CARTAS MEXICAS

O Galeguismo e Vox



“Não existe bom e mau, é o pensamento que os faz assim” (Hamlet – William Shakespeare)

Desgraçadamente a humanidade ainda vive muito ancorada às dinâmicas de guerra – concorrência, por uma determinada hegemonia. Não é motivo deste artigo analisar esta senda de dor, percorrida desde a noite dos tempos, mas enquanto não tenhamos a capacidade de definitivamente transitar o caminho de meio, e unir os extremos, que são complementares, deixando-nos de olhar como inimigos, faz-se impossível não aceitar esta realidade. E Dentro dela tentar modificá-la para bem, no intuito de fazer eleitas, que encaminhem a sociedade a definitiva paz e irmandade.

Nas dinâmicas atuais que nos movemos, a nível global de guerra Mediática, encobrindo a guerra de interesses pela hegemonia e servindo-lhe de motor de impulsão, para um determinado poder dominante expandir ou contrair uma determinada onda de pensamento político; é inadiável para o galeguismo, entrar, na medida das possibilidades na batalha pela comunicação, que claramente está perdendo. O motivo principal certamente a falta duma Mídia galega de referência.

O poder judiciário, o poder económico, o poder cultural, também entrou já desde faz decénios, em essa guerra, tomando partido por um determinado ideário político, que garante em cada Estado, a continuidade do poder estabelecido, e bem assente. No caso do Estado Espanhol, o poder criado na transição, herdeiro do velho regime franquista, em muitos casos ainda por renovar.

A falta de autocrítica desse poder, afundou-mo, nos últimos anos numa deriva pseudo democrática, sem marcha atrás. Os setores mais fundamentalistas, deste verdadeiro controlo à sombra do executivo, legislativo e judicial, ganharam força, expressando sua disposição a não mover-se do Status Atual. Retrocendendo mesmo a renovar o velho status, na base de expandir, por todos os canais possíveis a nova onda católico nacionalista espanhola, ultra neo-liberal. Assentando, pela sua força económica e mediática a visão do nacionalismo central como patriotismo, em contra do nacionalismo periférico como perigoso agente golpista rupturista; o qual tem de ser combatido e castigado, sem demora.

Pouco importante se em esta equação não incluímos a suspensão do estatuto de autonomia catalão, pelo Tribunal Constitucional em 28 de Junho de 2010 (quatro anos depois do recurso de inconstitucionalidade imposto pelo Partido Popular, em 31 de Julho de 2006). Facto, que foi fazendo crescer o movimento independentista em Catalunha do apenas 12%, antes da suspensão do

Estatuto ate o 52% de agora, crescendo, a cada novo embate do Estado Centralizador.

O poder de controlo dos Médios de Comunicação, permite inserir a narrativa dos fatos como gosta quem manipula a Lei a seu favor, dentro do imaginário individual e coletivo. Por isso é tão preciso para o poder central castelhano retirar a Mídia Catalana e Vasca, de mãos do nacionalismo periférico, que tende a hegemonia, nos seus respetivos territórios; junto com a capacidade de incidir dentro do sistema educativo, destes poderes nacionalistas em favor da cultura vasca e catalana.

Mas em esta guerra, pelo comando, de estas nacionalidades, o caminho do meio ficou quebrado, talvez definitivamente para sempre. Fazendo que a narrativa catalana e vasca, já não seja compatível com a Espanhola. Mas nada de autocrítica, a culpa sempre é do contrário, que em dinâmicas de guerra, bem podemos representar como o lado escuro da paixão, enquanto nós nos encimámos como lado lumínico da razão (segundo as dinâmicas de confronto, magistralmente estudadas, pelo grande intelectual romeno Mircea Elilade).

Assim as cousas, quanto mais avançar o nacionalismo central, mais tendem a avançar os nacionalismos catalão e vasco – pois um extremo ativa, em contra posição, pela lei de ação – reação, o outro extremo, que quer eliminar .

Impedindo qualquer possibilidade de dialogo, somente realizável, na senda do meio. Apagado o lugar comum das negociações, por ambos lados, o confronto é inevitável.

