Ódio do cristianismo contra a ciência



Escutei faz pouco a um teólogo católico que afirmava que Deus joga aos dados. Surpreendeu-me ouvir esta afirmação, não por ela mesma senão por provir de alguém que, como clérigo em exercício, deve aceitar todos os dogmas da Igreja, ou polo menos justificar o seu sentido e/ou a sua interpretação. A proposição que afirma que «Deus não joga aos dados» foi pronunciada por Albert Einstein numa charla com os defensores da mecânica quântica, que afirmavam que era impossível predizer com total segurança onde estará uma determinada partícula num determinado momento e o único que podemos conhecer é a probabilidade de encontrá-la nesse momento num determinado lugar. A Einstein perguntaram-lhe numa determinada ocasião se creia em Deus e disse que si, mas que no único Deus no que creia era no Deus de Espinosa. E este autor, filho de pais judeus procedentes de Ourense, foi expulsado da Sinagoga por ateu apesar de que fala constantemente de Deus ou da natureza. Isto já indica claramente que o seu Deus não era o Deus judeu-cristão, senão que é um ser que se identifica com a Natureza. Por conseguinte, o que vinha a afirmar Einstein é que não creia no azar no movimento das partículas atômicas, senão que defendia o estrito determinismo em física tal como o propusera Newton.

A teologia cristã tem como principal teórico a São Tomás de Aquino, pai do que o papa Leão XIII chama a filosofia perene. seguidor da filosofia aristotélica, segundo a qual Deus é definido como Motor Imóvel e Ato Puro, que Aristóteles justificava dizendo que se Deus tiver alguma potência não seria um ser perfeito, pois toda potência implica carência e, por conseguinte, imperfeição. Deus, segundo a doutrina cristã é definido como uma substância espiritual, eterna, infinita, simples, imutável, inefável, incompreensível,… Ora bem, se Deus é um ser espiritual, simples e imutável, não tem matéria nem partículas e, por tanto, não podemos falar das probabilidades do movimento das partículas em Deus nem propriamente de nenhum movimento em Deus, e, em consequência, não tem nada que ver com a mecânica quântica. Suponhamos que admitimos um Deus mais humano, um Deus que intervém no mundo e cambia de parecer atendendo as súplicas dos fiéis, ou seja, o deus da religião popular, dos fiéis singelos, se estiver submetido às leis da mecânica quântica, as suas decisões seriam fruto do azar, do movimento aleatório do seu ser, e, logo não seria merecedor de gratidão de nenhuma classe. Temos que ter presente que a mecânica quântica não é uma física mais perfeita que a mecânica determinista, senão que, em termos humanos, á mais imperfeita e mais desassossegadora, ainda que permite explicar melhor os fenômenos e, por isso, é a preferida pola maioria dos físicos neste momento.

Algum teólogo também considera que o título do livro da minha autoria O cristianismo contra a ciência, deveria mudar-se e ser Relação entre cristianismo e ciência, Conflito entre ciência e religião, etc. porque .também a ciência perseguiu a religião. Mas ao instar-lhe que pusesse algum exemplo de perseguição da religião pola ciência não se lhe ocorreu nada melhor que citar o sistema soviético, mas este é um sistema político e não um sistema ou uma escola científica, por muito que proclamem que são seguidores do comunismo científico marxista. Eu considero que o título é correto e que não se deve mudar de nenhuma maneira em posteriores edições. Continuarei pondo este título porque considero que é o que melhor expressa não só a realidade, que também, senão também o contido do livro. As razões que se aduzem para o câmbio não são convincentes porque ainda que não todos os cristãos estivessem contra a ciência, si o esteve o cristianismo como instituição. Se se entende por cristianismo a reunião de todos os crentes cristãos, creio que têm razão, igual que seria abusivo afirmar, aqui na nossa terra, que todos os membros do PP são anti-galeguistas ou que todo afiliados a este partido são ladrões. Que se quer dizer nestes casos? Pois que aqueles que tomam as decisões no seio do PP e/ou ocupam os cargos institucionais mais relevantes são contrários a uma promoção real da nossa língua. Nós falamos sempre da instituição cristã e não de indivíduos ou grupos concretos que não têm poder real de decidir a linha eclesial. Muitos fiéis foram vítimas da inquisição em vez de protagonistas, mas isso não impede atribuir a autoria das suas condenas, torturas e execuções ao cristianismo, e igual sucede no caso presente. Isto é muito mais acertado no caso do catolicismo por tratar-se duma monarquia absoluta verticalista e clericalista na que todas as decisões importantes procedem duma única cabeça com mais poder que o mesmo concílio, como o demonstra o facto de serem capazes João Paulo II e Bento XVI de anular o concílio Vaticano II.

