O Jidahismo Global



Para entendermos melhor o acontecido em no Meio Oriente, desde inícios deste século ate o presente; assim como suas sequelas, projeções e derivações tanto na Europa (com os recentes atentados em Barcelona) como no mundo; vamos ter de recuar quanto menos a inícios do século passado.
Em aquele momento o grande rival geopolítico do Império Britânico era a Alemanha do Káiser, situada no centro da Europa. Rússia, contida dentro de si mesma (num lento processo de modernização que nunca chegava) e o Império Otomano em franca decadência, podiam virar o comando Britânico, dependendo para onde moveram suas alianças…

O início da mudança do carvão ao petróleo, como fonte principal de energia e propulsão, estava também, baixo o tapete. Tendo formado em 1877 a Standar Oil, as poderosas companhias transacionais estavam a ponto de tornar-se os administradores globais desta nova energia (a pesar que em 1911 o tribunal supremo dos EEUU decidira-se pelo desmantelamento deste monopólio, do qual emergiram a Exxon, Chevron, Atlantic, Mobil e Amoco; continuando todas, no entanto, sob o controle central da família Rockefeller)… Retirar o petróleo russo das mãos da família Romanov e controlar o petróleo do golfo pérsico, era mais do que preciso, num mundo já virado para I Guerra Mundial.


Mas o Império otomano, tomou partido pela Alemanha, em agosto de 1914. A criação dum corredor ferroviário estratégico desde Berlim ate Bagdad, passando pela Anatólia (extensão do já constituído expresso do Oriente), acenderam as alarmas em Londres; pois não somente permitiria ao poder industrial alemão entrar, mais facilmente, em contanto com a Índia britânica, se não também com as colonias alemãs situadas e sitiadas no interior da África. A sua vez, esta manobra, supunha um duro golpe na corrida pelo petróleo, em favor dos germanos.

A queda dos Romanov e os múltiplos fatores que a possibilitaram, não é de interesse para este artigo, mas podemos deixar entrever que o dinheiro entregue a Trotsky, a 17 de Janeiro de 1917 em Nova Iorque, por parte dos maiores banqueiros americanos; assim como o trem alemão em que Lenine e 159 bolcheviques chegaram a Moscovo (pago também por banqueiros) pudera ter algo a ver com isto… No mundo da geopolítica ate as mais bizarras alianças, tem seu tempo e momento.

A necessidade derrubar o Império Otomano, fez-se então mais prioritária. Precisava-se a sua vez, enquanto ia esmorecendo o poder turco, ir criando um desenho de novas alianças de modo que quando acontecer a queda definitiva deste poder oriental, o império Britânico tivesse uma base onde assentar seu dominio sobre o Meio Oriente. Chegou-se assim a um acordo com a família Sabath, no Kuwait, para estabelecer aí um protetorado britânico (ao tempo que a consolidação esta aliança entorpecia a finalização do projeto ferroviário alemão). Em 1915, os britânicos também assinavam a sua vez um acordo com a família Saud, na Arábia. Lawrence de arábia, atiçara as tribos beduínas em revolta contra os turcos, tecendo uma aliança com o nacionalista Faiçal, filho do xerife da Meca, Hussein Ibn Ali (com a promessa falsa da criação duma nação árabe desde Egito ate Iraque). Faiçal tornar-se ia Iº rei do Iraque, de 1921 a 1923; enquanto seu pai governou Hejaz de 1916 a 1924. Na queda final do Império Turco, França e Grã-Bretanha obtiveram o controlo da maior parte do Meio Oriente, o que propiciou a assinatura do famoso acordo Sykes-Picot, que facilitaria a divisão do território e o reparto do petróleo, assim como finalmente a aguardada deceção dos “nacionalistas árabes”.

No mesmo pacto a Palestina, passou a formar parte do domínio britânico, favorecido de algum modo pelas boas relações de alguns políticos, com o movimento sionista judeu, como o caso de Winston Churchill; o que na prática se traduziria no inicio do retorno dos judeus à Terra Prometida. Finalizado o protectorado com criação do Estado de Israel, já finalizada a II Guerra Mundial, em 1948 (tendo agora como potencia global os EUA).

