TENTATIVAS

O marechal Ney entra em clausura (III)



Desarraigar-se da vida em comum para recobrar a autonomia individual requer coragem. A reclusom comunitária é, apesar de todo, um ninho mole e protetor. A inóspita intempérie da vida em liberdade desgarrou a consciência da fidalga de Bendanha mal transpujo o portom do mosteiro. No Livro de Conselho do mosteiro do ano de 1809, anotou a abadessa que, em data de 23 de setembro de 1809 tinha procedido a reunir a comunidade para dar leitura à carta recebida da irmá Ventura Pinheyro:

Mui señora mia de todo mi más profundo respeto y veneración, puesta a los piés de Vuestra Merced como piadosa prelada y bajo su amabilísima protección como amante madre, humillada y confiada, imploro su patrocínio y su amor, no solo para que perdone mi horrorosísimo yerro en dejar la amable compañía de Vuestras Mercedes sino para que sirva alcanzarme igual absolución de todas mis hermanas. Pídolo de todo corazón (…) esta mala hija de Vuestra Merced arrepentida, que su mano besa.

Ventura retornou ao mosteiro depois daquele estranho verao para passar o resto dos seus dias sujeita à disciplina regular sob a prelazia da abadessa Isabel Rivera e da sua sucessora, Joana Somoza e Ulhoa, depois. Faleceu finalmente em clausura a três de setembro de 1833 com cinquenta e sete anos cumpridos, quarenta deles entre grades e quatro meses mal contados de atormentada liberdade.

Antónia Bermúdez de Castro estava feita de outra madeira, a sua foi umha rebeldia obstinada e destemida, sem marcha atrás. Recobrada a liberdade, ninguém lha ia arrebatar. Inúteis fôrom os esforços da abadessa para dar com ela para reintegrá-la à comunidade. Tentou-o quando os franceses partírom mas a resposta da monja rebelde perante as “maternais insinuaçons” foi “umha sarta de disparates como afirmar que nom era professa e que primeiro seria homicida de si mesma antes do que voltar para o mosteiro”. Antónia abandonou por fim Santiago sob a proteçom da condessa de Maceda. Nom demorou em solicitar a intercessom do conde de Noroña perante o “senhor governador desta cidade para que, por nengum motivo se me violente a entrar em clausura, em atençom à falta de saúde que nela experimento”. Com a solicitude de amparo ante tam alta instáncia, a resoluta monja liberta demonstrou a mais firme determinaçom na defesa da liberdade recobrada. O general-poeta Álvarez de Noroña (Castelhom 1760, Madrid, 1815) fora um dos comandantes do exército patriótico galego na batalha da Ponte Sam Paio e fora promovido a Comandante General da Galiza no mês de agosto e a Tenente General no de novembro do mesmo ano.

As autoridades locais e o abade de Sam Martim nom deixárom de conspirar para devolver a exclaustrada ao sacro redil gradeado. Antónia Bermúdez decidiu recorrer entom ao arcebispo da cidade, Rafael Múzquiz, que fora promovido ao sólio polo rei Carlos IV no ano de 1801. O prelado, um dos promotores da Junta Patriótica compostelana, vira-se obrigado a fugir da cidade em janeiro de 1809 e só pudo reintegrar-se à sé episcopal em dezembro desse ano. Antónia Bermúdez chegou a oferecer a possível reintegraçom em qualquer mosteiro que nom fosse Sam Paio. Logo após, fugiu para Cádis onde residia em 1812. Imaginamos a cidadá Bermúdez vadiando sem rumo em procura de algum deputado constituinte propício.

Em Cádis determinou pedir audiência ao núncio pontifício para tramitar a declaraçom de nulidade dos seus votos monásticos e denunciar ante Roma a intolerável submissom a que se vira reduzida. A saída do domicílio familiar com destino a Santiago para ser internada no Convento da Ensinança com treze anos de idade, a reclusom no convento de Santa Bárbara da Corunha onde permaneceu três anos “em estado de violência e opressom” por imposiçom de um pai “duro e tenaz”, apesar de “carecer do menor afeto polo estado religioso”. A posterior decisom de mudar para o mosteiro de Sam Paio “por ter ouvido que eram monjas de menor austeridade”. Evocou também os treze anos que passou encerrada em “absoluta desesperaçom”, enferma às vezes, apenas confortada pola “compaixom e ternura” das suas irmás de claustro. Esta era a biografia que submetia à consideraçom da autoridade pontifícia. O núncio trasladou o caso ao arcebispo de Santiago e este ao abade de Sam Martinho, frei Teodoro Mosquera, os quais negárom qualquer coaçom paterna que justificasse a rebeldia.