Antes da sua publicação pensamos detidamente o título que devia levar e consideramos que os títulos que utilizam outros autores, tais como Conflito entre ciência e religião ou Conflito entre cristianismo e ciência ou conflito entre o cristianismo e a razão não eram acertados porque nos primeiros alude-se a um embate recíproco entre dous que pugnam entre si, e, no caso presente, não há luta entre dous senão um acosso constante da instituição eclesial contra os que ousavam publicar algo inovador que consideravam que colidia com o seu imaginário mental tal como se desprende das Sagradas Escrituras. Este acosso não se referia só a questões de fé e costumes, senão também a temas científicos, filosóficos, gramaticais, etc.

Deve chamar-se cristianismo ou catolicismo? Entendo que cumpre dizer cristianismo, porque não foi uma facão determinada do cristianismo a que participou na luta contra a ciência, senão todas elas: protestantes, anglicanos, ortodoxos, etc. A condena da esfericidade da terra polo papa Zacarias data do século VIII, quando ainda não se separaram as diversas facões mencionadas, e na condena do heliocentrismo e na desqualificação do evolucionismo participaram tanto os protestantes como os católicos.

A animosidade contra a ciência está tão incrustada nas mentes cristãs, nomeadamente nas clericais, que incluso a padecem os sectores mais progressistas dentro da instituição eclesial, que, em grande parte, invalidam os seus esforços para renovar o cristianismo. Apesar do acosso secular do cristianismo contra a ciência, alguns setores, dizem que renovadores, inventam neologismo desprezativos como cientismo para referir-se à ciência. Mas eu creio que é muito negativo para o cristianismo falar de «cientismo» em sentido pejorativo e de imperialismo da ciência, quando os científicos não conformam, de por si, uma instituição que tenha poder real enquanto tal, e não pode, pois, emitir condenas contra ninguém; e dos científicos como indivíduos particulares não se conhece nenhum caso na história de acosso ou assédio sobre nenhum outro ser humano, quer seja religioso, filósofo ou científico.

Um científico pode, naturalmente, criticar uma religião e reciprocamente, mas não pode condenar, torturar, bater ou executar a ninguém. Se alguém o fizer o faria a nível pessoal e nunca como científico. Aliás, o científico como tal rege-se polo princípio de falsação que diz que uma proposição que é falsada pola experiência deve ser abandonada e substituída por outra, e, precisamente, a função do científico está em falsar as proposições anteriores, provocando deste modo um progresso no conhecimento, como fiz Copérnico a respeito do geocentrismo. Isto é contrário ao modo de proceder de todas as religiões que sempre pretendem manter as suas proposições como sacrossantas e imutáveis apesar de ter sido falsadas reiteradamente pola ciência natural ou histórica ou responder a sensibilidades que não sintonizam com o momento presente. Que cambiou a mensagem eclesial apesar de ter sido falsada a planície da terra, o geocentrismo, a física aristotélica e o fixismo? Continuam-se lendo os mesmos textos e seguem defendendo-se as mesmas ideias, porque, como foram inspiradas por Deus e Deus é onisciente, seria temerário cambiá-las.

