RODÍZIO DE LÍNGUA

A nossa língua da cabeça aos pés



do latim pedem significa, nos diferentes padrons de galego-português, as extremidades inferiores das pernas dos seres humanos. Um bom exemplo visual é o pé gigante do Abaporu da pintora modernista Tarsila do Amaral, o quadro mais representativo da pintura brasileira.

No entanto, as línguas mudam com o passar do tempo e no português brasileiro pé alargou marcadamente a sua semántica dando lugar a novos usos, em alguns casos inéditos nas variedades europeias do português.

Abaporu, que em galego e lusitano também tem o significado de planta –pé de couve-, passou a substituir em muitos casos os nomes das árvores no português do Brasil. As mangueiras viram pé de manga, as jaqueiras pé de jaca e as laranjeiras pé de laranja, como acontece no livro mais vendido da literatura brasileira O meu pé de laranja lima de José Mauro de Vasconcelos.

No Brasil serviu, além do mais, como raiz de palavras compostas: pé-quente -pessoa sortuda- e pé-frio -pessoa azarada-; pé-de-moleque -doce típico de amendoim ou chão empedrado-; pé-sujo -caracteriza bares ruins, de baixa qualidade-; pé-de-chinelo –ruim, desvalorizado-; pé-no-chão umha pessoa realista; e base de locuçons: andar/estar no pé –pessoa chata e grudenta-; pegar no pé –amolar-; meter o pé -ir embora-; bater o pé –ser teimoso, manter a opiniom fortemente-.

Os pés estám, aliás, presentes em frases feitas como a galega meter o pé na poça -errar, enganar-se- ou a brasileira enfiar o pé na jaca -cometer um excesso-.

meupePorém, nom fôrom apenas os pés que servírom de base para a formaçom de novos vocábulos. Muitas outras partes do corpo seguírom o mesmo caminho na outra beira do Atlántico. Assim um cabeça-aberta é quem é transigente e respeitoso com o diferente; miolo-mole é, polo contrário, pouco esperto e cara-de-pau, folgado, sem-vergonha, aproveitador; queixo-duro é umha pessoa respondona e mal-educada enquanto que nariz-em-pé é arrogante, alguém que se acha. Aquele que fai escolhas ruins é um dedo-podre; dedo-duro -e dedo-durar– é um delator, um espiom –em Portugal bufo-; um forreta é um mão-de-vaca; um peito-aberto alguém muito amigável e gentil e mão-pesada esse professor exigente que tira ponto por todo. Perna-de-pau é jogador ruim; olho-gordo esse indivíduo invejoso; boca-grande quem não consegue guardar um segredo; zé-buceta um otário; e um cu-doce, quem quer alguma cousa mas fai charme, finge que não quer. Por último, bater-papo é conversar de maneira informal além de falar pola internet.

Afinal a língua, embora fique presa na boca, é falada por todos nós da cabeça aos pés.

*Artigo antes publicado no Blogue da AEG

 

Diego Bernal

Diego Bernal

Diego Bernal nasceu em Lugo em 1982. Licenciado em filologia galega pola Universidade da Corunha iniciou a sua carreira dando aulas de galego na EOI Jesus Maestro de Madrid, foi leitor da Junta da Galiza na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, professor de espanhol no ISEG da Universidade de Lisboa e professor de português nas EOI de Plasencia e de Montijo, na Estremadura. Atualmente mora no Brasil onde trabalha como professor na Universidade Federal de Viçosa.
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