Precisamente por que uma parte da humanidade, com muita influência e poder, ainda não entendeu que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, como bem nos ensinou Antoine Lavoisier, ou, nada se perde, tudo se transforma, como resumiu Newton. Do mesmo jeito, não podemos matar o mal, somente transformá-lo em bem, com vontande, esforço e fé.

E em essas dinâmicas estatais de incomprensão da riqueza da diversidade, a polaridade extrema, foi impulsionada pelo Partido Popular, ao alentar a suspensão dum simples estatuto autonómico na Catalunha, de maneira irresponsável, por que este discurso dava assas ao aumento das suas perspetivas eleitorais, no resto do Estado Espanhol. Assentando a velha narrativa centralista, que impedia encaixar as nações cantalana e vasca em Espanha. Impossibilitando qualquer ponto intermédio, de encontro, a cada avance do Nacional Catolicismo Central, que a sua vez alimentava a visão do nacionalismo catalão mais radicalizado, que levava tempo argumentado, que com Madrid não era possível nenhum acomodo.

A verdadeira substância da ambição é a sombra dum sonho” (Hamlet – William Shakespeare)

Foi nesta dinâmicas que se semeou a futura força de VOX, que agora irrompe em Andaluzia, para pasmo daquelas Mídias que ajudaram a criar o adubo preciso para germinar este discurso. Auxiliado, pelo impulso global da Extrema Direita Mundial Anti-Globalista, reconvertida em Extrema Direita pró finanças trás a reconversão de Trump. Ainda que o presidente Viktor Orbán na Hungria e a Frente Nacional de Marine Le Pen, na França, mantenham todavia sua visão estaticista, anti finanças. Pois um outro fator interessante (do que já falamos em outros artigos) tem a ver na hábil utilização desta extrema direita pelo poder financeiro ocidental, que chegou a conclusão, de que a China não pode ser vencida, em mercados abertos. O qual impõe um certo grau de feche de fronteiras. Agora Trump forçou a China a novas negociações, e China ganhou três meses de suspensão da guerra comercial global.

Tudo este magma favorece a volta na Espanha do Poder Neo Imperial, dos sonhos de reconquista de Santiago Abascal, iniciados pela Andaluzia, em perigo de tornar-se um novo Al-Andalus, na visão extrema da nova – velha direita.

A esquerda espanhola tenta, sem muito convencimento, resistir a este embate. Mas Podemos, pouco pode já fazer, a não ser voltar a base e desde ai iniciar uma espécie de barricada imaginária contra o fascismo. Chamada a Resistência formal, feita já pelo seu líder Pablo Iglesias. Mas o fenómeno Podemos foi um fenómenos mediático, e parece que essa mesma Mídia que o subiu ao Trono, decidiu baixá-lo, tirando o sorriso daquele Líder que entregou precisamente ao Rei Felipe VI, um exemplar do “Jogo de Tronos”. Agora veremos se realmente, em estes anos Podemos, foi capaz de enraizar seu projeto entre a cidadania, ou simplesmente tal como chegou como vento mediático a favor, com esse mesmo vento mediático, em contra, vai ir minguando. Erros graves cometidos pela mesma formação, que não são de analise em este texto, ajudaram também a aumentar suas fraquezas. Também uma esquerda que não conta com poder real económico como apoio firme, somente pode manter um perfil alto de seus lideres, seguindo o modelo, que Pepe Mujica, como digno e honesto Presidente do Uruguai deu ao mundo.

A aliança VOX, PP, CDS, na Comunidade Autónoma Andaluza, reforça esse discurso nacional catabólico centralista, que reforça também o lado menos evoluído da igreja católica em Espanha, onde certos bispos, parecem concorrem em seus discursos, com aqueles imanes radicais que tanto criticam.

Na Galiza, esta onda, põe em grave risco a regeneração da nossa língua, cultura e dignidade nacional, que tinha iniciado uma onda de recuperação já a finais do século XVII, com os Padres Feijoo e Sarmiento, depois da Noite Negra, da Doma e Castração, abrir uma ferida imensa nas veias da alma galega. Com grande sacrifício, O ressurgimento, a geração Nós, as alianças com a intelectualidade portuguesa, e o grande amor de Rodrigues Lapa, em favor da nossa internacional língua, mantendo mesmo um forte debate com o intelectual galego Ramon Piñeiro; do qual hoje sabemos somente a alternativa que o galego de Anadia, propôs para nossa língua pode já ser viável.