Sabe-se que a determinada fidalga residia em Cádis em 1816 ao amparo de amigos e benfeitores e também do seu próprio trabalho. Sabemos também, por informe de 1840 procedente da igreja de Sam Ginês de Madrid, que Maria Antónia Bermúdez “religiosa secularizada de San Payo” era na altura freguesa daquela paróquia madrilena e vivia no número 74 da Calle Mayor. Aqui perdemos o rasto da indómita monja e ganhamos a certeza de que finalmente alcançara a definitiva emancipaçom perseguida.

Madrid, setembro de 1840: a cidade assiste entusiasmada ao vitorioso retorno do General Espartero da guerra carlista. O entusiasmo popular desbordou durante os três dias de festa decretados. Antónia Bermúdez de Castro lá estaria seguramente, participando nos brilhantes festejos da Puerta del Sol, mesmo acarom da sua casa. Sete anos transcorreram desde a morte de Ventura Pinheiro, da qual talvez nunca volvesse a ter notícia nem tampouco esquecimento.

 


 

O mosteiro de Sam Paio exerceu um singular fascínio sobre a minha breve adolescência compostelana. Aos quinze anos deixei a casa de Toba – à qual volto cada fim de semana, chova ou vente – para cursar os anos finais do bacharelato e o “seletivo de ciências”, precetivo para abordar os estudos superiores de Engenharia Industrial em Madrid. Vivia com os meus irmaos na Praça de Cervantes na casa ocupada hoje pola resplandecente Livraria Nós do amigo Jesus Couceiro. A casa fica a uns passos do mosteiro de Sam Paio e ali me conduziam com frequência os meus passos para sentir o silêncio da velha igreja arquitetada por frei Gabriel das Casas que acolhe os devotos desde 1707. O solene gradeado que separa o coro monacal do recinto da igreja e os solenes retábulos fam parte inseparável da minha memória. Anos depois caia nas minhas maos o livro de García Mª Colombàs, perdido na biblioteca do meu pai. Nunca pudem suspeitar que algum dia teria a ocasiom de trespassar a clausura, mas, os amores de adolescência som propensos, como é sabido, a conceder segundas oportunidades.

Conspirou a fortuna para que o meu prezado amigo, excelente arquiteto e impenitente leitor, Pedro de Llano, recebesse a encomenda de reabilitar o telhado e um conjunto de celas monacais do mosteiro. A encomenda foi acaso inesperado da fortuna porque o meu amigo é dos que prefere a opiniom franca à cautelosa discreçom do aspirante ao séquito do poder. E, em questom de opinions, como se sabe, as poltronas preferem sempre as coincidentes com as próprias. Em breve, o meu amigo nom gozou em excesso dos favores do poder. Talvez por isso tivo tempo para escrever a obra de referência sobre arquitetura popular galega. E ademais entrou em clausura, como um autêntico marechal, acompanhado deste discreto edecám.

O convite do Pedro para inspecionar os resultados do restauro acometido na clausura devolveu-me a aura das minhas divagaçons adolescentes. Ao transpormos o poderoso portal abacial, um penetrante aroma a coco ralado foi a minha primeira impressom. Depois, os imensos corredores em penumbra que abrem para a rua de Gelmírez, a soalheira horta cercada, o saudoso claustro pequeno onde jazem silenciosas geraçons de consagradas, e, finalmente, as elegantes celas renovadas: arquitetura luminosa e humanizada – amplos espelhos nos asseios, pequenos escritórios à janela, claridade por toda a parte com que Pedro agasalhou as noviças. Visitamos também as severas celas das antigas fidalgas enclaustradas, com as suas lareiras e dependências adjuntas para a aia acompanhante. O arquiteto viu-se obrigado a exibir os seus melhores dotes teológicos – muito escassos, devo certificar – a fim de convencer a abadessa que Deus gostava da luz e nom poderia condenar a imagem espelhada da sua obra mais perfeita. A abadessa deu o seu consentimento em atençom às jovens noviças. Imagino as novas senhoras de Sam Paio percorrendo de leve os longos corredores intemporais entre apressados labores de confeitaria e demoradas devoçons intermitentes para acolher-se por fim ao retiro da cela hospitaleira. O lugar onde reside a paz, em opiniom experta daquele impenitente corre-caminhos que foi em vida o padre Martim Sarmiento, OSB.

 

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Joám Lopes Facal

Joám Lopes Facal

Nascim e vivim na aldeia até os quinze anos, Toba, ao pé da ria de Corcubiom, frente ao Pindo. Figem-me economista despois de engenheiro e aí desenvolvim a minha atividade profissional até o momento de me reformar. A economia é ademais um vício particular: ler atentamente e tentar compreender a informaçom económica cotidiana, ter sempre sobre a mesa um livro de economia.
Joám Lopes Facal

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