ALDEIAS DE ORDES

O que os paços nom vem



para Marcela

Paço do Vidueiro, em Ordes

Paço do Vidueiro, em Ordes

Dos bosques de vidoeiros (Betula pubescens Ehrh.) conservados pola ingente memória da toponímia, sempre se suspeitará se teriam atraido a atençom das gentes antigas, antes do que pola sua madeira, por favorecerem a proligeraçom da amanita muscaria à sombra das suas folhas. A micologia assegura que estes cogumelos alucinógenos dos viduais eram consumidos polos guerreiros da Idade Antiga, e Robert Graves achava que se a cor vermelha era tabu culinário na Grécia, era-o precisamente pola amanita muscaria, para vedar o acesso plebeio a esta “comida dos deuses”. Com um espírito muito mais prático, o Padre Sarmiento fijo no ano 1745, para os seus Pensamentos Crítico-Botánicos, o estudo:

“de pasar por un país en donde particularmente se fabrican aquellos vasos de bidueyro y de los caules usan casi todos. Mi fin era averiguar si los paisanos eran acusados allí del mal de piedra o mal de orina. Y no sin especial gozo supe que tales enfermedades no eran frecuentes en el dicho país, o que eran muy raras”[1].

Seja como for que o vidoeiro interessou aos povos de tempos requados, a palabra vem etimologicamente dumha base híbrida, céltico-latina, em que nom acabam de porem-se completamente de acordo os diversos estudos[2]. Deste nome de árvore derivam-se os nomes da aldeia ordense do Vidueiro e a encrovesa Vidual, havendo também na microtoponímia de Gesteda um outro o Vidueiro e mesmo um Rio de Viduído.

Meu tio-avô Cándido do Vidueiro

Meu tio-avô Cándido do Vidueiro

O de Ordes é hoje mui popular pola celebraçom de vodas e outros festejos no seu formoso Paço do Vidueiro, em origem propriedade da linhagem dos Bezerra, procedente de Celas de Peiro. Até bem entrado o século XX o paço nucleou umhas relaçons de poder e produçom netamente feudais, nessa longue moyen âge galega que pouco se parecia à dos romances fidalguistas de Otero Pedrayo. Trabalhou bem tempo para os senhores do paço o meu tio-avô Cándido do Vidueiro, que se lembra perfeitamente de quando levrava com aqueles bois poderosos. Nos domingos, depois de rematar o labor, gostava de apanhar o Castromil à Corunha com a mocidade da vila e ir ver jogar o Deportivo em Riaçor; durante a semana e quando podia, caminhava até Loureda para mocear com Carmucha. Daquelas aventuras nocturnas e amorosas recorda, sobretudo, o demo de cam que tinha Juanito de Loureda para tornar dos moceadores, umha besta à que chamavam o Pachiro, nome bem ousado naqueles violentes anos 40, havida conta de que também era o alcume dum dos mais temidos matons fascistas de Ordes[3]. (“Muchos canes en mi país gallegos se llaman o “Ney” o “Soult”; iracunda memoria paisana contra los mariscales de Francia”[4], dizia Cunqueiro, quem também lembrava algum que outro chamado Murat. Desde tempos longínquos, os paisanos venhem usando a imposiçom do nome aos seus cadelos, símbolo do ingerior, como forma de declaraçom política pública, por exemplo para mostrar-se afim à Ditadura, quando os cans se chamavam Trotski… A tradiçom é tam velha que já os árabes da Yspánia alcumavam o mercenário Cid Campeador de “cadelo galego” em sinal de desprezo).

