Pablo Lourenço Quatra: “As vantagens de mudar de atitude som muito superiores que as de manter a situaçom actual”



quatraPablo Lourenço Quatra duvida sobre a sua própria natureza neofalante, de facto a sua tese mestrado será em volta dos neofalantes.

Em Granada, a estudar tradução e interpretação, revelou-se a sua vantagem competitiva com o português. Conhece, por diferentes motivos, a realidade linguística flamengo-neerlandesa e servo-croata.

A visualização do documentário Porta para o exterior, provocou o insight.  Gostaria ver um país que se sabe expressar nas duas línguas co-oficiais, onde ter umha delas como língua materna nom empeça de saber falar bem a outra.

 

Pablo Lourenço Quatra tem dúvidas sobre se é neofalante ou nom. Qual a natureza da dúvida?

Segundo alguns, um neo-falante é aquela pessoa com um reduzido nível de exposiçom a umha língua sendo criança que a adquire através da escola ou na idade adulta de maneira voluntária. Se bem é certo que na minha família o galego ou nunca existiu (parte da minha família é italiana) ou perdeu-se há geraçons, a maior parte do meu ambiente sempre o falou ainda que eu nom o figesse. Já aos 18 anos decidim fazer o esforço e começar passeninho a falá-lo, primeiro com desconhecidos e depois no meu ambiente mais imediato, com todas as tensons que isso implicou ao começo. Nom sei se me podo considerar de todo neo-falante porque sempre soubem falar galego sem nengum problema, colocando os pronomes pessoais no seu sitio, diferenças entre te e che e abrir ou fechar as vogais segundo cumpria de maneira natural…o caso é que nom o falava. Digamos que passei de ser umha pessoa bilingue que falava mais castelhano a umha pessoa bilingue que fala quase exclusivamente galego.

Estudante de Linguística, a tua tese de mestrado será em volta dos neofalantes na Galiza. Que te motiva a focar esta temática?

A nossa política linguística, como as políticas linguísticas de muitas outras línguas menorizadas e/ou minoritárias, centra-se notadamente nas pessoas que já falam essa língua de maneira habitual, que a empregam no seu ambiente, a falam aos filhos, aos netos, etc., mas nom se pode esperar que umha língua que perdeu falantes ao longo dos anos recupere espaços sociais se nom houver um crescimento considerável no número de falantes, e é aí que a figura do neofalante é fundamental. Além disso, cuido que o conceito de neofalante em si mesmo é fascinante e nom se lhe dá todo o crédito que merece. A simples vista, é umha pessoa que em princípio muda de língua habitual, mas o que representa vai muito mais longe: é um indivíduo que questiona o status quo, que altera a ordem do que vem sendo habitual durante séculos, que se libertou de muitos preconceitos linguísticos e sociais, e que implica um motor de dinamizaçom mui efetivo.

Pablo estudou Traduçom e interpretaçom na Universidade de Granada trabalhando com várias línguas onde nom estava o português até que…

Comecei o curso com umha combinaçom de idiomas que nom me acabou de convencer, e mesmo continuando com ela até o final, decidim engadir outras. Era a época na qual se começava a falar dos BRICS, desses países que estavam a medrar quando os EUA e mais a UE continuavam em recessom. O Brasil era a potência do momento, que ademais ia organizar a Taça do Mundo de futebol e umhas Olimpíadas. Foi entom quando decidim matricular-me nas matérias de língua portuguesa e de traduçom de português no último ano do curso. Apesar de ter 36 horas de todas as matérias à semana, a minha carga de trabalho nom coincidia com a dos outros alunos, já que sabendo os poucos paradigmas diferentes entre o galego e o português padrom na flexom verbal e na ortografia, e algumha escolha lexical divergente, o caminho já estava feito. Os meus companheiros de aulas berravam comigo por saber mais do que precisávamos e por ter umha intuiçom “inata” com a língua do país vizinho. No fundo estava a falar a língua que levava anos estudando na Galiza com outro sotaque, e afinal comecei a me perguntar se tinha sentido considerar galego e português línguas diferentes, quando outras muito mais separadas (nom só fonologicamente, mais também em sintaxe e léxico) nom tinham problemas em se considerarem variedades da mesma.

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Residente em Bruxelas, os teus estudos de linguística levaram a te debruçar sobre o caso catalám/valenciano e outros similares de conflito identitário. Morando num país onde metade da populaçom fala a mesma língua que a Holanda embora existam diferenças importantes do ponto de vista linguístico… como se vive o caso galego?

