CARTAS MEXICAS

Outra Guerra Fria ou Uma Nova Guerra Quente?



 

Sábios excelentes, eu não desejo riquezas, nem eu quero domínio. Eu aspiro a uma posição como ninguém antes de mim atingiu. Digam-me o que eu tenho que fazer para realizar esse objetivo; como eu posso alcançar uma elevação superior a todas as outras distinções?” (Do Visnhu-Purãna)

As aparências indicam que o presidente dos EEUU Donald Trump, acaba de ceder todo seu protagonismo àqueles, que o mesmo Bush pai não duvidou em denominar os “loucos do porão” (apesar de anos mais tarde estes mesmos dirigir a agenda global de seu filho). A rutura do acordo nuclear com Irão, semelha isso mesmo: o trunfo dos “neocom”, dentro do seu gabinete. Por outro lado a suposta influência da Europa Unida (Merkel, Macron) fica em anedota e o poder de ser, a presença real da sra. May, simula deixada nas mãos ardilosas de Washington.

Israel parece ter a maior das prioridades na agenda externa norte-americana, dum presidente cujo genro é judeu – e cuja equipa de assessores nunca negou sua afinidade com Tela Avive.

A China se consolida como o grande rival no segundo tabuleiro: o económico, onde seu desafio silencioso, a cada dia se torna mais evidente. Valentin Katasonov a 05/05/2018, em artigo publicado na eletrónica revista Strategic Culture Fundation, dá-nos uma acertada visão sobre este assunto: “Muitos países em desenvolvimento da Ásia, África e América Latina estava em terrível necessidade de financiamento externo, mas não eram capazes ou não queriam cumprir as condições estritas do “Consenso de Washington”. A abordagem de Washington era motivada politicamente, ao passo que a de Beijing era comercial. Beijing declarou um princípio de não-intervenção no assuntos internos dos países recetores e isto tornou-se mais atraente do que a chamada assistência financeira da América que era como o queijo gratuito posto numa ratoeira. Além disso, nos anos 2000 a China estava a emitir empréstimos a 2,5 por cento ao ano – termos muito mais favoráveis do que os oferecidos pelo ocidente (…) Na sua política de financiamento externo a China centra-se naquelas indústrias e sectores económicos dos países recetores que direta ou indiretamente promovem a economia chinesa (…) Os principais recetores do dinheiro chinês incluem países que Beijing está a planear tornar (ou já os tornou) atores chave no projeto transcontinental (da nova rota da seda). A China também está fortemente dependente da sua costa leste e do Estreito de Malaca próximo de Singapura através do qual passa a maior parte das suas importações e exportações. Exemplo: mais de 80 por cento do petróleo comprado pela China passa através deste estreito. A construção de rotas comerciais através do Paquistão e da Ásia Central aumenta a resiliência da China à pressão política e militar de Washington. O projeto “Belt and Road” também permitirá a Beijing começar a utilizar suas enormes reservas de divisas (mais de US$3 milhões de milhões), para proporcionar encomendas a negócios chineses e suportar, assim, o nível de emprego no país. Segundo algumas estimativas, mais de US$300 mil milhões já foram gastos no projeto. E nas próximas décadas a China planeia gastar mais US$1 milhão de milhões, criando uma extensa infraestrutura de transporte e logística na Euroásia na próxima década (…)Assim, tudo pertencerá à China no final. Então a luta competitiva entre Washington e Beijing se tornará mais feroz do que nunca. Eis o grande reto, por baixo do tapete: parar China, algo impossível sem quebrar sua aliança com a Rússia.

Assim que os Estados Unidos, ao igual que Portugal no século XVI, ao igual que os árabes durante o século XV, ao controlar o estreito de Malaca, podem controlar a navegação rumo ao Índico, que na partida geopolítica, ao acrescentar as bases militares do ocidente perto da China, no Japão e na Coreia do sul; na pratica pode fechar ao gigante asiático o acesso a mares vitais para sua expansão política, económica e cultural. Dai que para o poder chinês a Rússia apresenta-se como uma alternativa viável para contrabalançar uma possível asfixia marítma. Mas para isso também é preciso permitir seu transito de mercadorias chegar ao Mediterrâneo; para o qual Irão, Síria e Líbano são vitais no xadrez do jogo hegemónico idealizado desde Beijing.

As agendas da Rússia e China tendem pois a conciliar-se, alem dos grandes negócios comuns, onde Rússia fornece a energia e China o financiamento. Dai que para a Rússia torna-se muito necessário manter ao Irão independente do Ocidente, como forma de preservar seu flanco sul.