Todos estes grandes sacrifícios de séculos, que tem levantando a dignidade galega, pisada na Espanha, pelo trunfo da Rainha Isabel, a Católica, contra sua sobrinha Joana; chamada em Castilha “La Beltraneja”, para nós galegos “A Ilustre Senhora”. Esse menospreço chegou ate a mesma intelectualidade do século de Ouro Espanhol, e contribuiu em todo o território imperial para perceber aos galegos como inferiores, aumentando nosso auto-ódio; por meio de figuras de renome tal como Lope de Vega, Quevedo, Góngora, Tirso de Molina. Lembrando aquele: ¿Que diablos alabáis la tierra de Galicia, que juro a Dios toda ella es tierra de mierda?, de Lucas Hidalgo. O aquele poema de Góngora: Oh, montañas de Galicia,/ Cuya, por decir verdad,/ Espesura es suciedad,/ Cuya maleza es malicia, / Tal, que ninguno codicia /Besar estrellas pudiendo,/ Antes os quedais haciendo/ Desiguales horizontes;/Al fin, gallegos y montes, /Nadie dirá que os ofendo. E ainda o muito mais ofensivo: “Antes puto que gallego” de Francisco Quevedo.

Por pôr algum exemplo, do descrédito semeado sobre a nação galega, que levaria a nossa gente que emigrava a trabalhar na sega em Castela, a fazer-se passar por portugueses, dado estes últimos serem menos difamados.

O galeguismo terá de aceitar esta nova realidade, e trabalhar unido para confrontá-la, trabalhando para transformar este embate, num caminho de fraternidade.

Para isso é preciso, tentar por um lado criar uma Mída galega, que possa melhor dar a conhecer a cidadania sua rica historia, cultura, língua. Dado que estamos numa guerra global, não estaria de mais, ante a falta de recursos, procurar uma aliança com os países irmãos de língua e cultura, no intuito de criar uma Mídia referencial lusófona, que ajude a inserir a Galiza e sua cultura, no mundo. As eleições a Junta da Galiza, serão também uma importante teste, para tentar formar um governo galeguista, que transforme a TVG, numa verdadeira televisão independente (por falta dela existem as sextas feiras negras, revindicação dos trabalhadores e trabalhadoras do ente público galego, em favor de maior transparência, menor manipularão informativa…). Precisamos uma Televisão galega verdadeiramente a favor da cultura, língua e irmandade com as culturas de língua comum.

Por outro lado, está a criação duma Rede Cultural Galega que possa fortalecer o movimento galeguista, em todo o tecido social, desde o cultural ao sindical, passando pelo académico, político, ambiental.

Não devemos cair em velhos esquemas. Mensagens positivas, fugindo da mentalidade resistência e do “Não Passaram”. Sempre Passaram! Como bem aponta nossa amiga Carmen Fernández, o Subconsciente, não faz boas leituras das frases negativas, ficando com a impossibilidade da ação e não com a mensagem de resistência. Por tanto precisamos mensagens de expansão, mensagens de alento, de Poder. Criar empoderamento por meio da palavra precisa na utilização positiva da mesma.

Vai ser fundamental em esta luta democrática que o galeguismo seja capaz de ganhar na rua, às mensagens de ódio, de alguns colectivos de ultra direita espanholista, que já têm assentado no território galego, reclamando espaços para língua castelhana, naqueles lugares onde o galego está timidamente assentado, mas negando-lhe ao mesmo tempo, a língua própria da Galiza, uma paridade em aqueles outros espaços onde o castelhano é terrivelmente majoritário, como no mundo empresarial, nos meios de comunicação, nos pequenos e medianos negócios, nas grandes cadeias transnacionais e, em certas administrações como a de Justiça…

Saber opor a essa narrativa do ódio ao galego, a mensagem do amor aberta a compartilhar espaços em pé de igualdade, com outras línguas, vai ser fundamental, para criar em positivo galeguidade.

