ALDEIAS DE ORDES

O perfume de Julieta



Caminho a Lesta

Caminho a Lesta

Recebe a sua denominaçom a paróquia ordense de Santo André de Lesta da planta do mesmo nome (Anthoxanthum odoratum), sendo o Lestido, lugar de Monço, o abundancial da mesma espécie. Outros derivados desta gramínea que também engendrárom topónimos –e a partir deste, apelidos- som Lestedo, Lestom ou Lesteiro. A planta da lesta já fora estudada polo Padre Sarmiento na sua Viaje a Galicia de 1745, em que atravessou a nossa comarca, embora sem passar por Lesta, apontando que “por oler mucho [la] esparcen en las iglesias, y sus hojas las meten en los libros. Su hoja es larga y ancha, como un puñal. Acaso aludirá a esto el nombre de ballesta”[1], que entom lhe davam pola parte de Ponte Vedra.

Contudo, o grande elogio a esta planta nom o escreveu nengum botánico, senom o grande Álvaro Cunqueiro, num dos seus artigos mais formosos, o dedicado ao mercado de erva das Sam Lucas de Mondonhedo, que bem merez ser citado largamente:

“De todas las hierbas que forman los haces la de más delicado aroma es una gramínea, la Anthexanthum odoratum, que algunos llaman amargosa. Festucas y glicerias la acompañan. En los haces de heno uno puede encontrar una marchita amapola. El mercado está en su apogeo al atardecer. A última hora se acercan a los haces los gitanos, buscando precios más cómodos. Y cuando queda desierta la plazuela, noche ya, se oye caer el agua en la fuente y se aspira el fino y fresco olor de la amargosa; así deben de oler las hadas de los campos, las infantas de Irlanda y de Bretaña, las horas del alba en los prados húmedos de rocío. Si yo fuese perfumista en París, para alguna mujer hermosa –para muy pocas, pero só para alguna-, tendría en un frasquito unas gotas de este perfume tan carnal y tan alegre. Recojo unas briznas de hierba y paseo con ellas en la mano, en el silencio nocturno. No es como pasear, claro está, con Julieta. Pero sí es pasear con el olor de Julieta”[2].

Anthoxanthum odoratum

Anthoxanthum odoratum

Em contraste com tanto romanticismo, os vizinhos de Lesta foram alcumados muito tempo de “os tolos de Lesta”, e de feito assim lho contarom a Camilo José Cela os carteiros de Gorgulhos, de Poulo e de Leira, sinal de que a fama era grande. A origem do alcume remontaria-se a umha estória acontecida uns cen anos antes (no último quarto do século XIX, entom), porque numha ocasiom enterrárom um morto os de Lesta em terra santa prescindindo do crego. Tal exercício de autogestom espiritual (um caso parecido daria num “cisma” religioso em Tarragona em 1971) deveu alporiçar o cura, ávido de manter o seu monopólio sobre estes assuntos, chegando a denunciar aos seus próprios fregueses. Foi entom quando o advogado encarregado da defesa dos de Lesta lhes aconselhou que se figeram passar por tolos, para desta maneira evitarem a repressom, e nom achárom melhor teatralizaçom desta suposta loucura do que atar um burro polos colhons à corda dos sinos da igreja, de tal maneira que quando o pobre animal remexia soavam as badaladas. Magnífico exemplo do que o antropólogo James C. Scott deu em chamar de “armas dos débeis”.

Mapa de Lesta

Mapa de Lesta

Esta freguesia de Lesta, primeiro dependente da de Gorgulhos e depois da de Mercurim, fazim parte durante o Antigo Regime da jurisdiçom de Folgoso, governada polo Conde de Altamira. Monumentos megalíticos como o da Medorra, situada numha pequena cota de 365 metros, no linde com Cestanhos, provam, contudo, que esta terra já estivo habitada em tempos imemoriais. Já no século XX, temos notícias de que no verao de 1922 os vizinhos escolheram como alcalde de bairro a Francisco Raña Boquete[3] – pode que natural de Cerzeda-, militante anarquista assassinado polos fascistas na Corunha em 13 de agosto de 1936. Tinha só 38 anos e na cidade herculina fora vicepresidente do Sindicato de Panadeiros “La Nueva Unión”, empregado dos obradoiros do El Ideal Gallego, e sócio da instituiçom de auto-educaçom obreira e libertária Germinal[4]. Durante a efervescéncia associativa da II República, fundou-se um sindicato agrário de orientaçom política desconhecida: a Sociedad La Unión Campesina de las Parroquias de Parada y Lesta, domiciliada no Castro, em Parada.

 

A vizinhança de Lesta voltou ao combate em 1979, no lugar de Vila Gudim, cujas melhores terras foram ameaçadas da expropriaçom pola Fenosa, que estava a planear a construçom da pressa para alimentar a Central Térmica de Meirama. Junto com a gente de Gesteda e Gorgulhos, organizarom com a ajuda das Comisións Labregas e o Movemento Nacional-Popular Galego umha resistência exemplar que, quando menos, serviu-lhes para que a empresa hidroelétrica tivesse de multiplicar o dinheiro que lhe tivo que pagar polas leiras.

Agora, a pretensom de Reciclaje Ambiental Lesta S.L. voltou a obrigar as vizinhas a se organizarem para que nom lhes chantem um vertedoiro numha zona de prados, poços e regatos, de grande valor ecológico –nela resiste a Rá do Santo Antom, a Hylea arborea– e económico, cujas águas deitam no Lenguelhe, alcumado por Eduardo Pondal de “filho das brétomas”.

Paróquia de Lesta, em Ordes

Paróquia de Lesta, em Ordes

[1] Fr. Martín Sarmiento, Viaje a Galicia (1975), ed. e estudo de J. L. Pensado, Salamanca, Universidad de Salamanca, 1975, pág. 136 (já falara também dela na pág. 52). Por outra parte, Marcial Valladares aponta no seu Diccionario gallego-castellano a variante alesta, sinalando que é “de raíz vivaz y olor gratísimo, perteneciente a la familia de las gramíneas de Jussieu […] Crece en los prados poco húmedos y en las selvas sombrías; florece en abril y junio”.

[2] Álvaro Cunqueiro, “El mercado de hierba en ‘as San Lucas’ de Mondoñedo”, Faro de Vigo, 18 de outubro de 1958.

[3] El Ideal Gallego, 18 de julho de 1922. Agradeço esta informaçom ao amigo Eliseo Fernández.

[4] Informaçom do Proxecto Interuniversitario “Nomes e Voces”; de Manuel Pazos Gómez, A guerra silenciada, Ordes, Obradoiro da História, 2011, p. 131; e de Eliseo Fernández em comunicaçom pessoal, quem remete, para mais informaçom, às Causas 425/36 e 1477/37.

Publicado em Aldeias de Ordes,  

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
Carlos C. Varela

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