‘O Livro Blanco’ de Alexandre Brea



 

Lemos o poema de Tarkosvky e sabemos que ainda nos seguimos a perguntar, nós mesmos, por aquele: “tem de haver algo mais”… Mas onde? Onde encontrar esse mais, que tem de haver, além da realidade física que todos e todas enxergamos com nossos olhos?…

Faz muitos séculos o poeta Jalaladum Rumi, contestou esta pergunta. Séculos antes o filosofo e poeta Chuang Tzú, também fez as suas achegas… Muitos, desde os primórdios da historia escrita tem registado e conservado um saber, que de algum modo nos achega aqueles princípios que estão mais alem, do, a simples vista percetível

E no entanto o poeta segue a perguntar-se como Tarkosvky, que há mais além?…

No “Livro Blanco” Alexandre Brea nos deixa entrever, que também ele se fez a eterna pergunta; e contraditoriamente também parece deixar no ar, que ele conhece a resposta. E, o que ainda é muito mais surpreendente, vem como a afirmar, que em realidade todos conhecemos já a resposta, ainda que poda que a tenhamos esquecido, em algum lugar da nossa adormecida alma… Por coincidência um velho amigo me disse um dia: “ninguém lhe pode ensinar nada, simplesmente a conversa desperta em si, o que você já sabia”… No poema O Segredo (deste Livro Blanco do Alexandre), uma voz fala através do poeta, para despertar-nos do letargio:

Hoje ascendi à montanha

para fumar com o velho mestre

um ocaso incendiário

e voltei portando um livro.

Nunca saberás como consegui o livro.

Está escrito num idioma antigo

que não reconheço ainda,

mas ambos sabemos o que contém.

Essa voz parece que chega a nós, como vinda de muito longe… Talvez o segredo esteja aí, a voz que vem do além chega sempre deturpada, quiçá pela nossa falta de conhecimento do imaterial, tal vez pela própria essência da imaterialidade; a melhor porque o Ego adora transformar toda voz em algo pessoal e próprio, impedindo ao transmissor enviar a mensagem tal e como ela, da fonte, surge. Esta voz parece chegar ao poeta, também, pelo tempo vencida…Ao menos desiludida, como assim parece confirmar o seguinte verso

Desci ao vale a meditar com o velho mestre

e, por longo tempo, deixamos ao mundo

falar consigo mesmo no caminho.

Voltei portando um livro que não compreendo

escrito também num idioma esquecido.

Há um segredo sobrevoando estas terras,

mas esse segredo é uma mentira…

Reconhece o poeta a mentira do segredo pintado, pelos murmúrios ecoados de aqueles que tentam enganar-nos, para seguir sobre o nosso comando. O poeta é galego e algo sabe de milenares enganos… E aquele falso segredo sobrevoa os vales, por que antes os velhos senhores, sobre o alento do vento, sua mentira tem pousado… nos olhos da nossa gente.

Mas o poeta sendo muito novo, não é ingénuo – conhece também a dor da sua terra e das suas gentes…

Decifrei o começo do livro:

Não existem segredos!

Procuramos a beleza

de costas ao mundo…

Procuramos uma resposta

com os olhos fechados.

Mas que podemos esperar deste milénio

ainda adolescente?

O poeta tinha afinado a intuição e ainda que de tudo não conhece o segredo, também não o poderia apresentar com palavras fora do simbólico.

Mesmo conhecendo-o não poderia descreve-lo sem traduzir primeiro seu códice (pois o segredo é tão diverso como as cores do mundo, tão simples como a pele das pessoas que o formam, tão profundo como fundo dos olhos dos meninos, e as maos das avozinhas e os peitos das mães que com tanto amor nos amamentaram…) E ainda assim o poeta intuitivo descobre que, pelo de agora, a humanidade em coletivo não pode chegar a libertação conjunta, que significaria dar a conhecer a todos e todas o segredo… Dado mesmo em este milénio, com tanto avanço tecnológico e cientifico, os seres humanos viverem todavia muito apegados ao seu emocional instintivo; precisando evoluir para o sossego da mente comandando as emoções, suavizando o excesso de raçao, deixando passo ou abrindo a porta a chegada a intuição. Elevando nossa mente racional concreta ate uma mente mais abstrata, onde ração e intuição da mão possam caminhar pelos novos trilhos, que já marcam os novos desafios no planeta…

Também parece compreender o poeta, que parte do segredo, está naquele poema sufí, que afirma: “ate que finalmente compreendi, que eu estou em todo e todo está em mim”, quando no poema intitulado Panteísmo afirma:

Eu sou esta cidade…

Os meninos que jogam nos parques,

as casas abandonadas

derrotadas pela natureza.