A Síria livre da Irmandade Muçulmana aliada com mundo ocidental, como forma de manter sua presença naval no mediterrâneo. E tudo isso beneficia, não indiretamente se não diretamente a Beijing. Ocidente, por seu lado, deve reverter esse processo de rede clilientelar favorável ao novo Oriente, seguindo o exemplo de isolamento já iniciado e concretizado pelo império britânico, para manter Moscovo encerrado nas suas próprias fronteiras; e assim controlar mais facilmente o mundo.

Tudo em estas dinâmicas se aquece rapidamente: Ocidente acusa já, sem rodeios, a Rússia de espalhar noticias falsas para prejudicar seu modelo cultural, social e político. Dirigindo uma campanha militar com intenção de desestabilizar o Meio Oriente, tentar mudar a ordem internacional, fragmentar e dividir a NATO e finalmente acabar com a liderança de Washington, como vigia silencioso do orbe planetário.

A chegada de militares americanos para ajudar seus aliados europeus fronteiriços com a Federação Russa, o aumento dos orçamentos dentro da Aliança Atlântica, a corrida mundial na carreira de armamentos… Indicam um quebramento da já iniciada guerra fria comercial, muito subtil, entre China-Rússia e Ocidente, no marco financeiro e monetário… O período de guerra fria, e tentativa de construção de polos opostos, em combate pela hegemonia global, entre um modelo financeiro privado ocidental e um modelo financeiro estatal Russo-Chinês, assemelha encurtar-se e passar a acender faíscas com prenúncio preocupante de mais calor do recomendável.

No entanto a iniciativa de paz entre as duas Coreias, marca um ponto pequeno, mas esperançado de viragem; que agora em aparência a rutura, por parte do governo Trump, do acordo com Irão, quebra

a esperançada paz dum modo muito inquietante.

No entanto, não julguemos pela aparência. Vamos ser um bocadinho mais atenciosos: sabemos que a Rússia tem necessidade de fugir dum conforto com Israel. Mas de 1 milhão de cidadãos ex-soviéticos moram agora no Estado Judeu. Os medos israelianos duma presença iraniana na Síria, de algum modo são compreendidos por Moscovo, ao tempo que Putin é ciente que sem uma intervenção massiva do Irão e seus aliados libaneses no confronto da Síria em 2011, antes da atuação direta da aviação russa em 2015, seus aliados em Damasco simplesmente houvessem sido removidos do governo, pela força das armas jihadistas.

Tal vez por isso, Moscovo não avisou Damasco para intercetar os mísseis procedentes de Tela Avive que foram dirigidos contra bases iranianas na Síria. Do mesmo jeito que Damasco também não quer fazer demasiadas declarações incendiárias contra Tela Avive, apesar de chover fogo sobre seu território, pois para Damasco a existência de Israel pode ser facilmente aceite e uma paz em troca dos altos do Gola, uma saída digna. De fato essa paz já foi tentada no passado.

A longa guerra pode mesmo terminar, e para surpresa de muitos chegar algum tipo de acomodo. Irão tem tentando diplomaticamente propor a desnuclearização da região, mas tanto israelianos como sauditas, sabem, que de perder Israel o poder dissuasório da supremacia nuclear, o xiitas ficariam muito mais fortes. Os jogos de guerra entre as milícias libanesas Hezgollah e o Tzahal, em 2006, demonstraram que o exército hebreu também pode ser derrotado convencionalmente. Apesar da maior parte das baixas humanas e materiais ter-se contando do lado libanês.

A abertura duma ponte ocidental com Irão, debilitaria o poder dos Guardiões da revolução em favor dos achegados ao presidente Rohani, que quer engajar seu pais no mapa económico global, ao estilo de como fizera o anterior Sha, Reza Pahlevi; mas para a nova administração Norte-Americana é

muito mais importante marcar presença em Oriente Meio, sobre todo agora que Putin, e sua esperta chancelaria diplomática, está tecendo pontes com todos os implicados deixando Washignton num beco afastado.

Assim que seguir asfixiando economicamente Terão faz mais sentido, num momento em que a população iraniana esta regredindo no seu nível de vida. Isto combinado com a nova tentantiva ocidental de tentar assegurar-se no norte da Síria toda reserva energética, e impedir a rota da seda chegar ao Mediterrâneo, travaria imediatamente, de ter sucesso, o impulso economico chinês em aproximação à região.