Já nos inícios da Guerra Fria, o processo de descolonização faz-se vital, para que a transação de poder do velho Império Britânico ao recentemente iniciado Império Americano, tivesse lugar de forma controlada. Mudando as relações globais de dependência politica, pelas novas de dependência económica (já ensaiadas com êxito na América Latina, quando as ex-colónias espanholas obtiveram sua independência política e passaram a depender economicamente de Londres. O caso do Brasil, foi algo diferente, mas igualmente entrou na dependência económica dos britânicos).

Em esta nova conjuntura nasce o “nasserimo”, uma nova corrente política pan-árabe, laica e nacionalista, que ressentida com a “traição Ocidental”, tomará partido na sua nova conceção geopolítica pela URSS. Gamal Abdel Naser, no Egito será sua figura mais eminente.
O pan-arabismo estende-se desde Egito ate Iraque. Uma única figura laica, toma partido pelo Ocidente, Mustafa Kemal Atatürk, na Turquia. Isto facilitará a construção da primeria base militar norte-americana na primavera de 1951, pelo Corpo de Engenharia do Exército dos Estados Unidos.

Dai que dada a extensão do laicismo e nacionalismo árabe (aliado com a União Soviética) por toda a região: com projeção ate o mesmo Afeganistão; Ocidente não vê outra possibilidade que aliar-se com os inimigos dos nacionalistas, se ainda quiser ter uma hipótese de vencê-los. Assim surgiu um pacto não escriturado públicamente declarada, mas si visível nos factos, com a Fraternidade Muçulmana principal organização islamista com representação em toda região. E cuja estrutura, muito bem assente sobre tudo no Egito ia, ate datas muito recentes, como bem afirma José António Lima: “De hospitais e creches até agências de emprego, escolas de inglês e de árabe, a Irmandade funciona (funcionava?) no vácuo do Estado e abrange tanto milionários quanto pessoas paupérrimas dependentes dela”. Já em 1953, Eisenhover trouxe aos EUA quase 40 intelectuais islâmicos e líderes políticos civis para um simpósio académico na Universidade de Princeton; sendo o genro do fundador da Fraternidade Muçulmana, Saeed Ramahdan, um dos convidados estrela.

A chegada ao poder de Anwar Al Sadat, em 1970 forneceu a Ocidente uma oportunidade de rutura do Egito com a URSS, sendo que Sadat em 1972 dispensou a missão soviética. Sadat assinou uma aliança táctica com a Fraternidade Muçulmana, no interior do país, ao tempo que também assinava um tratado de paz com Israel em 1979. Essa aliança com a Iramandade Muçulmana não impediu o seu assassinato, executado por membros da Jihad Islâmica em 1981.

A guerra dos sovieticos no Afeganistão, iniciada em 1979 e finalizada em 1989, mostrou a eficácia desta aliança, sendo que os mujahidins, foram maciçamente apoiados pelo Paquistão, EEUU, Reino Unido, a Arábia Saudita e mesmo a China. Em menor medida Irão tentou apoiar as fações xiitas.

O discurso do presidente Barack Obama, a 4 de Junho de 2009, abre a possibilidade a uma mudança real em todo o Meio Oriente, tendo como base a velha aliança entre a Fraternidade Muçulmana, renovada agora com o Império Ocidental, numa nova pauta de penetração do poder económico ocidental na área e toma de pose do território por parte dum Islão, que se promete moderado e aberto ao mundo. Uma frase deste discurso na universidade do Cairo, resume bem este acordo estratégico: Vim para o Cairo em busca de um novo começo entre os Estados Unidos e os muçulmanos do mundo todo, um começo baseado no interesse e no respeito mútuos, e baseado ainda na verdade fundamental de que Estados Unidos e o Islão não são entidades excludentes e não precisam competir. Ao contrário, eles convergem e compartilham dos mesmos princípios – os princípios da justiça e do progresso; da tolerância e da dignidade de todos os seres humanos”. No entanto a aposta de Obama parecia arriscada, tendo em em conta que as Irmandades muçulmanas bebiam da fonte da Fraternidade de Hassan al-Banna, no Egito, e da Jamaat Islami – liderada por Syed Abdul Ala Maududi -, no Paquistão; organizações que retomaram o velho ideal islâmico de unir religião e estado. Ainda assim em 2011 as revoltas surgiram, instaurando regimes favoráveis a irmandade muçulmana em Egito e a Tunísia; enquanto a Turquia de Erdogan permanecia fiel a mesma, junto com o Hamas em Gaza.