Entendo que esta atitude é totalmente negativa para o mesmo cristianismo porque indica que a sua tradicional aversão contra a razão tanto filosófica como científica não mudou e fica ancora na razão imaginativa de faz milhares de anos. Observo também que esta animadversão reluz na obra duma série de autores cristãos e afins ao cristianismo que publicam obras que têm como objetivo o desprestígio dos grandes científicos, e algumas vezes chegaram a aconselhar-me a leitura de alguma delas. A uma pessoa que me ofereceu um livro desses para ler, disse-lhe que não o necessitava porque, sem vê-lo já sabia o essencial da sua argumentação, que era desprestigiar aos grandes científicos e fazer ver as suas carências, desvalorizando assim a ciência.e teve que reconhecer que tinha razão.

Porque este rouco ódio contra a razão tanto filosófica como científica? A razão estriba em que consideram que empequenecendo aos demais se engrandecem eles e a sua mensagem profundamente irracionalista e fideísta. Este ódio tem uma raiz bíblica e agoma no mesmo relato da caída de Adão e Eva no Paraíso terreal. O seu pecado, segundo o texto bíblico foi comer da árvore da ciência do bem e do mal, pretendendo ser, como Deus, conhecedores da ciência do bem e do mal. A desobediência a este preceito produziu uma reação do deus irado, despótico e guerreiro Javé que reagiu impondo o maior castigo que se tem nunca produzido na história. Tanto eles como todos seus descendentes, ainda os não nascidos, foram penalizados porque, segundo a interpretação agostiniana, servindo-se dum texto de Santo Jerome mal traduzido, todos pecamos em Adão e todos temos que sofrer as consequências, pecado que se transmite, segundo este Padre da Igreja, da pais a filhos por geração, destruído assim a mesma noção de pecado que exige que um ato para ser pecado tem que ser uma atuação pessoal, livre e consciente, e cometendo um dos maiores dislates contra a biologia, que consiste em dizer que um ato pecaminoso que consiste num ato de pensamento contrário a uma norma moral, se pode transmitir por geração de pais a filhos. Sendo assim também se transmitiria a ciência de pais a filhos, aforrando grandes dispêndios às arcas públicas para formar e educar desde zero as crianças. Seria de desejar que pidam análises do código genético para ver em que gene reside a pecaminosidade!

Já quando estudava em Salamanca, alguns teólogos, também entre os progressistas, tendo em conta que a evolução desmente que nós podamos provir duma parelha de pessoas, e, portanto, a impossibilidade de que Adão e Eva sejam os pais de toda a humanidade e, logo, de que exista o pecado original, manifestam que Adão significa terra, como se assim solucionassem o problema, porque uma cousa é o significado etimológico duma palavra e outra muito distinta que esta palavra com tal significado etimológico não se aplique a pessoas individuais. Evidentemente, Adão, que efetivamente, significa terra, utilizou-se também como nome de pessoa. Em caso contrário, teríamos que dizer que Eva não surgiu da sua costela, porque a terra não as tem, nem teria sido a sua companheira, nem teria sido a que o incitou a pecar, porque a terra não cumpre nenhuma destas funções. Pedro significa pedra, mas isso não é óbice para que muitos portem este nome.

A Bíblia defende que o ser humano foi criado a imagem e semelhança do seu criador e, por conseguinte, pareceria que o cristianismo deveria defender as grandes virtudes de que está dotado, entre elas, como a sobranceira, uma poderosa racionalidade que nos permite conhecer a realidade, e também ao pai divino, mas o terrífico deus de Israel, Javé, é apresentado por Isaías pavoneando-se de que vai fazer grandes portentos que confundirão os sábios. “Por isso eis que sigo fazendo maravilhas com este povo; perderei a sabedoria dos sábios, e eclipsarei o entendimento dos entendidos”. Esta ameaça de Javé tem como finalidade amedrontar o ser humano e assim evitar qualquer autonomia, auto-suficiência, liberdade e independência das criaturas. O temor de Javé é o princípio da ciência, como diz o livro dos Provérbios. O deus judeu-cristão é um deus despótico, um deus de escravos, que gosta de ter submetidos e constantemente pendentes dele a todas as suas criaturas, e se estas querem que os atenda têm que humilhar-se, rebaixar-se, não atrever-se a pedir-lhe contas dos seus atos, e impetrar-lhe o seu auxílio compulsivamente apesar de que ele já conhece, teoricamente, as suas necessidades. Esta noção de Deus tem que ser eliminada porque se opõe radicalmente à atual sensibilidade humana tanto religiosa como moral.