Temos que trabalhar para uma realidade inclusiva, num cenário de fraternidade, onde na Galiza todos os galegos e galegas, se sentam integrados, independentemente do seu ideário político, sua visão religiosa, sua filosofia, género… Mas temos de estar preparados para um cenário negro de ataque ao Autogoverno, a Televisão Galega, a cultura, a língua, ou aos mesmos partidos nacionalistas.

Muito preciso, nesta moderna guerra dialética e mediática, não deixar que o discurso do ódio como rigor, vença a confraternização. Para isso devemos, em tempos escuros, saber opor a seu ressentimento, ira, nosso rigor com amor.

Importante agora já não deixar passar o debate da imigração. Precisamos explicar com palavra concisa, contundente, vem direcionada, que chegue a toda a população, que na Nossa Terra, tem cabida todo o mundo que venha achegar sua mais-valia à sociedade, que traga vontade de integração, e capacidade de fusão cultural. Mas também que não seremos tolerantes com os intolerantes que tentam impor modelos culturais baseados na negação de direitos à mulher, praticas de dominação e submetimento no âmbito familiar, ou quais quer outros tipos de violência física, psíquica; maltrato animal ou do meio ambiente…

Sem dúvida a unidade de todos os setores do galeguismo, de todas as pessoas amantes da Galiza, sua cultura, língua vai ser fundamental. Juntarmos todas e todos os bons e generosos, estejam nas organizações sociais, empresariais, culturais, sindicais ou políticas, que for. Pois sem essa prática de unidade na diversidade, não haverá mudança. E precisamos saber que somos capazes de realizar este reto, e que desde logo o realizaremos. Conquistada esta unidade, nenhum supremacismo tipo VOX, vai impedir nossa fluência.

Por isso basta de resistência inútil, de “não passarão” em negativo. Já foram milénios, mais que séculos, de resistência desde a derrota dos Calaicos, na batalha do Douro, desde a tragédia do Médulio. Nossas avôs e avoas, nossos pais e mães, já foram resistência. Nós fomos lançadeira de sonhos, nossos filhos são conquistadores e conquistadoras, do amor, do bem, da beleza. E com esse sentimento, em favor dum movimento Pacifista de luta pela dignidade, Galiza vai abrir os braços aquele futuro, já presente do que fala nosso hino ainda hoje, pois os Tempos São Chegados.

Essa deve ser nossa principal consigna: Os Tempos São Chegados, para Regeneração desta Terra, suas gentes, língua e cultura. Pois um povo que manteve sua identidade, apesar da perda das suas elites políticas, culturais e económicas desde finais do século XV, é um povo, que vem guiado, é capaz das maiores proezas. Como já demonstrou quando venceu os tropas napoleónicas, ficando Galiza durante 4 anos exercendo seu próprio auto governo, enquanto o resto da Espanha, estava ainda ocupado.

Os galegos e galegas somos gente valente, como demonstrou Alexandre Boveda, diante do tribunal que ia decidir sua morte, pronunciando estas palavras: “A minha Pátria natural é Galiza. Amo-a fervorosamente como pode amar um filho à sua mãe. Jamais a atraiçoaria embora me concedessem séculos para viver. Adoro-a até para além da minha morte. Se entender este tribunal que, por este amor entranhável, dever-me-á ser aplicada a pena de morte, recebê-la-ei como um sacrifício mais pela minha Terra. Fiz quanto pude pela Galiza e faria muito mais se pudera. Se não podo continuar trabalhando mais por ela, gostaria de falecer pela minha Pátria. Sob sua bandeira desejo ser enterrado.“ Essa valentia em este tempos tem de transformar-se no valor da paz, da palavra digna e da honorável ação; segundo aquela esteira que marcou Abraham Lincoln, quando afirmou: “Quando faço o bem estou bem, quando faço o mal estou mal. Eis a minha religião”

Façamos nossa a religião do Bem, da bondade e da natural beleza. Amemos a Terra, sua paisagem, sua língua, cultura e suas gentes.

Confiar nas nossas capacidades é o melhor começo.

Assim Seja!


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