Oligarquia e caciquismo



O título é de Joaquin Costa, verdade que um bocadinho mais longo e ajustado: Oligarquía y caciquismo como la forma actual de gobierno en España : urgencia y modo de cambiarla / por Joaquín Costa (Madrid : Hijos de M.G, Hernandez, 1902).

Mas também poderia ser de Porteiro Garea, aquele seu discípulo e motor primeiro do nacionalismo galego a começos do século XX: El sistema parlamentario en España y sus relaciones con el caciquismo: tesis para el Grado de Doctor / L. Porteiro Garea (Madrid : [s.n.], 1914 . Imp. de Juan Pueyo).

Efetivamente, pessoal, direis, muito interessantes as dicas bibliográficas, mas estamos já no século XXI, não é? Pois. Porém, continua a ser importante analisar o fecundo relacionamento entre o grande capital e o sistema político espanhol, e as relações entre o sistema político estabelecido para e por a oligarquia e as redes de intermediários e engraxadores conhecidos como Caciques.

Analisando esta tripla axial: Parlamentarismo, Oligarquia e Caciquismo podemos determinar que sob o show dantesco e criminal do franquismo, é bem maior a influência, e pegada na cultura política e na Sociedade espanhola atual, da Restauração monárquica Bourbónica (não desta atual, quanto das suas precedentes e modelos: a Liberal Isabelina e a Canovista).

Fundamentalmente convinha analisar a segunda, que restaurou a monarquia, com extrema violência, todas as formas de censura e pressão. E destarte melhorou o sistema, estabelecendo o controlo social e a imutabilidade política, elementos que permitiam desenvolver o modelo e práticas que definira o corrupto período Isabelino (segunda restauração ou reinventio após a queda da 1ª Fernandina e absolutista). Alicerce e início, por sua vez do projeto nacional, moderno espanhol.

Não se tem destacado talvez, com a importância que se deveria, o peso dessas estruturas do século XIX (por sua vez não pouco continuadoras sobre os restos nobiliares do antigo regime e do feudalismo) na conformação e definição do espaço político espanhol.

A Restauração foi com o seu sistema de dous partidos rotativistas (para além da sua prolongada existência 1874-1923) o sistema que deixou mais pegada no pensamento político espanhol conservador e liberal, e que se prolongou revivificado após a morte de Franco, como modelo “estabilizador”, garante da tranquilidade social, para a gestão em poucas mãos de um eco-sistema político muito mais complexo.

pedro madruga

Não devemos nos deixar enganar pelo impacto cultural de palavras como fascismo, nem pela imagem do assassinato seletivo, repressão e exílio do conjunto das pessoas que no seu dia tentaram construir uma alternativa política, de classe, de sociedade e cultura à Monarquia.

Durante todo o século XIX essa oposição e tradição alternativa, persistiu e foi sistematicamente laminada por essa oligarquia parlamentar, caciquil, apoiada pelo grande capital, a imprensa e o tecido administrativo e institucional.

As Repúblicas foram breves demais, a primeira, até com os seus preâmbulos monárquicos (1868-74) e a segunda (1931-36, com parêntese reacionária de novembro de 1933 a fevereiro de 1936)  não tiveram tempo, nem possibilidade para desmantelar essas estruturas. Todas as mortes do franquismo, não eram um fim, apenas um meio para devolver o poder a essa oligarquia.

A Transição espanhola de 1978 não foi uma quebra, não houve substituição das classes dirigentes, nem houve qualquer tentativa, para além de mínimos de aparências, de substituição das engrenagens do sistema. Houve apenas uma incorporação de sangue fresca a uma oligarquia incontestada e fundamental à que não se exigiu qualquer concessão – talvez algo de silêncio público durante uns poucos anos – e à que, em favor da construção de um discurso formalizado de tolerância interesseira se deixou, justificando arrebatos, discursos, estética e atos fascistas, na condição de “rarezas simpáticas” e “cousas de velhos”.

O tempo demonstrou que não eram tal. Quanto substratos conformantes da cultura política de parte dessa oligarquia.

Temos pois, muito vivo no hoje, um continuum de oligarquia, que se corresponde com a classe dirigente perpetuada, caprichosa, inquestionada, mal-educada, profundamente inculta, reacionária, incapaz de dar valor ao mérito pessoal e intelectual ou à cultura para além do serviço, costumada no ordeno e mando e no não dar explicações de fracassos e desfeitas, afeita a contornar as leis, regulamentos e normas, e cujas únicos méritos são a rede da que formam parte e a agenda.

E temos também uma rede caciquil diversa, alguma piramidal ou adscrita, outra que se vende ao melhor pagador. Esta controla, alimenta, fornece e assegura à oligarquia o controlo da política, da administração, da para-administração, da justiça, da polícia, do exército, corpos de segurança, para-segurança e paramilitares, da sanidade, das universidades, da diplomacia, do mundo das artes e as academias, das cámaras de comércio, dos lobbies, grupos setoriais, da comunicação. O poder local e os poderes locais. O poder provincial e o das capitais. A burocracia e o papel documentável. O poder legislativo, executivo, judiciário. O poder ministerial e governamental.

Por estes espaços transitam os parentes parvos e acanalhados desta oligarquia: filhos, esposas, amantes, primos, sobrinhos, amigos e parentes em geral. Tecendo vínculos e lealdades de extremada densidade nos que radica todo o seu mérito e habilidade. Para eles trabalham os indivíduos mais espertinhos e ambiciosos das classes subalternas, na espera de promoção a esse espaço social no topo da pirâmide. Fazendo todos carreira e favores e se incarnando e transmutando no processo de construção da própria rede, da oportuna agenda e do posto nos escalafões, intercambiáveis mas ascendentes.

Como bem aprendemos na Galiza com o bipartido (2005-2009) e hoje podemos ver no acosso dos governos autonómicos municipais progressistas, contornar ou enfrontar essa trama estrutural na administração a todo nível, na justiça, na imprensa e na sociedade civil, não é doado. Para além, o pessoal inteligente tem de viver e fazer carreira, e se não quer participar dalguma das redes, tem que mirar para outro lado ou calar a boca.

Francamente, pouca novidade, toda a gente sabe onde se está, por onde se anda e o que há arredor, e total para rirmos, até não sei se viria ser mais útil, re-escrever para o século XXI o Catecismo do Labrego.

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza (Corunha, 1970). Formado como filólogo, publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. É sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa; atualmente é o Diretor do Portal Galego da Língua.
Ernesto V. Souza

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  • abanhos

    Este artigo teu, chapeau.
    Muito bom
    Quanto mais o leio mais apreço tão bom cozinhado, além de projetar luz e nos ajudar a entendermos a lameira na que se enterram os nossos pés dificultando o movimento, que agora tinha que ser bem necessário.