Cartas Méxicas

O galego que venceu



Nem o Sol nem a Lua podem refletir-se claramente na água lamacenta. Assim a alma universal não pode realizar-se perfeitamente em nós, enquanto não afastarmos o véu da ilusão, isto é, enquanto perdura o sentimento do eu e do meu. ”Ramakrishna

A procura dum marco de dialogo permanente entre os diversos setores galeguistas, no intuito de criar pontes entre as duas tendências normativas que mostra nossa língua (reintegracionistas e isolacionistas) é que escrevemos este artigo.

Passou tempo das recriminações, foi-se o tempo do ressentimento, perdeu-se demasiado cedo o tempo dos experimentos… A tendência isolacionista é já, nos dias de hoje, uma espiral em contração (que subsiste nomeadamente pelo impulso institucional). O isolacionismo somente conta a força de mantimento da bateria interior galega, que se alimenta do anel energético governamental – estatal.

Pela contra o reintegracionismo (alimentado no interior das energias dedicadas pela rede cívica criada pelo próprio movimento) conta para já com fendas visíveis no interior do próprio anel institucional, que em quantidade mínima deixam passar a energia que pulsa o anel lusófono global – a dia de hoje uma espiral em expansão.

O passo mais inteligente agora é um acomodo entre setores reintegracionistas e isolacionistas, que permita ir um bocadinho mais além da tolerada convivência: a implementação devagar da normativa reintegracionista em todos os níveis institucionais (respeitando os necessários tempos, cadencias e acomodo). Que somente poderá ser realizada, a força de muito sincero, aberto e enriquecedor diálogo. Ultrapassando debates estéreis, deixando de lado residuais forças belicistas e impondo uma política de normalidade, através da criação de maiores espaços comuns de convivências das duas normativas…

Abrindo a mão a acordos pontuais, interação e locais de encontro, que favoreçam o mutuo conhecimento… Para no final do percurso possibilitar um acordo aceitável, sem vencedores nem vencidos: aquele onde as duas normativas possam desfrutar dos mesmos direitos, fomentando a livre e verdadeira escolha entre a cidadania, da variante normativa, com a qual em cada momento deseje expressar-se (cada quem) por escrito. Não limitando a mesma a uma toma de partido linguístico. Sem concorrências desnecessárias entre os supostos representantes da pureza de cada norma.

Isto permitirá grandes avanços no processo de integração da Galiza no âmbito cultural único, que permita dar visão internacional a sua cultura: a Lusofonia. Evitando a decadência e morte final, do grande acervo imaterial veiculado na nossa língua materna.

Em época de imparável comunicação global, nenhuma língua pode sobreviver sem um marco referencial regional ou planetário. A sua vez isto evita visões exteriores quase de esquizofrenia, com um encaixe nada factível, da Galiza dentro no entorno lusofalante.

Parte do mundo político, como empresarial, como cultural galego, está a perceber esta mudança. Estão a perceber as oportunidades da lusofonia, como demonstra na pratica a aposta de Compostela como capital lusófona e, as diversas atividades, que este concelho está já realizar, em favor de mostrar a cidadania as oportunidades que o galego-português tem no nível global.

Mas o que muitos ainda não puderam perceber em toda a sua plenitude é a dimensão desse poder em todas as suas variantes.

Enquanto mais palpável e notória se faça essa tendência, nos próximos decénios, mais essa pressão exterior fará diminuir na Galiza, as reticencias interiores a abertura de espaços para língua portuguesa na nossa Comunidade.

Ao mesmo tempo mais ira aumentar o discurso, a pratica e uso da normativa de unidade reintegracionista; pelo qual quanto mais tarde essa normalização institucional do reintegracionismo chegar, mais dano se efetuará ao conjunto do país, no somente no nível material – económico – político, senão também no nível patrimonial imaterial e na mesma memória e imaginário coletivo deste nobre povo.

Assim que urge já, começando pelos galeguistas de pró, amantes de seu país, cultura e língua, abrir os braços e coração; aproximar as mentes e a razão, a alma e a emoção, para de novo não roubar-lhe a nosso povo esta grande, imensa, oportunidade.

Cumpre iniciar esse dialogo, em todas os setores, mas ainda cumpre mais iniciar passos firmes na abertura de espaços para fazer visível a normativa internacional do galego, derrubando toda muralha da velha marginalização…

Somente assim, com este amoroso e sábio comportamento, lograremos fazer do galego um vencedor do ciclo negro da guerra entre normativas…


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  • Adela Figueroa

    Parabéns por esse artigo inteligente e prático. Para além de amoroso para a nossa terra Galiza e o nosso mundo, a lusofonia

  • Ângelo Cristóvão

    Muito interessante texto, especialmente polo apelo ao diálogo. Nisto só vejo um inconveniente, que poderia resumir-se numa frase: dous não falam se um deles não quer.

    • Eleutério Gouveia Sousa

      ….dois bicudos não se beijam…

      • Ângelo Cristóvão

        Pois vem sendo o mesmo.
        E continuo. Alguns apelos à “moderação” e à “paciência” vindos de âmbitos oficiais carecem de credibilidade. Porque, simplesmente, não fazem nada por mudar a situação, enquanto continuam a usufruir uma posição de monopólio. Palavras que o vento leva.