O apóstolo Paulo amostra também uma visceral oposição à ciência motivada polo fracasso da sua predicação às capas cultivadas da sociedade romana e judia. Sublinha que, frente aos judeus, que pedem sinais e aos gentios, que exigem sabedoria, a verdadeira sabedoria está em Cristo crucificado. “Entretanto os judeus pedem sinais e os gregos buscam sabedoria, nós pregamos a um Cristo crucificado: escândalo para os judeus, loucura para os gentios”I Cor. 1,22-23). Frente à sabedoria divina, a sabedoria deste mundo, que é necedade aos olhos de Deus, está chamada à destruição (I Cor. 2, 6). Porém neste caso haveria que pedir-lhe responsabilidades a Deus porque os seres humanos são obra sua e isso indicaria que é uma obra imperfeita. Não se diga que o mal e a imperfeição é obra do pecado original porque a mesma proposta desta noção é uma insânia mental.

Entre os abundantes testemunhos do ódio da Igreja contra a ciência e a filosofia vou citar dous. O papa Gregório I proibiu o estudo da gramática. O ano 601 escreve-lhe uma carta ao bispo de Vienne, na Gália, que leva por título: “que o bispo não deve ensinar a arte gramatical”. Nela, começa manifestando que lhe transmitiram muitas boas novas acerca das suas atividades que lhe causaram alegria e que estava disposto a conceder-lhe o que pedisse, mas “após isto chegou-nos uma notícia que não podo mencionar sem vergonha, que ti explicas gramática a algumas pessoas. Cuja notícia recebemo-la tão molestamente, e desprezamo-la com muita veemência, de modo que aquelas cousas que se disseram previamente, as convertemos em gemido e tristeza, porque numa boca não cabem entoar louvores a Júpiter e a Cristo. E considera quão grave e nefando seja que os bispos cantem o que não convém a um laico religioso. E ainda que o nosso amado presbítero Cândido quando chegou mais tarde e se lhe perguntou sutilmente por este assunto, o tiver negado e pretendesse escusar-vos, ainda não se afastou dos nossos ânimos, porque quanto é execrável que se diga isto dum sacerdote, tanto convém que se conheça se é assim ou não com satisfação estrita e veraz. De onde, se, após isto, se tivessem clarificado que são falsas aquelas cousas que se nos disseram, e se tivesse evidenciado que não estudais bagatelas e literaturas seculares, damos graças a Deus, que não permitiu que o vosso coração fosse manchado com os louvores blasfemos dos nefandos, e trataremos de conceder-vos o que pedis já seguros e sem nenhuma perturbação” (Registri Epistolarum, Documenta Catholica Omnia: Gregorius I Magnus”, Liv. XI, Carta LIV (latim). Gregório XIII proclamou que cumpre ensinar a pureza teológica sem fermento da ciência profana, não adulterando a palavra de Deus com invenções mundanas.

 

Ramom Varela Punhal

Ramom Varela Punhal

Nascido em Carvalho em 1942. Estudoi Teologia na Universidade Pontifícia de Salamanca, e Liturgia no Instituto Superior de Pastoral, em Madrid; Filosofia na Universidade de Pamplona e Filosofia, Psicologia e Organização do Trabalho na Universidade de Lovaina, Bélgica. Doutor em Filosofia pela Universidade de Santiago. Catedrático de Filosofia reformado.
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