Em fevereiro desse ano inicia-se a guerra em Líbia, finalizada em agosto trás a morte de Muamar Kadhafi (um resto do pan-arabismo da guerra fria que ainda quedava sem remover). Somente resistia agora a família Al-Asad, em Damasco, cujo destino semelha duvidoso, já a partir de 15 Julho de 2012 data do forte começo da guerra, com grandes combates em todo o país.

Em 2014 toda esta situação agravou-se, incendiando o jogo geopolítico global, pelas mesmas guerras de Iraque e Síria, viradas já em questão geoestratégica.

Que o que estava a acontecer em 2014, com a corrida do Jihadismo por todo Oriente, formava parte duma estratégia Ocidental global, para Thierry Meyssam era muito obvio. Ele afirmou naquela altura: “A ofensiva conduzida pelos Anglo-Saxões (Estados-Unidos, Reino Unido e Israel) para dominar o mundo prossegue sobre dois eixos simultâneos: quer, por um lado, a criação do «Médio-Oriente alargado» (Greater Middle East), atacando simultaneamente o Iraque, a Síria, o Líbano e a Palestina, como, por outro, o afastamento da Rússia da União Europeia, através da crise que eles montaram na Ucrânia. Nesta corrida de velocidade, parece que Washington quer impôr o dólar como moeda única no mercado do gás, a fonte de energia do XXI século, do mesmo modo que a impuseram sobre o mercado do petróleo”.

A intervenção da Rússia em Síria e o novo discurso do Presidente Trump em Riade, tem mudado o cenário, e parece que uma nova ideia baseada em finalizar com Jihadismo, pode ser compartilhada por Washington, Moscovo e Beijing. A mudança de posição da nova administração, ate o de agora (pois as brigas pelo controlo dentro do governo Trump, entre nacionalistas e globalistas, continuam), faz-se patente em frases como estas, retiradas do discurso de Riade: “Esta não é uma batalha entre diferentes religiões ou diferentes civilizações. É uma batalha entre criminosos bárbaros que tentam aniquilar a vida humana e gente boa de todas as religiões que tenta protegê-la. É uma batalha entre o bem e o mal (…) Não estamos aqui para dar uma palestra, não estamos aqui para dizer a outras pessoas como viver, o que fazer, quem ser ou como adorar. Em vez disso, estamos aqui para oferecer parceria, baseada em interesses e valores compartilhados, para buscar um futuro melhor para todos nós” finalmente no mesmo discurso encorajou aos lideres sauditas a: “Expulsá-los de seus lugares de culto e expulsá-los de suas comunidades” , em referência clara aos Jihadistas.

No entanto a visão dum islão radical, tem-se estendido por todo o mundo muçulmano, em parte devido a esta velha estratégia. Essa radicalidade tem de algum modo influenciado o imaginário europeu; chegando mesmo a fazer pensar a intelectuais influentes (acusados de xenofóbos) como Thilo Sarrazin, ex-ministro das Finanças do Estado Federado Berlim, que os problemas da integração da civilização islâmica na Europa “surgem exclusivamente nos migrantes muçulmanos… e isto deve-se ao fundo cultural islâmico” Uma das conclusões a que chega em seu livro “Deutschland schafft sich ab” (A Alemanha abole-se a si mesma). Muitos que alemães acham que as comunidades muçulmanas levam uma vida fechada em sua religião, em contraposição aos valores ocidentais e à margem do país acolhedor, parecem ter-se deixado influenciar por esse pensamento..

Parece obvio, pois, que a mudança deste visão não pode efetuar-se, sem diminuir o poder dos grupos radicais e suas nefastas influencias… Mas isto somente seria o inicio da resolução dum grave e muito profundo problema. No entanto podemos afirmar, do acordo entre os grandes atores frutifcar, seria um início do fim do mesmo.

Artur Alonso Novelhe

Artur Alonso Novelhe

Galego, mas nascido no México, é diplomado pela Escola Pericial de Comércio de Ourense. Exerce como funcionário do Serviço Galego de Saúde do Governo da Galiza. Publicou várias obras de poesia e colabora habitualmente com diferentes publicações, entre as quais o PGL. É sócio da Associaçom Galega da Língua (AGAL) desde os meados dos anos 80 e académico da AGLP.
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  • Galego da área mindoniense

    Jihadismo, nom “jidahismo”.