A mim levou tempo cair na conta do que tínhamos na casa. Quando che dam umha situaçom como normal, vê-la como normal. Que o neerlandês falado nos Países Baixos e o neerlandês falado no Flandres som consideradas variedades da mesma língua? Pois o mais normal do mundo, como o espanhol de Burgos e o da Andaluzia ou o da América Latina. A cousa muda no nosso caso quando nos dizem que na verdade é o mesmo caso para o português e o galego, sobretudo quando pensamos no dogma das instituiçons da Galiza: o galego e o português, embora línguas irmás, separárom-se no Medievo. Nom conto nada de novo, é umha questom política e identitária, é necessário superar preconceitos. Tenho amigos que falando na sua variedade de neerlandês ou de esloveno, nom se entendem com a gente da vila do lado, e nem lhes ocorre pensar que falam línguas diferentes, mas diferentes realizaçons da mesma, e têm que recorrer a um “tussentaal”, umha língua do médio que funciona como koiné e língua veicular. Na Eslovénia ou no espaço neerlandófono isto é um “non-issue”, um nom-problema. Eu tenho mais problemas entendendo gente do sul da Espanha, que umha pessoa do Porto ou de Coimbra. Por que fechar-nos as portas desse jeito? Somos os mais afortunados, falamos as duas línguas romances mais estendidas, quem lhes dera a outros!

Outro conflito de identidade a que estás ligado por via amical e sentimental é o do servo-croata. Que nos podes contar ao respeito?

Umha parte mui importante do meu círculo de amizades é eslovena, e por terem estado expostos desde pequenos ao servo-croata quando a Eslovénia fazia parte da Jugoslávia, têm polo geral um bom domínio do idioma e costumam ter moitas amizades das outras ex-repúblicas jugoslavas, e foi aí quando entrei em contacto eu com eles. Sempre achei muito engraçado o facto de que ninguém tem nengum problema em reconhecer o sérvio e o croata como variedades da mesma língua exceto os croatas, e podes acabar numha liorta bonita como lho insinues. Após a guerra de começos dos anos 90, a Croácia iniciou um processo de afastamento da variedade nacional a respeito da variedade sérvia numha tentativa de criar umha identidade totalmente diferente e assi, acho eu, justificar a sua independência. Um dia aconteceu umha situaçom que me pareceu o cúmulo: umha rapariga croata contava-nos o dogma de que o sérvio e o croata som línguas diferentes. Ela, como boa croata, só sabia ter umha pequena conversa em sérvio. Mais adiante nesse dia demos-lhe um texto e perguntamos-lhe (de boa fé, porque nom o sabíamos) se estava em sérvio ou em croata. Pois nom botou cinco minutos para saber se era umha língua ou a outra? Eu aí já fiquei com olho piscado e nom pudem debater mais.

Nada de novo. É algo que figerom e fam muitos países, centrar-se nas diferenças para justificar certos status: a Roménia com a Moldávia, Montenegro com a Sérvia, Macedónia com a Bulgária. Nom digo que nom seja legítimo, têm todo o direito do mundo a o fazér se quigerem. Só digo que é tam legítimo linguisticamente dizer que som duas variedades da mesma língua como que som línguas independentes, nom todos os linguistas concordam com umha tese ou com a outra. Mas som eles os que terám que ver que ganham com umha postura ou a outra. Nesses casos nom têm muitos problemas, pois som todos estados independentes e a sua língua nom se vai deixar de falar. No nosso nom temos tanta sorte: por umha banda podemos aprofundar na postura isolacionista, que como estamos a ver tende para a hibridaçom com o espanhol e à perda massiva de falantes, e por outra podemos reclamar o espaço lusófono, que nos é próprio, e poder tirar todas as vantagens que isso nos daria, e que dalgum jeito nos pertencem. As vantagens de mudar de atitude som muito superiores que as de manter a situaçom actual.

Para te enrolares no navio agálico foi útil um evento que decorreu em Bruxelas recentemente ligado à nossa área audiovisual. Fala-nos dele e do que esperas da associaçom. 