Daí que Ocidente precise utilizar todas as armas a seu alcance para fazer-se valer e demonstrar (dentro destas tristes dinâmicas de guerra, todavia dominantes na humanidade) que entre os “cowboy´s” da banda, ele segue sendo o mais forte; ainda que isso gere um descrédito na seriedade dos acordos assinados pelos EEUU, e mesmo ponha em xeque a fiabilidade da arquitetura dum novo direito internacional, mais multipolar (o qual por certo não é do agrado dum ocidente, sonhador de unipolaridades). A ONU também fica bem ferida e semelha que as iniciativas geopolíticas não vão já demorar muito tempo a ser discutidas fora do seu seio. Algo muito involutivo, contra o qual o Secretário Geral, o senhor Guterres, terá de luta com todas suas forças.

Eis o grande problema: o desenvolvimento e expansão do poder financeiro de estado chinês e o poder energético – militar da Rússia, não são já compatíveis com poder único Ocidental. Não podem permitir a Ocidente serem o único vigia do mundo.

Ocidente, a sua vez, não pode abrir-se a um Mundo Multipolar, onde sua grande arma: o poder de policiamento global do orbe deixe de ser decisiva. Dado que seu modesto crescimento económico, depende em grande medida do complexo militar – industrial dos EEUU, para ser sustentável. Sendo que esse complexo está muito atrelado as laboras de vigilância.

Pretender uma concorrência multilateral com a China, no marco económico, cultural, cientifico e tecnológico, em uns decénios se sabe serem um suicídio (a espiral em expansão chinesa e tão veloz, como a espiral de decadência ocidental). E pelo tanto nada pode evitar a guerra quente futura, para qual todos estão-se preparando agora, a não ser uma mudança total da consciência de toda humanidade, focada precisamente na luta, a todos os níveis pelo domínio: já seja no seio familiar, das relações sociais, laborais, de partidos, de atores culturais. Mesmo a geolíngua, ou, luta pela hegemonia linguística…

Não resta muito tempo para impedir a autodestruição. Somente mudando de dinâmica poderemos finalmente salvar-nos. A paz é o único caminho. Para a paz o tempo sempre se agranda. Para à guerra o tempo sempre se é curto. Precisamos gerar uma rede global de paz. E essa rede começa, no interior de cada um, trabalhando consigo mesmo…

A grande e segreda notícia maravilhosa para humanidade é, que na incompreensão geral dos cidadãos do mundo, surgem sempre dirigentes que evitam na borda do abismo a queda na “eterna” e gélida noite. Assim fizeram em seu dia John F. Kennedy e Nikita Kruschev, que tiveram o sangue frio (de paralisar em sua mente as pressões dos setores absortos no medo) e abrir a mão de novo para o entendimento. Kennedy pagou com a própria vida, Kruschev com o ostracismo político. Mas ambos foram sementes, junto milhões de pessoas, e mesmo outros seres com maiores valores éticos e maior poder de convicção e superação como Ghandi, Tolstoi, Aristides de Souza Mendes, Raoul Wallenberg, Luther King, Frederik Bajer, Daf Hjalmar Hammarskjöld (morto também em estranhas circunstâncias) ou Nelson Mandela, entre muitos; que com seu constante esforço de mudança interior e exterior, possibilitaram novas formas de entendimento entre povos e culturas. Essas sementes estão já ativadas e podem sempre crescer, se regar nossos campos coracionais com o amor e a virtude.

Com esses entendimentos, entre os lideres globais, à humanidade ganha uma nova chance.

Mas também é preciso a humanidade rumar à pacificação, estendendo a mão a seu próximo. Pois os que governam na cima nascem, crescem e morrem no seio dos povos, herdando suas condutas; ao tempo que também os seres de luz que chegam a influenciar esses povos, mudam para o bom, o bem e a beleza, aquelas velhas e guerreiras condutas…

Saber que por muito profundo que seja o abismo podemos sulcar por cima dele, ajuda a trabalhar em favor da Paz. Mas para trabalhar em favor da paz devemos iniciar a senda da própria mudança pacificando nossa guerra interna. Para que a guerra fria fique muito fria e nunca jamais se aqueça.

Como fala o hino inicíatico do povo galego, escrito pelo bardo Pondal: “Desperta do teu sonho… Os tempos sao chegados”. A Paz precisa de que todos e todas acordemos! A individualidade já não é possível, dentro do ego que pensa só em si mesmo.

“Não existem amarras como as da ilusão (máyá). Não há força como a que provém da disciplina (yoga). Não há amigo mais elevado que o conhecimento (jñána). E não há inimigo maior que o sentimento de individualidade (ahámkara)”

(Do Gheranda Samhitã).


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