que formaram parte da Comissão línguística, mas nela houve pessoas que sem ser filólogas também achegaram muita cousa, e penso que deveriam ser citados todos, e incluso amossar a C.L nas suas diversas composições ao longo do tempo… os membros que sempre permaneceram etc. O Carlos bem poderia fazer um pequeno artigo sobre a história da CL da AGAL, ele que foi seu presidente e secretário. E de cada membro uma brevíssima apostila biografica e criativa.