Depois do moceio veu a emigraçom. Primeiro, Cándido, parando na República Dominicana antes de chegar à Argentina, e depois, já com a nena, Carmucha, quem desde o barco escreveu a Loureda cartas que ainda guardamos. Da experiência da viagem guardavam recordos completamente opostos, que estalárom um dia, cinco décadas depois, esfolhando o milho na eira de Loureda. Cándido dizia que renegou da língua (à vez que sentenciava ao seu cunhado de anti-galego por ser siareiro do Real Madrid e nom do Deportivo) desde o trauma de nom poder entender-se com ninguém no barco, nom com oos valencianos que viajavam com ele, que para além do catalám também falavam o espanhol. “O galego nom sirve para nada; já só devia existir um idioma no mundo todo”, dixo. Carmucha, sem imutar-se, replicou que isso nom era tanto assim, que na sua viagem figeram escala no São Paulo, “e eu entendia todinho, falava com todo o mundo e os castelhanos do barco nom”.

A família, como tantíssimas outras, assentou em Buenos Aires, trabalhou sem descanso e multiplicou-se. Depois das filhas vieram as netas, momento em que, cansadas da violência que atravessava o país, encetarom umha segunda emigraçom, desta volta às Américas do Norte, pouco antes dos velhos regressarem à Galiza alarmados polo “corralito”. Na continuaçom da estirpe, a neta de Cándido do Vidueiro e Carmucha de Loureda, Daiana Oneto, que se formou como artista no Kansas City Art Institut e no programa de residência da Charlotte Street Foundation. Entre os seus trabalhos recentes destaca a série de litrografias de 2013 intitulada “Bodies as Landscape”, que evoca os corpos das 30.000 pessoas “desaparecidas” pola ditadura argentina nas décadas de 1970 e 1980, um terror silencioso tornado paisagem[5]. Corpos sequestrados e invisibilizados como o de Xosé Areoso Vieites, vizinho do Vidueiro militante do Partido Galeguista e síndico do governo municipal do Frente Popular de Ordes, condenado a cadeia perpétua pola Ditadura, corpo de vidueiro onde beber contra a doença do esquecimento.

NOTAS:

[1] Fr. Martín Sarmiento, Viaje a Galicia (1745), ediçom e estudo de J.L. Pensado, Salamanca, Universidad de Salamanca, 1975, p. 22.

[2] Para Moralejo: “De la base celto-lat. *betulus, lat. betulla “bido ou biduo, bidueiro/a, abedul”; e em nota final acrescenta: “Betulla es un diminutivo latinizado de un galo *betia o *bettia, de donde besse “abedul” aún en el S.O. de Francia y toponimia antigua y moderna, como Bezeta y la Besseda, la Bessèda o Labécède (Aude), según Gröhler, Französ, Ortsnamen, II, 155-56, con los cuales puede compararse Becedas en Ávila”, e ainda o Beceiras micritoponímica de X, a nom ser que seja, na realidade, Vezeiras. (Toponimia gallega y leonesa, Santiago de Compostela, Pico Sacro, 1977, p. 293 e p. 327 n. 35).

[3]Enrique Castro (Pachiro) / Testemuñas afirman que o seu compartamento era “vergoñento” e que morreu na “miseria”. Tamén que formaba parte do grupo de violentos”. Manuel Pazo Gómez, “Atila en Ordes. Listaxe de vitimarios, em VV.AA. Os nomes do terror. Galiza 1936: os verdugos que nunca existiron, Santiago de Compostela, Sermos Galiza, 2017, pp. 137-157, p. 155.

[4] Álvaro Cunqueiro, Viaje a Lugo. Páginas sobre la ciudad, introduçom, seleçom e notas de María Xesús Nogueira, Santiago de Compostela, Alvarellos Editora, 2011, p. 74.

[5] Podem-se ver algum dos seus trabalhos em: Alice Thorson, “Daiana Oneto: ‘Bodies as Landscape’”, KC Studio. Coverting Kansas City’s Performing, Visual, Cinematic and Literary Arts, janeiro-fevereiro 2018, Vol. X., Issue 1, pp. 100-107.

 

Texto Publicado em

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
Carlos C. Varela

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  • abanhos

    Que delícia estas leituras que nos abrem janelas maravilhosas, entanto o seu autor está agrilhoado pela justiça guerracivilista de Castela/espanha