Sou o marido infiel

e a mulher maltratada,

o mendigo sujo da indiferença alheia.

Sou ele mais que nenhum outro.

E de novo esta realidade se volta a afirmar, no poema “A memória”:

Mas às vezes sonho que estou a sonhar.

Que o mundo é só uma extensão de mim,

a minha identidade florescendo.

E ainda sim, segue a pesar mais que nenhum outro verso, no poeta, aquele da indiferença, e tal vez se o poeta indagar nessa porta da “indiferença” possa finalmente encontrar a neutralidade. Aquela neutralidade que Buda imaginou antes de traçar as 8 linhas mestras do seu conhecido caminho do meio. A o mesmo caminho do meio de São Francisco começou a partilhar, quando deitou a ropa e ficou nú, aos pés do seu progenitor… Aquela neutralidade que pode elevar-se como ao falcão acima das paixões e dos mundanas amarras, acima do eterno velho apego a viver e possuir, ainda que para ter, possuir, seja necessário esquecer a mesma ética. Não esquece o poeta ética, nem pretende utilizar suas habilidades cognitivas para obter nenhum sucesso. É nessa precisa humildade que seu poemario nos convence. Fora de toda luta por trunfar, por fazer-se um oco no estreito caminho dos prémios, ou por pedir permissão académica, reclamar um lugar na elite da literatura galega… A tudo isso renuncia, sem mesmo pensar ou deliveradamente. Pois o poeta está agora mesmo elevando-se, acima de todas estas misérias terrenas… E isso a pesar da mocidade, fez ao nosso poeta grande: na alma e no coração, grande na consciência. Algum dia mesmo ele, de seguir neste caminho, possa chegar a descobrir o segredo. O grande segredo, aquele que quem por mérito conseguir desvendar, de toda cadeia ou cruz, o liberta. Aquele que começa no olhar, olhar-se por dentro. Abrir a velha taça celta do graal, dentro do coração límpido de velenos. Esse coração oculto, a que este poeta se entrega, pudendo talvez chegar a vislumbrar o caminho de luz que, sempre a nosso peito regressa: O velho céltico caldeirão de Brian, que dava a vida eterna. O antigo, eterno caldeirão da Deusa Keridwen, que tornava sábio aquele que do mesmo. seu néctar, nos lábios envolvera…

Desejamos em essa procura desde o coração o poeta encontre ao menos seu destino, e não o seu desterro… Do mesmo jeito que este livro se destinou, para aqueles que tem ouvidos e a voz, para aquels que o alento húmido vento compreendem….

Ao fim… Não o sei.

Ficam mistérios sobre a terra,

razões para viver.

Voltei ao meu lar, com a família.

Voltei seguindo a minha estela,

um fio de Ariadne

que se tece a si mesmo

com lembranças.

Pode mesmo ate ser, que em esta caminhada ele desdobra, de novo a ansiada Porta da Sua Casa. O retorno ao Palácio do Rei, ou a Volta do Filho Pródigo, o contorno da interior igreja…

Mas o poeta primeiro sua voz tera de aprimorar, assim como a suas vestes. Não deve ele esquecer, as sabias palavras de Christian Rosenkreutz, quando nas suas “Bodas Alquímicas” afirmava:

Pelo convite sabem

que não foi chamado aqui homem algum

que não recebera todos os preciosos dons…

Estes mesmos dons, com o tempo, de seguir percorrendo a mesma senda, pode quiçá nalgum dia venturoso obter nosso poeta. Quem sabe? Para ele este é meu único desejo, tal como nos sugere a mesma voz à Porta do Templo de Apolo, em Delfos: “conhece-te a ti mesmo”. Conheça-se, pois o poeta a si mesmo...

 

Artur Alonso Novelhe

Artur Alonso Novelhe

Galego, mas nascido no México, é diplomado pela Escola Pericial de Comércio de Ourense. Exerce como funcionário do Serviço Galego de Saúde do Governo da Galiza. Publicou várias obras de poesia e colabora habitualmente com diferentes publicações, entre as quais o PGL. É sócio da Associaçom Galega da Língua (AGAL) desde os meados dos anos 80 e académico da AGLP.
Artur Alonso Novelhe

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