Foi umha semana na qual houvo várias atividades no Parlamento Europeu relacionadas com a situaçom da cultura galega. Fazia também parte do programa um evento mais lúdico-festivo no Centro Galego de Bruxelas, e como introduçom pugérom o documentário que se publicou nas redes no mês passado “Porta para o exterior”. Eu já levava tempo cismando sobre o conflito de grafias em várias línguas, incluída a nossa, e os argumento apresentados fôrom decisivos para a minha escolha. Agora o título parece-me umha metáfora, pois para mim mais do que umha porta ao exterior foi umha janela a nós mesmos, ver que o que nos contam das instituçons desde há anos nom é umha verdade absoluta, que todo é o resultado dumha escolha dum momento dado, e que temos muito pouca memória. O “essa palavra nunca se utilizou aqui’ deve ser apanhado com cautela. Eu mesmo dou-me conta que amigos meus há anos empregavam palavras que na atualidade substituírom polas correspondentes castelhanas.

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Por onde achas que deve transitar a estratégia do galego internacional para ganharmos presença social?

Pola exposiçom. Nom se pode normalizar algo que fica reduzido a determinados círculos. Há que apresentar a via reintegracionista como algo que tem utilidade e que de facto é usado na vida diária. Que tés um bar? Pôr o menu com a ortografia internacional e de vez em quando pôr a rádio portuguesa. Que tés umha página web? Traduzi-la. Que tés um comércio? Mudar os cartazes progressivamente. És produtor de vinho? Etiquetas em galego. Esta ideia da exposiçom passa também pola criaçom de conteúdos na Galiza e para a Galiza: temos que fomentar a gravaçom de música na norma internacional, escrever novelas, traduzi-las doutras línguas para a nossa, carregar vídeos curtos na Youtube na nossa norma, quer de cozinha, quer entrevistas, mesmo mini-seriais telenovelescos, podcasts, legendar seriais estrangeiros, atividades de informaçom, atividades grupais nas quais as pessoas podam dar os primeiros passos para a utilizaçom da norma internacional, para se irem afazendo, etc. Pessoalmente, o meu melhor aliado na aprendizagem de línguas sempre foi a música, se há algo que poda fixar usos linguísticos, ampliar vocabulário, melhorar pronúncia, etc., é a música.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2040?

Se for conformista diria que umha Galiza na qual, polo menos, as cousas nom tivessen ido para pior. Mais vendo a difusom que está a ter o reintegracionismo tenho mais esperanças. Gostaria ver um país que se sabe expressar nas duas línguas co-oficiais, que ter umha delas como língua materna nom che empeça de saber falar bem a outra. Gostaria que todos os grupos políticos e sociais estivessem igualmente consciencializados da situaçom precária da língua, tanto em termos de número de falantes coma em termos de qualidade. Gostaria que quando vou a algumha cidade galega e fale galego numha loja, me saibam responder em galego. Gostaria que a gente se atrevesse a falá-la em qualquera situaçom, que a gente que nom o fai por vergonha dê o passo de falá-la aos poucos. Que sejamos conscientes dos nossos direitos como utentes de galego, que pidamos serviços em galego, informaçom, materiais, educaçom, etc., que um “afinal, se também entendo castelhano” nom ajuda. E que saibamos que é cousa de todos, que se tu o falas se calhar podes motivar outra pessoa para também a falar, que se tu falares numha língua de qualidade, se quadra o do lado também,o vai fazer.

 

Conhecendo Pablo Lourenço Quatraquatra-02

Um sítio web: Wikipédia, mais sempre com cuidado.

Um invento: as lentes de contacto.

Umha música: o pop em servo-croata, que anima a qualquer um.

Um livroCartas de inverno, de Agustín Fernández Paz. É pequeninho, mais meteu-me o medo no corpo coma nengum outro.

Um facto histórico: quando Kellyanne Conway falou dos “factos alterativos”todo um representante da nossa época.

Um prato na mesa: churrasco de porco e pataca de Burela.

Um desporto: a nataçom, compito desde os dez anos.

Um filmeOrgulho e preconceito, versom de 2005.

Umha maravilha: a capacidade dos humanos de se adaptarem.

Além de galego/a: europeísta

 

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim

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  • Galego da área mindoniense

    Concordo co caso da exposiçom. Outra cousa é que seja realista…

  • http://pgl.gal Valentim R. Fagim

    “O conceito de neofalante em si mesmo é fascinante e nom se lhe dá todo o
    crédito que merece. A simples vista, é umha pessoa que em princípio
    muda de língua habitual, mas o que representa vai muito mais longe: é um
    indivíduo que questiona o status quo, que altera a ordem do
    que vem sendo habitual durante séculos, que se libertou de muitos
    preconceitos linguísticos e sociais, e que implica um motor de
    dinamizaçom mui efetivo.”